sexta-feira, dezembro 16, 2005

Checklist

- "Guia para a tomada de decisão política" do João Miranda no Blasfémias;

- " Em nome de uma teoria... do João Galamba no Metablog;

- "Numa sociedade, a acção não se esgota no estado", resposta do João Miranda

- "Pluralismo Agonismo e Practica", contra-reposta do João Galamba

9 comentários:

  1. podem ser perguntas validas, mas e' tudo menos um manual de decisao politica. Para manuais prefiro o Principe. O que e' um manual?

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  2. o manual (a existir um -eu sou contra manuais) teria de falar de casos practicos, sensibilidades particulares e coisas do genero. O do JM e' quanto muito um manual de inaccao

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  3. É uma provocação que levanta questões liberais-clássicas interessantes, hoje completamente esmagadas pelo conceito de "legitimidade democrática" (para decidir)...

    Não vejo qual é o mal de questionarmo-nos se o exercício do poder da decisão pode ser contestado— pelo menos, se devia haver uma "ética"— especialmente quando a nossa democracia representativa é quase absoluta, e a Constituição permite todos os estatismos, quase ao limite do autoritarismo... e muito pouca latitude às liberdades individuais, na submissão dos cidadãos ao sistema...

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  4. Antonio,

    Mas repara que ele nao faz isso. Tudo o que ele diz seria razoavel se vivessemos num mundo simples em que a dicotomia estrita Estado-Sociedade existisse. Falhas de mercado e externalidades, bem publico e tudo o resto sao reais (repara que este post vem na sequencia da discussao sobre a Sida). O que fazer? Ele escreve como se tivessemos sociedade espontanea ou planeamento central. Mas o mundo nao e' assim. Nao e' liberdade ou Road to serfdom, mercado ou socialismo. Ha dilemas, valores plurais, compromissos, etc... A sua rigidez doutrinal leva a cegueira teorica. Sim ha custos, assimetrias de informacao, superioridade epistemica do mercado (para certo tipo de informacao, mas o mercado tambem e' cego noutras areas igualmente epistemicas)e o diabo a quatro. Mas a politica nao se define a priori atraves de abstraccoes. Para cada pergunta que o JM faz eu podia dar um contra exemplo. Ha sempre contra exemplos. E' por isso que teorias limpinhas como as de Ralws ou dos Austriacos sao insuf e contraproducentes, pois tentam impor simplicidade onde ela nao existe. A politica e' uma cienca practica. Maquiavel, Aristoteles, e muitos outros sabiam isso. Nao vale a pena bater com a cabeca na parede a tentar solucionar as coisas atraves de teorias elegantes, pois elas nao nos ajudam na practica.

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  5. repara que o Tiago Mendes sugere uma medida practica. O JM e outros (tu tambem) dao contra-exemplos. Mas esta argumentacao so faz sentido se existir algo sem contra-exemplos. Tudo o resto e' imobilista. As vezes e' neessario agir, sabendo que existem custos tanto na accao como na inaccao.

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  6. para terminar (sim, sou um chato do caracas, podes dar-me uns caldos no encontro da prox semana). O Berlin e' relevante nao tanto pelos seus escritos sobre a Liberdade, mas pelo seu pluralismo. Os dilemas e o agonismo da vida practica sao insoluveis em teoria (se ha valores incomensuraveis eles nao podem figurar numa teoria, pois as teorias tem de ser coerentes). A unica forma de lidar com essas contradicoes e' na practica. O John Gray e muitos tipos que criticam a obsessao teorica do liberalismo (o de esquerda e de direita) referem isto constantemente. Politics is action (aristoteles), not contemplation (platao).

    Abracos

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  7. :D

    Assim torna-se difícil ser objectivo, mas garanto-te que apesar destes meus assomos de teoria, eu sou um pragmático— ou não fosse a minha formação a Engenharia— concepção e optimização de soluções.

    É um pouco nesse espírito que procuro avaliar políticas. Até que ponto a informação é suficiente e correcta, até que ponto o modelo teórico descreve os funcionamentos físicos, são os resultados fidedignos, quais são os efeitos secundários, visíveis e invisíveis.

    Quando rejeito cientismos, não estou a negar métodos que prezo e que posso dominar, mas sim a constatar, subjectivamente, que o nosso conhecimento científico é insuficiente para assimilar e modelar realidades tão complexas como a "Economia" ou a "sociedade" de uma forma satisfatória ("eficiente"). É um juízo que me parece ter grande confirmação empírica e fundamentação teórica suficente.

    Mas sujemos as little grey cells e passemos às políticas.

    No caso da subsidiarização de preservativos, custa-me muito aceitar que seja uma solução muito racional. Para já, porque desconfio muito que a procura de preservativos seja condicionada pelo poder de compra das pessoas, em relação à necessidade que as mesmas sintam pelo produto.

    Se o preço diminuisse, acredito que a procura aumentasse, entre ricos e pobres, e entre grupos "seguros" e de "de risco", mais ou menos a mesma coisa— mas tenho a convicção que a procura aumentaria sobretudo por acção dos indivíduos mais bem informados relativamente aos seus comportamentos sexuais.

    Dito de outra forma, se a necessidade presentida pelos consumidores é baixa, é porque não prezam a sua vida (um pouco absurdo dizer-se isso, mas uma análise até poderia chegar a essa conclusão!) ou não têm verdadeira noção dos riscos que correm. São os cidadãos mais bem informados que presentirão o subsídio e os que serão mais beneficiados com o apoio estatal.

    Parece-me que é uma medida muito pouco eficiente, para além de ser muito invisível para a responsabilização das pessoas. Concordemos ou não com este modelo, é um trabalho de consciencialização que tem sempre de existir.

    Preferiria o investimento na informação dos cidadãos (é uma medida cívica!), na sua educação relativamente à higiene sexual, algo que leva o seu tempo, mas produz efeitos.

    Nesta perspectiva, não precisamos de nos reduzir à arcaica máquina de Ensino— tudo pode servir para o efeito: novelas, talk-shows, reality-shows, MTV, campanhas da "sociedade civil", a Cultura, os hospitais, as Igrejas e instituições desportivas, farmácias, supermercados, bares, discotecas e bordéis ("legalize it!")...

    Não acho que esteja a ser neoliberal quando digo que a sociedade, por milhentas formas diferentes e mais ou menos adequadas, tem sido mais eficiente que o Estado na consciencialização das pessoas.

    Sendo cruel e realista, é mais eficiente saber que um conhecido é HIV+ para dar um "baque", do que muita burocracia e estratégia nacional de combate à SIDA... mostrar o "zé pilas-loucas" a torcer-se no ecran já ninguém comove.

    Ainda numa onda contestatária, as angústias da vida, o dilema das opções pessoais deve ser vivido pelos indivíduos, intensamente e para o seu próprio bem, e sobretudo antes de fazerem asneira.

    ...e faz-me confusão um Estado angustiado que prefere sempre seguir o caminho mais fácil— atirar dinheiro para cima dos problemas...

    Nesta perspectiva, com a Instrução das pessoas, estamos a agir. Mas não necessariamente a quente ou com medidas mediáticas que muito têm de político mas pouco de prático.

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  8. Antonio,

    Agora nao tenho tempo para ler, pois tenho de me ir embebedar antes de apanhar o aviao para Portugal :)

    Falamos depois.

    Um abraco,
    Joao

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