Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Transverdades

Não quero saber se a Gisberta era transexual ou não. Não é isso que me importa quando o sistema falha e a verdade não se alcança com os meios ou as pessoas ou as mentalidades que se colocam à disposição. Não é nisso que penso quando imagino a sua morte e as brincadeiras, ditas inocentes, que levaram à tortura de um ser humano.
Por isso, Francisco, a minha reacção seria exactamente a mesma se tivesse sido um taxista reaccionário a ser torturado durante dias às mãos de um bando de crianças ditas inocentes. O que penso não poder ser negado é que, precisamente, o tratamento noticioso deste crime leva alguns de nós a insurgir-se duplamente. Não pelo crime. Não pelo género. Mas pelos complexos que pelos vistos ainda grassam na comunicação social deste país.
A diferença de tratamento do caso foi tão gritante que só isso bastaria para uma indignação mais carregada. Não pelo transexualismo da Gisberta. Mas pela sua condição de ser humano, que partilha ou partilhava com o taxista reaccionário. Só que, ao contrário da Gisberta, o taxista e a sua familia seriam fotografados e as suas vidas analisadas e lamentadas. Haveria dor à mostra. Indignação escancarada. Haveria até falsa comoção. Se acho bem o jornalismo sensacionalista à volta disto? Claro que não. Mas não foi por pudor ou respeito que a Gisberta foi poupada ao jornalismo habitual nestas coisas.
E a solução que a justiça encontrou, e falo de fora, não foi a mais indicada não senhor. Não foi a mais indicada pelos factos que foram dados como provados pela própria justiça e não tanto pelo que se julga ter acontecido. Não foi mais adequada pelas atenuantes encontradas e o tom desculpabilizante das crianças que andam inocentemente a brincar ao tortura em vez de brincar ao mata.
Por isso Francisco, com ou sem taxistas reaccionários, este caso é uma vergonha. Chamar o taxista reaccionário permite-nos não falar da vergonha, nada mais do que isso. Não deixas de ter razão quanto a uma indignação blogueira que tende a ser selectiva. Mas essa, como a Alice, não mora aqui.

6 comentários:

  1. Miguel2:24 PM

    «Se acho bem o jornalismo sensacionalista à volta disto? Claro que não»


    Está a ver, caro «Nosso amigo»?
    Então no seu artigo publicado no «Público» defendia que o mercado é o unico sistema democrático que conhece que pode determinar o que é bom ou mau, e agora critica o sensacionalismo da comunicação social? Deixe o mercado funcionar espontaneamente e determinar o que devem ser as (boas) noticias. Não queira ser um ditador moralista, que tem a pretensão de saber mais do que as decisões do mercado.

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  2. Caro miguel

    O mercado não é um ente. É o resultado de milhões de escolhas individuais. No âmbito dessas minhas escolhas individuais, eu decido o que é bom ou mau. E nisso não vejo qualquer ditadura, muito menos moralista.
    Um abraço,
    a.

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  3. Miguel8:58 PM

    Ninguém disse que o mercado era um ente. Mas também não sejamos ingénuos ao ponto de o reduzir às pessoas. Só quem o vê como um somatório de vontades individuais «espontâneas» e «puras» é que tem essa ilusão.
    Mas a questão que eu pus é que sendo você apenas um consumidor no meio de milhões, tem de abdicar de um dos seus principios, senão entra em contradição. Ou abdica do económico, segundo o qual o mercado (milhões de escolhas individuais) determina o que é bom e mau. Ou abdica do moral, segundo o qual o sensacionalismo dos media é condenável, isto é, é mau.
    De acordo com o seu princípio económico, o que você decide que é bom ou mau só o é se os milhões de escolhas individuais estiverem de acordo consigo. Mas, como sabemos, o que estes milhões querem e gostam é do sensacionalismo. Portanto, o seu juízo moral está errado. Mas se você entender que este está certo, então é o seu juizo económico que está errado.

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  4. O verdadeiro perigo para uma sociedade está espelhado nas palavras deste Miguel que se deixa embevecer por palavras 'da situação' falando criminosamente de mercado, de deixar o mercado decidir e patetices perigosas do género.
    Então no dia em que o mercado resolver que matar é lucrativo e dá emprego, deixe-se o mercado decidir, certo?
    Os efeitos de uma escola falhada e os resultados dos anos desperdiçados encontram-se à vista, nos blogues, nos jornais, na rua e mais que seja! Porcaria de estado!

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  5. Miguel11:16 PM

    Papa Amoras

    As palavras «deste» Miguel limitaram-se a tirar as consequências que decorrem dos princípios mercantis dos liberais da nossa praça. O capitalismo selvagem não tem este nome por acaso. E você queixa-se da porcaria do Estado?!

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  6. Caro Miguel,

    O liberalismo defende que o capitalismo deve ser balizado pela Justiça. Logo, não há tal coisa como "capitalismo selvagem", algo que se generalizou sim com o Estado intervencionista.

    De resto, faz um raciocínio absurdo. Ninguém diz que é o mercado define o que é "moral". O que se diz é que é imoral não ser o mercado a decidir o que quer consumir.

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