"Três notas, articuladas entre si, distinguem a política de comunicação do Governo: artificialidade, demissão e simplismo"1. "O silêncio forçado de Sócrates foi alegadamente pensado em imitação da parcimónia verbal de Cavaco, em comparação com a loquacidade farta e fácil de Guterres e em contraste com a omnipresença mediática de Santana. E obedeceu supostamente a duas regras: o cânone da preservação institucional do primeiro-ministro e a norma prudencial de que "o que não é necessário dizer-se é necessário não se dizer".
Sócrates foi dos ministros mais independentes da máquina soporífera guterrista, e um dos mais mediáticos, graças à visibilidade que conseguiu dar à sua própria acção governativa. Foi convidado para um programa regular de debates televisivos com Santana Lopes, onde afinou a sua técnica pessoal de comunicação, com uma mistura convincente de preparação dos dossiers e lealdade partidária. O seu lançamento na campanha a secretário-geral do PS foi bem lubrificado com e pela comunicação social.
Ficou logo evidente que Sócrates não era um mestre do improviso, um carismático. Rejeitou multiplicar debates dentro do PS, tendo ganho o partido por tacticismo bem estudado. Na campanha legislativa, repetiu a estratégia: aparecer muito e pouco dizer. Nos poucos debates que disputou, não convenceu— pelo menos não na proporção das expressões de voto que haveria de recolher.
Desde então tem mantido um silêncio calculista, encenando uma pose de Estado que só não cola porque à sua volta os seus colaboradores multiplicam-se em declarações contraditórias."Não dizer o que não precisa de ser dito" resume-se ao ditado bem português: "em boca fechada não entra mosca nem sai asneira"*. Mas no caso de Sócrates, também não tem saído a orientação política que se exige do chefe de governo.
É justamente nesta altura que deve ser quebrada a "preservação institucional do primeiro-ministro". Ninguém quer que Sócrates salte para a frente das objectivas por tudo e por nada como fazia o seu antecessor— há que ter noção do sentido de proporcionalidade. Mas a casa não está em ordem. Parece uma república. Parece uma comuna. Se o discurso governamental é confuso e artificial, tal deve-se em última análise ao desígnio ou incompetência do primeiro-ministro.
(continua)
(imagem roubada do Navego Logo Existo)
* Socrates segue a máxima "Acerca daquilo de que se não pode falar tem que se ficar em silêncio."? >)
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