terça-feira, janeiro 31, 2006

♪ Dare


(clicar para ouvir)
http://www.militantplatypus.com/download/mp3s/Wimpy_MP3_Player_Demo/gorillaz%20-%2012%20-%20dare.mp3
Gorillaz, Dare

Desburocratização (2)

A propósito, propõe-se ao Primeiro-Ministro e ao Governo que "tornem visíveis os custos invisíveis" da existência e funcionamento do Ministério da Economia, da Agricultura, da Cultura, do Ensino "gratuito", da Segurança Social universal, dos projectos megalómanos da Ota e do TGV, dos "investimentos públicos", do Plano Tecnológico, das empresas públicas, das políticas de incentivo às exportações, da protecção às indústrias nacionais, das limitações às importações, dos benefícios fiscais por tudo e por nada, dos direitos adquiridos, dos corporativismos, dos impostos directos e indirectos— enfim, do Estado gargantão e foção que nem tem a decência de prestar bons serviços pelos imensos recursos que consome à sociedade.
When it is a question of taxes, gentlemen, prove their usefulness by reasons with some foundation, but not with that lamentable assertion: "Public spending keeps the working class alive." It makes the mistake of covering up a fact that it is essential to know: namely, that public spending is always a substitute for private spending, and that consequently it may well support one worker in place of another but adds nothing to the lot of the working class taken as a whole. Your argument is fashionable, but it is quite absurd, for the reasoning is not correct.

Fréderic Bastiat, What Is Seen and What Is Not Seen

Desburocratização (1)

José Sócrates anunciou no Parlamento a criação de um "Programa de simplificação administrativa e legislativa" com o objectivo de desburocratizar a administração pública e reduzir custos admistrativos— numa primeira fase, "tornar visíveis estes custos invisíveis". Uma medida a aplaudir a apoiar.

Diz o António Ribeiro Ferreira n'O Estado do Sítio ("Boas medidas"):
As dez medidas anunciadas por Sócrates para combater a burocracia são excelentes notícias para as empresas e os cidadãos. Mas mais importante do que o alcance concreto de cada medida é a cultura política que o primeiro-ministro quer instalar neste sítio. Importa combater o Estado totalitário, omnipresente, impune e opressor da iniciativa privada. [...] O espantoso disto tudo é que seja um socialista pragmático a pôr em prática estas medidas. Vinte valores para José Sõcrates.

Mucha (2)


(clicar para aumentar)
Alphonse Mucha, Job

De paliativos não vive o homem

Diz o João Miranda, no Blasfémias:
Diz-se que os problemas da Segurança Social se devem à queda da natalidade. O que não se diz é que é suposto que a Segurança Social garanta a segurança. Daí o nome. A segurança, por exemplo, contra coisas relativamente imprevisíveis como a evolução da natalidade. Ora, se a Segurança Social não consegue sequer garantir a segurança contra variações na natalidade é porque tem erros de concepção. São esses erros de concepção que deviam estar a ser discutidos e não a necessidade de aumentar artificialmente a natalidade. Fazer filhos por motivos puramente instrumentais é uma coisa feia.

É por isso que a discussão acerca da reforma do sistema de segurança social não deveria andar simplesmente à volta de paliativos que não enfrentam o problema: políticas de incentivo à natalidade, aumento da idade de reforma ou aumento das contribuições. Porque todas essas medidas, e em rigor todas as medidas que maioritariamente são preconizadas habitualmente, não fazem desaparecer o ponto problemático do actual sistema e que é, como já disse algures, o facto de assentar nas transferências, que mais não são do que promessas do Estado, esse grande cumpridor de promessas como todos sabemos.

Enquanto assentarmos o sistema de segurança social numa base que impede a capitalização e a responsabilização, não estaremos a apontar baterias para a resolução do problema. É preciso que o sistema possibilite o aumento real e sustentado do capital alocado à satisfação desta necessidade de prover segurança social aos cidadãos. Esse aumento, para ser efectivo, não pode resultar de maquilhagens no sistema, de forma a obrigar os cidadãos a pagarem e contribuírem mais, ou a trabalharem para além do devido. Mas já pode fazer-se através da capitalização. Seria importante pensarmos nisto sem preconceitos ou juízos de valor.

Notas sobre transportes (FHK)

Aparentemente o argumento que usei no post "Notas sobre transportes (4)" é da autoria do economista Frank H. Knight, "fundador" da Escola de Chicago:
He also made contributions to the arguments about toll roads. He said that rather than congestion justifying government tolling of roads, privately owned roads would set tolls to reduce congestion to its efficient level. In particular, he developed the argument that forms the basis of analysis of traffic equilibrium, and has since become known as Wardrop's Principle.

♪ Vocalise

(clicar para ouvir)
http://www.allmorris.com/~brett/Tunes/rachmaninov%20-%20vocalise%20itzhak%20perlman.mp3
Rachmaninov, Vocalise (Itzhak Perlman)

A Centesimus annus e o mercado (1)

João Paulo II, encíclica Centesimus Annus (1991) — "IV. Private property and the universal destination of material goods":
The modern business economy has positive aspects. Its basis is human freedom exercised in the economic field, just as it is exercised in many other fields. Economic activity is indeed but one sector in a great variety of human activities, and like every other sector, it includes the right to freedom, as well as the duty of making responsible use of freedom.
It would appear that, on the level of individual nations and of international relations, the free market is the most efficient instrument for utilizing resources and effectively responding to needs.
The Church acknowledges the legitimate role of profit as an indication that a business is functioning well. When a firm makes a profit, this means that productive factors have been properly employed and corresponding human needs have been duly satisfied.
The economy in fact is only one aspect and one dimension of the whole of human activity. If economic life is absolutized, if the production and consumption of goods become the centre of social life and society's only value, not subject to any other value, the reason is to be found not so much in the economic system itself as in the fact that the entire socio-cultural system, by ignoring the ethical and religious dimension, has been weakened, and ends by limiting itself to the production of goods and services alone.

[ADENDA: a não perder os destaques do Bruno Gonçalves no Bodegas, que me passaram despercebidos — este era para contrapor ao post do AMN... AA]

Re: very boring (1)

1. Diz o Fernando Albino ("Very boring (em defesa da simplificação fiscal)") no No Quinto dos Impérios:
Ao contrário do António e do CN não acho que as medidas apresentadas pelo Governo visando a simplificação fiscal estejam erradas. Pelo contrário, tirando a parte das informações bancárias que é, claramente, atentatória do indivíduo, daquilo que li e vi nos telejornais acho que é uma medida potencialmente benéfica para a grande maioria dos contribuintes.

[...] Podemos discutir todas essas questões (a meu ver acessórias) mas a medida em si é benéfica e por isso merece, pelo menos, apoio condicional e sob reserva.

2. Primeiramente, ponhamos de parte a [minha] caricatura recorrente do Estado como o Grande Satã— uma estrutura malévola destinada a sugar o sangue fiscal da Economia, um cancro sempre crescente e opressor, etc etc. O animismo não leva a lado nenhum, apenas acrescenta algum colorido a situações que não têm piada nenhuma.

Convenhamos: apesar das liberdades económica das pessoas estarem mitigadas e serem continuamente atacadas pelo Estado e por quem este protege, não vivemos em ditadura, nem temos razões prementes para temermos sermos chicoteados pelo caminho da servidão. Pelo menos de imediato. Mas relembrando Reagan, "Freedom is never more than one generation away from extinction", razão suficiente para não descurarmos a vigilância que temos direito de exercer como cidadãos.

A qualquer pessoa interessa que o Estado funcione bem. O mau uso de dinheiros "públicos" é um insulto aos contribuintes. Isto aplica-se, naturalmente aos serviços fiscais. Retórica à parte, interessava que o Fisco funcionasse bem melhor, e que colocasse antes dos seus, os interesses do contribuinte. Mas o que ser verifica é que o faz à custa dos direitos e liberdades das pessoas, sem que estas vejam retorno que funcione em seu benefício.

(continua)

Sai hoje!

Revista Atlântico, agora com blogue e tudo, em http://www.revista-atlantico.blogspot.com
Colaboram neste número, por ordem alfabética (yes!!!): Adolfo Mesquita Nunes, André Azevedo Alves, Alexandre Borges, Bernardo Pires de Lima, Carla Hilário Quevedo, Carlos Quevedo, Constança Cunha e Sá, Eduardo Guedes, Fernando Lima, Fernando Martins, Francisco Mendes Silva, Francisco Trigo de Abreu, Gonçalo Curado, Henrique Burnay, Henrique Raposo, Inês Teotónio Pereira, Joana Marques Lopes, João Luiz Neves, João Marques de Almeida, João Pereira Coutinho, José Avillez, Leonardo Ralha, Luciano Amaral, Lucy Pepper, Manuel Falcão, M. Fátima Bonifácio, Nuno Costa Santos, Nuno Garoupa, Nuno Sena, Pedro Lomba, Pedro Marques Lopes, Rita Barata Silvério, Rodrigo Moita de Deus, Rui Ramos, Sérgio Coimbra, Susana Nunes e Vasco Rato. Algum nome familiar?

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Aí está!

O primeiro de muitos posts, assim o esperamos, de VPV (assim mesmo, VPV).

♪ ...and let me play among the stars

(clicar para ouvir)
link
Frank Sinatra / Count Basie, Fly me to the moon

Momento Intimista do Dia

para esperar sentado, cadeiras que evocam o que se espera em http://www.vernerpanton.com/

Vacilo tantas, mas tantas vezes. São os dedos que escapam, as palavras já ensaiadas e acomodadas umas nas outras, prontas para sair. Mas resisto sempre, mesmo sem prémio, ou melhor, não gostando do prémio. E não há reconhecimento público desse feito que me engrandece, bem sei. Porque no dia que o houvesse, no dia em que te dissesse, tinha deixado de resistir e já não haveria nada a gabar.

A Doutrina Social da Igreja e o Princípio da Subsidiariedade

Disse já que a Doutrina Social da Igreja (DSI) tem sido fértil em interessantes reflexões sobre o papel do Estado nos dias que correm e na defesa do princípio da subsidiariedade da actuação estadual. De facto, a DSI parte do princípio de que as liberdades não seriam respeitadas, nem em palavra nem em espírito, se prevalecesse a tendência a atribuir ao Estado e às outras expressões territoriais do poder público uma função centralizadora e exclusivista de organização e de gestão directa dos serviços, ou de rígidos controles, que acabariam por desnaturalizar a sua legítima função (…) segundo o princípio da subsidiariedade (João Paulo II).

Para dar resposta a esta asserção, a DSI erigiu como seus os princípios da subsidiariedade e do desenvolvimento dos corpos intermédios, neles procurando as soluções que impeçam o centralismo estatal. São estes princípios que, no entender da DSI, fomentam a existência de comunidades intermedias, em claro reforço da liberdade e da iniciativa dos indivíduos e proporcionando um estímulo eficaz de energias, até para o próprio Estado.

Para a DSI, importa dar condições para que as comunidades intermédias, das quais a familia e o município são das mais importantes, possam exercer o seu importante papel na sociedade, despertando ao máximo as iniciativas criadoras e a responsabilidade dos seus membros, podendo o Estado ficar dedicado àquelas tarefas que hoje somente ele pode empreender.
Curiosamente, estes princípios, muito explorados pelas democracias cristãs europeias, sobretudo no pós-guerra, não têm merecido grande reconhecimento dos partidos portugueses que, de certa forma, se consideram herdeiros da tradição democrata cristã. Quer o PSD quer o CDS, apenas programaticamente têm vindo a revelar interesse pelo assunto, quase esquecendo que o Programa do PPE, a que ambos se vinculam, defende a existência de um poder político descentralizado até onde for possível, advogando a transferência de competências para os níveis intermédios.

Hamas (2)

Em eleições democráticas, os eleitores delegam nos seus representantes, os poderes legalmente estabelecidos para o cumprimento das suas funções. Evidentemente que, em qualquer delegação, o delegante apenas pode delegar os poderes de que dispõe. Qualquer enfabulação da vitória do Hamas que esqueça este princípio será mera hipocrisia e uma despudorada tentativa de legitimar o que não pode ser legitimado.

Deus Caritas Est

O João fez o favor de traduzir a Encíclica de Bento XVI. E aqui pode ser lido um resumo. Nós temos o dever de agradecer e realçar.
A ler com atenção, não só pelo interesse de conhecer o teor deste papado, como também, e essencialmente, porque as encíclicas provaram ser excelentes sistematizações das reformas que urge fazer no funcionamento do Estado. A muita gente poderá dar urticária a Doutrina Social da Igreja. A mim não.

Hamas (1)


Jörg Haider

Mucha


Alphonse Mucha, A Abolição da Servidão na Rússia

Os "sabotadores" serão fuzilados

Os empresários em nome individual vão começar a pagar impostos com base num lucro presumido pelas Finanças.

"Empresários com limite mínimo no IRS mesmo com rendimentos baixos" (Agência Financeira)

"Simplificação" do IRS (3)

4. É óbvio que a "eficiência fiscal" propagandeada não passa de areia para os olhos. O Estado cai pesadamente sobre os contribuintes, subtraindo-lhes instantaneamente o dinheiro a que se arroga ter direito, por serviços com custos indeterminados. Criar um canal directo ao bolso dos contribuintes não é eficiência, é eficácia.

Eficiência seria tornar mais transparente e mais simplificada a nossa labiríntica fiscalidade, e aproveitar para aligeirar e responsabilizar a máquina fiscal. Eficiência é aferida por medidas de performance. Seria por exemplo elevar o padrão de atendimento dos serviços fiscais ao nível dos call centers de uma qualquer empresa privada— ou seja, respostas às reclamações em prazos de menos de uma semana.

O que se passa é uma vergonha:
A Direcção-Geral dos Impostos (DGCI) quer reduzir para metade o tempo que demora a responder às reclamações dos contribuintes em 2006, apesar de em 2005 o tempo médio de resposta ter aumentado para os 14,7 meses (cerca de 14 meses e 21 dias).

"Resposta a reclamações dos contribuintes reduzida a metade" (Diário de Notícias online)

"um bando de fanáticos"?

Extracto do editorial "Liberalismos" de José Manuel Fernandes no Público edição impressa:
Na sequência das eleições presidenciais vai uma interessante discussão na blogosfera sobre o liberalismo. [...] Aparentemente os mais novos intervenientes neste debate são também os mais idealistas [...] Mas isso fará deles um bando de fanáticos?

Talvez haja outra forma de avaliar a interessante troca de argumentos: notar como os mais novos, os que estão a chegar ao mercado de trabalho, os que perderam a esperança do emprego garantido e já não acreditam na reforma segura, são hoje, de um modo geral, mais atrevidos, mais atreitos ao risco, estão melhor preparados e tâm mais ambição. Não todos, é certo, mas basta pensar que enquanto há uma geração ter uma formação superior era uma garantia de sucesso, hoje mais depressa leva ao desemprego e o último lugar onde elese podem procurar emprego é nos serviços do Estado, que estão a abarrotar. Os que vivem esta nova realidade— vivem, não teorizam— gerarão porventura um Portugal diferente. E seguramente mais liberal em todos os aspectos.

Dicotomia (4 1/2)

A ler "Esquerda e direita (1)" de Mário Pinto no Público, edição impressa:
No plano das ideias e dos valores, uma tal redução retórica é intelectualmente mistificadora, visto que escamoteia a real diversidade do amplo leque das ideias filosófica, doutrinárias e políticas, subjacente às várias posições no combate democrático. (...) A dicotomia esquerda direita é maniqueísta, ideologicamente falsa e politicamente enganadora.

"Simplificação" do IRS (2)

3. Diz-se que esta simplificação representará uma grande melhoria de "eficiência fiscal". Na prática, o imposto é escondido dos contribuintes, que deixam de ter a verdadeira noção daquilo que o Estado lhes subtrai.

Se a parcela principal do imposto sobre os rendimentos singulares de trabalhadores por conta de outrem deixa de ser responsabilidade do indivíduo, aquela passará a ser considerada psicologicamente como encargo da empresa empregadora.

Ora, a discussão dos salários sempre foi feita implicitamente em função da sua utilidade, ou seja, após impostos. Sempre assim foi no mercado de emprego, que sempre transferiu os custos de empregar para o consumidor na forma de preços mais altos ou escassez de bens e serviços. Agora esta negociação pode passar a ser explícita.

O IRS, por preconceitos ideológicos, é "progressivo". Quanto maiores os rendimentos, maior é a taxa. Acontece que os salários são definidos pelo mercado em função da produtividade dos trabalhadores. Na prática, a fiscalidade dificulta a vida aos trabalhadores mais produtivos— aqueles que na gíria socialista "mais podem contribuir", e o assunto "morre por aí".

Na situação ridícula de termos um Imposto sobre os Rendimentos Singulares que se aplica às entidades empregadoras, ficará patente que o Estado de facto penaliza as empresas [e indirectamente, os consumidores] que dependem de trabalhadores e ocupações mais produtivos— aqueles que pelas forças da concorrência disponibilizam no mercado bens e serviços mais baratos e de melhor qualidade... para todos.

(continua)

"Simplificação" do IRS

1. O Governo anunciou que pretende implementar até ao fim da legislatura um sistema pelo qual as declarações de IRS passam a ser desnecessárias. Passarão as empresas a serem reponsáveis pela declaração e pagamento do imposto, cabendo aos contribuintes completar os dados.

2. A medida é de uma violência inaudita. Como diz o CN no Causa Liberal, ...o Estado é já tão eficiente a colectar informação e rendimentos que já nem precisa que declaremos o que quer que seja. Caminhamos para o totalitarismo....não, já lá chegamos.

É lícito pensar que esta medida não parará por aqui. Não haverá razão que impeça que as empresas não tenham de declarar ao Estado que serviços prestaram, que bens venderam, e a que contribuintes o fizeram. Recairia sobre o contribuinte a verificação dessa declaração, e ao Estado a obrigação de "melhor" distribuir a carga fiscal em função dessa informação.

(continua)

♪ Mozart: uma fuga numa abertura

(clicar para ouvir)
http://www.papageno-music.com/start/ouverture.mp3
Wolfgang Amadeus Mozart, Die Zauberflöte, abertura
(arranjada para quarteto de cordas)

Dicotomia (4)

7. Tal como na redução Esquerda-Direita, os critérios pelos quais as políticas serão avaliadas (os "eixos") influenciam directamente a interpretação que as pessoas passarão a fazer do seu posicionamento político.

No exemplo dado, o eixo da regulação pretende representar um grau abstracto de estatismo do conjunto das respostas às diversas questões políticas a que as pessoas são confrontadas no questionário. Obriga-se as pessoas a encararem até que ponto se opõem a medidas liberais, e consequentemente preferem os modelos de socialismo colectivista face aos ideais de liberdade individual.

Não se trata, contudo, de um "liberalómetro"— não só pelas limitações do modelo, como por não ser possível ou intelectualmente correcto (ou mesmo "liberalmente correcto"?) identificar um ponto ou curva ou região definida— enfim, um resultado óptimo— que possa em rigor classificado como "liberal".

Estes modelos têm contudo a vantagem de devolverem a ideologia e os valores à análise dos posicionamentos políticos.

8. Verifica-se assim que o que anteriormente se designavam por "extremos" que se tocavam (ideologias que aplicadas tendem para o totalitarismo, como o comunismo ou o nacional-socialismo) não passam de vizinhos na gama ultra-estatista da nova classificação.

As verdadeiras extremidades encontram-se entre estes totalitarismos e os regimes de protecção da livre iniciativa individual. Ou entre as ideologias que defendem máximos controlos em oposição à mínima restrição da ordem moral (fundamentalismos e progressivismos).

Essas extremidades não se tocam, por muitas transformações de coordenadas que sejam efectuadas pelos defensores daqueles campos ideológicos que se caracterizam por tentar conciliar pragmaticamente umas e outras concepções.

(continua)

Parabéns!

- ao Tugir por dois anos de actividade fora-de-série;

- e aos nossos amigos d'O Sinédrio pelo seu primeiro aniversário blogosférico.

domingo, janeiro 29, 2006

Dicotomia (3)

6. É uma pedrada no charco que a Política deixe de ser categorizada de forma unidimensional. Por exemplo, testes simples como os que são aqui apresentados utilizam dois eixos cartesianos— dos valores morais (tradicionalismo/progressivismo), e da preponderância do Estado na vida dos indivíduos (liberalismo/estatismo).

Por muito que sejam simplificações, tornam vísível o espectro de opções políticas para além de dicotomia redutora Esquerda-Direita, e põem a nu que as pessoas têm mais graus de liberdade de opinião política do que anteriormente supunham.

Existe uma devolução de poder à sociedade a partir do momento em que o posicionamento político das pessoas deixa de ser analisado em termos de conformidade ou alinhamento com a curva "oficial" de posições políticas (invariavelmente coincidente com o posicionamento histórico ou presente das políticas defendidas pelos partidos políticos instalados).

Torna-se mais fácil e directo contestar pacotes inteiros de políticas partidárias ou governamentais "vendidas" como sendo de um determinado posicionamento "correcto". Torna-se evidente que estas medidas assim agregadas, obtidas por consenso e situacionismo político, acabam por não ser representativas das opções políticas de nenhuma pessoa ou grupo em particular, sendo meras instâncias de princípios ideológicos vagos. Extravasam o que os indivíduos desejam e perdem de vista a satisfação dos ansejos de quem a que se destinam.

(continua)

Waterloo

Wallpapers dos ABBA para o menino e para a menina em http://www.abbasite.com/

Percebi que estava numa festa de 30 anos quando os ABBA e os Bee Gees foram saudados com entusiasmo geral. Já era tarde para confrontar os meus devaneios musicais e deixei-me ficar. Não é todos os dias que temos o pretexto ideal para dançar as músicas que fingimos odiar.

Momento Intimista do Dia

Também neva em Lisboa, feito quase inédito e de importância a atribuir por cada um. No que me diz respeito, termina um dos últimos pretextos para delirar e desejar o que não me está destinado. Ficam os chocolates de ontem e os limões de há uns dias, que ainda servem para o chá e quase substituem as noites à volta de cinco ou seis palavras.

Momento Intimista do Dia

Entrou devagar como quem soubesse que os enfeites ali estavam para disfarçar e alinhando no inteligente disfarce de quem se deixa enganar. Não tardou até que vencesse, num silêncio que ainda tem muito que explicar. Ficam para depois as explicações, que é tempo de saborear o tempo em que as palavras são demais.


Chocolates com primor em www.jphevin.com

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Here we go again

"Lá vamos nós outra vez" do Helder n'O Insurgente:
No primeiro caso ["A discussão das ideias Liberais no plano abstracto, enquanto doutrina"], é impossível haver cedências ou compromissos. O Liberalismo, a ser aceite, não pode sê-lo com base em meias verdades, na demagogia e na mentira. [...]

Distinta é a aplicação do Liberalismo à realidade. Ao contrário de todas as outras doutrinas, o Liberalismo não quer adequar a realidade à ideia, mas sim o contrário. Por isso é aberta e evolui sem esforço. Neste caso há espaço apenas para o possível e nenhum "liberal-estalinista" o ignora. Sabe é que todos os dias esse possível é ampliado ou reduzido.

Fica o compromisso de tentar fazer mais vezes a ponte entre estes dois pontos nos posts do A Arte da Fuga.

Girafismo

Dicotomia (2)

[continuação de "Dicotomia (1)]

4. Ajustou-se um sistema axiológico Esquerda-Direita ao universo das imensas concepções políticas existentes na sociedade. A identificação de importantes correlações entre as ideias políticas, derivadas de agregados de princípios similarmente ordenados, ajudou ao exercício.

Infelizmente, toma-se como um modelo explicativo do sistema político o que é apenas uma ferramenta de análise simplificada. O resumo unidimensional das nuances das ideologias é a negação da própria Política. Depressa as diferenças não passam de projecções num eixo abstracto, desprovidas de profundidade ou expressão.

Em consequência, a sintese contaminou a análise. As políticas classificam-se pelo seu grau de ajustamento ao eixo, e são aceites ou rejeitadas conforme a sua distância a um posicionamento confortável. Prevalece uma mentalidade cartesiana perigosa, que sacrifica a Política— princípios e as ideias— a este tipo situacionismo ideológico.

5. Quem define o referencial do eixo "Esquerda-Direita"? Quem define a origem do referencial— o que é "rigorosamente ao centro"?

Em Portugal, nem esta discussão faz sentido. Cavaco é de centro-esquerda, e o PSD professa a social-democracia (que é por definição um socialismo moderado), mas ambos são continuamente referenciados como sendo de "Direita". O centro, aparentemente, define-se como a média estatística das posições reduzidas ao eixo de toda a sociedade, independentmente de quais sejam.

(continua)

Coisas da Vida

Celebramos hoje Mozart com a pompa que um blogue como este pode oferecer e vamos celebrando outros nomes maiores a um ritmo verdadeiramente antoniano amaralense (ou seja, bom ritmo), mas todos os dias nos entram pessoas pelo blogue dentro que foram ao google e escreveram "natália de andrade".

♪ Fuga pelos 250 anos de Wolfgang Amadeus Mozart


(clicar para ouvir)
http://usoc.snu.ac.kr/music-site/mozart/sym-41/sym-41-4.mp3
Wolfgang Amadeus Mozart (27 de Janeiro de 1756 - 5 de Dezembro de 1791)
Sinfonia nº41 "Júpiter" em Dó Maior (K. 551), Molto Allegro

O mistério dos comentários desaparecidos

Alertaram-nos para o facto de alguns comentários feitos pelos nossos leitores só ficarem visíveis uma vez que outros leitores tenham comentado.

Aqui no A Arte da Fuga temos mantido uma política de não intervenção na nossa caixa de comentários ("laissez-comenter", se quisermos). Não temos qualquer moderação, selecção ou edição, nem mesmo mecanismos contra spam, e abrimos mesmo a discussão a anónimos.

Pelo facto, que é desconcertante e desagradável, pedimos as nossas desculpas; do nosso conhecimento tratar-se-á de um bug do mecanismo de edição, que não deve ser exclusivo do A Arte da Fuga porque o código do nosso template é perfeitamente padrão, e os nossos settings não podiam ser mais permissivos. Tentaremos reproduzir este funcionamento deficiente para alertar o Blogger.

Até lá, peço que insistam— até porque fazemos questão de não deixar ninguém sem resposta ou dois dedos de conversa...

O Estado e a Cultura (3)

De cada vez que o Estado assume um papel essencial na preservação cultural, benefiando determinadas manifestações culturais, consoante os titulares do poder de decisão, ele está precisamente a estatizar essas manifestações culturais, que precisam sempre de se acomodar aos critérios definidos pelo Estado para qualificar a cultura que merece ser apoiada. Isto traz duas consequências.

A primeira é de que se cria uma cultura estatizada e oficial. Se é o Estado que dá dinheiro, é ele que selecciona. E selecciona segundo os seus próprios critérios, que tendencialmente lhe são favoráveis. O único sistema que permite a um artista expressar-se livremente é o sistema assente na redução drástica do papel do Estado. Porque é sem o Estado na distribuição do dinheiro para a produção cultural que se fomenta a cultura livre, independente e muitas vezes anti-sistema. É a globalização, por exemplo, que permite as manifestações anti-globalização e as festas anti-globalização e os festivais anti-globalização. E porque? Porque é o sistema que está assente na livre expressão do mérito de cada proposta cultural e não do mérito político de cada proposta.

A segunda, é de que cria um mundo cultural limitado e incompleto. Ao favorecer apenas determinadas manifestações culturais ou determinadas tendências dessas manifestações e atenta a estatização do modelo, torna-se quase impossível o surgimento de alternativas (entre elas, as tais anti-sistema). E se assim é, o consumidor fica com a sua liberdade de escolha coarctada, ao arrepio de todas as contribuições incluídas nos impostos que paga. Num sistema estatizado, o consumidor sente-se impedido de aceder ao que realmente lhe apetece aceder, e vê as suas tendências culturais serem formatadas por terceiros. Perante isto, acontece muitas vezes que são estes consumidores a exigir do próprio Estado que proteja esta vertente cultural que está a desaparecer, sem muitas vezes ter consciência de que o está precisamente pela intervenção do Estado. Daí que um sistema cultural dependente do Estado será sempre incompleto e tendencioso.

(continua)

Momento Intimista do Dia

Primeiro a cor, depois o cheiro e o tempo já se arrumou nas conveniências do pecado. Ficas. Depois o travo, aligeirado por tudo o resto, como quem já sabe o que quer e não precisa de se acomodar. Ficas. Depois o cheiro outra vez, persistindo na presença, mesmo quando não estás. Ficas.


limões a pedido e a salvo da minha inveja em www.hormel.com

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Discussões liberais

- "O Estado" de Constança Cunha e Sá n'O Espectro:
O liberalismo que por aí circula parte de um pressuposto interessante: a "sociedade civil" quer ser reformada. [...] O pressuposto estaria garantido, quanto mais não seja pelo seu carácter épico, não fosse o inconveniente desta "sociedade civil", ambiciosa e autónoma, de facto, não existir. Em Portugal, a "sociedade civil" é um produto do Estado que a emprega e a subsidia e lhe garante o essencial.


"Sociedade Civil"
O liberalismo que por aqui circula parte de um pressuposto igualmente interessante. As pessoas têm o direito de não pertencerem a uma "sociedade civil" epicamente "reformada" pelo Estado.

É um pressuposto que é "interessante" não só porque é "curioso", mas também porque radica no conceito do "interesse" e no direito das pessoas em terem liberdade de escolha nas opções que afectam a sua vida.

É uma questão de princípio rejeitar a construção dirigista de uma "sociedade melhor" quando se constata que tal só é possível "corrigindo" a liberdade das pessoas ("cidadãos"), sujeitando-as a arbitrariedades contra as quais não têm qualquer protecção.

A "sociedade civil", protegida de si própria, inerte, apática e devota ao estatismo é um "produto" do Estado. Então, que este se retire, e reconheça o direito das pessoas de serem produtos de si mesmas.

A não perder, no seguimento do post de CCS:
- "A direita pode ter emenda" do Eduardo Nogueira Pinto n'O Acidental;
- "A Oportunidade e o Sucesso" do Bruno no Desesperada Esperança.

Alegre e os partidos

A notável performance de Manuel Alegre deveu-se, em parte, ao voto de protesto de muitos portugueses contra o sistema partidário que domina a política activa portuguesa. Demonstra, como muito bem escreve José Pacheco Pereira hoje no Público (edição impressa) "a lenta dissolução dos partidos".

Passados mais de 30 anos dos sobressaltos da Revolução de Abril e respectivas sequelas, a democracia portuguesa começa a amadurecer, e a demonstrar— tal como identificava Tocqueville na sociedade americana—, um esfriamento das paixões. Os partidos abandonaram doutrinas e ideologias como centro da sua actividade, sucumbindo aos equilíbrios de poder e oportunismo de agenda. O seu discurso é cada vez mais homogéneo, e o brilho da retórica e do combate político foi substituído pela cobardia das ambiguidades.

Alegre representa uma "chapada de luva branca" no sistema partidário, demonstrando que há vida para além dos partidos, e que a sociedade pode apresentar alternativas. O passado de militância partidária de Alegre, que lhe permitiu recolher muitos apoios (é verdade!), não é suficiente para menorizar o seu feito. Para compor o quadro, foi eleito Cavaco Silva, um político visto como antagónico aos aparelhos partidários.

Numa perspectiva liberal, não alegra especialmente que haja alternativas não-partidárias para alcançar o poder. Antes é motivo de esperança (e preocupação) que os partidos estejam a perder o monopólio da representação política. Existe cada vez mais a percepção que o poder está mal entregue aos partidos, e que algo pode mudar.

Mas o paradigma ainda se mantém nas mentalidades como o único possível. Ainda falta muito para que exijam dos partidos e do Estado a descentralização de muitas decisões que hoje são consideradas "políticas" mas que deviam ser apenas pessoais.

Leituras recomendadas

- "Para além da presidência de Rui Ramos no Diário Económico;

- "Uma questão de coragem" do Tiago Mendes também no Diário Económico;

- "Israel Kirzner" do Miguel n'O Insurgente: "A Agência Sueca para o Crescimento Regional e Económico atribuiu o seu prémio anual ao economista Israel Kirzner.". Muito merecido!

Um texto notável


Émile Zola, "J'accuse...!" (13 de Janeiro de 1898),
texto em francês e inglês

Sobre as esperanças depositadas em Cavaco Silva

Usurpação de um texto notável: aplique-se à sustentabilidade da Segurança Social, à credibilização da Justiça, à reforma das instituições, à retoma económica...:
This is the plain truth, Mr. President, and it is terrifying. It will leave an indelible stain on your presidency. I realise that you have no power over this case, that you are limited by the Constitution and your entourage. You have, nonetheless, your duty as a man, which you will recognise and fulfill. As for myself, I have not despaired in the least, of the triumph of right. I repeat with the most vehement conviction: truth is on the march, and nothing will stop it. Today is only the beginning, for it is only today that the positions have become clear: on one side, those who are guilty, who do not want the light to shine forth, on the other, those who seek justice and who will give their lives to attain it. I said it before and I repeat it now: when truth is buried underground, it grows and it builds up so much force that the day it explodes it blasts everything with it. We shall see whether we have been setting ourselves up for the most resounding of disasters, yet to come.

O caso Google (2)

(sobre o post "O caso Google": reflexão sobre o papel da privacidade na sociedade "do conhecimento", para o qual não existe qualquer "regra de ouro")

A sociedade um sistema de indivíduos unidos por relações de carácter muito díspar, não inteligíveis ou assimiláveis, partilhando uma informação atomizada, descentralizada e não integrável, que é essencial à sua estrutura e funcionamento. É impraticável exigir que a sociedade "esqueça" um indivíduo, mesmo a seu pedido.

Desta informação difusa surge conhecimento que pode ser explorado empresarialmente. É natural que interesse a uma empresa traduzir a sua "intuição" sobre o mercado em agregados estatísticos de mais fácil tratamento. Se obtidos de forma honesta, e se forem anónimos, estes agregados não requerem qualquer restrição.

Mas a informação empresarial sobre as pessoas não é absolutamente anónima. Um merceeiro ou cabeleireiro utilizará a informação que angaria sobre os seus clientes, que conhece pessoalmente, para melhor os servir. Um gestor de conta bancária fará o mesmo. Estabelece-se uma relação de confiança comercial depreende que a empresa, justamente a parte mais forte, não abuse do conhecimento adquirido, seja ou não com intuito lucrativo. O mesmo se passa em qualquer empresa que preste qualquer tratamento personalizado— para que o cliente possa usufruir do mesmo, terá de confiar na idoneidade da empresa e tornar mais permeável a sua esfera de privacidade.

Ora, não é necessário à satisfação do cliente que uma empresa passe as suas informações pessoais a terceiros para que dela se possam servir de acordo com os seus fins. É um abuso da relação de confiança, e só deverá ser aceite consentimento da pessoa interessada. Não só: o respeito pela privacidade do indivíduo exige que este saiba da parte de quem determinada empresa obteve informações pessoais suas, e que possa exigir a sua destruição.

Entre a pessoa e as empresas com quem mantém relações comerciais, as condições de utilização de informação pessoal deverão ser contratualizadas— seja formalmente, ou em disposições legais de defesa do consumidor. Mas em todos os outros casos, o indivíduo tem o direito a devolvido ao anonimato: a ser "deixado em paz".

♪ Burlesco

(clicar para ouvir)
http://music.ibiblio.org/pub/multimedia/pandora/mp3/piano/O_Doan/Liszt,Strauss/burleske.mp3
Richard Strauss, Burlesque

Re: A Esquerda, a Direita e a Cultura (2)

Na continuação de um post antigo "Re: A Esquerda, a Direita e a Cultura", importa questionarmo-nos se a alegada inexistência de "uma comunidade crítica capaz de discernir efectivamente o que conta e o que não conta" é motivo suficente para aceitar acriticamente o status quo cultural que depende do Estado em vez da sociedade.
Por isso convém fazer umas poucas perguntas. Portugal pulula de mecenas? Há alguma orquestra cá na terra em que o primeiro violino seja pago por algum distinto membro das classes mais abastadas? Há muitos exemplos de "homens bons" da "sociedade civil" que patrocinem as artes por convicção da importância destas para a sociedade ou por quaisquer outras razões menos elevadas mas igualmente legítimas? A sociedade portuguesa possui alguma tradição apreciável nesta matéria?

A resposta é: não. Há sem dúvida excepções, mas são, somando tudo, insignificantes. Ora, não se vê como deste quase nada, um quase nada particularmente pobrezinho, poderia surgir alguma coisa, boa ou má. Aliviar o Estado – isto é, os contribuintes – dos encargos com as coisas culturais é uma óptima ideia. Tem, no entanto, um pequeno inconveniente: em Portugal, pelo menos, significava acabar com elas.

Este argumento tem de ser lido no contexto do artigo, que caricatura as posições da Esquerda e da Direita relativamente à Cultura. Assim sendo, também reproduz a propaganda socialista catastrofista ("acabar com elas") que atribui à Direita a vontade que o Estado se retire dos sectores onde não devia estar de forma brusca, irresponsável e penosa.

A Cultura é uma necessidade quase básica do indivíduo social, e não há razão para crer que retirando-se o Estado do seu papel omnipresente, não surjam espontaneamente iniciativas que colmatem as necessidades culturais que serão então sentidas.

Hoje em dia, pelo contrário, vivemos num regime de planeamento central cultural que subsidia os meios de produção independentemente dos sinais de mercado. Consequentemente, há sobreprodução supérflua de alguns bens culturais, privilegiados pelos decisores políticos, e subprodução dos bens culturais que seriam preferidos pelas pessoas— não fosse o proteccionismo e concorrência desleal da parte do Estado. Como tal, o establishment cultural em Portugal está divorciado da sociedade e sobrevive precariamente dos apoios políticos da burocracia.

O mesmo pensamento aplica-se no caso da "solidariedade social"— onde o Estado se retira, os melhores sentimentos, esforços e interesses das pessoas são mobilizados para garantir a "coesão social". O mesmo se o Estado controlasse toda a Economia: a iniciativa privada satisfaz sempre melhor as necessidades das pessoas.

Um desafio para a Direita será libertar-se destes espartilhos intelectuais e problemas de consciência que não só são infundados, como revelam uma profunda desconfiança no dinamismo de uma sociedade livre.

(continua)

To be is to be perceived

Maurice Bendrix: That's not my kind of love.
Sarah: Maybe there is no other kind.

O Estado e a Cultura (2)

Quando se atribui ao Estado o papel de principal motor da promoção cultural, nomeadamente porque se acredita na existência de falhas de mercado, reconhendo-lhe uma incapacidade de fazer perdurar a qualidade e a pureza de um determinado âmbito cultural, está a criar-se um esquema no qual qualquer produtor cultural se vê incapacitado de prosseguir a sua actividade sem o auxílio do Estado. Evidentemente que, se cabe ao Estado contribuir para a produção cultural, quem não consiga obter essa contribuição vê-se prejudicado relativamente aos demais. Quando, ainda para mais, se atribui ao Estado o papel determinante e essencial sem o qual só resta o dilúvio, então temos essa dependência relativamente ao Estado levada ao extremo.

Se cabe ao Estado auxiliar, cabe-lhe escolher, dada a escassez de recursos, quem merece a sua ajuda. E aqui começam os problemas dos critérios de escolha, que todos conhecemos e com os quais não vale a pena perder muito tempo. Com o que vale a pena perder algum tempo é precisamente com as consequências de um sistema desses. Ao escolher, o Estado determina o que sobrevive e o que pode ser visto. Quando se diz que o Estado permite eternizar uma obra que o mercado eventualmente deixaria morrer, não se fala a verdade. O que o Estado faz é eternizar uma determinada obra, a que ele escolheu, a que ele quer, impondo-a. O Estado não assegura a qualidade. O Estado assegura uma determinada qualidade, que é a que lhe convier. Daí que seja frequente a promoção absurda a artistas medíocres, tantas vezes motivadas por interesses vários e diversos que não propriamente a qualidade.

Vamos a José Saramago por exemplo. Se a produção cultural de escrita e edição estivesse dependente exclusivamente do Estado, o seu Evangelho teria ficado na gaveta, ou teria sido publicado em Espanha. O Governo de então achou o livro indigno e não aceitou que o mesmo representasse Portugal num determinado prémio literário. O que teria acontecido se acaso coubesse ao Estado distribuir dinheiros pelas editoras e estas dependessem exclusivamente deste para sobreviver?

Esta maravilhosa e desresponsablizadora ideia de que o Estado permite uma produção cultural de qualidade implica assumir que existe a cultura de qualidade a de menor qualidade e que cabe a este preservar a produção de qualidade. Mas isso mplica criar uma distinção, operar escolhas. E é a cultura um campo fértil para critérios uniformes de escolha? Não me parece. Conheço muito boa gente que não suporta uma linha de Agustina, por exemplo. E gente que lê os chamados livros de qualidade. Para mim, por exemplo, não gostar de Agustina é quase um sacrilégio. Como se distingue o bom do mau? Quem escolhe? E quem escolhe quem escolhe? Quem pode ter essa capacidade iluminada?

Esta impossibilidade de escolha já seria o suficiente para afastar o Estado do papel de agente principal do fenómeno cultural. Mas a verdade é que se persiste nessa ideia e, persistindo, força-se um esquema em que os vários operadores culturais têm de subjugar-se aos critérios de escolha do momento do Estado, como teriam que subjugar-se aos do mercado. E, em consequência, forjam-se opções culturais oficiais ou oficiosas, o que me parece pouco saudável, o segundo problema de que vos queria falar hoje. Ao mesmo tempo, cria-se um esquema de tal forma vicioso, que a existência do Estado vai obrigando à existência de cada vez mais Estado, por forma a compensar os problemas e as falhas que ele próprio cria com a sua intervenção, um terceiro problema de que espero falar em breve.

(continua)

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Decantar

♪ Back to Basics

(clicar para ouvir)
http://www.yung.jp/asx/beethoven/beethoven_sym3_Furtwangler_52.asx
Beethoven, 3ª Sinfonia, Allegro con brio

Irracionalidade das subvenções eleitorais

Diz o Correio da Manhã ("Votos salvam Alegre"):
Dez mil salários mínimos, ou seja, 3,859 milhões de euros, é a subvenção pública total prevista na lei para as eleições presidenciais. Vinte por cento deste bolo, quase 772 mil euros, é distribuído pelos candidatos que obtiverem cinco por cento dos votos. Neste caso, Cavaco Silva, Manuel Alegre, Mário Soares, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã tiveram direito a 154 360 euros cada um. Os restantes 80 por cento (3,087 milhões de euros) são distribuídos pelos candidatos na proporção dos votos.

Nas presidenciais, a sangria de dinheiros "públicos" é garantida num valor fixo, independentemente da vontade dos eleitores ou contribuintes. "Todos os portugueses", claro, têm pouco a dizer— para estas contas, a abstenção, votos nulos e brancos não são tidos para a contabilidade, apenas as percentagens de votos expressos num candidato.

Mas analisemos a irracionalidade matemática desta subvenção. Abaixo de 5%, os candidatos não são considerados merecedores da ajuda do Estado. Mas acima desse limite, quanto mais minoritária for a votação num candidato, mais "caro" fica o respectivo voto ao erário público. A subvenção pública está enviesada para apoiar proporcionalmente mais a campanha dos candidatos que perdem as eleições e que menos mereceram a confiança dos eleitores para serem Presidente de "todos os portugueses".

To add insult to injury, o encargo fixo global que paga o fausto da República (leia-se: cartazes e comícios), é repartido coercivamente por cada contribuinte na proporção prescrita pela nossa modelar fiscalidade. O mesmo voto tem custos diferentes para pessoas diferentes. Como se não bastasse, este dinheiro é distribuído pelos candidatos na proporção aproximada (ver parágrafo anterior) das preferências dos outros cidadãos. Isto é "Democracia"?

Posts anteriores sobre o mesmo tema:
- Financiamento "público" dos partidos;
- Financiamento "público" dos partidos (2);

(via Elise, "Louçã poderá pedir empréstimo")

things that make me go "Grrr"

A justificação das "externalidades" para justificar todo e qualquer intervencionismo estatal.

terça-feira, janeiro 24, 2006

O Estado e a Cultura (1)

Escrevi um post sobre as críticas de algumas companhias teatrais à política de atribuição de subsídios do actual governo. O Tiago teve a gentileza de discordar e fundamentadamente apresentar a sua opinião sobre o assunto, nos comentários a esse post. Os comentários do Tiago, com os quais discordo, levantam questões interessantes e valem bem mais a discussão do que os sapos engolidos este Domingo. Vamos então para uma conversa sobre políticas culturais? Mas em episódios, por favor.
Diz o Tiago, é de facto impressionante que o único argumento que se encontre, uma vez mais, para bater na criação contemporânea, seja o da "subsidio-dependencia". Chega a dar pena tantos anos de discurso por renovar.

O meu post não pretendeu expor o meu pensamento sobre o que deve ser uma política cultural num país como Portugal. Daí que o mesmo careça de um sem número de aspectos, muitos dos quais focados no comentário do Tiago. O meu post limitou-se a constatar que as reivindicações relativamente à política de subsídios culturais por parte de algumas companhias teatrais são absolutamente impossíveis de satisfazer.
Dizem algumas companhias, a quem dei razão, que os subsídios em Portugal são atribuídos em circuito fechado, alimentando companhias que há muito não produzem um espectáculo considerável e que pouco têm contribuído para a renovação do panorama teatral português. Mas isto acontece precisamente porque se confiou ao Estado a tarefa de distribuir subsídios.
Ora, se assim é, e provado que está que quem trabalha no Estado não é insensível a compadrios, amizades, grupos de pressão e pequenos ódios, como podemos sair deste circuito e impedir que algumas companhias sejam beneficiadas injustamente? Se o que as companhias contestarárias pugnam é pela substituição dos titulares do poder de conceder o subsídio, não vejo como pode o problema ser resolvido. Haverá alguém capaz de magnanimamente e do alto da sua sapiência conseguir atribuir com justiça e ponderação os subsídios às diversas companhias? Se as companhias contestarárias forem premiadas, outras haverá prejudicadas que lançam a mesma suspeição que as anteriores lançaram. E quem perde com tudo isto? A meu ver, o consumidor da cultura, que tem alguém a escolher por si e a decidir o que é que ele pode ver ou não ver. Quem sai prejudicado é o amante de teatro que tem de rezar aos santinhos para que o senhor que dá os subsídios seja amigo do tio do primo da namorada do encenador de um determinado espectáculo, para que este seja levado à cena. E é isto que nos traz ao cerne do problema: quem pode escolher o que deve ser visto?

Os subsídios à produção cultural, dada a escassez de recursos, serão sempre subsídios a uma determinada produção cultural e a rejeição de outras. Sempre foi assim e sempre o será. É por isso que todos os anos, com todos os governos, ouvimos as pessoas do mundo do espectáculo reclamar relativamente ao critério de atribuição de subsídios. Mas se assim é, como insistir que cabe ao Estado apoiar financeiramente, e de forma sistemática, as companhias teatrais? Quais? Todas? Algumas? As do Norte? As do Sul?

É que não existe nem pode existir um critério justo. Somos 10.000.000 de portugueses. Que critério justo poderá ter em conta as 10.000.000 perspectivas sobre a cultura? Que iluminado consegue vislumbrar as companhias a apoiar e as companhias a rejeitar? Será justo que uma excelente companhia seja punida e rejeitada para favorecer uma medíocre como tantas vezes acontece? Não me parece. Não é justo para a companhia nem para o espectador.
Do que antecede gostaria de retirar a primeira conclusão (não necessariamente a minha primeira premissa, mas assim vai para comodidade do post): o Estado não consegue, nunca, assegurar-se de há um critério justo de atribuição de subsídios. E de cada vez que atribui um subsídio, rejeita a sua atribuição a outros, escolhendo. O que nos leva ao segundo problema.
(continua)

Os sapos estão em toda a parte, não só aqui

Ontem votei Cavaco.
À saida das urnas estavam a fazer uma sondagem: votei Alegre.
Duas vezes Cavaco no mesmo dia é pedir de mais.

ddc no Lobby de Aveiro

A arte das tangências

No elegante humor do Luís Aguiar-Conraria n'A destreza das dúvidas:

- "Grandes vencedores da grande noite eleitoral"
- "Grandes derrotados da grande noite eleitoral"

♪ Fuga do gato

(clicar para ouvir)
http://www.claudiocolombo.net/Scarlatti%20web/Sonata%20K30%20in%20sol%20min.mp3
Domenico Scarlatti, Sonata k.30, "Fuga do Gato"

E que tal mudar de modelo?

Esta é uma acusação frequente nos meios teatrais e tem gerado grande contestação à volta da Ministra da Cultura. E é de facto verdade que os apoios ao teatro em Portugal são muitas vezes direccionados para os mesmos, amigos dos mesmos, que citam os mesmos e encenam os mesmos, num círculo vicioso e entediante. É por isso justa a crítica que é feita à atribuição de subsídios ao teatro em Portugal e que tem eternizado produções e espectáculos medianos, sem qualquer inovação ou progressão, para além de que nem sequer público conseguem ter.
Mas o que aos eternos contestatários parece escapar é que a concessão de apoios pelo Estado nunca será isenta, independente, alheada de compadrios e amizades. O que parece escapar a estes contestatários é que, se fossem eles a atribuir tais subsídios, outros quantos produtores e encenadores iriam manifestar-se contra selectividade, tantas vezes sem critério aparente, dos espectáculos a apoiar. O problema não é, pois, dos titulares em concreto do poder de decisão. É do modelo em si mesmo, estadual, independentemente do titular do poder de conceder os subsídios.
O que os contestários deveriam exigir era um modelo alternativo, baseado numa perspectiva concorrencial, sem apoios financeiros estaduais, em que nenhuma companhia pudesse ser beneficiada e todas competissem em qualidade pelos apoios financeiros que podem ser encontrados e concedidos na sociedade civil. No actual estado de coisas, tal é impossivel. Porque o Estado é actor no espectáculo e uma companhia que queira viver sem ele, perde sempre relativamente às outras. Mas já que estamos a contestar, que seja para mudar de modelo. E não para mudar de endosso do cheque.

Atchim!

Ora aqui está mais um exemplo, confortavalmente albergado nos receios e medos da população e no enorme chapéu de chuva que é a saúde pública, de uma medida provavelmente abusiva e contraproducente. Se o Governo decide canalizar parte do nosso dinheiro para o apoio a uma empresa privada, deveria sentir-se na obrigação de esclarecer vários aspectos, mais que não fosse por mera decorrência dos princípios da concorrência e da igualdade. Mas, para além disso, seria importante que o Governo apresentasse em que medida a produção nacional de vacinas, com o nosso dinheiro, sai mais barata do que a sua importação e, também, em que medida é que Portugal alguma vez na sua história ficou sem as vacinas que pretendia e necessitava. Seria igualmente importante que o Governo revelasse porque é que a gripe das aves parece ser uma prioridade de produção face à gripe sazonal. E já não é pouco.

Os votos de Alegre (2)

Manuel Alegre traz um milhão de votos e o seu peso no PS vai aumentar, nomeadamente porque alguns dirigentes que o apoiaram na sombra, vão agora poder ostentar a sua opinião. Isto vai obrigar José Sócrates a prestar demasiada atenção ao interior do Partido Socialista, envolvendo-se ou mandando envolverem-se por ele, em intrigas palacianas e contagens de cabeças, não necessariamente por sua iniciativa. Para o Governo de Portugal, isto não são boas notícias. Por outro lado, um deslize no PS, bocas inflamadas no PS e atitudes menos reflectidas no PS darão, pelo menos no critério de Jorge Sampaio, motivos de sobra ao PR para... (cof cof voces sabem do que eu estou a falar).

A ler

Posts muito pertinentes do José Alberto Xerez, em grande forma no Jantar das Quartas, blogue que tem merecido toda a nossa atenção mas que por descuido ainda não tinha tido um destaque condizente aqui no aAdF.

- "Uma nova Segurança Social (1)"
- "Uma nova Segurança Social (2)"

(links via O Insurgente)

♪ Mona Lisa


(clicar para ouvir)
http://www.highline52.com/monalisa.wav
Nat King Cole, "Mona Lisa"

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Atraso de vida...

...ter de esperar até 9 de Março para que Sampaio abandone Belém.
Eu hoje acordei assim... (Charlotte no Bomba Inteligente)

... a lembrar-me das palavras de Jorge Sampaio, ontem, já tarde, aos jornalistas: "Os Portugueses sempre foram afectuosos comigo. Nunca ouvi nenhum insulto." Ficámos a saber que Jorge Sampaio nunca leu blogues.

Agora que terá mais tempo, recomendo ao ainda Presidente da República:
Só faltam 45 dias... (CAA no Blasfémias)

...para que o presidente mais medíocre que a Democracia portuguesa conheceu, sonolentamente, desapareça para a deslembrança sem apelo da História.

A ler, igualmente, a definição de "mediocridade" ("Apenas, um Presidente mais") do Francisco Proença de Carvalho no Sinédrio.

O caso Google

A nossa leitora Rita comentou:
A propósito… espanta-me que a atenção dos liberais não tenha reparado ou feito uma notinha sobre o drama que se desenrola entre o google e o governo dos USA. A notícia vem na BBC. As acções google fecharam hoje a perder quase 40$Us. Tudo porque se recusa a ceder a informação sobre as pesquisas feitas (por todos nós). Quem pode/deve ter acessso a essa informação? …parece-me problema bem actual, não?

O assunto merece a máxima atenção da comunidade da Internet, não só dos liberais.

Resumidamente, Governo americano pretende que a Google— gigante informático conhecido pelo excelente seu motor de busca e serviços paralelos (incluindo por exemplo o Blogger)— forneça uma relação das procuras feitas no motor de busca, não necessariamente com identificação de quem procurou o quê. A Google, que faz gala do seu lema "Do no evil" ("Não fazer o mal"), recusa terminantemente ceder à exigência do Governo e entregar qualquer informação. A incerteza e apreensão quanto ao desfecho deste braço-de-ferro levou a que as suas acções caissem bruscamente.

O comportamento do Governo americano é moralmente condenável sejam quais forem as suas razões. O Estado não tem qualquer direito a recolher informações pessoais das pessoas, sobretudo rapinando serviços privados, construídos na base de uma relação de confiança estabelecida com os seus clientes. O Estado não tem o dever de zelar activamente por que essa informação não seja coleccionada— mesmo que as pessoas o queiram ou permitam—, ou arrogar-se o direito de tudo saber sobre todos.

Mas deve impor, por exemplo, que todas as pessoas possam conhecer, a pedido, que informações pessoais suas são do conhecimento das empresas. E responsabilizar o prestador de serviço, determinando que informação tacitamente fornecida não seja transmitida a empresas terceiras (origina por exemplo o "spam").

Se o Google ou outras companhias fazem uso de informação pessoal e o mercado não se insurge, isso quer dizer que as pessoas dão mais valor aos serviços prestados do que à informação pessoal que é recolhida e utilizada. Mas deverão poder deixar de utilizar os serviços trocando-os por outros que sejam mais respeitadores. A informação deverá ser eliminada a pedido das pessoas, e o Estado deve exercer aí o seu poder legislador e judicial.

Nenhuma entidade tem direito a saber informações pessoais sobre os clientes de outra empresa. Mas é isso que o Estado americano exige, fazendo gato-sapato dos direitos à privacidade das pessoas. Quando a informação pessoal passa para as mãos do Estado, quase toda protecção legal desaparece, pois a legislação estatal é feita em benefício próprio. Podem existir alternativas (a um "serviço público" que não se pediu), mas a privacidade das pessoas já estará ao serviço da máquina.

(continua)

Dicotomia (1)

1. Lembro-me de perguntar ao meu pai, há muitos anos, o que significava "Esquerda" e "Direita". A resposta foi qualquer coisa como "filho, é uma ideia muito parva de algumas pessoas que querem resumir tudo a duas palavras". A partir desta conversa ingénua, e ainda sem qualquer maturidade, abri os olhos para a política. Sem surpresa, hoje partilho essa mesma ideia, que se fez tão central a uma filosofia política pessoal que faço reflectir no que por aqui escrevo e discuto.

2. A política não se faz de comparações algébricas maniqueistas, mas da aplicação às situações da vida de uma certa matriz de princípios.

Cada pessoa, lançando mão da sua experiência, maturidade, bom senso, sensibilidade, inteligência, intuição, educação, instrução, personalidade, carácter, ética, moral etc etc terá a sua maneira muito pessoal de interpretar políticamente a realidade. Num sentido lato, a abordagem política que fizer será coerente com a pessoa, mesmo que não seja intelectualmente coerente tomada isoladamente. Por reflectir e sintetizar os valores e preferências dos indivíduos, a política começa por ser um exercício de individualidade.

Quando reduzida internamente a um grupo informal ou organização, a política começa a ser a arte do consenso e da compatibilização de ideias semelhantes. A personalidade das pessoas passa a ser esbatida face a uma sistematização mais racionalista e construída de uma ideologia política comum e partilhada.

Num plano social, a política passa a representar o confronto e competição de ideias, que são para esse efeito isoladas umas das outras, desligadas das suas origem, e reduzidas na sua estrutura e desenvolvimento ao mínimo "transportável" e assimilável.

3. De um sistema infinitamente rico e complexo como é o exercício político individual, passou-se para um sistema de princípios reduzidos à sua forma mais aforística. Pela sucessiva derivação das ideias, depuradas para servirem o colectivo, perde-se muita informação pessoal.

A batalha pela liberdade política das pessoas prende-se com o seu direito de poderem elas próprias fazer a integração destes princípios com a sua personalidade, interesses, necessidades e capacidades, ou deixar que governantes eleitos, burocratas do sistema e todos os que os influenciam o façam em nome da colectividade.

(continua)

A paciência, às vezes, falta*

E começam aqueles que nunca encheram uma praceta que fosse, que não valem um voto sequer, que quase não reconhecem um país devidamente ocidentalizado e liberto da tutela opressora dos pais do regime, a desvalorizar a vitória de Cavaco. E calma, que não a desvalorizam por erros do governo, pela teoria dos ovos no cesto ou sequer pela divisão à esquerda. Dizem que foi tangencial. À primeira volta, contra 5 candidatos, contra um pai da pátria e um poeta da pátria. Com a maioria absoluta dos votos, muitos deles oriundos de outras áreas políticas. E foi tangencial? Sabem de uma coisa: Pró #$%#!
###
*editado

♪ Cartas Íntimas

(clicar para ouvir)
http://www.heroldq.cz/mp3/janacek/janacek4.mp3
Leoš Janáček, Quarteto para cordas n.º 2, "Cartas Íntimas", Allegro

"Vitória tangencial" (2)

Mário Soares 2005 — apoiado pelo partido do Governo — 14.34 %

Basílio Horta 1991 — candidatando-se contra Mário Soares, Presidente da República em exercício, apoiado pelo PS e assentido pelo partido do Goveno, que recolheria 70% dos votos — 14.16% (créditos ao Nortadas)

"Vitória tangencial" (1)

Cavaco Silva 2006 — 50,6% — diferença de 29,9% para o segundo candidato mais votado — eleito Presidente da República à primeira volta;

José Sócrates 2005 — 45,0% — diferença de 16,3% para o segundo partido mais votado — maioria absoluta na Assembleia da República com 53% dos mandatos.

Rescaldo das eleições em fotos (4)


"Foi bonito o passeio pá!"

Rescaldo das eleições em fotos (3)


"Fomos fazer a rodagem ali para os lados de Belém..."

Rescaldo das eleições em fotos (2)

Para quem terá dificuldade em dormir nos próximos 5 anos...


...nada como um pouco de chá!

Rescaldo das eleições em fotos (1)


"TASTES LIKE CHICKEN!"

Parabéns a Você

Não há uma data exata, mas Janeiro de 2006 marca o aniversário de 20 anos do primeiro vírus de computador. Identificado em 1986, o vírus foi chamado de Brain e espalhava-se por disquetes. Parabéns então.

E a esta hora, Cavaco Silva toma o seu pequeno-almoço, sorrindo

Expliquem-me lá...

Hoje Portugal é o Paraíso na Terra ou uma ditadura fascista?

Os votos de Alegre

Andam muito preocupados com o destino dos votos de Manuel Alegre e a perguntar o que é que o homem vai fazer aos votos. Pois bem. Os votos serviram para quase quase quase travar o tal passeio de Cavaco pela Avenida. Mas serviram também para um KO de luva branca a Mário Soares, uma rasteira a José Sócrates e uma língua de fora aos partidos à esquerda do PS. Por muito que o discurso de Manuel Alegre me fosse indiferente e de considerar que ele beneficiou de circunstâncias algo positivas, a verdade é que o homem arriscou tudo e ganhou. Faltaram décimas para que fosse elevado em ombros. E tudo o que ele conseguiu com os votos foi bem mais do que Soares e o PS. Não chega já?
Para que servem agora os votos? Para que todos nós, os que não votaram nele e também os que votaram servirmos de oposição séria a que Manuel Alegre sofra represálias no PS. E para todos os que repetidamente decretam a falência dos partidos aprendam que a falência se demonstra e se vence em acção e não do alto das suas crónicas iluminadas.

♪ "I wonder what’s wrong with baby"

(clicar para ouvir)
http://antoniocostaamaral.planetaclix.pt/blog/musica/NinaSimoneMyBabyJustCaresForMe.wav
Nina Simone, My Baby Just Cares for Me

Umas linhas antes de me deitar (o sapo já cá canta)

Vencedores absolutos
a) Cavaco Silva. Vitorioso e legitimado como a primeira escolha da maioria dos portugueses torna-se, como nos seus tempos de primeiro-ministro, a figura de proa da direita portuguesa, por muito que nunca ostente o título ou manifeste vontade de o ostentar;
b) PSD cavaquista.

Vencedores relativos
a) Manuel Alegre. Ao distanciar-se de tal forma de Mário Soares, não há riscos de que possam fundadamente recair nele as culpas da derrota da esquerda. Assumindo um capital eleitoral próprio e demonstrando que era ele, afinal, o mais bem posicionado para combater Cavaco Silva, ganha um capital impressionante num PS de Barões: foi a votos e sabe quanto vale. Ao mesmo tempo, a sua postura e o seu resultado impedirão que o PS se desfaça dele ou dele se vingue. As aparências ainda valem muito;
b) PSD de Marques Mendes. O líder do PSD sairá vitorioso momentaneamente mas terá sérias dificuldades em impor-se como a referência do eleitorado não socialista e perderá demasiado tempo a autonomizar-se da figura de Cavaco e da sua acção presidencial;
c) CDS. Da fragilidade de Marques Mendes e do espaço de centro que Cavaco ocupará na presidência, o CDS verá o seu campo de actuação alargar-se podendo capitalizar os votos da direita reinvindicativa e reformista que eventualmente verá as suas expectativas frustradas com a performance de Cavaco;
d) PCP. Segura eleitorado de eleição para eleição, demonstrou quem manda à esquerda do PS, ficou a menos de metade do resultado de Mário Soares e assumiu Jerónimo de Sousa como líder incontestado, para dentro e para fora.

Derrotados relativos
a) CDS se Marques Mendes não conseguir manter-se à frente do PSD.
b) Figura política de Mário Soares. A sua derrota implica o fim do título de pai da pátria e revela a incapacidade deste em unir o eleitorado de esquerda, mas sairá da vida política como um lutador e combatente intransigente. Mário Soares ficará na história, independentemente deste resultado e cedo recuperará a aura que o vem acompanhando.
c) José Sócrates e o PS. Porque de facto perderam as eleições e apostaram mal no candidato. Mas José Sócrates não apostou nada nestas eleições. Pelo que não perdeu muito.

Derrotados absolutos
a) Mário Soares e a geração de socialistas dona de Abril. Acabou-se uma era. Acabou-se o direito de propriedade sobre a história. Acabaram-se as inevitabilidades eleitorais.
b) Bloco de Esquerda. Depois de frustrar as expectativas nas autárquicas, o Bloco sofre novo revés eleitoral e pode começar a questionar a liderança de Francisco Louçã. Não só este não vale mais do que o Bloco, como não consegue ter um discurso alternativo.

sábado, janeiro 21, 2006

Desculpem-me os admiradores da Naomi Watts

Pensamentos da minha garganta ante a perspectiva de um sapo

Adolfo, sabes perfeitamente que perdeste o bilhete de identidade e o cartão de eleitor e que para além disso tens que trabalhar na tua tese e que não tens tempo para ir votar.

Match Point

Chegar a Woody Allen sem NY e os sons do jazz a impregnarem cada cena poderia ter sido uma experiência traumática. Não o foi, ainda que NY não se tivesse sequer imposto na história, nas personagens ou até nos interiores. NY não está em Match Point, nem sequer pela mão da americana personagem da Scarlett Johansson (verdadeiramente o ponto fraco do filme e, acreditem, não é tarefa fácil reconhecê-lo aqui, perante todos).

Chris Wilton é a oportunidade ideal para a alta sociedade britânica revelar a sua compaixão e o despertar para o apego da modernidade: pobre mas esforçado, remediado mas inteligente, necessitado mas educado. E Chris Wilton lá entra na família dos Hewett casando com a Chloe Hewett e ascendendo aos altos cargos da administração de empresas, num processo de aprendizagem e reciclagem aparentemente controlado pelos pais da mulher. Mas se Chris Wilton se permite ser conduzido e dirigido, também o sabe que a paixão, carnal pelo menos, lhe escapa da razão. Nola Rice, uma pobre e neurótica aspirante a actriz cruza-se no seu caminho, permitindo a Chris tomar aparentemente as rédeas do seu destino com o favor da sorte, sem nunca conseguir ganhar a simpatia do espectador.

Este enredo afasta-se de todos os habituais lugares de Woody: centra-se na diferença de classes, na mobilidade social, no talento e mérito como força redentora mas afinal insuficientes para a realização integral da dignidade humana, na ambição desresponsabilizadora. Mas esse afastamento, que não abençoo, não faz o filme perder um segundo que seja de genialidade, excepto como já disse, a presença de Scarlett Johansson, a quem falta a densidade essencial para ser filmada pelo mestre. Mas ele não é da mesma opinião que eu. Vão ver e depois falamos.

Caminhos da Paz

Sente que, neste segundo mandato, a Administração Bush é mais sensível aos problemas do Médio Oriente ou que há, pelo menos, menor unilateralismo?
O ponto de vista dos EUA sobre a Palestina e Israel é hoje muito claro. Em Junho de 2003, o presidente norte-americano falou pela primeira vez num Estado palestiniano em territórios ocupados na guerra de 1967. Mais recentemente, num encontro com Mahmoud Abbas, George Bush já falou nas linhas de trégua de 1949.

O reconhecimento do essencial papel da Administração Bush na concretização efectiva da paz no Médio Oriente vem do insuspeito Issam Beseisso, representante da Palestina em Portugal, há mais de 20 anos, em entrevista ao Jornal de Notícias. A paz não se encontra ao virar das esquinas da utopia e na fraternidade universal. É um processo que implica perseverança e uma profunda consciência do nosso destino. A paz não é construida por palavras nem apertos de mão. Veremos quem ficará na História, quando a História deixar de ser escrita nas páginas do preconceito.

Será que é desta?

Desde 1986 que ao fim de cada eleição presidencial me adorno com um velho autocolante, já rasgado, a anunciar que "o meu presidente é o outro". Será desta que ele vai para o lixo? Ou será que, apesar de ir votar Cavaco, e de eventualmente o senhor ser eleito, a vontade de o colocar ao peito não será, afinal, a mesma?

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Sem cedências

Respondo à Alaíde ("O Estado quer e manda [mas o individuo pode]") no 19 meses depois no mesmo tom idealista:

[...] bem vistas as coisas, o "Estado" só existe porque os individuos "o" querem, porque "lhe" atribuiram [ou delegaram] esse Poder [a tal omissão]. Resta saber até que ponto cada individuo está disposto ceder para "recuperar" esse Poder.

O Estado não deve exercer coacção, precisamente aquilo que existe para evitar. Logo, é uma questão de princípio que o indivíduo possa recuperar qualquer poder que tenha "delegado", à excepção daqueles que são essenciais a um Estado restrito às suas funções fundamentais.

Nesta condição, e em qualquer situação, quando uma delegação de poderes— implícita ou não— é automaticamente perpetuada (por voto, ainda por cima, que belo serviço à democracia!), sem qualquer possibilidade de denúncia por qualquer "contratante", nomeadamente pela parte mais fraca, falamos de um sequestro legalizado.

As funções fundamentais do Estado têm como característica serem absolutamente neutras do ponto de vista da promoção de determinados "resultados sociais" desejáveis. Todas as restantes, frequentemente justificadas por serem activamente "para o bem da sociedade", podem e devem ser devolvidas à sociedade— é um direito das pessoas poderem ser responsáveis pelo seu bem-estar.

A questão não é o que cada indivíduo está disposto a ceder ou a sacrificar, mas se tem ou não direito de reclamar de volta o poder que "delegou" ao Estado, entendendo que o Estado não o utiliza no seu melhor interesse.

Que o Estado recuse, suprima arbitrariamente a liberdade económica dos indivíduos pela via legal que ele próprio exerce graças ao seu "monopólio da violência", e que alegue que outros podem perder em consequência do legítimo usufruto de um direito que usurpa é característico de um sistema mafioso— e indigno da "pessoa de bem" que devia ser o Estado tal como o idealizamos.

Hearing politicians tell us "we" can't "afford" a tax cut is like listening to a glutton tell you he can't "afford" a diet. In no other context do people talk about "paying for" money they don't have. I can't pay for your refusal to give me money because I need a yacht. — Ann Coulter

Intelligent analysis

The theory of "intelligent design" is not science and teaching it in schools alongside Darwinian evolution only confuses pupils, the official Vatican newspaper has said.

Prof Fiorenzo Facchini, a specialist in evolutionary theory at the University of Bologna, argued in L'Osservatore Romano that "intelligent design" belonged to the realms of philosophy and religion but not science.

The Vatican article dealt another blow to those Christians in the United States who want children to be taught the theory alongside Darwinism. "God's project of creation can be carried out through secondary causes in the natural course of events, without having to think of miraculous interventions that point in this or that direction," wrote Prof Facchini.

"If the model proposed by Darwin is not considered sufficient, one should search for another," he said in the paper. "But it is not correct from a methodological point of view to stray from the field of science while pretending to do science. It only creates confusion between the scientific plane and those that are philosophical or religious."

(do Daily Telegraph) (procurar no Google News)

Protecção contra o risco (2)

Ora, a redução do risco é todo um programa político.

As pessoas são protegidas contra a doença, a velhice, o desemprego; protegidas da tradição e dos costume, da dependência e da interdependência umas das outras, das forças pessoais da sociedade e das forças impessoais do Mercado; mas sobretudo protegidas de si mesmo. As empresas são protegidas contra a concorrência, as variações do mercado, a necessidade de adaptação e inovação contínua, de fazerem mal e de não fazerem bem; mas sobretudo protegidas da vontade dos consumidores.

Não quer compreender o Estado socialista que o "risco" de uns é o proveito de outros. Pelo penoso processo das empresas terem de produzir mais, melhor e mais barato, ganham os consumidores. Pelo facto de todos nós sermos obrigados a sermos melhores indivíduos, geramos riqueza e prosperidade— e condições para reduzirmos os nossos riscos presentes ou futuros de acordo com as nossas possibilidades e necessidades.

Têm mais a perder com a "redução do risco" aqueles cujas vantagens representam um "risco" para outrem. Todas as pessoas e empresas que estão dispostas a trabalhar mais e melhor para garantir a sua prosperidade e bem-estar, e que no processo acabam por beneficiar toda a sociedade precisamente por produzirem mais e melhor e de acordo com o que a sociedade de facto quer. Reduzir riscos "operacionais" da vida humana ou empresarial equivale a nivelar por baixo tudo o que valorizamos ou poderíamos vir a valorizar.

Confiar que burocratas, políticos profissionais e elites iluminadas possam saber o que é melhor para cada um de nós é no mínimo cândido. E como vimos, contraproducente. O "dinheiro de protecção" que nos é substraído é utilizado para garantir-nos uma "segurança" falsa— assegura-nos que não tenhamos de nos esforçar para cuidar dos nossos próprios interesses— afinal, não há o "risco" de alguma coisa correr mal.

♪ uma nota só (2)

(clicar para ouvir)
http://www.sylvieguillem.com/materials/music/ligeti.mp3
Györgi Ligeti, da Musica Ricercata

Protecção contra o risco (1)

O socialismo entende que minimizar os riscos de viver em sociedade é uma das funções do Estado. As incertezas quanto ao futuro são indesejáveis, mas sobretudo devem ser evitáveis numa sociedade avançada. Diz-se que se é função do Estado é garantir o bem-estar dos cidadãos no presente, é também sua função garantir que o porvir não lhes reserva surpresas desagradáveis.

Nada disto seria moralmente condenável se a adesão a este sistema de protecção estatal fosse voluntário. Mas parafraseando uma citação popular, as palavras-chave da frase "O Estado quer ajudar" é "O Estado quer"— é irrelevante se as pessoas querem ser ajudadas ou se querem ajudar.

O sistema não funciona à base da constatação que quem se pusesse de fora estaria sujeito à mais desleal "concorrência" patrocinada pelo Estado; não há opção senão a submissão ao que o Estado quer e manda.

(continua)

♪ uma nota só

(clicar para ouvir)
link
Tom Jobim e Elis Regina, Samba de uma nota só

Dilema existencial

O nosso grande rival do colégio, o gajo que mais odiámos e no roubava tudo, as gajas, a bola, as notas, o sucesso, os guelas... é o autor de um dos melhores blogues que lemos diariamente.

E depois da eleição de Cavaco...

... avizinha-se na blogosfera o regresso da saga "refundação da direita". Ao mesmo tempo, nos blogues de esquerda, os "socialismos" do PS irão dar que falar. Sim, hoje acordei numa de Maya. E também faço previsões semanais a leitores, em troca de 20 visitas por dia. E não digam que não vão daqui.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

...mas nós somos mais felizes!

The Czech republic has joined Slovenia among new member states with higher levels of wealth per capita than old member Portugal, according to European Commission statistics.

The central European country enjoyed gross income per capita of 73 percent of the EU 25 average last year compared to 71 percent in Portugal, according to the latest estimate by the commission's statistical wing, Eurostat.

The spending power comparison takes into account lower consumer prices in the Czech republic compared to Portugal however, with Portuguese people still carrying more money in their pockets in absolute terms.

Slovenia, which was already ahead of Portugal in 2003, is estimated to have reached 81 percent of the EU average last year.


(fonte: EUObserver.com)