![]() | Na passada quinta-feira, Luís Nobre Guedes foi entrevistado por Judite de Sousa, na Grande Entrevista da RTP. Ficam aqui umas notas que não respeitam a ordem pela qual se desenrolou a conversa, e não procuram ser textualmente rigorosas; qualquer descontextualização que daí deriva não é contudo intencional. As minhas notas [AA] surgem dentro de chavetas rectas, e no fim do texto. Luís Nobre Guedes [LNG] referiu que regressa à vida partidária porque observa que o país está melhor, mas que o partido [CDS-PP] não está melhor. Verifica que as lutas do partido têm sido internas, CDS contra CDS, e que deseja um partido diferente. |
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Salientou que o CDS pode orgulhar-se do seu papel nos últimos governos em que participou, mas admitiu que correram mal. Algumas medidas ficaram por explicar, dando o exemplo de uma reforma na Educação. E que quatro meses são insuficientes para avaliar o Governo de Santana Lopes, acreditando agora que terá sido um erro político a sua condução a S.Bentosem eleições, um erro em que todo o partido acreditou. Agradeceu a confiança de Santana Lopes e Paulo Portas na sua nomeação, e referiu que havia quem no PSD que não quisesse a sua nomeação. A sua actuação terá tido episódios de confronto de interesses instalados na sociedade e no partido de coligação, mas que o ambiente no Governo sempre foi impecável.
Sobre o "caso dos sobreiros", mostrou-se contente pelo arquivamento do processo, que classificou como um acto de coragem do Ministério Público, e declarou-se de consciência limpa: quem não quer ser investigado não vai para ministro. O despacho foi um acto de reconhecimento de interesse público, algo normal num Governo de gestão, e que por exemplo o Governo anterior ao de Durão Barroso tinha levado adiante 54 destes actos, que podem estar sempre sujeitos ao escrutínio judicial.
O seu propósito é promover uma mudança no partido, e por isso está a ouvir as estruturas. Defende que é preciso uma diferenciação do PSD, mais ocupado em ganhar o centro-esquerda. Referiu que a direcção do PSD, nas últimas eleições autárquicas, tinha dado instruções às suas próprias estruturas para primeiro tentarem fazer coligações com o PCP, e só em último recurso tentarem o CDS. E que portanto é preciso que o CDS faça uma oposição independente, inteligente, responsável e eficaz ao Governo, que tem sido um bom Governo: os portugueses já desconfiam de quem diz mal por sistema. É preciso que o partido faça o ponto da direcção política.
Conta propor que o CDS apresente uma proposta de Orçamento de Estado alternativo, concretizando as suas políticas [1], dando-se à comparação, e ganhando com isso capital de seriedade. Um seu modelo é o Partido Conservador britânico, que está mais “verde” (ambientalista), mais aberto às mulheres, sendo duas vice-presidentes, uma lésbica e outra muçulmana, e com capacidade crítica face à política externa dos EUA. Neste processo, pretende fazer o que fez no Ambiente: falar com toda a gente, mesmo com quem não tem afinidades com o partido, para procurar saber mais do país. Disse que não pretendia baixar impostos, revolucionar o SNS ou o Ambiente, mas que em quatro anos Portugal poderia ser um país modelar, e ele seria seria capaz de fazer isso.
Criticou a tendência do partido de viver dependente de quem é o líder. Referiu que cabe a Ribeiro e Castro decidir se fica ou não em Bruxelas, e que deve ter todas as condições para desempenhar o seu cargo até ao fim do mandato, conforme estipulam os estatutos partidários. A carta que lhe terá remetido era coisa sem importância. Havendo condições, conta avançar com uma moção de estratégia ao congresso. Não recusa liminarmente vir a ser o líder do CDS nem o rejeita. Paulo Portas continua um amigo, de longa data, com quem conta, da mesma maneira que PP pode contar com LNG.
A entrevista não se demorou muito nos assuntos da actualidade. LNG criticou reforma da Justiça por estar a ser feita contra os agentes judiciais. Referiu que Cavaco Silva tem sido Presidente da República em que os portugueses se revêm, respeitador da Constituição, um bom Presidente.
Sobre a reforma eleitoral em discussão pelos Governo e PSD, disse que tem a convicção que o CDS desaparecerá: correrá risco de extinção. Disse que com 10% ou 12% de votos, o CDS teria 3 ou 4 deputados [entre 1,3% e 2,2% dos assentos, segundo os limites de mandatos previstos na CRP]. Comparou-a à ignóbil porcaria de Hintze Ribeiro. [2]
Declarou que tal como fizera há oito anos, iria bater-se pelo "Não" ao Aborto, e que o fazia por uma questão de convicção, e que pretendia que respeitassem a sua posição da mesma maneira que respeitava a dos outros. Desejou ainda que o debate não fosse partidarizado.
Durante a entrevista, a equipa da RTP fez aparecer na imagem as fotografias a preto e branco de Ribeiro e Castro, Paulo Portas e Cavaco Silva, fantasmas que não tiveram influência na exposição de LNG.
Em suma [AA]: Luís Nobre Guedes apresentou-se como herdeiro de uma experiência governamental competente e honesta, que reclama para o CDS. Entende que o partido tem seguido por maus políticos e tem de ter uma orientação política. Está a procurar protagonizar e reunir apoios para uma tal definição. Entende que o partido deve fazer uma oposição credível, e que deve fazer oposição com identidade e com políticas compatíveis com um programa de Governo.
Notas:
1. um regresso a uma ideia de “Governo-Sombra”, um conceito muito britânico, outrora defendido por Paulo Portas mas nunca aplicado pela oposição portuguesa:
2. do que é conhecido dos modelos de revisão da lei eleitoral, semelhantes ao sistema "alemão", as distorções às proporcionalidade não serão de certeza tão graves. Serão pouco diferentes das já existentes. Ou LNG sabe mais do que a opinião pública, ou pode não estar bem informado. Em provocação adicional, digo que ainda me lembro vividamente desta entrevista (e não fiquei convencido da bondade dos círculos uninominais puros);
- todos os links são da minha responsabilidade;

«do que é conhecido dos modelos de revisão da lei eleitoral, semelhantes ao sistema "alemão", as distorções às proporcionalidade não serão de certeza tão graves.»
ResponderEliminarDiscordo totalmente.
Ocorrerão sempre devastadoras distorções à proporcionalidade se não se adoptar o sistema de dois votos: um para escolha do candidato e outro para escolha do partido. Só assim o sistema não se transformará num bipartidismo.
E quem não se lembra do pentapartido na 1º república italiana?
Quanto à intenção de LNG liderar a Direita partidária, terá de explicar porque condescendeu com os aumentos de impostos de Durão/MFerreira Leite:
ResponderEliminar-Iva de 17 para 19%
-mais ISP
-mais IMI
-mais IRC, via colecta mínima.
Caro AA
ResponderEliminarO PSD não vai propor nada que se asemelhe ao modelo alemão mas um sistema com 140 deputados uninominais e 40 num circulo nacional.
Uma vergonha e uma ignobil porcaria.
Dones
Caro Dones,
ResponderEliminarO projecto do PSD não está suficientemente divulgado. Se forem essas as proporções, é importante saber se os mandatos do segundo círculo (nacional) são apurados pelo voto único, por segundo voto, ou pelos votos "inúteis" (aqueles que não serviram para eleger mandatos uninominais).
O sistema do PS, pelo que eu sei, é o alemão, e com ele concordo.
Caro AA
ResponderEliminarÉ uma fantasia pensar que em caso do circulo nacional ser um circulo de restos que se garante a proporcionalidade. Na verdade sendo o apuramento uninominal a lógica passa a ser essencialmente bipartidária.
A dinamica das eleições com apenas uma urna e circulo uninominais passa a ser local e com excepção de zonas do alentejo que poderá existir uma luta a três, na generalidade do país passa a ser a dois.
O Pedro Pestana Bastos apresenta uma análise bastante interessante no blog acamaradoscomuns.blogspot.com, aconselho a visita.
Dones
passa a ser Hoje as pessoas votam em programas e em candidatos e primeiro ministro e é desta com o projecto do PSD existe apenas uma urna e logo a passa a existir uma
Caro Dones,
ResponderEliminarReparo que não é um nosso leitor antigo pois saberia que já demos muito destaque ao tema da revisão da lei eleitoral; ainda tenho para aqui uns xls cruzados com dados do stape e artilhados com VB. Da matemática em jogo percebo eu, e se quiser, vamos a isso.
O exercício na Câmara dos Comuns é excelente, mas esbarra na mesma deficiência (no sentido de shortcoming) que as minhas simulações: não sabermos o que aí vem.
Eu acredito que o PS manterá o sistema que tem sido "ventilado" há algum tempo: "alemão" e distrital. Assim sendo, as minhas preocupações têm que ver com jerrymandering e outras "engenharias" do género.
A direita em Portugal é, a par do futebol, do mais cómico que pode haver. É constituída por uma série de pessoal que a todo o custo quer "sair do armário", mas que por razões de pudor político tenta disfarçar ideais autoritários, reaccionários, elitistas, proto-racistas e xenófobos com ligeiras preocupações de carácter social, por vezes quase a raspar a esquerda e fazendo a apologia de um estado ultra liberal. De uma vez por todas assumam-se!
ResponderEliminarTenham um discurso coerente com aquilo que defendem, sejam "conservadores", assumam a faceta reaccionária (sem ofensa!)e criem um partido verdadeiramente de direita.
Agora não façam como o Paulo Portas que andava nos mercados a cumprimentar o povo. Se tivessem bandeiras vermelhas diria que eram comunistas.
Enfim!...
Caro eumesmo,
ResponderEliminartenta disfarçar ideais autoritários, reaccionários, elitistas, proto-racistas e xenófobos com ligeiras preocupações de carácter social, por vezes quase a raspar a esquerda e fazendo a apologia de um estado ultra liberal
anda um pouco baralhado, não anda?
Caro AA
ResponderEliminarNão confuda liberalismo com liberdade. São conceitos completamente diferentes.
O liberalismo convive perfeitamente com estados autoritários, basta olhar (por exemplo) para alguns estados africanos e para a China.
Agora meu caro amigo (permita-me este atrevimento), obviamente que Portugal necessita de uma verdadeiro partido de direita e não de uma anedota chamada CDS. E digo isto com toda a sinceridade, embora sendo de esquerda, reconheço que o nosso espectro político necessita de equilíbrio. Vejam lá que até foram ultrapassados por um partido trotskista (como disse o Paulo Portas irritadíssimo nas últimas legislativas) como o Bloco de Esquerda (com o qual particularmente simpatizo).
(...)"Luís Nobre Guedes [LNG] referiu que regressa à vida partidária porque observa que o país está melhor"(...)
ResponderEliminarLá vai o país piorar!
Em contrapartida lá vamos poder rir mais um pouco!...
Nem a China nem a esmagadora maioria dos Estados africanos são democracias liberais.
ResponderEliminarO liberalismo não tolera a falta de liberdade, nem a inexistência de Estado de Direito.
Não quer isto dizer que defenda mudar regimes à bomba: o comércio livre mina muito mais o autoritarismo ditatorial de qualquer regime antidemocrático.
PS - LNG, que eu tenho em boa conta intelectual, está longe de ser "um liberal", como pode ser apreendido das notas da entrevista.
A geande conclusão da entrevista para além da equidistancia construtiva entre a a direcção e a "oposição" à direcção, é que LNG consegiu uma total reabilitação politica como não há memória em Portugal.
ResponderEliminarHá um ano tinha sido acusado de corrupção o seu escritório de advogados foi devassado pela comunicação social que filmou as buscas em directo foi capa de vários jornais com acusações de corrupção.
Aguentou estoicamente, conduziu o processo judicial de forma exemplar e conseguiu algo inédito o MP ter antes do fim do processo retiado todas as suspeitas que com ele racaiam.
Há um ano estava acabado politicamente. Com esta entrevista fechou-se o circulo da sua reabilitação. Já não se trata do Nobre Guedes dos Sobeiros mas de alguém que é essencial para o futuro da direita em Portugal.
Podemos não gostar do estilo e achar o senhor até vaidoso e irritante mas tems de tirar o chapeu é um estratega por excelencia.
Caro Anonymous,
ResponderEliminarMais do que uma reabilitação política pessoal, julgo que LNG fez um manifesto para a reabilitação política do partido. Disse que tem de se fazer grande, comportando-se como um grande...