sábado, Fevereiro 26, 2005

Salário Mínimo

No Times questiona-se a imposição pelo Estado de um salário mínimo ("The minimum wage is maximum folly").

Por cá defende-se que "Natural justice demands that people get a fair day’s wage for a fair day’s work.". Defina-se o conceito de "fair day's work".

Fifty ways to leave your lover (3)

Medo de compromissos.

sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

Para acabar bem uma semana de excitação


As Variações Golberg (BWV 988) de Johann Sebastian Bach, versão de 1981 de Glenn Gould.
(aqui um MIDI de uma transcrição da aria para guitarra)

Para o Homem a Dias, outra do Woody Allen:
"I don't know much about classic music. For years I thought the Golberg Variations were something Mr. and Mrs. Goldberg tried on their wedding night."
(Stardust Memories)

O CDS de Lucas Pires: Ensaio de um partido liberal

Conforme prometido, aqui fica a minha perspectiva sobre a única experiência de partido liberal no actual sistema de partidos português: o CDS de Lucas Pires.

A demissão de Diogo Freitas do Amaral abriu uma crise de sucessão que culminou em Fevereiro de 1983 com a eleição de Francisco Lucas Pires para presidente da Comissão Política Nacional do CDS[1]. Francisco Lucas Pires ganhou notoriedade no CDS por representar a ruptura com o estilo centrista e democrata cristão de Diogo Freitas do Amaral e o seu discurso era manifestamente menos vocacionado para a doutrina democrata cristã, encontrando maior eco na direita liberal. A sua ascensão a líder do partido foi por isso encarada como a ascensão de um direitista a líder do CDS[2] e como a vitória das bases da província sobre as bases da capital[3].

Poucos meses depois da sua eleição como líder do CDS, em Abril de 1983, Lucas Pires teve de enfrentar um desafio eleitoral, em resultado da dissolução da Assembleia da República pelo então Presidente da República, General Ramalho Eanes. Sem muito tempo para estruturar um discurso novo e sinónimo da viragem então ocorrida no partido, o CDS desceu para 12% dos votos e 30 Deputados[4].

Na oposição ao governo de bloco central então formado pelo PS e pelo PPD/PSD, Lucas Pires dispôs do tempo que necessitava para organizar o partido e para lhe dar um novo rumo. Lucas Pires procurou então criar um novo programa liberal e de inspiração cristã, a que chamou primeiro de nacionalismo liberal e depois de conservadorismo popular[5]. Com esse programa, reunido no documento Programa Para Uma Nova Década, procurou Lucas Pires um “cristão regresso à pureza do princípio da subsidariedade, na ordem política, económica, educativa e social”[6], para tal juntando um conjunto significativo de jovens quadros do CDS e de outras figuras independentes ligadas ao liberalismo, denominados como Grupo de Ofir[7] [8].

O programa então elaborado era transversalmente atravessado pelo liberalismo. De acordo com este novo programa, as principais metas do país seriam a liberdade da economia, a autoridade do Estado e a mobilidade da sociedade, sendo o Homem considerado como alguém que aspira a uma maior liberdade de alternativas[9]. Coexistia com esta vertente liberal, uma acentuada preocupação social acompanhada de arrojadas e liberais concepções do sistema de segurança social[10].

O objectivo de Lucas Pires era colar a imagem do PSD e Mota Pinto ao PS de Mário Soares, culpando ambos pelas medidas impopulares e de contenção e ainda pelo caminho socializante do país. Lucas Pires afirmou que ambos não passavam de uma ideia velha e falhada tornando-se necessário contrapor uma nova ideia e um novo programa[11]. O objectivo era conquistar o eleitorado democrata cristão, liberal e conservador, construindo a partir desse eleitorado um partido popular de centro[12], contando sempre com a imagem de esquerda que Mota Pinto imprimia ao PSD[13] [14]. O projecto parecia ser do agrado dos eleitores, visto que o CDS subia nas sondagens para valores perto dos 20%[15].

A inesperada eleição de Aníbal Cavaco Silva para Presidente do PSD, com um programa liberal, em ruptura com o Bloco Central, apostando em Diogo Freitas do Amaral para Presidente da República e com um discurso muito próximo do de Lucas Pires, vem baralhar a estratégia do CDS. Lucas Pires ter-se-á mesmo apercebido de que toda a sua estratégia poderia ter sido posta em causa com a eleição de Cavaco Silva, mas isso não o impediu de recusar reedição da AD, ao não aceitar as condições impostas pelo PSD para que esta se realizasse[16]. Nem os votantes de protesto, que acabaram por se refugiar no PRD[17], acabaram por salvar o CDS nas eleições legislativas de 1985 que se seguiram e este desceu aos 10%, elegendo apenas 22 Deputados.

Estes resultados eleitorais confirmaram, sobretudo, que o CDS não estava apto a definir uma estratégia independente da estratégia do PSD, antes teria sempre de se conformar com aquela. Falhava o projecto de um partido popular de centro-direita e de direita, capaz de albergar o eleitorado democrata cristão, liberal e conservador. O CDS, fora, mais uma vez, ultrapassado pelo PSD no seu discurso natural. A tentativa mais ousada que o CDS até então fizera de alargar a sua base eleitoral e de se afirmar como verdadeiro partido alternativa ao socialismo fracassou com Lucas Pires. Nunca, como com Lucas Pires, o partido jogou tão forte na tentativa de liderar o espaço político à direita do PS[18].

[1] À candidatura de Lucas Pires opunha-se a candidatura de um fundador do partido e também ex-ministro da AD, Luís Barbosa, apoiado por nomes históricos muito associados a Freitas do Amaral, como Luís Beiroco, Morais Leitão, Teresa Costa Macedo, Ribeiro e Castro ou Anacoreta Correia. É sobretudo pelo contraponto com esta candidatura de Luis Barbosa que é possível melhor entender que a liderança de Lucas Pires vai traduzir-se na primeira viragem à direita do CDS, na tentativa de encontrar o eleitorado natural do partido
[2] RUI ANTÓNIO MADEIRA FREDERICO, Evolução Político.Ideológica do CDS/PP – Do centro social, federalista e regionalizante à direita popular, intergovernamental e unitarista (1974-1998), in A Reforma do Estado em Portugal – Problemas e Perspectivas, Lisboa, 2001, pág. 395.
[3] Vasco Pulido Valente chamou-o de “encarnação da audácia provinciana”, VASCO PULIDO VALENTE, Às Avessas, Lisboa, 1990, pág. 217.
[4] O resultado eleitoral obtido demonstrou, em primeiro lugar, que o CDS não foi beneficiário da AD, antes saiu da mesma prejudicado, descendo percentualmente e em número de deputados. Em segundo lugar, o resultado eleitoral demonstrou que o PPD/PSD estava mais apto a reunir os votos do centro direita do que o CDS. De facto, o PPD/PSD, agora com a liderança de Mota Pinto, obteve 27,24% dos votos e 75 Deputados.
[5] Cfr. RICHARD A. H. ROBINSON, O CDS-PP na Política Portuguesa, in Análise Social, vol. XXXI (138), 1996 e RUI ANTÓNIO MADEIRA FREDERICO, Evolução Político Ideológica do CDS/PP, Tese de Mestrado, Lisboa, 1999, pág. 58.
[6] In GRUPO DE OFIR, Objectivo 92 - No Caminho da Sociedade Aberta, Lisboa, 1988, pág. 9.
[7] Entre estes nomes contavam-se os de José Luís Nogueira de Brito, Miguel Anacoreta Correia, José Adelino Maltez, Paulo Portas, José Gabriel Queiró, António Lobo Xavier, José da Cruz Vilaça, Vítor de Sá Machado, Vieira de Carvalho, Manuel Queiró, José Carlos Vieira de Andrade, Paulo Lawndes Marques, Manuel Cavaleiro Brandão, António Bagão Félix e Gomes de Pinho.
[8] Algo que Aníbal Cavaco Silva também procurará fazer, ao atrair os quadros do Clube da Esquerda Liberal, de onde sobressaía o nome de José Pacheco Pereira, Cfr. ANÍBAL CAVACO SILVA, Autobiografia Política, Lisboa, 2002, pág. 277.
[9] In GRUPO DE OFIR, ob. cit., pág. 21 e ss.
[10] In GRUPO DE OFIR, ob. cit., pág. 133 e ss.
[11] Cfr. FRANCISCO LUCAS PIRES, Com Portugal No Futuro – Perspectivas de mudança cultural e política em Portugal, Lisboa, 1985, pág. 7.
[12] Cfr. RICHARD A. H. ROBINSON, ob. cit., pág. 964.
[13] Lucas Pires afirmaria que o PSD e o PS estavam a operar uma socialização do país, ainda que benigna e administrativa, e que urgia combater, visto ser esta a responsável pela ineficiência económica, a instabilidade política, a injustiça social, a corrupção e a falta de afirmação externa do país, FRANCISCO LUCAS PIRES, CDS, A Chave Para Mudar Portugal, 1985.
[14] Não é possível determinar hoje qual teria sido a estratégia política de Lucas Pires acaso o PSD tivesse optado por um líder menos conotado com a esquerda e com o socialismo e, em consequência, mais próximo do eleitorado que o CDS pretendia cativar. O que resulta, no entanto, claro, como adiante se verá e se confirmará, é que o CDS não mais conseguirá impor uma estratégia independente do percurso a trilhar pelo PSD, antes tentará, de agora em diante, explorar fraquezas e as falhas no discurso do PSD, procurando colmatar as lacunas ou espaços livres que este, por incapacidade ou por descuido, não vai ocupar.
[15] Cfr. RICHARD A. H. ROBINSON, ob. cit., pág. 965.
[16] Lucas Pires chegou mesmo a arrogar o direito de indicar o nome do primeiro ministro em caso de vitória. Para uma breve descrição destes acontecimentos, ANÍBAL CAVACO SILVA, ob. cit., pág. 86 e ss.
[17] RICHARD A. H. ROBINSON, ob. cit., pág. 965.
[18] Se nos tempos da primeira liderança de Freitas do Amaral, e como se verá, também nos tempos da segunda, o CDS se contentou em ser um partido charneira, adoptando o modelo de equidistância do FDL germânico, nos tempos de Lucas Pires, o CDS ambicionava liderar o espaço não socialista, congregando, e sobretudo assumindo, todas as correntes ideológicas que compunham este espaço.

Um alce é sempre preferível ao Sócras


As minhas desculpas ao Homem A Dias, mas o melhor que se pode arranjar é mesmo isto.

Será desta?

Quem tem lido os meus posts sobre a necessidade de tornar o CDS num partido liberal, não estranhará agora que destaque precisamente quem, na blogosfera e fora dela, pugna pela mesma solução. Pois bem, destaco um post do Paulo Pinto Mascarenhas no Acidental e um post do Bernardo Pires de Lima, no Sinédrio.

No entanto, tenho muito receio que, mesmo com as várias pressões nesse sentido, o CDS não venha a afirmar-se como um partido liberal.

Em primeiro lugar, penso que no CDS a tendência liberal é claramente minoritária, lisboeta e sem grande correspondência nacional.

Em segundo lugar, o recentramento do CDS e o progressivo liberalismo introduzido nesta campanha serão apontados pelos militantes como em parte responsáveis pelo fracasso dos resultados destas eleições (se se tratou, ou não, de um verdadeiro fracasso, terá de ficar para outro post, se bem que já tenha aflorado a questão aqui).

E em terceiro lugar, nenhuma das figuras que se tem perfilado para liderança do CDS parece ter qualquer tradição liberal, dentro ou fora do partido.

Assim, no acaso de o CDS se assumir como partido liberal, tal dever-se-á, provavelmente, a um objectivo táctico a que faltará a chama das convicções. Espero estar enganado quanto a isto, mas penso que quem pode ser líder deste projecto liberal, não o quer. E quem quiser ser líder de um projecto liberal no CDS, provavelmente não será…liberal.

Num próximo post procurarei descrever o que aconteceu ao CDS de Lucas Pires, penso que a única experiência em Portugal de criar um partido verdadeiramente liberal.

Paradoxo do Dia

Muitos do que afirmam que o CDS é feito à imagem e medida de Paulo Portas são os mesmos que impedem o PSD de se afastar da imagem e medida de Cavaco Silva.

Uma lição


"Já não vale a pena lutar contra as propinas", dizem os estudantes n'A Capital, defendendo diversas medidas de gestão universitária e justiça social para "que Portugal não fique para trás na criação de um espaço europeu de ensino universitário".

A atitude louvável das associações estudantis, em assumir um papel construtivo e colaborante na qualidade do ensino superior, bem poderia estender-se aos sectores sindicais e patronais... e políticos.

These are my tortillas!


Ando a insistir que me apresentem a terceiros com o título "The Academy Award Nominee..." (com uma voz cavernosa), mas ninguém me liga nenhuma.

Afinal, já só falta os figurantes serem apresentados assim. Porque não um modesto blogger? Só até domingo... Sempre era mais giro que "Engenheiro"—, título hoje em dia muito em moda entre primeiros-ministros que nunca exerceram a sua profissão...

Para quem gosta de cinema, não perde uns Óscares e ainda não espuma da boca com os mesmos trailers, com a mesma voz de sempre: cá vai um clip da Comedy Central pelo brilhante Pablo Francisco.

Fifty ways to leave your lover (2)


Este também tinha estilo...

quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

Cidadania


Tardiamente, venho assinalar o Dia de S. Jorge, 22 de Fevereiro, denominado o Dia do Pensamento pelos escoteiros de todo o mundo, com cumprimentos pessoais ao grupo 92 da AEP do Funchal, fundado a 22/2/1982.
...e destacar o remoque do No Quinto dos Impérios ao despropositado post do Random Precision, recomendando a LGR o link da World Organization of the Scout Movement para melhor informação sobre o movimento escotista.

Militante vs Eleitor

No Lóbi do Chá, o meu amigo JCS comenta os meus desabafos sobre o futuro do CDS. Do que leio, penso que ele fala mais como militante do CDS e eu como eleitor do mesmo partido, ainda que ambos sejamos uma coisa e outra.

Não tenho qualquer dúvida que as reticências do JCS ao modelo de CDS que defendo têm pleno fundamento no que toca às perspectivas de crescimento eleitoral. Fui o primeiro a assumir que o modelo que defendo falhou nestas eleições, e que tal falhanço poderia representar a impossibilidade sistémica de um terceiro partido de governo.

Mas eu coloco a questão num plano muito mais pessoal e, por isso, talvez egoísta. Coloco a questão no plano do meu envolvimento no CDS. Sou eu que não estou disposto a dar o meu nome, o meu empenho e o meu contributo para um partido que se volte a entrincheirar em sectores de eleitorado sociologicamente escolhidos a dedo.

É perfeitamente legitimo que o CDS escolha novas estratégias eleitorais. Algumas delas poderão ser benéficas em termos de percentagens eleitorais. Mas sejamos sinceros, alienar as minhas convicções para que o meu partido cresça é algo que me atemoriza.

Daí que, embora compreendendo as observações do JCS, não posso deixar de manter a minha posição. Ou o CDS cumpre o seu desígnio histórico, o mesmo que me levou a filiar, ou o CDS segue legitimamente outro rumo e eu legitimamente deixo de o acompanhar enquanto se mantiver nessa trajectória.

Fifty ways to leave your lover



Site holandês, notícia da Reuters

"The site suggests women tell their partner they want a baby and men buy their girlfriend underwear that's too big."

Diria o Vicomte de Valmont, mais simplesmente: "It is beyond my control"

Sócrates, anno primeiro

José Sócrates indigitado primeiro-ministro, notícia do Público.

Jorge Sampaio, the man

Comentário a este post do Blasfémias, apontado por Devaneios Lusos.



Com a sua acção, Jorge Sampaio acabou por dar base doutrinária à personalização da política portuguesa:

a) por ter tomado uma decisão pessoal, discricionária, dissolvendo um colégio de representantes eleitos pelo povo;
b) por tê-lo feito em resposta a uma sucessão de casos pontuais (as "trapalhadas" de PSL), que contudo não configuravam perturbações do regular funcionamento das instituições democráticas, ou instabilidade parlamentar;
c) por nem ter considerado convidar a maioria parlamentar a propor novo Primeiro Ministro, rejeitando à cabeça toda e qualquer hipóteses de transição estável;
d) por ter sido condicionado pela eleição de novo secretário-geral do PS;
e) por ter promulgado o Orçamento de Estado, documento estruturante da vida política e económica do país, tornando claro que o problema, a seu ver, não era das políticas, mas das caras;
f) por ultimamente ter contribuído, com a sua falta de oportunidade e intervenção, e esgotada a sua credibilidade, pela campanha menos estimulante dos últimos tempo, sem ideias e sem brilho, onde tudo se resumiu à escolha de um primeiro ministro.

quarta-feira, Fevereiro 23, 2005

Primeiro Dia

José Sócrates quer acelerar os prazos constitucionais para permitir que o próximo governo entre em funções o mais rapidamente possível.

Mais vale tarde do que nunca

Fantasporto 2005
Começou anteontem.

Madness

Descobri Marlango. Um grupo espanhol que consegue cantar em inglês. As canções, letras e voz confundem-se com o meu estado de espírito.



I am angry as thunder.
I am strong as blood.
I am as cloudy and clear as all the skies
that pass through your eyes.

Desabafo II

Depois de um primeiro desabafo sobre os resultados eleitorais e depois de analisadas as transferências de votos, em que se confirma o razoável sucesso na captação do eleitorado jovem, urbano e de classe média e o fracasso na manutenção do eleitorado de nichos, é tempo de pensar o CDS e o seu futuro.

Entendamo-nos, não pretendo aqui falar de nomes ou candidaturas. Tendo em conta que todos os nomes falados têm uma história mais ou menos comum no partido, o que verdadeiramente me interessa é o que cada nome pode propor para o futuro. Mais do que as simples frases de mobilização interna ou as promessas de sobrevivência, o que eu preciso de ouvir é a resposta a algumas questões:

a) Qual vai ser a função do CDS nestes 4 anos e, depois, no sistema partidário português?
b) Quais os eleitorados que o CDS pretende atingir?
c) Qual o discurso do CDS?

Ensaio algumas das respostas que gostaria de ouvir.

A função do CDS é a de se assumir como alternativa de governo. Não pode, por isso, transformar-se numa federação de descontentes, aliciados por políticas sectoriais e sem perspectivas de concretização. O CDS tem de ser um partido com um programa de governo, um governo sombra, uma actuação vigilante mas sobretudo criativa em todas as áreas políticas.

O CDS cumprirá a sua função histórica se procurar ser o partido dos sectores empreendedores da sociedade, da classe média que trabalha e faz o país crescer e dos jovens que se esforçam por atingir novos patamares de riqueza.

O CDS tem, por isso, de ser um partido reformista e liberal, abandonando o conservadorismo excessivo e relegando a democracia-cristã para um plano secundário, como tem acontecido Europa fora.

O eleitorado tem de olhar para o CDS e nele encontrar uma nova geração de direitos e deveres, uma nova geração de políticas e discursos, que apostem no indivíduo e na sua capacidade de realização e que abandonem o tradicional discurso do defict e do peso do Estado.

Mas sendo um partido de quadros, jovem, criativo, liberal e capaz de se constituir como um alternativa de governo, o CDS não pode acabar como um partido de intelectuais, mais entretidos em mudar o sistema político do que em resolver os problemas das pessoas. O CDS não vira a cara à reforma do sistema político mas, sejamos frontais, este sistema, coxo ou não, permite novas políticas se houver coragem para isso. Falemos primeiro dessas políticas e depois da reforma do sistema político.

Com o PS no governo e refém das suas promessas, com o PSD iludido com a “viragem à esquerda” como solução, o espaço do CDS é o liberalismo responsável, o único que, Europa fora, tem ajudado a resolver os problemas das pessoas. Quanto aos conservadores e democratas-cristãos, como já se viu, votam onde calhar.

Adenda: Vale muito a pena ler este post no Blasfémias e este no Observador.

Calma aí com a Vitorinofilia



Perante o coro de elogios a António Vitorino, o homem das "metas indicativas", é preciso não exagerar.

A passagem de dois anos (de Outubro de 1995 a Novembro de 1997) pelo Governo de António Guterres foi confrangedora para o futuro comissário.

Como Ministro da Presidência, cabia-lhe um importante trabalho de coordenação inter-ministerial. Falhou. António Vitorino constatou que não tinha capacidade de liderança para aglutinar um executivo pouco coeso, mal preparado e sem objectivos, intimidado pelas estruturas partidárias que dominavam a bancada parlamentar, e obcecado pela comunicação social. Quando saíu, a pasta ficou vazia. As suas funções foram assumidas por José Sócrates, indigitado Ministro Adjunto do Primeiro Ministro.

Reconhecendo o seu fraco estofo partidário, recusou candidatar-se à liderança do PS, para a qual teria um apoio esmagador das estruturas socialistas. Empenhou-se activamente na elaboração do programa eleitoral, expurgando-o de muitos exageros ideológicos. Tentará moderar o voluntarismo de Sócrates, ajudando-o a blindar o governo contra o aparelho e comunicação social, criando assim as condições de governabilidade que ele próprio não teve.

Vitorino só regressará ao Governo se estiverem reunidas as condições políticas que permitam desenvolver as suas capacidades técnicas excepcionais. É uma incógnita se aceitará quaisquer funções que envolvam coordenação política ou ministerial. Se o fizer, é bom sinal.

Mas não fiquemos por aqui. Cuidado com as euforias e faltas de memória. António Vitorino fez parte do painel de cinco (!) notáveis, titulares da pasta da Defesa dos governos de Guterres, que em mera legislatura e meia conseguiram deixar as instituições militares de pantanas e em pé de guerra. Era o número dois do Governo. Compare-se com a história recente.

terça-feira, Fevereiro 22, 2005

Os prazeres da vida

Estava eu a ouvir o sexto andamento da Terceira Sinfonia de Mahler, o delicado adagio "What God tells me" (é pá, nem só de zombies vive o homem!), quando me lembro de abrir o Bomba Inteligente no meu Firefox — e a Britney Spears estronda nos meus headphones "Oops I did it again!". Já ouvi três vezes seguidas! É por isto que eu gosto da blogosfera!

Hora do lanche, cruzada pessoal

Valores energéticos:

Coca-Cola:42 kcal/100g(100g = 0,1 litro)
Açúcar:400 kcal/100g(100g = 15 doses para café)
Batatas-fritas:530 kcal/100g(1 pacote normal)
Ou seja: se estiver a pensar comer um pacote de batata fritas, pense que talvez seja melhor beber quase uma garrafa de litro e meio de Coca-Cola (tem doze vezes menos calorias), ou umas boas colheradas de açucar puro (mesmo assim, mais saudável).

Agora vou deixar de ser moralista, senão ainda acabo no Bloco.

Assustador




Até para quem, como eu, que gosta de filmes de série B com mortos-vivos, gore, aliens, demónios e monstros diabólicos (podem ser de borracha), o aparelho socialista que rodeia Sócrates parece-me demasiado assustador... É que eles são os mesmos de Guterres e Ferro Rodrigues... E eles não morrem politicamente... nunca...

Descobri o que quer dizer "POUS"!

Semblante carregado



Alberto João Jardim fez a sua declaração na noite das eleições visivelmente transtornado pelo resultado nacional.

O PSD venceu na Madeira, com 45,1% de votos, contra 34,9% do PS, e 6,5% do CDS. Em caso de eleições regionais, facilmente obteria a maioria absoluta na Assembleia Legislativa Regional. O eleitorado ainda é maioritariamente de direita.

Contudo, foi a pior vitória de AJJ desde 1975, em termos percentuais.

Dos cinco mandatos das legislativas de 2002, um era socialista, quatro eram social-democratas. Destes, um foi perdido para o PS. Mais: por via da correcção demográfica, a Madeira havia ganho um deputado à Assembleia da República. Que foi arrebatado pelo PS. Os grupos parlamentares ficaram equilibrados com três mandatos cada.

Os deputados madeirenses, socialistas ou social-democratas, não contarão para viabilizar a acção governativa, ou angariar para a Madeira mais dinheiros e benesses do Estado.

Ainda pior, um primeiro-ministro socialista ganhou com maioria absoluta e vontade de meter a autonomia rebelde da Madeira em ordem. Pior do que Cavaco Silva.

A hegemonia laranja na Madeira quebrou-se. O mapa político regional está desequilibrado. Na calheta, porventura o concelho mais direitista do país, PSD e PP somaram 77,7% dos votos. No Funchal, o PSD venceu ao PS por apenas 58 votos, em 100000 eleitores. Em Machico, o PS voltou em força (51,4% contra 38,5% do PSD).

O Partido Socialista da Madeira pouco fez para merecer este resultado. Ninguém reconhece nas suas cúpulas as mínimas capacidades para governar a Madeira, e poucos o desejam. É verdade que na sombra das lideranças socialistas regionais, que se sucedem, fracas e medíocres, existe uma elite política e empresarial que espera por mudança, mas nada faz.

Jardim acalentava a esperança de sair em grande, sem precalços, em "pax" política. Santana Lopes em S. Bento e Guterres em Belém proporcionar-lhe-iam isso. O PS/M continuaria a sua agonia modorrenta. Com Sócrates com plenos poderes, a oposição acicatada e motivada para as autárquicas, e na perspectiva de uma forte candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República, o cenário inverteu-se.

Por resultados eleitorais menos maus que este, muitas cabeças têm rolado nas estruturas políticas regionais. A sucessão do líder terá de esperar, pois ainda não está madura. Para Alberto João Jardim, o tempo é de novo de luta e de defesa dos interesses da Madeira.

Ainda não se habituaram



Supostamente, "António Vitorino vai fazer parte do Governo de José Sócrates", no Público, notícia da TSF.

Ontem, andava meia comunicação social estuporada com o "Habituem-se!" de António Vitorino. O sempre diplomático ex-comissário europeu e ex-ministro, mastermind da campanha socialista, cortava assim com um dos piores vícios do guterrismo — a navegação à vista, patologicamente dependente de sondagens e primeiras páginas.

Desejo a Sócrates a coragem de nomear Vitorino (ou outro igualmente competente) para o cargo de vice-primeiro-ministro, com a tutela da competitividade— foi uma boa ideia do PSD. Que coloque nas Finanças alguém da craveira intelectual de Medina Carreira. E que não pare por aí.

Sobretudo, que seja alheio ao ruído de uma comunicação perniciosa, que vive de mal-entendidos, casos e trapalhadas, e que construa um governo coeso, trabalhador, esclarecido e corajoso. Que faça por merecer as críticas construtivas de todo o país.

Outra vez não



Depois de terem enveredado pelo mais nojento jornalismo especulativo com a notícia do pretenso apoio de Cavaco Silva ao PS, as jornalistas Helena Pereira e Margarida Gomes do jornal Público voltam a interpretar a realidade como lhes convém.

Ontem, todos os que deram crédito a Marques Mendes por se mostrar disposto a disputar a liderança do PSD foram enumerados como seus apoiantes ("uma onda em seu favor", "sem reservas", "ao lado do ex-ministro"). Pacheco Pereira já reagiu.

Resta saber se a notícia, que permitia desmentidos, já vinha sido preparada há algumas semanas, e se conta com o alto benepláctito de ASL e ED... Começo a perguntar-me quem será o próximo director do Público.

segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

A oportunidade de brilhar

Há muito tempo que Portugal não tem tido uma oposição capaz.

Lembremo-nos que Guterres, o "Picareta Falante", era criticado até pelo Presidente da República Mário Soares; Durão Barroso era acusado de ser mau orador e de estar à espera que o poder lhe caísse maduro no colo; Ferro Rodrigues nunca conseguiu impor qualquer agenda política que lhe interessasse.

A existência de uma oposição forte, inteligente e coerente dignifica a democracia e a discussão política. Uma boa representação das políticas diversas ao Governo é um direito do eleitorado.

Em resposta ao post de AMN, respondo que a luta nunca se interrompe. Duas ideias do demissionário líder Paulo Portas deverão ser concretizadas nos próximos anos — o projecto do "governo-sombra": partido terá de ouvir a sociedade civil, e apoiar o grupo parlamentar na produção de propostas de lei sectoriais, coerentes com a difícil situação do país — e a atitude de "formiguinha": muito trabalho, muita dedicação e porventura pouco reconhecimento. Haja resignação e sentido de dever.

Pela ordem natural das coisas, o PPD/PSD é o partido com a responsabilidade de liderar a direita portuguesa, mas os sociais democratas encontram-se num processo penoso de redefinição partidária, de desfecho imprevisível. A prazo, voltarão a ditar o rumo governativo de Portugal, e assim esperamos.

Muito difícil é a situação do CDS-PP, mas quero acreditar que não haverá vazio de liderança ou conflitualidade interna. O CDS é essencial à democracia portuguesa, e tem nesta altura a obrigação e as condições de travar, sozinho, o ímpeto esquerdista.

O CDS tem de o fazer de uma forma empenhada e construtiva. Os diagnósticos dos males de Portugal estão feitos, como nunca dantes. As medidas necessárias para modernizar o país são conhecidas, mas carecem de definição política e legislativa. São difíceis, impopulares e tem havido falta de coragem em encará-las de frente.

A marca da democracia-cristã pode ser deixada em projectos reformistas e ambiciosos, mas respeitadores da sociedade e dos seus valores. Os projectos podem não passar no parlamento, mas que passem para a consciência colectiva. No processo, é essencial desmistificar feudos e monopólios da esquerda. A maioria absoluta de Sócrates pode ser influenciada. O combate está aí.

Desabafo I

Filiei-me na Juventude Centrista em 1994. Tinha 16 anos. Apesar de discordar do rumo que Manuel Monteiro imprimia ao partido, sentia que o CDS era, programática e historicamente, o partido com o qual mais me identificava. Filiei-me no CDS em 1997, no exacto dia em que Manuel Monteiro pediu a sua demissão.

Acreditei sempre que a vocação histórica do CDS era a de ser um partido de governo, estável, previsível, credível e moderado. A liderança de Manuel Monteiro foi o oposto dessa vocação, rapidamente transformando o partido em partido de protesto. Tentou mesmo descolar-se do passado, culminando essa estratégia com a mudança de nome do partido. Ainda hoje guardo na memória o Congresso em que muito poucos se opuseram à mudança definitiva de nome. Fui um deles. No entanto, a orientação de Manuel Monteiro era legítima, com o acordo das bases e dos dirigentes. A verdade é que foi essa estratégia que fez o CDS crescer pela primeira vez desde 1976.

Em 1998, Paulo Portas defendeu uma inflexão da viragem à direita do partido e pretendeu, em sintonia com o PSD de Marcelo Rebelo de Sousa, uma frente de direita, que congregasse as diversas sensibilidades que vão desde os sociais democratas, aos liberais, aos conservadores e aos democratas cristãos. Defendia uma inflexão no discurso acerca da Europa, e mostrou-se receptivo ao Tratado de Amesterdão e à União Económica e Monetária. Propôs uma reconciliação com o passado do CDS e chamou nomes históricos do partido.

Paulo Portas defendia que os eleitores que o partido tinha de cativar eram os eleitores da “Zona AD”. Para isso propôs-se abrir o partido ao exterior, promovendo uma reconciliação natural do partido “com os seus vários passados”. Portas chamou a atenção para a necessidade de o partido moderar certas posições e credibilizar as suas actuações. Para conseguir estes objectivos, Paulo Portas defendeu a reafirmação do partido como democrata cristão, ainda que “estando aberto às correntes do liberalismo responsável e do conservadorismo moderado”. Propôs-se “crescer no centro-direita”, pois “mais para a direita não devemos ir”.

Assim, o que Paulo Portas veio defender foi o regresso do CDS ao arco da governabilidade, o regresso aos tempos de “partido moderado, responsável e credível”, cuja vocação “é a de ser um partido de Governo”, e o regresso aos tempos de partido de quadros, “a melhor via para ser, duradouramente, um partido de eleitores”.

Apoiei esta estratégia sem hesitar um segundo. Ela ia de encontro a tudo o que sempre pensei do CDS. É conhecida a história seguinte. Com a AD de Marcelo desfeita, Paulo Portas desviou-se da estratégia e lutou pela sobrevivência do CDS. Disse sempre, para o quem quis ouvir, que o CDS iria voltar ao governo para cumprir a sua história. Cumpriu. Posso discordar da estratégia de Paulo Portas até 2002, apesar de a compreender e de a ter aceite. O que não compreenderia é que, chegado ao governo, o CDS não se assumisse como um partido responsável.

O CDS apresentou-se no governo, e depois nesta campanha eleitoral, respeitando integralmente os seus compromissos e orgulhando a sua história. Foi um partido competente, leal, estável, reformista, activo, imaginativo. Congregou novos valores, chamou velhos valores e, como qualquer outro, cometeu os seus erros ou fez más escolhas.
Mas, o que me parecia mais importante, era que o CDS se afirmasse como uma alternativa de governo. Que o voto no CDS fosse encarado como um voto útil para uma solução de governo e não como um voto de protesto.

Todos sabemos o resultado: o CDS voltou a descer. Mesmo no cenário eleitoral mais favorável das últimas décadas, o CDS tal qual o entendo, perdeu. Pode não ter perdido muitos votos nem muitos deputados, mas perdeu na sua afirmação. A verdade, aliás, é que o único crescimento em décadas do partido foi quando se assumiu como partido de causas, de nichos eleitorais, anti-sistémico e de protesto.

O meu CDS perdeu as eleições. A minha maior tristeza é precisamente de considerar que aquilo por que sempre me bati não resultou. Porventura, o CDS tal qual o entendo não tem espaço, não cabe neste sistema. Os eleitores desviados do PSD preferiram votar no PS a votar no CDS. Não podemos ser indiferentes a isto. Não é possível continuar a lutar por um partido moderado que, provavelmente não tem espaço para existir, sem atentarmos bem no que aconteceu nestas eleições.

Considero legitimo que os militantes do CDS requeiram o regresso ao partido de protesto, em prol de subidas eleitorais. Não será essa a minha opção, e se essa opção se consumar, afastar-me-ei. Num momento como este, sei que só quero pertencer a um CDS que mantenha este rumo, mesmo que decresça. E espero que Paulo Portas reconsidere a sua decisão, porque ele é o líder da oposição que Portugal necessita. Porque há toda uma nova geração, liberal, reformista, arejada, disponível para dar a cara pela direita sem perder um pingo de honestidade intelectual a defender a banha da cobra.

Mas uma coisa mudou. Antes, tinha a certeza que esse era o melhor caminho. Agora sei apenas que é o meu.

Alegria

Um pensamento populista e superficial: no dia seguinte à derrota da selecção de futebol de Portugal na final do Euro'2004, vi mais alegria nas ruas do que hoje. Na minha rua, as bandeiras não foram guardadas.

Hoje, muitos admitem ter votado socialista. Poucos, por convicção. E nenhuns esperam alegrias nos próximos anos.

(também no Blasfémias)

Gostos

Gostos não se discutem, especialmente o bom e o mau. Mas, para a posteridade, aqui fica o Top 3 dos atentatos à estética e ao bom senso, verificados nesta campanha:

1. O hino do PSD;
2. A carta de Santana Lopes aos portugueses;
3. Francisco Louçã, também menção honrosa e prémio carreira.

O circo chegou à cidade

O Bloco anunciou que abandonará o hábito de rodar deputados pela Assembleia da República. Passarão a rodar as cadeiras vazias. Pelo menos enquanto os novos fatos de "ovelha negra" não estiverem feitos. Os recém-promovidos animadores de rua perguntam se não podem levar gravata.

Adenda 2005/02/22: Nem de propósito, o líder Louça esclarece a nação...

Um pouco de esperança...


"Dvorak - New World" de Ilir Fico, artista albanês, inspirado na Nona Sinfonia de Dvorak, "do Novo Mundo"...

...porque já sabemos onde nos levou a música do "1492 - A conquista do paraíso"...

Prognósticos (2)

Agora que o jogo acabou, enquanto não se joga a segunda mão, é evidente a inutilidade de tanta construção de cenários pós-eleitorais.

O Partido Socialista ganhou as eleições com maioria absoluta, e tem carta branca para governar. O país espera ansiosamente por saber qual é o rumo que Sócrates quer dar a Portugal.

O regresso triunfal ao parlamento dos partidos à esquerda do PS será concretizado. A CDU ganhou dois deputados, o Bloco cinco. Francisco Louçã diz que vai avançar imediatamente com uma proposta de realização de referendo ao Aborto, ameaçando recorrer à via parlamentar se o PS não promover imediatamente a sua realização. Esta ameaça baseia-se no conhecimento de um grande constrangimento de calendário para a realização de qualquer referendo no próximo ano e meio.

Assim sendo, precisa-se urgentemente de uma oposição à oposição de esquerda. Pedro Santana Lopes é agora um pesadelo para o PSD. Venenosamente, condicionará o partido nos próximos meses. É provavel que os sociais-democratas só conheçam paz quando demasiado combate político já estiver perdido. Paulo Portas, perante uma derrota numericamente pouco significativa mas psicologicamente desmoralizante face às espectativas criadas, demitiu-se. Sem ímpeto trazido das legislativas, o combate autárquico do CDS-PP pode ser desastroso para as ambições a médio-prazo dos centristas. Mas uma rápida definição poderá colocar o partido na liderança parlamentar da oposição de direita.

domingo, Fevereiro 20, 2005

Cobertura das Eleições

(19H00)
- De momento, não há resultados, só serão conhecidos pelas 20 horas. As urnas no Continente e Madeira já fecharam;
- A adesão às eleições parece ser significativa, da ordem de 70%, segundo a TSF;
- A CNE declara ter recebido centenas de queixas, correspondentes na sua maior parte às declarações de Mário Soares e António Guterres sobre vitória previsível do PS;

(20H00)
- José Sócrates com maioria absoluta, sondagem da Universidade Católica; CDS-PP pode cair para quinta força política;
- José Fazenda dá razão a Jorge Sampaio por ter dissolvido a Assembleia da República;
- António Barreto relembra que a esquerda atinge, segundo a sondagem, 62% a 65% dos votos ("quase 2/3");
- Marcelo Rebelo de Sousa aponta que o PS ocupou o centro e parte do centro-direita, e enquadra a derrota do PSD na sua história, dizendo que Pedro Santana Lopes tem de ser substituído;
- António Costa, eurodeputado, elogia a vitória pessoal de José Sócrates, e não põe de lado a hipótese de voltar para o Governo, como Ferro Rodrigues tinha feito;
- As televisões apresentam resultados parciais, por distrito. Um grande defeito: não apresentam o número de deputados elegíveis por círculo;
- António Vitorino dá razão ao PR e diz que o Governo não será feito nem pela Comunicação Social, nem na Comunicação Social. "Habituem-se!"

(21:00)
- PCP declara-se vitorioso por ter tirado a direita do governo e por ter mantido a votação;
- Miguel Veiga fala da sucessão de Pedro Santana Lopes, pedindo a sua imediata demissão;
- Pacheco Pereira diz que a derrota do PSD deve-se ao desbarato do capital político governativo por Santana Lopes;
- negativo, os resultados parciais não incluirem as Regiões Autónomas;
- Francisco Louçã congratula-se e revela que no prazo de duas semanas, o BE avançará com propostas para alterar a lei do Aborto;
- António Barreto e Marcelo Rebelo de Sousa apelam a que o Governo seja forte e que as linhas principais da política governativa sejam rapida e claramente explicitadas;
- Zapatero e Durão Barroso dão os parabéns a Sócrates;
- Marques Mendes admite derrota e diz que o partido tem de mudar de vida;

(22H00)
- Alberto João Jardim, que obteve outra vitória eleitoral em termos de votos, mas perdeu um deputado para o PS, que também ganhou o deputado acrescentado ao círculo (agora, 3 para cada partido), volta a defender os interesses da Madeira, diz que o PSD nacional terá de se deixar do politicamente correcto e deixar de ser um partido colaboracionista;
- Na Quadratura do Cìrculo, Pacheco Pereira relembra que Pedro Santana Lopes criticou no passado líderes do PSD que tiveram menos de 35% de voração;
- Marcelo Rebelo de Sousa desmonta a demagogia imediata do Bloco de Esquerda, que António Barreto rotulava de "ameaça para a democracia";
- Luís Filipe Menezes diz que Pedro Santana Lopes não deve ser responsabilizado para além do razoável, e que o PSD tem de ter mais clareza estratégica e programática;
- António Borges exige "renovação profunda" do PSD;
- o painel de comentadores da RTP fala da derrota do CDS-PP, uma derrota pessoal do Paulo Portas, acrescentando que a coligação poderia ter sido melhor para os dois partidos;
- Jerónimo de Sousa reclama vitória;

(23H00)
- já só falta apurar os deputados pelo círculo extra-nacional;
- Paulo Portas admite a derrota da direita, do seu partido e pessoal, admitindo o fracasso de praticamente todos os objectivos traçados por si e pela campanha do CDS-PP; Diz que entende o seu ciclo político acabou e que convocará um congresso para decidir uma sucessão na liderança do partido;
- Pedro Santana Lopes admite a derrota e diz que vai convocar congresso extraordinário do partido;
- José Sócrates declara vitória e declara tempos da esperança para Portugal.

Boicotes

Nas freguesias onde houve boicotes à votação, por protestos vários, não vai haver repetição do acto eleitoral porque os resultados não alterarão a distribuição dos deputados, já todos atribuídos. Que bela maneira de cair na indiferença.

Os brancos

Ninguém prestou atenção aos votos em brancos (1,81% agora, 1,01% em 2002) ou nulos (1,12% agora, 0,93% em 2002). A abstenção foi menor (35,00% agora, 37,66% em 2002).

Não constarão para a História.

Demissão?

Diz a lenda que aquando da sucessão de Durão Barroso, Pedro Santana Lopes terá manifestado a vontade de se demitir e pedir eleições antecipadas, tendo contudo mudado de opinião, ou demovido por companheiros.

Pergunta-se que companheiros solidários estarão lá para ele neste momento de derrota eleitoral.

Constituição europeia

Parabéns aos espanhóis, que se pronunciaram sobre a Constituição Europeia. Venceu o "sim".

Hoje fiquei quatro anos mais cansado

Cobertura das Eleições (início)

Inicia-se a esta hora a cobertura das eleições legislativas (ver post, acima).

Mo' money!

Joaquim Chissano exige de Portugal um pedido de desculpas por causa da escravatura, "sem paternalismo" mas com o "auxílio verdadeiro e estruturante".

Ou uma coisa, ou outra. Portugal assume que, tal como outras potências europeias, promoveu e beneficiou da Escravatura, mas "desculpas oficiais pelas atrocidades cometidas" não serão mais do que pura condescendência inconsequente.

É altamente irreal atribuir à Escravatura o atraso civilizacional verificado pelas ex-Colónias, e está por provar que entregues a si próprias, estivessem muito melhor — como se veio a verificar nos últimos 30 anos, marcados por guerras, desgraças humanitárias e governos corruptos, alheios às necessidades das populações. Não se trata de defender o modelo colonial, que ficou muito aquém dos ideiais que hoje consideramos universais, mas desculpas temos muitas, o perdão já há muito é devido.

Como diz Vasco Pulido Valente, no Público, "A 'desculpa' não pode servir de desculpa".

Indecisos

"Por fim, quero aqui deixar uma última mensagem aos indecisos: arranjem uma personalidade, pá." (Miguel Góis, do Gato Fedorento)

Campanha eleitoral

por Prof. José Migadinho*

Não sou religioso— não é à toa que possuo duas licenciaturas, certo? — mas respeito quem, na sua simplicidade e ignorância, o é.

Compreendo que, num país atrasado como o nosso, se decrete Luto Nacional pela Irmã Lúcia. Aceito-o democraticamente, embora com reservas; ainda há dias faleceu um maluquinho da minha rua, que dizia falar com Jesus e com a Beatriz Costa, e ninguém ficou de luto. Só o padeiro, que queimou propositadamente todo o pão, fazendo-o ficar de um negro simbólico. O que eu quero dizer é que a esquizofrenia, se motivo de admiração, devia ser para todos.

Sobre a Irmã Lúcia, pouco a dizer sobre a figura. Apenas que não percebo como é que uma pessoa pode ter passado 84 anos em clausura. Agora que vamos voltar ao poder, devíamos pugnar por uma lei que proibisse as pessoas de irem para freiras por mais de 25 anos. Se não existe prisão perpétua em Portugal, porquê permitir que haja freiras toda a vida? E não me venham com a história de que ela gostava. Ninguém pode gostar. E, se gosta, é porque é parva e o Estado deve proteger os parvos deles próprios.

Não posso dizer que a instrumentalização da Irmã Lúcia me tenha chocado. Já estou habituado. O que me choca, desde sempre, é ver os políticos de Direita acreditarem em Deus e depois estarem no Governo. É isto que vai contra a separação do Estado e da Igreja. Para essa separação ser efectiva, quem é do Estado não pode ser da Igreja. É como o Sporting e o Benfica: quem é de um não é do outro. É impossível. Portanto, se um membro do PP ou do PSD revela simpatia em relação à Igreja, já não pode ser do Estado. Na nossa visão de Esquerda, o Estado deve ocupar um espaço cada vez maior em POrtugal. Logo, para estar separada, a Igreja tem de estar fora do País. "Mas", atalham os beatos, "a Igreja dá conforto, carinho e esperança ao povo". Pois é isso tudo — e mais! — que o Estado deve fazer. Daí não haver necessidade de Igreja.

*Zé Diogo Quintela, artigo descaradamente copiado do Inimigo Público de 18 de Fevereiro.

Nota: a não perder o artigo da Rititi.

sábado, Fevereiro 19, 2005

Prognósticos (1)

Em dia de reflexão, o que menos apetece é passar a limpo os muitos cenários, emocional e intelectualmente estimulantes, que podem emergir destas eleições legislativas antecipadas. Deixemos a capacidade de sonhar para o day after, quando os resultados forem inquestionáveis.

Acredito que o Partido Socialista ganhará esta eleição com maioria simples, e preferirá governar confiando em acordos pontuais com os outros quatro partidos, o que acontecerá consistentemente ao longo de toda a legislatura de quatro anos. Não menosprezemos a imensa ambiguidade de Sócrates.

Neste cenário, entendo que Bloco de Esquerda e CDU terão uma reentrada triunfal na oposição. Na continuidade do seu trabalho parlamentar, e enquanto o Partido Socialista trabalha o seu insipiente programa de governo, terão o monopólio da agenda política. A esquerda parlamentar fará passar, ao início, políticas agressivas mas socialmente consensuais, dado que está em jogo o próximo round: as eleições autárquicas. A verdadeira conflitualidade à esquerda só deverá emergir pelas eleições presidenciais, quando forem discutidas as questões de regime.

Ainda neste cenário, as vida de oposição para o PPD/PSD e CDS-PP será dura. Parece-me inevitável a sucessão de Pedro Santana Lopes no prazo de um ano. A nova liderança terá de se haver com um grupo parlamentar que poderá ser-lhe hostil. Parece-me que Paulo Portas sobreviverá, uma vez mais, para fazer valer o seu brilhantismo oratório no parlamento, mas resta saber até que ponto as estruturas do CDS poderão ser rapidamente reconvertidas de modo a capitalizar a fraqueza do PSD.

O balanço de forças entre os pequenos partidos é incerto. As sondagens mais negras davam o CDS-PP como quinta força política. É impensável que depois de uma passagem fugaz mas segura pelo Governo, o CDS fosse assim castigado pelo eleitorado. Que a esquerda extremista, marxista e trostkista, anti-sistema, tenha o dobro das vozes dos democratas-cristãos é o worst case scenario para a democracia portuguesa. O pior, não. Se a esquerda tivesse dois terços do parlamento, a Constituição estaria a saque.

sexta-feira, Fevereiro 18, 2005

Chantagens (3)

Jardim ameaça: «Madeira pode seguir o seu próprio caminho» (notícia do Diário de Notícias da Madeira)

Sócrates arrisca-se a ultrapassar Cavaco Silva como o Primeiro-Ministro mais odiado por Alberto João Jardim.

Não acredito em bruxas...

- que ganhando o Partido Socialista com maioria simples, se coligue com Bloco de Esquerda ou CDU;

- que os ex-ministros de Guterres voltem para um governo de Sócrates;

...pero que las hay, las hay!

Fabuloso


Fantasia para Piano, Coro e Orquestra op.80 de Ludwig Van Beethoven, por Abbado com a Berliner Philharmoniker, e Yevgeny Kissin ao piano

Vade Retro camarada

Um alerta contra o marxismo-porreirismo.

A minha previsão

PS: 43%
PSD: 34%
CDS:10%
CDU: 7%
BE:4%
Outros:2%

O interesse da criança

Uma luz ao fundo do túnel, um rasgo de bom senso.

This is not happening

Tradução futura de "Nada disto aconteceu", por Nuno Rogeiro.

Cultura democrática

"Não é permitida a reprodução total ou parcial de qualquer conteúdo deste blog sem o prévio consentimento do webmaster." (Blog de Pedro Santana Lopes)

Oops.

Baghdad Bob Lopes

O PS comparou Santana Lopes ao Ministro da Informação de Saddam Hussein, um favorito do Arte da Fuga.

Descubra as diferenças: "Daqui a quatro dias o PPD/PSD vai ter uma vitória fantástica, que vai ficar para a história da democracia" / "Their forces committed suicide by the hundreds.... The battle is very fierce and God made us victorious. The fighting continues."

quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

É bom tropeçar em blogues assim

O Sinédrio.

Mão Invisível

Espera-se o melhor.

Entrevista

Não sei se alguém teve a possibilidade de assistir à entrevista a Santana Lopes conduzida por Constança Cunha e Sá, ontem na TVI.
Foi o maior frete (ainda por cima, involuntário) que se fez a Santana Lopes. A entrevista versou única e exclusivamente sobre os diversos casos e casinhos da sua governação, tendo como momento crucial a pergunta sobre o que pensava Santana de Alberto João Jardim ter tratado Cavaco Silva por Sr. Silva.
Educação? Nada! Saúde? Nada. Política externa? Nada! Ambiente? Nada! Defesa? Nada! Economia? Nada! A Constança Cunha e Sá apenas interessou Henrique Chaves, Cadilhe, Cavaco etc e tal.
Se a estratégia de Santana é precisamente a de se vitimizar, a entrevista correu-lhe a 100%. Com ar desgastado, lá foi respondendo, dizendo que queria falar para os portugueses e sobre os assuntos que lhe interessavam. Mas não o deixaram.

Blasfémia à antiga

"Multidão Despediu-se de Lúcia com Lenços Brancos" (Capa do Público).

Crescem os rumores de uma chicotada psicológica no Fátima, mas o balneário está tranquilo.

Eu hoje acordei assim...


Sexual Harassment Panda
(clicar para ouvir)

quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

Regras

Há uma regra básica que a esmagadora maioria dos líderes políticos portugueses tem seguido, no que respeita a debates: não falar de minudências, de pequenos casos descontextualizados em que, com toda a certeza, o opositor não teve qualquer interferência nem sequer tem obrigação de ter conhecimento.

A regra existe, em primeiro lugar, para protecção mútua. Mas existe também porque sempre se entendeu que não favorecia o debate colocar o opositor perante acontecimentos sobre os quais não é exigível que ele devesse ter conhecimento.

É evidente que existem casos vários em que os líderes se desmascaram uns aos outros, apresentando factos muitas vezes pouco conhecidos e que surpreendem o opositor no debate. Mas aí trata-se, tão só, de confrontar o opositor com factos que ele tem obrigação de conhecer ou pelos quais é directa ou indirectamente responsável.

Louçã tem sistematicamente quebrado esta regra. Invoca factos e decisões de nível intermédio, de que os líderes políticos não têm sequer conhecimento, e que, descontextualizados, pretendem deixar o adversário em total desnorte.

Foi, por exemplo, aquilo que Louçã fez com Paulo Portas, quando apareceu munido de uma decisão de um dirigente qualquer do Ministério da Defesa. Ou quando atira com normas técnicas e avulsas do Orçamento de Estado, que quase sempre têm explicações técnicas suficientes mas que, para o comum dos mortais e para um político que não é economista, sabem sempre a denúncia de vilanagens secretas.

Ontem, Louçã tentou fazer mais do mesmo. Não resultou porque houve um intervalo. E felizmente, não resulta mais vezes porque existe a blogosfera.

Ao contrário de grande parte da imprensa que tem vergonha de admitir que não sabe sequer do que se está a falar e que acena com a cabeça (o que, aliás, fez Sócrates), a blogosfera vai investigar. E desmascara.

Sobre este caso em particular, vale muito a pena ler estes posts.

A melhor parte do debate

foi aquela em que Judite de Sousa disse ao regressado Jerónimo de Sousa de que estavam ali a falar.

O que eles sabem

José Sócrates sabe que não vai ter maioria absoluta. Os outros sabem o mesmo. E sabem que ele sabe.

Santana Lopes acredita que chega aos 35%. Paulo Portas também acredita que Santana lá chega. Os outros não só não acreditam como não acreditam que Santana possa acreditar.

Paulo Portas sabe que os 10% ainda não estão seguros. Os outros sabem que o CDS já os tem seguros e não sabem o que Paulo Portas sabe.

Jerónimo de Sousa acredita que não só mantém os votos, como pode conseguir subir. Os outros não acreditam e não querem saber em que acredita Jerónimo de Sousa.

Francisco Louçã sabe que a sua subida eleitoral não vai trazer mais deputados. Paulo Portas também sabe, por experiência própria. Os outros sabem que o Bloco pode subir muito.

Blasfémia do Dia (4)

"Acabar com o aborto clandestino" é a coisa mais inteligente dita até agora sobre o assunto. (também aqui)

Blasfémia do Dia (3)

A reforma do sistema político proposta pelo BE (limitação de mandatos, controlo das contas partidárias) seria interessante para dignificar o exercício da actividade política.

Blasfémia do Dia (2)

Portugal precisa de ter uma estratégia, uma orientação e um rumo, que inclua uma forte aposta na formação e tecnologias do conhecimento.

Blasfémia do Dia (1)

PPD/PSD e CDS-PP deviam ter continuado a campanha eleitoral, apesar do luto nacional decretado pela morte da irmã Lúcia.

terça-feira, Fevereiro 15, 2005

Equações

O Professor Vital Moreira relativiza aqui todos os erros dos Governos PS. E todos os seus feitos também.

Estilos...

No Desesperada Esperança fala-se sobre o conceito de campanhas negativas, muito em voga após o aparecimento dos cartazes do PSD, que teima em justificá-los com o “estilo americano” que procura seguir. O Bruno desmascara, e bem, essa justificação.

Independentemente de concordar, ou não, com o estilo dos cartazes em causa (e não concordo) a verdade é que os mesmos seguem uma tradição e um estilo importado. O PSD apenas se enganou quando referiu onde foi buscar a inspiração. Basta dar uma olhadela aos cartazes britânicos.

Vejam este, da campanha de 1997:


Ou este, da campanha de 1979:


Entrem, por exemplo, no site dos Labour. O header da página é sintomático: Britain is working: don't let the Tories wreck it again.

O PSD inaugurou em Portugal um estilo novo de campanha, que já vinha sendo ensaiado pelo CDS/PP de Monteiro e pelo Bloco de Esquerda. Se o estilo penaliza, ou não, os seus mentores, é o que se espera para ver.

Ai, politicamente correcto...

...a quanto obrigas!

A fé na Humanidade

Hoje fui levantar uma multa de estacionamento aos Correios.

Esperava encontrar uma missiva assassina, do tipo paga-filho-da-puta-cabrão-criminoso, do tipo da que recebi há dois anos, que me ameaçava de desmembramento, esventramento e sodomia coercivas se não regularizasse imediatamente a minha repugnante situação, provocada por ter entregue o IRS pela Internet com um dia de atraso, e estar a dever à máquina fiscal uma multa simbólica.

Qual foi a minha surpresa quando recebo uma carta simples, elucidativa, prestável, com instruções claras de como pagar a multa por Multibanco (bem longe do ambiente simpático dos nossos serviços públicos), terminada com um elegante "com os melhores cumprimentos" (que muito contrasta com o pirosismo formal que hoje abunda).

A minha fé na Humanidade foi restaurada. Ajudou saber que o carro multado está registado no meu nome, mas quem o conduz é a minha irmã miúda.

Pergunta do Dia

Porque é que para alguns, as declarações de um padre provocam "repúdio", enquanto as de dois bispos são motivo de júbilo?

E se o Papa se manifestasse agradado com o luto nacional?

segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

É a vida...

A interrupção de campanha pode ser considerada como aproveitamento político. CDS, PSD e PS podem ter a simpatia de alguns eleitores com essa atitude.
Ao mesmo tempo, a não interrupção da campanha também pode conter aproveitamento político. O PCP e o Bloco de Esquerda ganham a simpatia de outros eleitores ao não se associarem ao luto por uma vidente de Fátima.
A crítica a qualquer uma das posições pode ter, também ela, um aproveitamento político. Pacheco Pereira e Vital Moreira esperam, também eles, obter proveitos políticos na sua tomada de posição.
Adenda: Ver estes posts do João Miranda no Blasfémias.

Pergunta do Dia

Porque é que os que defendem que a campanha tem de continuar, para melhor esclarecimento dos portugueses, não querem ir à televisão debater ideias com os outros líderes partidários?

Monumental


A obra "Isle of the Dead" (op.29) de Rachmaninov, sobre a pintura "Die Toteninsel" de Arnold Böcklin.

Os três F's

Quando Amália morreu, houve luto nacional.
Quando a Irmã Lúcia morreu, foi também decretado luto nacional.
Quando morrer Eusébio, o mesmo acontecerá.
Não percebo qual é a surpresa...

Bravo!

"Jerónimo de Sousa: suspensão de campanha de alguns partidos deve ser respeitada" (Público).

Não é que a malta do PC foi escolher um tipo com tiques democráticos?

sexta-feira, Fevereiro 11, 2005

Heil Buddha

Para relembrar este post, e a propósito da relatividade com que se aceitou esta notícia, fomos roubar a fotografia ao Blasfémias:

("Suástica num templo budista")

Cavaco

Em resposta sumária ao post do meu colega AMN, sobre as futuras eleições presidenciais, venho professar a minha fé na vitória quase incondicional de Cavaco Silva num cenário de confronto directo com António Guterres.

Em última análise, a eleição presidencial resume-se a um confronto entre esquerda e direita. Admito que nestes casos a elasticidade do voto dos portugueses é muito grande. E admito que a esquerda esteja em preponderância e que o centro esteja seduzido pela sua dinâmica.

Contudo, é preciso atender a que as tendências de voto serão influenciadas pelo resultado destas eleições legislativas. Ganhando Sócrates, como é previsível, no princípio de 2005 terá esgotado o seu "estado de graça"— seja por ter tomado medidas e ter enfrentado a natural oposição, seja por não as ter tomado (o que seria bem pior para Guterres!). As eleições autárquicas serão outro factor de desgaste partidário e governativo.

Durante estes sete anos de serena inactividade, Sampaio não fez mais do que descredibilizar o próprio cargo, abrindo caminho a uma mudança de atitude que Guterres não personifica. A candidatura de Cavaco Silva invocará os tempos em que o Presidente da República intervinha e equilibrava o poder do Governo (inclusivamente criticando abertamente a oposição).

O país precisará de Cavaco Silva.

Direitos dos imigrantes (2)

No seguimento do post sobre o tema da Imigração, lançado pelo PCP, o CDS-PP vem criticar a política seguida pelo governo Guterres (a qual pouco se diferenciou dos anteriores, diga-se em abono da verdade).

Mas o PS teve também direito a elogios, com o secretário de Estado da Administração Interna a saudar a posição do socialista António Vitorino, que defendeu a criação de quotas europeias para a entrada de imigrantes enquanto comissário da União Europeia.

Boatos, esclarecimento

A banalização do incorrecto caracteriza esta campanha eleitoral. Já aqui se defendeu que pelo facto de os "outros" procederem incorrectamente, tal não justifica quaisquer excessos da nossa parte.

Os "boatos" não foram mais do que a passagem para a esfera de discussão pública do que vinha a ser discutido privadamente por todos, sem preconceitos ou pedras na mão, ou não fosse este o país onde tudo se sabe às escondidas e nada se admite abertamente. Contudo, repita-se: a sua utilização política foi um acto reles.

O Público errou

Na terça-feira, o Público avançou com um artigo, escrito por dois jornalistas da casa, e apadrinhado por Ana Sá Lopes e Eduardo Dâmaso, em que defendia que Cavaco Silva "apostava" numa maioria absoluta PS como forma de promover a sua candidatura a Belém. No dia seguinte, explorou as consequências políticas da sua primeira página, incluindo um desmentido do próprio Cavaco Silva. Só quinta-feira surgiu uma nota da Direcção lamentando o destaque dado ao artigo.

Por muito que alegue ter cruzado fontes, o Público decidiu não consultar o próprio sujeito da notícia. Fê-lo com intencionalidade de provocar debate político, ao fazer primeira página de um assunto contrário ao que dois dias depois defendia: o respeito pelo silêncio dos políticos. E aventurou-se por um estilo especulativo e irresponsável, pouco próprio da sua linha editorial.

A ler, o Semiramis.

Mas se eu nem sequer estive no Governo!

O caso político do momento cheira a esturro. As finanças dos partidos agradecem a generosidade de promotores imobiliários e turísticos, gratos aos políticos e detentores de cargos públicos pelo desbloqueio dos entraves à construção e urbanização de zonas protegidas por motivos ambientais. Se os partidos aprovassem a divulgação das suas contas, e tal devia ser obrigatório por lei, a sua sobrevivência moral seria gravemente afectada.

Não são conhecidos os contornos do caso de investigação judiciária à alteração da Zona de Protecção Especial (ZPE) do Estuário do Tejo, que veio a permitir a construção do Freeport Alcochete. Mas salta à vista que os responsáveis partidários socialistas procuraram imediatamente demarcar Sócrates do assunto, como se não fosse ainda Ministro três dias antes das legislativas de Março de 2002.

Em condições normais, um ex-Ministro assumiria as as acções do seu gabinete, justificando-as com o parecer de entidades externas. A delegação de poderes é uma condição necessária para a governação. Porque não o fez?

Primeiramente, pelo clima puritano criado pela oposição em torno das medidas governativas do Governo de gestão de Santana Lopes, em período eleitoral. Não é de excluir que o PSD tenha decidido não moderar as acções de campanha com os seus governantes, na perspectiva deste caso vir a público em altura oportuna.

Mas sobretudo porque a história pode estar mal contada e ser de difícil explicação, a menos de dez dias das eleições, quando o PS e Sócrates são os alvos a abater por todos os partidos.

O Independente (link temporário) avança com factos ("coincidências") difícilmente desmentíveis: no mesmo dia, 14 de Março, é aprovado o último dos estudos de impacto ambiental; é emitida a declaração que viabilizou a construção do Freeport, condicionado à alteração da ZPE; é emitido um parecer do Instituto da Conservação da Natureza que defende a alteração da ZPE, e é decretada a lei respectiva.

quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

A cassete já é minha!

O Marques Mendes é tão bom na política, como esta senhora é a cantar...



Sharm el Sheik, capital da esperança

A esperança não se explica nem é susceptível de ceder perante factos e provas. Apenas existe, como a fé. O cessar-fogo de Sharm el Sheik é, por isso mesmo, também uma questão de fé. Afinal, porque razão se deve acreditar desta vez quando, noutras situações, as intenções de cessar o fogo não passaram de isso mesmo: intenções?

Recordo, por exemplo, o Verão de 2003, em Aqaba, e o célebre "Roadmap to Peace". Também então a esperança se instalou em muitos de nós. Não é preciso relatar o que se passou pouco tempo depois. Os ataques suicidas, as ocupações, o muro…

No entanto, Sharm el Sheik no Egipto é, agora, a capital da nossa esperança. Mas, coisa rara, a esperança não é só nossa, dos que estão de fora. Respira-se esperança também do lado de dentro. Na Palestina e em Israel, provavelmente os melhores barómetros.

A esperança não se fundamenta, como disse, em factos. Mas a verdade é que, desta vez, ninguém pode negar que algo de fundamental mudou no panorama: Abbas não é Arafat.

E se todos concordamos que a esperança que hoje existe é muito maior e que se reveste de muito mais força, a verdade é que poucos assumem que tal se deve à morte de Arafat.

O facto de Sharon reconhecer maior credibilidade a Abbas e de nele identificar uma maior disponibilidade para controlar a faixa de Gaza não é surpresa para ninguém. E Sharon não é o único. Basta ver como os próprios países árabes estão, também eles, mais empenhados. O Egipto e a Jordânia já acordaram, por exemplo, em fazer regressar os seus embaixadores a Israel, depois de quatro anos de ausência.

É por isso que a minha esperança é maior. Mesmo que, em segredo, ache que ainda pode não ser desta.

להאמין בכל הטוב שבעולם הזה
להאמין שיש סיכוי עוד לעולם הזה
להאמין באהבה
שלא אבדה לנו תקווה

Pergunta do dia

Porque é que se insiste em associar o PPD mais à direita e o PSD mais à esquerda, quando o Programa do PPD foi infinitamente mais à esquerda do que o actual Programa do PSD?

Não o levem a sério



"A Coreia do Norte admitiu hoje pela primeira vez que possui armas atómicas, ao mesmo tempo que anunciou o fim da sua participação nas conversações a seis sobre o seu programa nuclear e, portanto, a sua retirada do Tratado de Não Proliferação Nuclear." (Público)

(aqui, cronologia da Reuters AlertNet)

quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

Uma verdadeira trilogia

Remains of the Day

No Babugem fala-se de Os Despojos do Dia, o filme em que Anthony Hopkins e Emma Thompson têm o papel das suas vidas. Vi o filme três vezes. Três dias seguidos. E em cada uma das vezes percebi que os dois actores não existem no filme. Não há um traço de Hopkins ou de Thompson. Eles são Stevens e Kenton. Nada mais.



Do you know what I am doing, Miss Kenton? I am placing my mind elsewhere while you chatter away.

Chantagens (2)

Há pouco tempo, muita gente se revoltou contra AJJ por ameaçar defender os interesses da Madeira acima de qualquer lealdade partidária. Que dizer então destes senhores?

terça-feira, Fevereiro 08, 2005

Direitos dos imigrantes

O PCP adianta querer rever os direitos dos imigrantes.

Há oito anos, este foi um tema muito explorado pela campanha eleitoral do PP de Manuel Monteiro. Hoje, embora o perfil da imigração tenha mudado, existe abertura da sociedade para que se alarguem os direitos e deveres dos imigrantes.

Se o programa do PS for coerente com a acção política do comissário António Vitorino, que defendia o controlo racional da imigração por parte do Estado, poderemos esperar que Portugal poderá finalmente ter uma legislação adequada às necessidades do país.

Nesta perspectiva, seria muito importante que se derrubassem os entraves corporativos (nomeadamente a falta de vontade das Ordens profissionais em conferir acreditações) que impedem a plena integração no mercado de trabalho de imigrantes com cursos superiores ou técnicos que nos fazem falta.

Do que se deseja que aconteça

Sobre o imenso e despeitado cepticismo quanto às eleições no Iraque, Helena Matos responde com este brilhante artigo...

Chantagens

O jogo de "chantagem" de Alberto João Jardim para com os poderes do Estado Central é de todos conhecido, sendo a face mais visível da inteligência, astúcia política e falta de preconceitos ou escrúpulos "politicamente correctos" com que AJJ tem governado a Região Autónoma.

Na Madeira, uma terra pequena, estabeleceu-se uma relação de interdependência entre o poder económico, o poder político e a sociedade civil. Se alguns destacam o dinamismo que daí advém, os mais críticos apontam a falta de sustentabilidade do sistema e excessos diversos.

Neste momento, o arquipélago é demasiado pequeno para tanto poder, especialmente quando comparado com algumas regiões portuguesas que definham a olhos vistos. Este poder foi obtido à custa da solidariedade do Estado, que tem sido cada vez mais contestada.

Diz Miguel Sousa Tavares, no Público:
"Não está em causa aquilo que é essencial: o próprio princípio da autonomia regional e a cobertura dos chamados "custos da insularidade". Mas isso, como todos sabemos, há muito que foi ultrapassado." (...) "estou convencido que o seu exemplo, aliás, contribuiu decisivamente para a rejeição clara da criação de regiões administrativas no continente"

Com a iminência da redução dos fundos comunitários e do Estado, e dado que a oposição regional é, na sua generalidade, incompetente (é essa a grande deficiência da democracia madeirense!), resta aos governantes laranja darem mostras do seu valor em tempos de "vacas magras".

(continuar a ler o A Arte da Fuga)

Carnaval sem máscara

Que a fidelidade é uma questão de oportunidade, foi algo em que sempre acreditei. Que a fidelidade seja, afinal e tão só, uma mera falta de oportunidade, é que me assusta um pouco mais.

Regionalização

O programa do Partido Socialista tem vindo a ser revelado e discutido, pouco a pouco, a reboque das provocações dos outros partidos.

Desta vez, espicaçado por Jerónimo de Sousa, o PS vem pela voz de António Vitorino revelar que poderá retomar o processo da Regionalização, realizando um referendo numa eventual segunda legislatura.

Entretanto, serão implementadas um conjunto de medidas, de largo consenso nacional, que na prática materializam o projecto da descentralização administrativa (ver artigo).

Mudanças

O Rua da Judiaria mudou de casa. Agora é aqui.
אהלן

Alcatrão e penas

As declarações do Ministro Nobre Guedes ("Coimbra devia levantar à rua e esse senhor não devia entrar") foram claramente excessivas, e dissonantes com a sua imagem e conduta.

Nobre Guedes justificou-se de tão inusitado apelo ao repúdio: "foi só uma imagem mil vezes utilizada em política", admitindo ter defendido "o direito à indignação tão caro a Mário Soares".

Ainda são recentes as declarações deste último quando defendia os tanques na rua, depois da sucessão de Durão Barroso, reparos que não mereceram qualquer sobressalto. Lembremo-nos da tolerância de que Alberto João Jardim beneficia, quando ameaça fechar a ilha aos "senhores do continente". Ou das milhentas manifestações espontâneas ou organizadas, algumas das quais perturbam profundamente a vida das cidades, sem que se questione a sua legitimidade democrática.

"Eu sei que a comunicação social vai durante três dias usar uma imagem normal e inofensiva para, como se ela tivesse sido usada pela primeira vez, fazer interpretações literais e impenitentes. Isso é fazer o jogo do PS"

Mas não era preciso ajudar...

Guterres

O Público leu a mente de Cavaco Silva e revelou que ele considera a maioria absoluta do PS como o melhor cenário para a sua eleição presidencial. Ao que parece aliás, de todas as sondagens, não há qualquer cenário que o dê como perdedor.

Guterres tem sido muito desvalorizado nas sondagens presidenciais, provavelmente por não ser o candidato preferencial de alguma esquerda. Cavaco é mais unânime à direita do que Guterres à esquerda e as sondagens reflectem isso mesmo quando se alinham nomes alternativos.

Que Guterres tem muitas objecções à esquerda, todos sabemos. Mas isso será o seu maior trunfo eleitoral e graças a ele será eleito – em qualquer cenário – Presidente da nossa República. Explico melhor.

Se for candidato, Guterres terá os votos de toda a esquerda. Pode haver uma marginal faixa eleitoral que se entreterá em manifestações bloquistas, mas a verdade é que, na hora decisiva, com ou sem vendas nos olhos, a esquerda vota no seu candidato. Seja ele qual for.

Se o candidato da esquerda, angelical e católico, for buscar votos à direita, tanto melhor. A esquerda pode enervar-se, mas é impossível sapo maior do que Soares para o PCP em 1986. E esse sapo foi engolido na totalidade.

Assim, Guterres coleccionará os votos de toda a esquerda e irá buscar alguns votos à direita católica. Mas vai ainda buscar os votos de parte da direita CDS que odeia Cavaco Silva e que já votou em Jorge Sampaio. A direita que não esquece a tentativa de Cavaco em acabar com o CDS.

Desta forma, com Cavaco ou outro qualquer na corrida, Guterres somará mais votos e será Presidente da República.

Dito isto, importa ainda sublinhar que os portugueses gostam de uma figura simpática como Presidente da República. Guterres personifica-a. Cavaco é o oposto. Quando elegem um Presidente, os portugueses não procuram competência nem tecnocracias. Querem alguém de quem gostem. E esse alguém é Guterres.

segunda-feira, Fevereiro 07, 2005

Nice Work If You Can Get It

Hoje está um dia "nem o pai morre nem a gente almoça".

Está um frio de rachar mas há Sol. Há Sol mas não há calor. Aliás, há calor mas não chega. O melhor destes dias é a música.

Perguntas do dia

1) Porque é que os críticos de Santana Lopes aquando do Congresso do PSD continuam a manifestar o seu descrédito, enquanto os críticos de José Sócrates nas eleições internas do PS parecem nunca ter querido outro líder?

2) Porque é que o Bloco de Esquerda passou a ser criticado e demasiadas vezes contraditado na comunicação social?

3) Porque é que se nota uma maior benevolência com Jerónimo de Sousa, só agora se tendo descoberto que todas as propostas do Bloco são decalcadas dos programas que o PCP defende há anos?

4) Porque é que, ao invés do que se passa à esquerda do bloco central, o tradicional bobo da festa, CDS, é várias vezes elogiado e destacado?

5) Porque é que o “socialismo na gaveta” de Soares é tratado como um fait divers e a progressiva “liberalização” do PSD e o recentramento do CDS são tratados como traições aos gloriosos passados?

sábado, Fevereiro 05, 2005

Lower expectations

O nível de espectativas quanto aos resultados eleitorais do PSD foi baixado por Pedro Santana Lopes, mesmo que agora venha dizer que "A vitória é ganhar as eleições de dia 20 de Fevereiro".

As eleições europeias foram um aviso deliberadamente inconsequente do eleitorado à acção do governo, no costume tão português de confundir cravos e ferraduras. Foram, de facto, um cartão amarelo, o fim do estado de graça de Durão Barroso, uma etapa natural e previsível na vida democrática.

Na perspectiva dos partidos do governo, não se trata agora de escapar ao cartão amarelo, mas de obter uma prorrogação do mandato popular. O governo está a referendo. Qualquer resultado semelhante ao das eleições europeias já não será a simples reprimenda de então, mas um castigo que terá de ser entendido por ambos os partidos.

Santana Lopes baixa as espectativas, não só porque sempre se sentiu melhor no papel de underdog, mas porque é a única hipótese que tem de ganhar as eleições. É uma estratégia astuta, porque sabe que as eleições não se ganham, perdem-se. E neste campo, parte em desvantagem.

O milagreiro

"José Sócrates promete criar cinco mil hectares de regadio por ano", notícia do Público. Não é uma promessa, é um objectivo...

...mas o que a malta queria mesmo, pá, é que transformasses esta água toda em bom tinto!

sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

O maior inimigo do PS

Contrariamente aos que defendem que o problema do PS está na falta de renovação interna face ao regresso da "tralha guterrista", entendo que esse é um problema do país, uma vez que é quase certa a vitória eleitoral do Partido Socialista.

O maior inimigo do PS neste momento é o Bloco de Esquerda. Louçã é claro no seu desprezo pelo PCP. Mesmo que saiba que é falso, declara que a direita está derrotada. Mesmo sem ter visto o debate, decreta que "Santana Lopes perdeu qualquer hipótese de vitória nas legislativas".

Nestas eleições, trava-se o combate dos indecisos, que se situam maioritariamente ao centro político. Com o discurso do resultado decidido, Louçã procura desmobilizar todos aqueles que efectivamente querem uma mudança e votariam socialista. O objectivo é aumentar a proporção relativa do BE face ao PS.

Por outro lado, Louçã, com um discurso menos fracturante, procura seduzir as faixas mais esquerdistas do Partido Socialista, que temem que Sócrates, com uma maioria confortável no partido e no Governo, possa inclinar o PS para a direita que lhe é natural.

Face a esta estratégia, à qual deve ser acrescentada a sangria do PCP, custa a acreditar que o Bloco não tenha um resultado animador nestas eleições.

Informática e execução fiscal

A notícia dos problemas informáticos da máquina fiscal é perturbadora.

Sexo é Bom! (2)

Deus existe em todas as realizações humanas fruto do livre arbítrio, sejam intelectuais ou físicas. Mas sobretudo, encontra-se Deus na nossa imensa capacidade de acreditar que estamos neste mundo para superarmos as nossas limitações de meros mortais, e de vivermos apaixonadamente as experiências e os sentimentos mais díspares.

Na longa lista de realizações louváveis e estimulantes da vivência humana, incluo o sexo. Não só porque é uma das mais naturais e intuitivas formas de prazer, mas porque é o expoente da comunhão física entre pessoas. E com os condimentos adequados, comunhão espiritual.

Tal como os outros prazeres, torna-se um vício quando se ultrapassa os limites do respeito para connosco próprios, para com o próximo, para com a sociedade. Quando passa a ser um acto egoísta.

Mas fazer do sexo algo sujo, condenável, tabu ou pecado é perverso e redutor, intelectual e humanamente. Sem qualquer respeito, quem não conseguir falar descomplexadamente do tema, pode ir dar uma volta e fazer amor. Para mau entendedor, estas palavras bastam.

Como poderoso catalisador emocional, o Sexo exige responsabilidade e consciência. Ainda mais porque é o instrumento natural de criação de vida. E porque pode destruir vida, se a cabeça não tiver juízo. E há muitas maneiras de ter juízo.

Ora, se a vida é uma dádiva divina, a moral é uma conjuntura humana. O que se pede à hierarquia da Igreja é que olhe para a Igreja. Que se concentre na protecção da vida, na santidade do amor, no respeito e na dignidade. Se quisermos, que siga o exemplo de Cristo.

Que explique que há uma dimensão espiritual superior ao sexo animal, que a plena realização das nossas capacidades físicas tem de ter objectivos mais elevados que a mera satisfação imediata. Pecado é não o perceber.

Sexo não só é bom, como faz bem e é necessário. Uma vida física, psicológica e moralmente saudável inclui uma vida sexual equilibrada, responsável, consequente e descomplexada.

Sibila

agustinaImpressiona-me a forma lapidar como a Agustina escreve e fala. Tudo nela é verdade absoluta, mesmo que nada seja verdade. Hoje, Agustina dá uma entrevista ao Independente. O entrevistador, percebe-se pelas trivialidades, não leu Agustina. Apenas lhe interessa a polémica, o passo deliberadamente dado em falso. Desde Saramago ao aborto, o que quer é algo bombástico. E não é que ela o percebeu e consegue dar uma entrevista politicamente correcta?

Sexo é Bom!

Que seja este o ponto de partida para qualquer discussão sobre sexualidade, sensualidade, espiritualidade ou religião!

(relembrando este post da Rititi, ver o ponto 2)

O Debate

Parti para o debate com a ideia de que José Sócrates ia ser completamente irrelevante para os portugueses. Quem quer votar PS, já está à vontade para o fazer. Tem o beneplácito de toda a gente e não se envergonha disso. A verdadeira questão do debate era, quanto a mim, saber se Pedro Santana Lopes ia conseguir fazer com que os indecisos perdessem o medo de votar no PSD e de o assumir em qualquer mesa de café sem serem linchados.

Do que vi do debate, confirmei que José Sócrates foi irrelevante. Todas as atenções estiveram em Santana Lopes. Se era ou não capaz de citar estatísticas, se era ou não capaz de responder às perguntas, se se defendia ou não dos ataques de Sócrates. Do debate transpareceu aquilo que verdadeiramente se joga: Santana Lopes é, ou não, capaz? Se sim, conquista os votos de alguns indecisos e converte alguns desviados para o PS e, aliado ao CDS, ainda é capaz de ganhar. Se não, perde os desviados e não convence os indecisos.

O que estava em jogo não era saber se Sócrates ganhava a Santana ou se Santana ganhava a Sócrates. O que estava em jogo era Santana passar a imagem de que votar no PSD não era motivo de vergonha e que era algo natural e democraticamente aceitável.

E foi nisso que ele apostou. Mais do que ganhar a Sócrates, Santana tentou demonstrar o conhecimento dos dossiers, desmontar a pretensa superioridade técnica das propostas do PS e convencer da bondade da sua governação. Santana não vinha conquistar eleitores. Vinha tentar desesperadamente agarrar os seus.

Feitas as contas, quem venceu o debate? Seguindo os critérios habituais entre adversários: José Sócrates. Seguindo os critérios que, no meu entender, estavam em jogo: Santana Lopes.

Ou muito me engano, ou a partir de hoje, vai haver mais gente a dizer que vota em Santana Lopes. Não porque tenha sido convertido. Apenas porque já não tem vergonha.