Bode Expiatório
A atitude de Israel, que continua a apostar na força bruta passando ao largo da sua própria História, não apenas falha em proteger os seus próprios cidadãos como destabiliza, ainda mais, toda a zona.Esta opinião de Joana Amaral Dias no DN indicia uma outra muito vulgar nos dias que correm. A de que a recusa de Israel em aceitar a paz e a Palestina é o principal foco de distúrbios no Médio Oriente. Não sei se é a opinião da Joana Amaral Dias ou se serei eu apenas a tresler o que ali está escrito. Limito-me, por isso, a comentar a ideia sem a atribuir à Joana Amaral Dias. Salvo o devido respeito, penso que a questão é precisamente a inversa: a falta de disposição árabe de aceitar um estado judeu na região. Se os governos árabes de então não tivessem começado a guerra em 1948, o plano de partilha da ONU estaria em vigor e, eventualmente, um estado da Palestina estaria actualmente a comemorar o 56.º aniversário de independência.
É preciso recordar que, entre 1948 e 1967, a Cisjordânia e Gaza estavam sob governo árabe e não havia então qualquer colonato judeu. Mas, curiosamente, nunca os árabes ali estabeleceram o Estado da Palestina. Antes pelo contrário, Gaza foi ocupada pelo Egipto e a Cisjordânia foi ocupada pela Jordânia. As exigências por um estado da Palestina independente só começou verdadeiramente a trilhar o seu caminho no momento em que Israel assumiu o controle sobre aquelas áreas na Guerra dos Seis Dias.
Mas adiante. Aqui fica uma lista parcial de outros conflitos na zona desde o fim do século XX e que nada têm que ver com Israel: a Guerra do Golfo de 1991; a Guerra Irão-Iraque; a Guerra Civil Libanesa; a interferência da Líbia no Chade; a Guerra Civil Sudanesa; o conflito Síria-Iraque, e a guerra entre a Frente Polisário (movimento separatista saariano) e Marrocos. Aliás, bem pode dizer-se que quase todas as fronteiras naquela parte do mundo, estão ou indefinidas ou em disputa.
Por outro lado, ainda que se resolvesse o problema da Palestina, muito continuaria por resolver, nomeadamente no que respeitam as rivalidades entre os vários países e etnias árabes, que provocaram numerosas guerras na região. Ao mesmo tempo, Israel continuaria a ser um problema. Veja-se o caso da Síria, por exemplo, que tem uma disputa territorial com Israel que não tem relação com a Plaestina. Outros países, como Irão e Iraque, mantêm ou mantiveram um estado de guerra com Israel apesar de não terem quaisquer disputas territoriais.
Muitas vezes convém sibilinamente referir que se Israel não existisse, tudo seria uma mar de rosas na região. Ora, não me parece que a História aí esteja para confirmar. Antes pelo contrário.
tema por AMN em 11:40











9 Comentários:
Mande-se o dr.Mário Soares (da Grande Loja do Oriente) ao Médio Oriente conferenciar com o Hammas, com o Hezbollah, e ainda por mais absoluta necessidade, com os terroristas israelitas (se é que existem israelitas !).
Caro Anonymous,
Não há tal coisa como "israelitas". Há quanto muito "judeus" ou "sionistas" ou "ocupantes", basta ler, ver e ouvir as notícias...
"Se os governos árabes de então não tivessem começado a guerra em 1948, o plano de partilha da ONU estaria em vigor e, eventualmente, um estado da Palestina estaria actualmente a comemorar o 56.º aniversário de independência"
A guerra começou em 47, não em 48, mas isso também não muda muito.
Claro que retroactivamente podemos dizer que tinha sido melhor para os árabes aceitar o plano de partilha (hoje em dia, provavelmente teriam 2 estados palestinianos, um deles com uma forte minoria judaica), mas, vendo as coisas pelo prisma de 1947, porque é que as centenas de milhares de árabes que iam ficar integrados no "estado judeu" haveriam de aceitar isso? Afinal, se os judeus não queriam ser uma minoria étnica (foi por isso que quiseram um Estado), porque é que os árabes haveriam de aceitar ser uma minoria?
É verdade que a actual minoria árabe de Israel está melhor que as "maiorias árabes" dos estados vizinhos, mas isso já é fazer o tal juizo retroactivo (avaliar o que aconteceu em 1947 com base no que sabemos em 2006)
Caro AMN,
De acordo, em grande parte. E se queres que te diga, até foste longe demais na definição da "zona", uma vez que dificilmente podemos classificar conflitos na Líbia, no Sudão ou em Marrocos como situados no "Médio Oriente".
caro Miguel, a partilha implicava dois estados em que, em cada um deles, um dos lados estaria em minoria. parece-me que esse argumento não poderia servir para obstaculizar a partilha.
aliás, ninguém pareceu muito preocupado quando, no mesmo ano de 1947, as Nações Unidas procederam à partilha do subcontinente indiano e criaram o Paquistão, predominantemente muçulmano.
Caro Koba, todo este processo foi muito acompanhado pela Liga Árabe. Criada no Egito em 1945, ela é formada por Arábia Saudita, Argélia, Palestina, Bahrein, Djibuti, Egito, Emirados Árabes, Iêmen, Ilhas
Comores, Iraque, Jordânia, Kuait, Líbano, Líbia, Marrocos, Mauritânia, Omã, Qatar,
Síria, Somália, Sudão e Tunísia. Daí ter ido a esses confins :)
um abraço,
a.
Parece falhar à JAD que a única coisa nos últimos 58 anos que manteve Israel foi precisamente a força bruta. Nunca lhes foi dada outra opção. Daí que não estão a ir contra a sua História enquanto Estado. Miguel, a razão porque os Israelitas não querem ser minoria no seu Estado, é que ao longo de dois mil anos foi isso que os tornou alvos fáceis. Compreensivamente, sabem que se querem viver, têm que ser maioria algures.
Caro AA,
O verdadeiro 'drama' dos povos árabes vizinhos (e não só) de Israel, é que não sabem distinguir o real do inexistente, excepto quando lhes entra pela casa dentro a tal força bruta. Aí queixam-se do invasor ? Qual ? Que fantasma lhes supera em tudo a ponto de precisarem de se bombardearem a si próprios. De se queixam pois se lhes for facilitada a vida eterna, sem ser à boleia de outrém ? Que caricatura de Maomé é essa que os próprios árabes radicais praticam e o mundo civilizado não denuncia nem condena ?
"caro Miguel, a partilha implicava dois estados em que, em cada um deles, um dos lados estaria em minoria."
Só que havia centenas de milhares de árabes no "Estado judeu" e muitos poucos judeus no "Estado árabe"
"ninguém pareceu muito preocupado quando, no mesmo ano de 1947, as Nações Unidas procederam à partilha do subcontinente indiano e criaram o Paquistão, predominantemente muçulmano"
Se fossêmos adoptar o critério com que foi feita a divisão da India (quem era a maioria em cada área), Israel seria pouco mais que Telavive.
Quanto "a niguém ter ficado muito preocupado" com a partilha da India, recorde-se que, comparado com os massacres mútuos que houve na India, o conflito israelo-árabe é uma brincadeira de crianças: foram mortas pelo menos 250.000 pessoas na Indía antes da independência (lembram-se dos ultimos espisódios da "Jóia da Coroa", nomeadamente o do comboio?)
Aliás, comparado com quase qualquer outra guerra por esse mundo fora, o conflito israelo-árabe é uma brincadeira de crianças (compare-se as pessoas que morreram nestes dias em Israel, Gaza e Libano com os que morreram nos atentados na Indía)
Faça um contraponto! (comentário)
Continuar a ler o A Arte da Fuga!