1. Ontem, o Público (edição impressa) noticiava que a Comissão Europeia acusava as sociedades de gestão de direitos de autor de não respeitarem as regras de concorrência no interior da União Europeia.
Contrariamente ao que nos fazem crer as elites artísticas, o proteccionismo cultural move-se pelos mesmos interesses materiais que qualquer outro sistema de protecção contra a concorrência e os mercados livres, e são igualmente prejudiciais aos consumidores:
Pedro Osório [da direcção da Sociedade Portuguesa de Autores] acusa a CE de "querer andar com a Europa mais depressa do que ela anda na realidade, como se fosse um país". O maestro alerta ainda para os perigos da concentração: "O futuro do comércio da música passa pelo online. Se ficar centralizado num só sítio, levará a um esmagamento da diversidade cultural".

2. A globalização dos bens culturais tem como consequência prática um
aumento da diversidade, e não a sua redução.
Culturas inteiras passam a estar disponíveis a qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, independentemente do seu ambiente cultural e político, e a preços mais baixos que pelas alternativas tradicionais— para fruição ou estudo, para reaproveitamento artístico, recriação ou preservação para a posteridade. Um património assim potenciado beneficia o meio cultural, o turístico, a Economia em geral, as identidades regionais e nacionais, a educação e instrução das pessoas, uma sociedade com personalidade.
A par dos
blockbusters e
bestsellers, as obras mais obscuras vêm o seu período de vida prolongado e têm mais oportunidades de serem redescobertas, quando antigamente estavam condenadas a cair no esquecimento, pela pequenez dos seus respectivos meios culturais— ou pior ainda, passarem a ser monopólio intelectual de elites
informadas.
Esta globalização tem igualmente o benefício de destruição dos grandes cartéis de produção. Por exemplo, na indústria discográfica a recusa obstinada em reduzir preços de CDs teve o condão de popularizar o MP3 "gratuito". A estrutura de consumo ficou muito mais horizontal: hoje o cliente pode comprar directamente ao produtor (ou mesmo ao artista!), que tem custos e riscos muito reduzidos— afinal o custo marginal de mais uma cópia de ficheiro é praticamente nulo. Quem já produzia pouco porque mais não podia vê agora nisso a sua vantagem competitiva. A eliminação de intermediários representou um grande aumento de eficiência em benefício dos consumidores, e nesse sentido servirá a racionalização dos custos de estrutura das grandes produtoras culturais.

3. O fenómeno só pode ajudar a "cultura portuguesa". Sem custos para erário público, fará mais pela coesão dos povos lusófonos, emigrantes e lusodescendentes, e pela difusão do Português que muito "serviço público" e subsídios para ajudar a internacionalização da cultura nacional.
Mas este processo não é controlado pelas sociedades de gestão de direitos. Vêem a evolução— que não podem travar— de uma forma absoluta e manchada por preconceitos quase marxistas: o mercado tornar-se-á monopolista, tudo esmagará, haverá uma cultura única.
São desculpas: aqueles bens culturais que representam terão de enfrentar a concorrência estrangeira. Em desespero (ou por sistema) recorrem ao paternalismo que esteja mais à mão para justificar o proteccionismo que em última análise consiste em impedir as pessoas de terem contacto com o que há lá por fora.