terça-feira, dezembro 06, 2005

Olhar para trás

Quando era pequeno, pensava que tinha "visão de falcão" como os meus heróis de literatura— mas já sabia que confundia azuis e roxos. Foi com surpresa que descobri que era míope e que teria de usar óculos. O meu primeiro comentário foi "está tudo a três dimensões!". Acompanharam-me desde então, comme il faut a um "cromo" de ciências.

À custa da minha falta de vista, passei a ser mais distraído do que sou por natureza, e a reconhecer as pessoas pelos seus movimentos mais simples— os gestos, o jogar do corpo, um menear de anca, o arquear de um pescoço. Desenvolvi bons reflexos e bom posicionamento nos desportos porque não via bem as bolas; nas regatas, os outros barcos eram meras manchas brancas sobre um azul que perdia textura com a distância. Enquanto fazia jogging, cidades sonhadoras passaram por mim, e o fundo do mar era cinzento e chato.

Foram mal-tratados e riscados, e as suas cicatrizes traduziam memórias de família, amigos, amores, e de tantos sítios: a Madeira e o Porto Santo, Goa, Monsanto da Beira, Viena, Budapeste e Liubliana, o Mont Saint Michel, Salvador da Baía, Veneza, o Museu do Prado, Louvre e tantos outros...

Tirava-os quando estavam porcos demais, para dormir ou tomar banho—, mas também quando estava muito confortável ou quando não estava para ser chateado. Mas sobretudo, estando cansado do que via fisica ou mentalmente. A minha "máscara" era tirá-los e ver o mundo muito mais real porque menos definido ou a preto-e-branco.

É estranho, a partir de ontem parece que passei a ser menos eu.

9 comentários:

  1. António, bem vindo ao mundo das lentes de contacto ! :)

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  2. Se ter vir na rua agora como é que te reconheço? :)
    FA

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  3. Revejo-me na tua visão do Mundo! :) Sem lentes/óculos, é um Mundo BEM diferente...

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  4. Pedro, a coisa foi mais à base do laser e dos instrumentos de tortura, quase que reneguei as minhas convicções mais profundas >)

    Fernando, agora passo a ser eu a ver-te na rua >) Lamento mas ser apanhado por um "emigrado" no Borda D'Água e ainda ter de sofrer "O que fazes aqui?" foi demasiado para mim >)

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  5. Gabs,

    E eu nem era muito pitosga... mas há coisas mínimas que me fazem falta— ainda nem procurei ajustar óculos que já não existem, por exemplo. Por outro lado, ter visão periférica boa é outra experiência interessante...

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  6. Numa altura em que tenho a cana do nariz em ferida pelo uso dos óculos, não posso deixar de me sentir invejoso.

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  7. Eu posso emprestar-te os meus, não magoam >)

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  8. Ora António, Parabéns!!
    Seja lentes ou lazer, há que aproveitar o que de melhor existe no progresso. Seja como for, não deixes de apreciar "os gestos, o jogar do corpo, um menear de anca, o arquear de um pescoço"...vale sempre a pena estar atento aos pormenores....

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