"A Arte da Fuga" ("Die Kunst der Fuge", BWV 1080) é uma obra-prima de Johann Sebastian Bach: um único tema musical persegue-se, a si mesmo e as múltiplas variações, num diálogo musical intenso desenvolvido a diversas vozes, rico de simetrias, inversões, ritmos e tempos diferentes. Fugas para aartedafuga@gmail.com
Sábado, Setembro 02, 2006
Fábricas de pregos
Numa economia planeada, como era a soviética, o Estado determinava todos os preços. As empresas adquiriam a sua força de trabalho, o seu equipamento, o seu material, os serviços de que necessitavam a preços administrativamente tabelados; produziam com qualidade e caracteríticas pré-definidas pela burocracia; e vendiam aos preços que outros determinavam.
Não havia em rigor supressão do mecanismo da oferta e da procura, mas sim da relação entre preço e as condições de mercado. Em consequência, havia produções que ninguém queria, mesmo a preços baixos; e escassez de outros, porque o seu preço era demasiado baixo para a procura. ### A especulação (fixação privada de preços) era proibida, e os desperdícios e ineficiências eram titânicos. Os empresários não podiam ajustar-se ao mercado, ajustando preços, qualidade de produção — nem queriam, porque os instintos burgueses e "sabotagem" dos planos eram criminalizados— orientar a Economia era tarefa do Gosplan. Na sua monstruosa tarefa de coordenar milhões de preços, e desconfiança ideológica do mercado, os planeadores podiam demorar meses ou anos a corrigir os problemas.
Toda a economia soviética era um desastre, apesar da imagem paradisíaca passada por estatísticas oficiais e intelectuais ocidentais. Por exemplo, na segunda metade do século XX, a União Soviética era o maior produtor mundial de cereais. Mas a ineficiência era tal que nos anos maus era preciso importar alimentos; e nos bons, para cumprir quotas de exportação, morria-se à fome nos campos. Daí o anedótico caso do oficial soviético que perguntou a Margaret Thatcher como é que o ministério da agricultura britânico conseguia distribuir tanta comida tão variada por tanto inglês bem nutrido, ao que a Dama de Ferro terá respondido "não consegue".
Um sector que gozava de semelhante fama no mundo ocidental era o industrial-pesado, que gozava de uma relativa independência, porque os engenheiros eram uma classe "revolucionária", e porque a propriedade dos meios de produção tinha sido passada para mãos "colectivas" e não representava perigos políticos. A eficiência económica destas unidades não deixava de ser vergonhosa. O planeamento central determinava uma meta mínima para a produção das fábricas (havia penalidades pouco interessantes para quem falhasse), mas não incentivava à eficiência (produzir mais com menos meios). Para tentar aumentar a produtividade, de um modelo de "encomendas" do Estado (quanto e o quê devia ser produzido e entregue), passou-se a gestões por objectivos.
Neste contexto de relaxamento das exigências centrais há outra anedota reveladora. Determinada fábrica de pregos teve como objectivo produzir o máximo número de pregos, tachas, parafusos, rebites, grampos, cravos, etc., para a causa proletária. O mercado foi inundado com milhões e milhões de preguinhos completamente inúteis. As autoridades reagiram. A eficiência da unidade seria medida pelo peso total de produção mensal. Logo a fábrica passou a fazer sair monstruosos espigões de doze polegadas.
Mais do que nos rirmos da desgraça alheia, importa identificarmos onde estamos a aplicar semelhante sobranceria económica... mas isso fica para outro post...
3 Comentários:
Na economia tudo é uma questão de incentivos! Mas quando os incentivos não são adequados criam-se "sinais" desadequados e pregos de 12 kilos!;)
HMAG,
Mais do que nos rirmos da desgraça alheia, importa identificarmos onde estamos a aplicar semelhante sobranceria económica... mas isso fica para outro post...
Magnífica escolha, estas ilustrações! ;)
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