sexta-feira, abril 22, 2005

A fachada de Garrett

Já que o António puxou o assunto, falemos então da Casa onde Almeida Garrett viveu escassos meses e morreu. Melhor seria falar em fachada, porque não existe nem casa, nem espólio, nem absolutamente nada que testemunhe a presença de Almeida Garrett por ali.

A casa chegou ao estado de total destruição precisamente porque durante anos ninguém ali quis fazer nada. Ninguém. Muito menos a gestão socialista e comunista que, nas comemorações do bicentenário do nascimento de Garrett, nada fez pela casa que agora tanto quer preservar.

O valor da casa é o da memória de Garrett, que já tem estátua, nome de rua e nome de sala de teatro em Lisboa. Existe ainda a Casa Museu Garrett no Porto. E existe a Biblioteca Municipal Almeida Garrett também no Porto. Fora todas as restantes evocações de Garrett por este país fora.

O que fazer então com uma mera fachada, sem nada para lá colocar dentro? Eu tenho uma sugestão: os admiradores da obra de Garrett criam uma associação de amigos de Almeida Garrett, que enceta negociações com o proprietário para comprar, com as quotas que pagam, o dito prédio. E depois criam um verdadeiro espaço cultural vivo, onde residam mais do que 3 funcionários municipais, uma placa e um busto, onde se celebre Garrett.

O que não fazer? Exigir que um município que tem inúmeras obras em curso na área cultural e viva com recursos escassos, compre um edifício, construa lá uma casa, compre espólio, contrate funcionários e nomeie directores para lá ter uma exposição e um busto e uma placa.

Ainda se Lisboa ignorasse por completo a extraordinária obra de Garrett...

10 comentários:

  1. Bom post. continuei a discussão na Mão Invisível

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  2. Não é verdade que a casa seja apenas fachada. A dita casa tem os interiores intactos, incluido a escadaria da entrada, portas de madeira trabalhada, bandeiras e estuques no piso superior (o que prova que o telhado está em bom estado), etc. A casa tem valor arquitectónico independentemente de Almeida Garrett lá ter morado. Em nenhum caso deveria ser demolida!
    A cidade é feita de edifícos comuns preservados e não apenas dos monumentos excepcionais.

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  3. Dado que se fala de recuperação da casa, é preciso antes de tudo abordar o problema da viabilidade da recuperação da mesma — a nível estrutural.

    E estruturalmente, pelas notícias vindas a público, o edifício parece estar comprometido. Quer isto dizer que só a fachada, pelas suas características construtivas, terá valor estrutural. Tudo o resto teria de vir abaixo — em última análise, assim o dizem as regras de segurança no trabalho.

    Sem querer entrar no campo do valor artístico ou cultural, sai mais barato fazer um levantamento da fachada, recuperar azulejos e componentes ornamentais de valor, deitar tudo abaixo, e incorporar num edifício de raíz.

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  4. Caro Bernardo,

    Citando o AMN:

    "Eu tenho uma sugestão: os admiradores da obra de Garrett criam uma associação de amigos de Almeida Garrett, que enceta negociações com o proprietário para comprar, com as quotas que pagam, o dito prédio. E depois criam um verdadeiro espaço cultural vivo, onde residam mais do que 3 funcionários municipais, uma placa e um busto, onde se celebre Garrett."

    Gostava que comentasse.

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  5. Caro arte da fuga, o seu nome parece-me interessante neste caso.

    Os Portugueses na sua maioria parece que preferem fugir ao óbvio e à preservação da beleza da nossa cidade que com toda a certeza digo ter dos maiores potenciais da Europa. Vivendo em Amesterdão onde apenas se fala em preservar, fico perplexa que arranjem todas as desculpas e mais algumas para incentivar a “modernidade”, que tanto destruiu a nossa Lisboa. Basta olhar para a nossa Av. da Liberdade que tem até já direito a ter um edifício do “Batman”.

    Estou desde o início a lutar pela não demolição deste edifício e devo confessar que me deixa perplexa que no nosso país tenhamos de recorrer a nomes e almas para salvar um valor imobiliário. De facto Garrett passou por muitas mais casas, mas se esse é um motivo para não deixar cair o imóvel que se lute então por essa causa, já que a outra infelizmente não serve para os órgãos de poder deste país.

    O edifício vale por si só e convido-o a ir espreitar pelas janelas do mesmo e testemunhará que casa tem os interiores intactos.

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  6. Parece-me que a sugestão de um associação que gerisse a casa museu e contribuisse com quotas é uma boa ideia (com a qual eu estaria disposto a contribuir). No entanto não pode ser usada para a CML/IPPAR/Governo/resto dos cidadãos lavar as mãos.

    A CML pode trocar esta casa por direitos de construção com valor equivalente noutra área. Não tem necessáriamente de gastar o tal milhão de euros.

    A CML tem que criar uma política em que só autoriza o restauro de edificios degradados, senão os proprietários têm um incentivo económico enorme em demolir. Restaurar é o caminho, compensa culturalmente, financeiramente e socialmente como se pode concluir olhando para outras cidades europeias (incluindo portuguesas).

    Quanto ao estado da casa, basta ir lá pessoalmente para constatar que o que a Vereadora da CML disse não é verdade. Argumentos como as "caracteristicas construtivas" ou que as "regras de segurança no trabalho" levam a concluir que só a fachada tem valor patrimonial são usados pelos empreiteiros que querem demolir. O pior é que conseguem o que querem porque os meios de comunicção repetem o que eles dizem...

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  7. Cara "criar-te é a missão",

    Primeiramente, assino com a sigla AA que significa, como pode ser lido no blogue, António Costa Amaral.

    Contrariamente ao que possa parecer, eu sou sensível à preservação da beleza, e sou conhecedor de Lisboa mais do que a maioria dos lisboetas.

    A mim também entristece a contínua degradação urbanística da cidade. E sou parte interessada no assunto, visto morar em Campo de Ourique, bairro que muito prezo por fazer parte da minha história familiar.

    A discussão, aqui, e no A Mão Invisível, é se o Estado deve substituir-se aos privados na preservação do património construido.

    O actual quadro legal não permite valorizar economicamente o valor arquitectónico, o que reduz o período de vida das edificações.

    Por absurdo, recai sobre o Estado o encargo de manutenção do património edificado (directa ou coercivamente), com o ónus de não permitir a requalificação urbana.

    Queixar-nos das consequências de tão obtusa política de nada serve. Aceito o seu desafio, mas repito que a cidade é um organismo que tem de evoluir e incorporar a novidade, tanto quanto o antigo— por incorporação ou reabilitação. E que o incentivo tem de ser por esta última vertente.

    Tem de ser atractivo apostar na conservação do património. É uma questão de bem comum.

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  8. Caro Bernardo,

    1. Entende-se que o Estado deve suportar financeiramente os custos de oportunidade perdidos pelos privados por não ter permitido durante décadas a valorização do património urbano?

    2. O "milhão de euros" que se contesta não é contabilístico. A permuta por outro lote acaba por ter o mesmo efeito, a nível do activo patrimonial da Câmara Municipal de Lisboa (é dinheiro!);

    3. "A CML tem que criar uma política em que só autoriza o restauro de edificios degradados". Não quero entrar em raciocínio circular. Crie-se condições para tal. Os prédios são bens económicos. É da mais elementar justiça social que rendam e sejam taxados de acordo com o seu valor patrimonial.

    4. Quanto ao estado da casa, está prometida uma visita.

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  9. Caro António,

    Em resposta aos seus pontos:

    1. Se os proprietários recuperarem o seu património para venda conseguem obter o retorno adequado. É verdade que o mercado está distorcido mas isso não é razão para permitir a demolição de casas como esta.

    2. A permuta pode ser feita para um terreno que não tem direitos de construção mas que a CML num regime de excepção altera para x m^2 equivalentes ao valor da casa. Desta forma não sai dinheiro "vivo" da CML embora é certo que exista uma transferência de valor.

    3 O problema principal, todos o sabemos, é a lei do arrendamento que levou à descapitalização dos senhorios e à fuga de capitais dos bairros históricos onde existem contratos de alguer antigos. É de importância capital alterar a lei, vamos ver se o governo vai ter coragem. Mas a CML não pode autorizar demolições porque (i) perde-se património, (ii) descaracteriza-se Lisboa e (iii) vai gerar um efeito bola de neve onde todos querem demolir para aumentar a área do edificio.

    4. Vale a pena espreitar pela porta e olhar bem pelas janelas do primeiro andar.

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  10. Caro Bernardo,

    Permita-me responder-lhe após a prometida visita :)

    A discussão parece-me simples:

    - criação de legislação que permita tornar sustentável a manutenção do património edificado (a deveres devem corresponder direitos);

    - resolução do caso "Casa Almeida Garrett". Aqui retomo o que já escrevi noutro post: "Era bom que o Estado pudesse disponibilizar todo o tipo de equipamentos sociais e culturais; mas infelizmente é preciso definir prioridades que têm de ser tanto mais objectivas quanto maiores forem as carências financeiras das entidades públicas."

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