![]() | Imaginem que alguém parte uma janela. Em consequência, é preciso chamar um mestre para reparar a vidraça e o caixilho. Os fabricantes de madeiras, vidros, colas, pregos e dobradiças são postos a trabalhar. Toda a economia beneficia: quem produz comida e roupa para esta gente, quem trabalha para lhes garantir segurança, saúde, educação, habitação, transportes, cultura e lazer. Por esta lógica, estaríamos todos a partir janelas como malucos para melhorar a economia. Mas esta lógica é completamente irracional — é uma falácia, conhecida como a "parábola da janela partida". |
É verdade que são mobilizados meios e há movimentação de dinheiro, e que sem janelas partidas não haveria uma quantidade de gente a trabalhar— mas não há geração de riqueza. O dinheiro que foi usado para reparar a janela apenas mudou de mãos. Não houve aproveitamento de uma oportunidade de mercado com geração de mais-valias económicas— poupado, investido ou simplesmente gasto num qualquer serviço ou na aquisição de um qualquer bem. Existe sim um "custo escondido" — a sociedade ficou mais pobre na quantia exacta de uma janela.
Quando se fala de janelas partidas, fala-se dos imensos benefícios económicos da reconstrução dos danos da guerra. Só se reparam muitas janelas partidas. A mesma lógica aplica-se quando se fala que a recuperação dos ataques do 11 de Setembro— ou dos danos do Tsunami— podem estimular a economia. Janelas partidas, muitas, e muita gente morta.
Esta lógica perversa, contudo, vive entre nós. Se partir janelas faz bem à economia, então o acto de partir janelas tem valor económico. Podemos pagar para partir janelas, desde que o retorno seja maior. Ou melhor: porque não pagar directamente aos vidraceiros?
Todos os dias o Estado paga para "partir janelas". Fá-lo porque acredita no sistema, que parece funcionar, e porque os "vidraceiros" o exigem. Os "vidraceiros" são todos aqueles grupos económicos, profissionais e sociais que beneficiam dos "almoços grátis" dados pelo Estado e pagos por todos os contribuintes. Toda a economia é posta a mexer para gaúdio geral— a quem pagou impostos e ficou com a janela partida, diz-se que está remediada, por obra e graça do Estado (e que esqueça os impostos que pagou).
Os "almoços grátis" são subsídios, medidas sociais, benefícios, benesses, direitos atribuídos e adquiridos, excepções e tratamentos diferenciados e todo o tipo de políticas tentaculares de incentivos estatais ao parasitismo e vidraceirismo de todos nós. Mas também são todo o tipo de políticas de intervenção estatal que passam por atirar dinheiro para cima dos problemas ou criar investimentos para "estimular a economia", "criar empregos" e tantas outras patacoadas que não passam de cumprimentos com chapéu alheio— o dos contribuintes.
Pagar para partir janelas ou pagar para parir elefantes brancos é exactamente a mesma coisa.

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