Segunda-feira, Setembro 12, 2005

Globalização ⇒ prosperidade económica ⇒ consciência ambiental

A Joana Amaral Dias no Bichos Carpinteiros avança com uns artigos de opinião de cientistas americanos que defendem que pode haver uma ligação entre o aquecimento global e a ocorrência crescente de furacões de grande intensidade, e daí dispara para a "direita portuguesa" por se recusar a identificar a ligação entre o protocolo de Quioto e o furacão Katrina.

Infelizmente para a posição política de JAD, não há provas ou conclusões científicas que comprovem qualquer das relações. Há "hipóteses"— conjecturas— que tanto podem ser postuladas com base fortes evidências físicas ou mero wishful thinking. Hipóteses não são factos— não têm qualquer validade científica até que sejam provadas— o que não quer dizer que não tenham de ser investigadas.

Politicamente, convém recordar que a direita portuguesa não é para aqui chamada. Talvez seja útil recordar que foi durante um governo de direita que Portugal ratificou Quioto. Também é pouco claro que pertença à "direita portuguesa" um tal de Bill Clinton, presidente americano que assinou o Protocolo mas que se recusou terminantemente a ratificá-lo.

Acontece que Quioto é um documento que parte de princípios políticos algo duvidosos. Por exemplo: os países em vias de desenvolvimento aderentes (entre os quais alguns dos maiores produtores de "gases de estufa") estão isentos do cumprimento de quaisquer restrições, porque não terão contribuído historicamente para o actual estado de degradação ambiental que culmina no fenómeno do aquecimento global.

Consequentemente, todo o esforço económico será repartido pelos países desenvolvidos que ratificarem o protocolo, provocando algum abrandamento das suas economias. Aumentará a pressão para investimento nos países com menores restrições ambientais, justamente os que são isentos de cumprimento de metas. Assim sendo, o protocolo aumentará a sua competitividade— aquilo que os oponentes anti-globalização gostam de chamar "concorrência desleal". O mundo desenvolvido estará a subsidiar o mundo em vias de desenvolvimento para produzir mais poluentemente.

Propõe-se implementar um mercado global de emissões, mas não faltará quem defenda que para evitar o "dumping ecológico" dos países isentos, será imperativo restringir o mercado global de bens. Ou seja, será negado ao consumidor a possibilidade de comprar barato para poder sustentar a qualidade de vida ambiental de que beneficia. Com tempo, nem será "correcto" vender quotas de emissões aos países mais poluidores que pertençam ao protocolo, especialmente se forem mais produtivos.

A consciência ambiental de um país está relacionada com a sua prosperidade económica. Mais importante que impor limites ecológicos ao mundo em vias de desenvolvimento (ou a desresponsabilizá-lo), é necessário que possa prosperar e partilhar das nossas conquistas económicas e civilizacionais— incluindo as ambientais. Moralmente, há uma boa forma de induzir o exemplo: garantir a abertura dos mercados nacionais, derrubar as barreiras comerciais ao comércio internacional e eliminar distorções a um regime de concorrência global.

2 comentários:

  1. e mais, caro AA, se perdermos um tempinho a ler os sites por ela citados, parece que contradizem a sua linha de raciocinio (via Blasfemias) este pessoal anti-america realmente anda a ver tudo turvo.

    ResponderEliminar
  2. Não é raciocínio, Tiago, é evidência.

    Se mais provas são necessárias, basta olhar para o respeito ambiental que existe nas democracias liberais— quase por definição: próperas— e o que acontece nos restantes...

    (aplica-se a Portugal em comparação com os nossos companheiros europeus)

    ResponderEliminar