Texto publicado no suplemento Dia D da edição impressa do Público de 2006/11/03:
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Nanny é uma palavra inglesa que designa uma pessoa que tutela crianças na ausência dos pais. Do estereótipo britânico—, a austera perceptora de filhos de famílias abastadas—, ao equivalente americano e burguês—, a adolescente que ganha uns trocos a fazer babysitting—, a nanny é encarregue pelo poder paternal de zelar pela segurança e bem-estar dos filhos, e corrigir comportamentos indesejados.
O Nanny State parte do princípio que a liberdade das pessoas leva-as por vezes a tomar decisões obviamente erradas. Seria possível a imputar às pessoas as responsabilidades pelas consequências das suas próprias decisões. Seria possível aliviá-las dessas responsabilidades. Mas, para o seu próprio bem, é preferível que não possam escolher mal.
O Nanny State entende que primeiro estão os serviços do Estado, aqueles que providenciam tudo o que o cidadão pode desejar (hospitais para o dói-dói, escolinhas para aprender, porquinhos-mealheiro para a velhice), que têm de ser pagos via impostos. Fica então o cidadão com uma mesada para gastar no que entender.
Mas não em tudo o que entender. Alimentos pouco saudáveis não têm lugar à mesa; as bebidas alcoólicas são vendidas a preços de gente grande; quem quiser fumar vai para o canto, e há coisas muito más que são ilegais. Os medicamentos são para manter longe do cidadão. Deve comportar-se. Nunca deve ferir os sentimentos dos outros. Aliás, deve ser obrigados a conviver com os outros. Deve poupar água e electricidade, e reciclar tudo o que não se mexa. É sua obrigação ser um bom cidadão e não apoquentar a nanny.
Mesmo que um cidadão não esteja a fazer nada de mal, é provável que seja culpado de alguma coisa. Por isso, tem que andar sempre identificado. Todos os bens e serviços e espaços têm que ser previamente regulados, fiscalizados, aprovados. Algumas companhias têm que ser aprovadas pela nanny, especialmente se forem profissionais. E há castigos para tudo. Por exemplo, por ir para o mar de bandeira vermelha. E porque a sociedade teima em não aprender, a nanny é obrigada a ser cada vez mais exigente.
A esfera privada do indivíduo é progressivamente erodida para dar lugar à definição administrativa do que devia ser a acção de um cidadão consciencioso. Raramente se fala de individualidade: o Nanny State é uma doutrina colectivista. Radica nas mais impolutas intenções humanistas de reforma da sociedade, e portanto desenvolve-se com a mais grotesca falta de escrúpulos éticos. Caso a caso, conforme a moda, postula que o outro procede mal, que o outro causa a si próprio dano, que o outro representa um mau exemplo para “a sociedade”. O Nanny State não concebe que o outro tenha Liberdade: o outro tem que se submeter.
Algumas medidas parecem razoáveis, pequenas cedências ao politicamente correcto. Mas um dia, alguém se questiona: “porquê?”. Por que razão não posso eu decidir o que quero fazer da minha vida, definir os meus objectivos, assumir riscos, viver para os meus valores, se a ninguém posso prejudicar a não ser eu próprio? Não é para isso que cada um de nós se torna adulto? Para poder conduzir a sua própria existência? No momento em que um indivíduo atreva-se à emancipação, a nanny invoca a legislação e o poder do Estado. A nanny transformou-se num guarda prisional. O indivíduo atreveu-se a não ser um cidadão cumpridor. Passou a ser "o outro" de alguém.
A ideia do Nanny State é pertinente, principalmente como aviso de uma derrapagem futura na qual as nossas sociedades podem cair, mas parece mais um retrato de Portugal do que nos USA/UK. Por exemplo, não há BI na Inglaterra nem, creio, nos Estados Unidos. No ensino é em Portugal que o Estado decide para que escola vão as crianças, quais os detalhes mais ínfimos do programa de cada disciplina, quais os profs. que cada escola recebe...
ResponderEliminarNo fundo, o Nanny state é o paternalismo social...
ResponderEliminarAbaixo o Nanny State!
ResponderEliminarQue State?
Foi um excelente artigo do Dia D, como já me habituei, e também um bom exemplo do cenário que vivemos em Portugal.
ResponderEliminarÉ importante para Portugal liberalizar mais a economia, tanto do ponto de vista do empreendedor como do consumidor.
Claro que este seria claramente um tópico de discussão bastante alargado, mas que gostaria de ver mais debatido pelos media e pelos Portugueses.
Quanto aos outros tópicos do Nanny State não irei comentar, pois os EUA e UK exercem "controlos" semelhantes.
Continuarei a ler.Tens razão quanto ao paternalismo social, AA
ResponderEliminarErtai, muito obrigado.
ResponderEliminarO nannystatismo só é um conjunto desconexo de políticas avulsa porque não tem apelo populista (ou seja, eleitoral). Ninguém vota em quem lhe diz que é incapaz de gerir a sua vida. Mas é quase reflexivo que as pessoas aprovem "as autoridades" quando estas decidem "disciplinar" a sociedade.
Esta é uma forma de poder às margens do controlo democrático, apenas limitada pelos escrúpulos de "quem manda". Porque de resto, não há domínio onde não se possa inventar regras de bom comportamento.
Pode-se dizer que o nanny state é a evolução natural do welfare state. O Estado fornece tantos serviços (originalmente, por socialismo ideológico), tem de haver regras de racionamento (consequência económica), as pessoas têm de se comportar (socialismo comportamental: enter nanny).
Nos EUA e RU, porque têm um substrato político mais liberal, o nanny pode ser isolado como a ameaça que é às liberdades individuais, o que não quer dizer que não esteja em progressão preocupante.
E manifesta-se sempre em "combates" mobilizadores: às drogas, ao alcoolismo, ao tabaco, ao jogo, à tele-dependência, à videojogo-dependência, ao consumismo, à publicidade, à comida que faz mal, às bebidas açucaradas, aos alimentos com suplementos, aos desportos perigosos, à vida inconsequente, à vida improdutiva... aos excessos de expressividade, aos comportamentos não consensuais, à individualidade....