sexta-feira, março 31, 2006

Mário-estaLinismo no seu melhor

A propósito da posição "irrelevante" dos serviços da Comissão Europeia sobre a "golden share" do Estado português na PT,

"Bruxelas dá dois meses para acabar com golden-share ou vai para Tribunal" (Diário Económico)

a propósito da palavra sexy

"Admit it, mr. Gould, you don't have doubts about Brahms"
being
Volume one, number two of the complete Gould-Gould conversations


link para uma balada de Brahms
(intérprete desconhecido)
Glenn Gould: Sexy, isn't it?
glenn gould: Pardon me?!
GG: I said, "Sexy, isn't it?"
gg: Yes, I thought that's what you said, Mr. Gould— but...
GG; But what? It's the sexiest interpretation of Brahms's Intermezzi you've ever heard, don't you agree?
gg: well, I really don't know whether this adjective...
GG: Come now, Glenn, don't be such a prude!
gg: You have the nerve to say that to me, Mr. Gould? You of all people? You who've so often described yourself as "the last Puritan"? You with your ascetic, totally withdrawn life and your almost pathological fear of closeness and physical contact?!
GG: You're exaggerating, Glenn: after all, I'm sitting here opposite you, I can even reach out and touch you, if you...
gg: Don't for Heaven's sake!
[...]

Weasel Word: Social

A propósito do post "Social: uma palavra "doninha" " do André Azevedo Alves no Blogue da Causa Liberal, excertos de "The Fatal Conceit" de F.A.Hayek, em que explora a dimensão orwelliana da palavra "social".

The noun 'society', misleading as it is, is relatively innocuous compared with the adjective 'social', which has probably become the most confusing expression in our entire moral and political vocabulary.
[...] it has in fact become the most harmful instance of what, after Shakespeare's 'I can suck melancholy out of a song, as a weasel suck eggs' (As You Like It, II,5), some Americans call a 'weasel word'. As a weasel is alleged to be able to empty an egg without leaving a visible sign, so can these words deprive of content any term to which they are prefixed while seemingly leaving them untouched. A weasel word is used to draw the teeth from a concept one is obliged to employ, but from which one wishes to eliminate all implication that challenge one's ideological premises.

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These examples led me for a while to note down all occurrences of 'social' that I encountered, thus producing the following instructive list of over one hundred and sixty nouns qualified by the adjective 'social':

accounting
action
adjustment
administration
affairs
age
agreement
animal
appeal
awareness
behaviour
being
body
causation
character
circle
climber
compact
composition
comprehension
conception
concern
conflict
conscience
consciousness
consideration
construction
contract
control
credit
cripples
critic (-que)
crusader
decision
demand
democracy
description
development
dimension
discrimination
disease
disposition
distance
duty
economy
end
entity
environment
epistemology
ethics
etiquette
event
evil
fact
factors
fascism
force
framework
function
gathering
geography
goal
good
graces
group
harmony
health
history
ideal
implication
inadequacy
independence
inferiority
institution
insurance
intrercourse
justice
knowledge
laws
leader
life
market economy
medicine
migration
mind
morality
morals
needs
obligation
opportunity
order
organism
orientation
outcast
ownership
partner
passion
peace
pension
person
philosophy
pleasure
point of view
policy
position
power
priority
privilege
problem
process
product
progress
property
psychology
rank
realism
realm
Rechtsstaat
recognition
reform
relations
remedy
research
response
responsibility
revolution
right
role
rule of law
satisfaction
science
security
service
signals
significance
solidarity
Soziolekt (group speech)
spirit
stability
standing
status
structure
struggle
student
studies
survey
system
talent
teleology
tenets
tension
theory
thinkers
thought
traits
usefulness
utility
value
views
virtue
want
waste
wealth
will
work
worker
world

I have seen it suggested that 'social' applies to everything that reduces or removes differences of income. [...] Thus use of the term 'social' becomes virtually equivalent to the call for 'distributive justice'. This is, however, irreconcilable with a competitive market order, and with growth or even maintenance of population and wealth. Thus people have come, through such errors, to call 'social' what is the main obstacle to the very maintenance of 'society'. 'Social' should really be called 'anti-social'.

Défice gourmet

"INE estima défice de 2005 em 6,02% do PIB (Dinheiro Digital)

Um erro de 0,02% do PIB relativamente às previsões do Governo, a que corresponde um erro de previsão absoluto de 0,33% (2 partes em 600).

Recordo que tive um trabalho na faculdade em que foi preciso extrapolar muitos valores, a partir de amostras pequenas, unitárias, ou mesmo inexistentes. Para dar um toque de pungente realismo às estatísticas virtuais, "cozinhadas" sem vergonha, seleccionámos categorias onde "errámos flagrantemente" em cerca de 20%, relativamente às previsões dos modelos teóricos que interessava validar. E na avaliação oral, atrapalhadamente, pedimos desculpas ao professor porque os resultados não eram os melhores. O trabalho foi aplaudido apesar das suas falhas metodológicas.

Esses "cozinhados de números" eram grosseiros pratos de esparguete-com-atum "à estudante", face às iguarias gourmet que os sábios do INE e Banco de Portugal servem ao país.

Leitura recomendada

"Cada um sabe de si" do André Abrantes Amaral n'O Insurgente:
As pessoas (e o mercado traduz as inúmeras vontades individuais) não escolhem objectivamente o melhor. Escolhem o que querem. A ideia de que escolhem (ou devem escolher) sempre o melhor é profundamente anti-liberal. O indivíduo escolhe o que o satisfaz, considerando ser essa a sua melhor opção. Por vezes acerta, outras falha. Umas vezes parece que acerta, outras que falha. Mais: Por vezes julgamos que acerta, outras que erra e o nosso julgamento acaba por estar enganado, tão só porque o que é melhor para ele não o seria para nós. É esta liberdade de escolha que cabe ter em conta e não (nunca) os objectivos alcançados que são ao critério de cada um.

♪ Frates


Caspar David Friedrich, Monge à Beira-mar
(clicar para ouvir)
http://antoniocostaamaral.planetaclix.pt/blog/musica/frates.mp3
Arvo Pärt, Frates (versão para cordas e percussão)

Querem um bom motivo?

Se os jovens franceses quiserem um bom motivo para protestar, eu ofereço: o CPE destina-se, tanto quanto o percebi, a incentivar o emprego de jovens licenciados. Ao fazê-lo, e ao consegui-lo, o governo francês vai dar um sinal errado à sociedade, fazendo-a acreditar que as licenciaturas são o caminho mais seguro para a obtenção de emprego. Apesar de o mercado apenas absorver uma determinada percentagem de jovens licenciados, a verdade é que esta percentagem vai aumentar artificialmente. No dia que o CPE eventualmente desaparecer, o que farão os milhões de jovens que optaram por um curso superior na esperança de um emprego mais facilitado?

O CPE não se destina (era bom) a flexibilizar o mercado de trabalho, deixando que a sociedade se molde aos sinais que este mercado vai dando. O CPE destina-se a moldar o mercado de trabalho em função das necessidades da sociedade. Neste caso, para fazer face ao desemprego jovem. E jovem até aos 26 anos. Nada mais.

Idiocy (2)

"France faces the future" (The Economist):

Yet the striking feature of the latest protest movement is that this time the rebellious forces are on the side of conservatism. Unlike the rioting youths in the banlieues, the objective of the students and public-sector trade unions is to prevent change, and to keep France the way it is. Indeed, according to one astonishing poll, three-quarters of young French people today would like to become civil servants, and mostly because that would mean “a job for life”. Buried inside this chilling lack of ambition are one delusion and one crippling myth.

The delusion is that preserving France as it is, in some sort of formaldehyde solution, means preserving jobs for life. Students, as well as unqualified suburban youngsters, do not today face a choice between the new, less protected work contract and a lifelong perch in the bureaucracy. They, by and large, face a choice between already unprotected short-term work and no work at all. And the reason for this, which is also the reason for France's intractable mass unemployment of nearly 10%, is simple: those permanent life-time jobs are so protected, and hence so difficult to get rid of, that many employers are not creating them any more.

This delusion is accompanied by an equally pernicious myth: that France has more to fear from globalisation, widely held responsible for imposing the sort of insecurity enshrined in the new job contract, than it does to gain. It is true that the forces of global capitalism are not always benign, but nobody has yet found a better way of creating and spreading prosperity. In another startling poll, however, whereas 71% of Americans, 66% of the British and 65% of Germans agreed that the free market was the best system available, the number in France was just 36%. The French seem to be uniquely hostile to the capitalist system that has made them the world's fifth richest country and generated so many first-rate French companies. This hostility appears to go deeper than resistance to painful reform, which is common to Italy and Germany too; or than a desire for a strong welfare state, which Scandinavian countries share; or even than a fondness for protectionism, which America periodically betrays.

Algoritmos para elaboração de lista eleitoral paritária (2)

Cada partido ajustar-se-á ao método que entender ser mais adequado à sua forma de fazer política. Será interessante verificar-se que a Lei da Paridade obrigará as cúpulas partidárias a fazer menos transparente o processo de selecção de candidatos, para evitar melindres— afinal ninguém gosta de saber que foi ultrapassado por um companheiro de partido só porque nasceu com o sexo errado.

Na prática, e internamente aos partidos, os candidatos passarão a competir contra os companheiros do mesmo sexo. Os candidatos homens, hoje maioritários, vêem-se limitados a apenas dois terços dos lugares elegíveis. A qualidade parlamentar não aumenta, mas o aparelhismo agradece. Mais mulheres são eleitas; mais precisamente, as que perdiam em comparação com os mais medíocres candidatos homens. Sobre essas recai a tarefa de dignificarem parlamentarmente o seu sexo e a sapientíssima lei.

AMN, isto é o nosso futuro: AADFvblog

Via Briteiros, Rockeyboom, daily vlog with amanda congdon.

[ e ficaste tu impressionado com a mailing-list dos insurgentes... ]

quinta-feira, março 30, 2006

Algoritmos para elaboração de lista eleitoral paritária

Método A

1. selecção de um conjunto de personalidades eleitoralmente interessantes, de ambos os sexos, em número igual ou superior ao "formal" (número máximo de mandatos elegíveis, acrescido do número de suplentes segundo a lei em vigor);

2. se necessário, acrescentar à lista tantos candidatos quantos os necessários para perfazer a quota "paritária"— o sexo menos representado contar com pelo menos um terço do número formal;

3. ordenar por mérito, conveniência política ou outro critério partidário;

4. reordenar a lista: dos primeiros lugares para os últimos, e para cada lugar, sempre que os anteriores dois lugares tiverem sido preenchidos por candidatos do mesmo sexo, promover o primeiro candidato do sexo oposto que estiver imediatamente abaixo na lista. Repetir o processo até a lista estar fechada.

Método B (equivalente)

1. elaboração de uma lista de homens, e outra de mulheres, personalidades que sejam eleitoralmente interessantes. O número total igualará ou excederá o número "formal" (número máximo de mandatos elegíveis, acrescido do número de suplentes segundo a lei em vigor), e cada lista terá de perfazer a quota "paritária"— o sexo menos representado contar um terço do número formal;

2. ordenar cada lista por mérito, conveniência política ou outro critério partidário.

3. elaborar lista final; para cada lugar na lista, a partir dos cimeiros, os primeiros elementos de cada lista serão comparados. Quando as escolhas anteriores tiverem recaido sobre dois candidatos do mesmo sexo, escolher automaticamente o candidato do sexo oposto. Caso contrário usar critérios de mérito, conveniência política ou outro critério partidário. O candidato que seja escolhido será retirado do topo da lista do respectivo sexo. Repetir o processo até a lista estar fechada.

Dar emprego ao "canalizador francês" não é anticonstitucional

"Les Sages valident le CPE sans réserves" (TF1)
La décision du Conseil constitutionnel est tombée jeudi soir. Le dispositif du Contrat Première Embauche est validé sans réserves d'interprétation. Jacques Chirac s'exprimera vendredi à 20 heures lors d'une allocution radio-télévisée. Selon ses proches, il devrait promulguer la loi Egalité des Chances créant le CPE et annoncer un "Grenelle social".

Um Estado Social paramétrico?

Em post anterior, apresentou-se um sistema pelo qual seria possível compatibilizar uma abertura ao mercado dos serviços sociais com os "direitos sociais" constitucionalmente previstos, e a função do Estado conforme com a leitura social-democrata historicamente predominante no Governo português. Resumidamente, o Estado passaria a financiar as pessoas e não o sistema social, e sujeitaria os serviços sociais estatais às leis do mercado.

Como vantagens, o sistema devolveria a liberdade de escolha às pessoas, o poder sobre o dinheiro dos seus impostos, e liberdade ao mercado para desenvolver serviços mais eficientes sem a concorrência desleal dos serviços estatais. Adicionalmente, tornaria mais transparentes as relações entre cidadãos e o Estado: um sistema de "comparticipações estatais" deixaria de ser qualitativo mas paramétrico. Qualquer pessoa saberia à partida quanto pagaria de impostos e quanto receberia, evidenciando a parcela do seu dinheiro que o Estado reservaria à "solidariedade social".
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Sendo paramétrico, um regime como este pode ser facilmente calibrado, com objectivos e resultados muito diferentes. A fiscalidade pode ser achatada ou tornada mais desigual e progressiva. As comparticipações podem ser iguais para todos cidadãos, ou serem altamente discriminatórias. Os parâmetros podem ser definidos a mínimos de decência humana (as "safety-nets"), ou a níveis "nórdicos". E em última análise, o sistema pode consistir em muitos parâmetros, ou em quase nenhuns— como o proposto aqui por Charles Murray, referenciado hoje pelo MAF.

Acredita-se que aumentaria a percepção dos cidadãos quanto aos males do estatismo. Mas não coloca o ênfase na responsabilidade individual— pelo contrário, pode ser utilizado de forma a eliminar solidariamente o risco da vida das pessoas. Mas o Risco é a outra face da Oportunidade. Eliminar universalmente a necessidade de precaução e provisão para as eventualidades da vida pode constituir um risco apreciável ao espírito de iniciativa e empreendedorismo de uma sociedade.

Pior, um sistema como descrito continuaria a permitir a discriminação fiscal que o Estado quisesse— seria possível ao Governo determinar o nível de carga fiscal a que cada cidadão estaria sujeito, em função da sua classe económica ou social, ou qualquer outro critério arbitrário, e fazer o mesmo para as entidades colectivas. E permitiria toda e qualquer redistribuição de rendimentos— o Governo determinar quem receberia quanto dos dinheiros feitos públicos pela coacção fiscal.

Ou seja, o fim do paradigma da exclusividade estatal da prestação dos serviços sociais não é acompanhado pela redução do poder fiscal do Estado sobre os cidadãos, ou pela limitação do incrível espírito estalinista de regulação da sociedade por parte do poder político. É um esquema quase perfeito para o social-democrata, mas não entusiasma os espíritos mais liberais. Apesar das reservas conceptuais expostas, a sua clara viabilidade política e grande potencial de exposição das falácias socialistas torna-o interessante à discussão liberal.

Idiocy

"The striking idiocy of youth" por Theodore Dalrymple no Times:
French students should go back to class to learn some economics

Whether they know it or not, the people on the streets in France were demonstrating to keep the youth of the banlieues — who recently so amused the world for an entire fortnight with their arsonist antics — exactly where they are, namely hopeless, unemployed and feeling betrayed. For unless the French labour market is liberalised, they will never find employment and therefore integration into French society. You have only to speak to a few small businessmen or artisans in France — the petits bourgeois so vehemently despised by the snobbish intellectuals — to find out why this should be so. The French labour regulations make employment of untried persons completely uneconomic for them.

It is often pointed out that French unemployment under the age of 26 is the highest in Europe, running at about 25 per cent. Moreover, in the banlieues it is 50 per cent. These banlieues are homes to millions of people, disproportionately young. It follows — does it not? — that there must be a considerable section of the young population in which unemployment is less than a quarter, actually much less. One would hardly have to be de Tocqueville to guess in which section of the young population the unemployment was less: the section from which the demonstrators, or at least their leaders and agents provocateurs, are drawn. In an increasingly desperate situation, the demonstrators are so afraid of the future that they want to hang on to their privileges and job security by hook or by crook, even if it means that the youth of the banlieues will eventually have to be kept in order by the Compagnies Républicaines de Sécurité, the much-feared riot police, the CRS. There is nothing idealistic or generous about the demonstrators, just as there wasn’t in 1968.

Conversas de Café

- Coitados destes em França. Todos temos direito ao emprego!
- Se todos temos direito ao emprego, quem fica, para ser empregador?
- Mas os empregadores têm o seu emprego.
- Que é qual?
- A sua actividade e a sua produção.
- Ah, pensei que o emprego dele era dar emprego aos outros.
- Claro que não.
- Então se o emprego dele é a sua actividade e a sua produção, faz sentido que ele só empregue quem pode, quando pode e por quanto pode. Ou não?
- Não, porque todos temos direito ao emprego.
- E que emprego é esse?
- Trabalhar, ter actividade, produzir.
- Mas se o empregador de repente atravessar uma crise e só tiver actividade para 10 empregados, por que razões tem de manter os 20 empregados?
- Porque todos temos direito ao emprego. Não se pode despedir assim.
- Mas se o emprego é produzir e ter actividade, e o empregador não tiver trabalho para dar, o direito ao emprego transforma-se não no direito a produzir, mas no direito a receber um salário, aconteça o que acontecer. Ao mesmo tempo, o emprego do empregador não é produzir e ter actividade, mas sim e apenas pagar salários aos seus empregados.
- Não me parece é justo que ele possa despedir, assim, dessa forma.
- Claro, mas se o sistema funcionar dessa maneira, há cada vez menos gente a querer ser empregador. E a ser apenas empregado. Por isso volto ao início: se todos temos direito ao emprego, quem fica, para ser empregador?

♪ Licht!

(clicar para ouvir)
link
Joseph Haydn, Die Schöpfung (A Criação),
A Representação do Caos, Largo, e Recitativo com Coro

RAPHAELRAPHAEL
Im Anfange schuf Gott Himmel und Erde,
und die Erde war ohne Form und leer,
und Finsternis war auf der Fläche der Tiefe.
In the beginning God created the heaven and the earth. And the earth was without form and void. And darkness was upon the face of the deep.
CHORCHORUS
Und der Geist Gottes
Schwebte auf der Fläche der Wasser,
Und Gott sprach: Es werde Licht!
Und es ward Licht.
And the Spirit of God moved
upon the face of the waters.
And God said, Let there be light:
and there was light.
URIELURIEL
Und Gott sah das Licht, daß es gut war,
und Gott schied das Licht von der Finsternis.
And God saw the light, that it was good: and God divided the light from the darkness.

[ esta música fica aqui como homenagem à Joana do Semiramis, aqui num dos poucos "deslizes" quanto aos seus gostos pessoais. ]

En cassant la barraque

Referido pelo dos ∫antos ("Talvez o Actimel não chegue", no My Guide to Your Galaxy), o artigo "Disillusioned France hungers for reform without revolution" do Financial Times:
An opinion poll, published by Le Figaro newspaper on Saturday, showed that 50 per cent of French people did not have faith in the market economy - compared with 20 per cent in communist China.

A esta pavorosa estatística tem de ser acrescentado o facto da maior parte da sociedade ambicionar trabalhar para a função pública— cumprir o sonho de fazer uma vida métro-boulot-dodo, entregar-se à vache sacré do "Estado Social" Omnipotentis— tão intocável como uma PAC— a face mais visível do "contrato social" do país que praticamente inventou as "liberdades positivas".

A vie en rose que prometeram aos franceses é une farce. Os revolucionários de 68, inspirados pelos mais nobres princípios colectivistas, entrincheiraram-se num sistema social e laboral "generoso" que exclui, trinta anos depois, a juventude do mercado de trabalho. Os revolucionários de ontem são os mais reaccionários "conservadores" de hoje.

As elites governantes optaram por aplicar o característico chauvinismo gaulês aos franceses, mimando-os com inúmeros paternalismos sociais e proteccionismos populistas. Geraram um regime social e laboral desenhado à semelhança das linhas de produção de fois gras. A velhinha Marianne ameaça tombar de borco.

E quando é inevitável e necessário que a sociedade e o mercado corrijam as engenharias sociais e económicas atentadas pelo Estado, toda e qualquer reforma é rotulada de "neoliberal". Quel horreur!

Os franceses desconfiam da economia de mercado. O Primeiro-Ministro Villepin insiste no patriotisme economique; o Presidente Chirac não quer ouvir de operações empresariais "que não acrescentem capacidade produtiva"; o CPE é contestado por milhões, assustados.

O que é "novo" perde em toda a linha, quando contraposto à falsa segurança socialista, ao fascínio pelo mercantilismo dos tempos coloniais, à glória aristocrática e tão francesa do Ancien Régime. Hoje em dia, não há motivos para ser-se fier d'être français— mas insiste-se em preservar a ilusão, contra os que tem sonhos diferentes. Pathétique.

quarta-feira, março 29, 2006

Pontos de Fuga

Amanhã é Quinta-feira, pelo que n'O Insurgente já está disponível a minha coluna semanal. Os Pontos de Fuga desta semana atreveram-se a falar das quotas femininas na política. Vão , leiam todo o blogue e não voltem, se pensarem que sou machista.

Leitura recomendada

"Tirem os burocratas da educação" do Pedro Sette Câmara n'O Indivíduo.
Ao cobrar impostos, o governo impõe um pagamento e oferece um serviço cuja qualidade você pode contestar, na melhor das hipóteses, com longínquas esperanças. Se você não tem a educação que deseja, talvez seu neto venha a tê-la se houver suficiente lobby político, um determinado partido vencer as eleições etc. Já no mundo das escolas particulares (que não fossem regulamentadas pelo governo como hoje), se você não está satisfeito com uma, pode simplesmente mudar para outra.

Contrato primeiro banho


Paris, mardi 28 mars.
En fin de journée, la police fait usage de canons à eau.

♪ Danças Polovetsianas

(clicar para ouvir)
http://usoc.snu.ac.kr/music-site/borodin/igor/dances.mp3
Alexandr Borodin, Príncipe Igor, Danças Polovetsianas

O Estado e a religião

Vital Moreira diz que é mais do que tempo de pôr termo a todas as outras violações subsistentes do princípio constitucional da separação entre o Estado e a religião, voltando a apelar para a retirada os símbolos religiosos dos serviços públicos ("O Estado e a religião", no Causa Nossa).

Há um princípio tão ou mais importante que é o da liberdade religiosa ("A liberdade de consciência, de religião e de culto é inviolável."). O Estado deve servir as pessoas, mas muitas pessoas são religiosas. Porquê a secularização do Estado? Entendeu-se limitar o poder do Estado no domínio religioso para preservar o princípio da igualdade— para que não favoreça cidadãos que professem determinadas confissões, em deterimento de outros. É para que não agredida directa ou indirectamente aquela liberdade fundamental que o Estado deve estar desligado de uma leitura religiosa das Leis e das instituições— o princípio da separação entre o Estado e a religião ("As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto.").

Obrigar as pessoas a pagar o sistema "social" estatal e se quiserem, pagarem por fora alternativas privadas é uma agressão à liberdade económica dos indivíduos, que deve ser corrigida. Mas contra a política de "liberdade de escolha" argumenta-se que os cidadãos não devem poder escolher as instituições da sua preferência (escolas, hospitais, ...), não vá a sua escolha recair sobre organizações de inspiração religiosa, o que faria violar o princípio de separação entre o Estado e as religiões. Este argumento é uma desculpa desonesta para a manutenção do monopólio estatista, e acrescenta à agressão económica grave uma agressão à sua liberdade religiosa.
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A agressão económica tem de ser reparada. Os impostos não são dinheiros voluntariamente doados para a causa estatista, são subtraídos aos contribuintes supostamente para fins estritamente necessários. Se o Estado socialista pretende exercer redistribuição, que o faça. Se o Estado quiser oferecer serviços "sociais" estatais, que o faça, mas sujeite a sua pretensa qualidade e "especificidade" ao leal princípio do utilizador-pagador. A liberdade de escolha é um direito das pessoas, e não das instituições: são as pessoas que devem ser eventualmente "financiadas". O Estado que não imponha à força o seu sistema, deixe as pessoas escolher entre os diversos serviços "sociais" existentes no mercado.

Havendo regulação estatal dos serviços privados, tem de ser baseada em critérios objectivos e mensuráveis. Nunca religiosos. O dinheiro não é do Estado, é das pessoas. Não queira o Estado dizer às pessoas como utilizar o seu dinheiro— e não contente, impor a separação entre as pessoas e a religião simplesmente porque detém esse poder. Conforme-se. Impor às escolhas das pessoas o laicismo é violar de facto o princípio da separação entre o Estado e a religião.

Dizer que determinados serviços "sociais" não são adequados às pessoas porque professam uma perspectiva religiosa, e que as pessoas não sabem o que é melhor para elas enquanto cidadãos, e que só podem aspirar ao que o que é melhor para o Estado...— por muito benévolo que este discurso possa parecer, a sua aceitação é meio caminho para a ditadura.

Menos um subsídio esquizofrénico

"Bruxelas quer acabar com benefícios fiscais à compra de casa" (Agência Financeira)

Os benefícios fiscais à poupança habitação tornam mais "barato" o endividamento das famílias, à custa de todos os contribuintes. São subsídios ao endividamento.

O rol de consequências nocivas desta medida política desastrosa de calibração da mercados inclui o óbvio dano fiscal e respectiva burocracia administrativa, a redução da perspectiva de risco e custo do endividamento, o empolamento da "bolha imobiliária" que distorce insustentavelmente o valor de mercado da propriedade, a diminuição do consumo corrente, o aumento do crédito mal parado e respectivos custos de resolução, incluindo a obstrução da Justiça.

terça-feira, março 28, 2006

personajes cuya simple proximidad pudiera ser considerada como un escándalo


Max Beckmann, A Noite


"En ciertas ocasiones, después de ver pinturas de Beckmann, he sentido la tentación de incorporar en mis relatos situaciones y personajes cuya simple proximidad pudiera ser considerada como un escándalo; establecer en un rapto de bravura los hilos necesarios para poner en movimiento toda clase de incidentes incompatibles hasta formar con ellos una trama. Soñar con escribir una novela ahíta de contradicciones, la mayoría sólo aparentes; crear de cuando en cuando zonas de penumbra, fisuras profundas, oquedades abismales."

Sergio Pitol, El arte de la fuga

(a propósito do comentário do Pedro Veiga)

Simplex (2)

De que serve uma programação linear quando Portugal está mergulhado em planeamentos estalinistas?

Simplex

Simplex-4, pentácoro ou pentatopo, outros nomes do hipertetraedro, "primo" do hipercubo
..

♪ they who love the greater love do not hate

(clicar para ouvir)
http://www.darn-tootin.com/5agnusdei.mp3
Benjamin Britten , War Requiem, Agnus Dei


At a Calvary Near The Ancre

One ever hangs where shelled roads part.
In this war He too lost a limb,
But His disciples hide apart;
And now the Soldiers bear with Him.

Near Golgotha strolls many a priest,
And in their faces there is pride
That they were flesh-marked by the Beast
By whom the gentle Christ's denied.

The scribes on all the people shove
And bawl allegiance to the state,
But they who love the greater love
Lay down their life; they do not hate.

Wilfred Owen
Written probably in late 19l7 or early 1918, Wilfred Owen having been involved in fighting near tbe river Ancre in January 19l7. As in "The Parable of the Old Man and the Young," WO adapts biblical detail to fit the war. In the Gospel story, the soldiers kept watch at the cross while Christ's disciples hid in fear of the authorities; priests and scribes passed by in scorn. The Church sends priests to the trenches, where they watch the common soldier being, as it were, crucified, and they take pride in minor wounds (flesh-marked, l. 7) as a sign of their opposition to Germany (the Beast). Flesh-marked, however, carries a further meaning: the Devil used to be believed to leave his finger-marks on the flesh of his followers (cf. Revelation 14: 9-10). Thus the Church's hatred of Germany (l. 12) puts it in the Devil's following, and the priests' wounds are signs not so much of opposition to the Devil Germany as of allegiance to the Devil War. Christ said "Love one another" and "Love your enemies"; despite the exhortations of Church and State, WO perceives that "pure Christianity will not fit in with pure patriotism."

Jon Stallworthy, the editor of The Poems of Wilfred Owen (1985), p. 111

Preto no branco (2)

Num sistema totalitário, o cidadão só tem os direitos e liberdades que uma entidade superior aprouver.

Mas em sociedades democráticas liberais, os indivíduos são livres: é praticamente inconsequente a enumeração de direitos e liberdades.

Até escrever que o cidadão tem direito à vida é absurdo— porque é trivial (advém do conceito de liberdade); e não é algo que possa ser assegurado— como todos os outros "direitos" ou "liberdades".

Os direitos e liberdades são apenas instâncias específicas do exercício da Liberdade, conceito que pressupõe o respeito pelos direitos e liberdades do outro.

Proud to be an immigrant

"Fortress America is just what Lenin wanted us to have" - Ronald Reagan

Os imigrantes deixam de proclamar "proud to be an american" quando passa a ser motivo de orgulho sobreviver a proteccionismos socialistas e nacionalistas.

Expropriação (2)

Hugo Chavez, esse grande herói, continua a sua senda socializante, mas sem medos de chamar as coisas pelos nomes, justiça lhe seja feita. Agora prepara-se para expropriar os proprietários de casas no mercado imobiliário que se recusem a vender as casas a preços justos e acessíveis. Nada de novo, como eu já tinha referido aqui. O Estado gosta muito de prometer direitos sociais e de obrigar os particulares, nem tidos nem achados no assunto, a garantir a concretização desses direitos.
Ao que parece, a Venezuela enfrenta uma grande falta de habitação a preços justos. A primeira medida de Chavez, ao que parece, foi a atribuição de subsídios à construção. Primeiro erro fatal. Ao imiscuir-se no mercado, por forma a moralizá-lo, o resultado foi simples: com os subsídios, os preços aumentaram. Perante a subida de preços, o governo prepara-se para expropriar os investidores imobiliários. Reparem no engraçado da coisa. Há falta de habitação a preços justos. Logo, o governo expropria os proprietários. Ora, se estes não tiverem qualquer vantagem em serem proprietários, quantas casas serão construídas? Quantas pessoas se dedicarão ao mercado imobiliário?
Não me quero pronunciar aqui sobre o verdadeiro atentado à propriedade privada em que consiste esta medida. Interessa-me sobretudo destacar a total irracionalidade que lhe está subjacente. E que salta a olhos vistos. E que não é muito diferente do que acontece com o mercado de arrendamento em Portugal.

Enquanto dormia...

... A Cooperativa fez anos. Parabéns pois!

Hoje, estou de olhos postos em...

Ponto de Ordem

As medidas anunciadas pelo governo, e que já são coisa bem melhor do que coisa nenhuma, não vêm acabar com a burocracia. Limitam-se a organizar a burocracia, tornando-a alegadamente mais lesta. A burocracia, como já aqui tenho dito, é o mesmo que o quarto desarrumado de uma criança. Se a mandarmos arrumar o quarto, que faz ela? Pois bem, empilha os brinquedos, mas não os guarda, torna a desarrumação visualmente menos agressiva, abre armários e gavetas e ali despeja, sem arrumar, as porcarias que não convém mostrar a olho nu. Quando os pais entram no quarto, podem até sorrir, mas sabem que o quarto não está arrumado. Toda a confusão continua lá: para se ir buscar uma camisola continua a ser preciso atravessar as pilhas elegantemente desenhadas de brinquedos; para se abrir o armário das calças continua a ser preciso proteger o rosto contra o que dali pode cair e para se fazer a cama ainda é necessário ter cuidado e não partir os objectos escondidos debaixo dela.

A melhor receita para terminar com a burocracia não pode passar pela sua organização. Rapidamente a nova organização emperra e encontra novos engulhos. Também não passa apenas por uma nova cultura de funcionalismo público, porque o Estado será sempre o Estado e há coisas que não podem mudar. A melhor receita para terminar com a burocracia é, como o seu nome indica, acabar de vez com a sua existência. Para isso, há que repensar, desculpem a insistência, o papel do Estado. Enquanto o Estado andar em cada esquina e perseguindo em cada lance de escadas, a burocracia não pode senão florescer. De forma mais ou menos organizada, mas quase sempre de forma desnecessária. Saúdo as medidas que se anunciaram, algumas delas de coragem. Mas é preciso mais. Muito mais.

segunda-feira, março 27, 2006

♪ Balada soturna

(clicar para ouvir)
http://jnjmuse.cnei.or.kr/musicbox_6/brahms_ballade_no3_op10-3.mp3
Johannes Brahms, Ballade op.10 no.3 em Si maior

Os Mises em Lisboa

"Our Escape From Europe" de Margit von Mises:

When we arrived in Lisbon, we took a deep breath. Our first days there were fully occupied with visits to the police (every foreigner had to register), to the various transportation offices, and to the American consulate. We were staying at a small but beautifully located hotel on the coast. Many of our new friends from the bus were also there, and we frequently met the other passengers in town. We still were like a big family.

Lisbon was the most picturesque city I had ever seen. The houses were painted either a brilliant white, a light delicate pink, or, sometimes, a soft green or a bright yellow. Some of them were decorated with a Moorish painted pattern, others were completely covered with green tiles, shimmering in the sun like a fresh green meadow. The city is divided into an upper part and a lower part; the streets run up and down, completely hilly. I hear they now have elevators to the upper and lower parts. In 1940 they only had a sort of tramway and comfortable paths for pedestrians.
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There was great poverty in Lisbon, and as a consequence, there were many many children selling newspapers, polishing shoes, and often begging for money. Once in a while a policeman would chase them, but more often he kept his eyes shut. The little boys liked to hang onto the boards of the tram — a favorite game of theirs. They were too poor to pay and the conductors chose not to see them.

The poorer women were either pregnant or carried their latest baby in their arms or hidden in their shoulder scarves. They did not have perambulators. Often they carried a basket of fish upon their heads.

These female-fish-vendors and the smell of fish were characteristic of the city. Everything smelled of fish — the tramway the streets, the harbor, the little cars. Early in the morning the women moved in long lines from the harbor to the markets with tiny pillows on their heads, on which they carried large flat baskets full of fish. These women, though mostly short and stout, carried themselves erectly and proudly. Only when they had to cross a sheet, one of their hands held on to the basket, otherwise they walked without touching it. They were unbelievably modest, and their needs were few. The tramways, as well as the tiny taxis, moved very fast, and often the conductor rang the bell before the last passenger could jump on board, forcing the would-be passenger to run, get hold of a handle, and pull himself aboard while the tram was moving.

People were friendly in Lisbon, and the policemen treated foreigners very well. Once, Lu and I wanted to visit a friend of his, and the street where the man lived was rather far from our hotel. We asked a policeman how to get there, but as we did not know the language, we had difficulty understanding him. Lu decided to take a taxi and started to walk toward a nearby taxi stand. When the policeman noticed this he followed us, took me by my sleeve, led us to the tramway stop and signaled us to wait. When the tram arrived, he made us enter, followed us, and explained to the conductor where to take us and when to let us off. Since the tram had already started to move, he himself had to stay on until the next stop. There, as if nothing had happened, he said good-bye, got out, and walked back to his place of duty.

Machadando o Nó Górdio

Um artigo provocatório ("A Plan to Replace the Welfare State") de Charles Murray, apontado pela nossa consultora Elise:
This much is certain: The welfare state as we know it cannot survive.

Instead of sending taxes to Washington, straining them through bureaucracies and converting what remains into a muddle of services, subsidies, in-kind support and cash hedged with restrictions and exceptions, just collect the taxes, divide them up, and send the money back in cash grants to all American adults.

domingo, março 26, 2006

Notícia importante

A Artedafugosfera não está para acabar.

DGCI com novo logo

Dedicado a todos os contribuintes:

Doutrina da primeira venda e Direito de sequência

No estudo mencionado abaixo, lê-se:
The first sale doctrine gives consumers the right to resell legitimately purchased copies of copyrighted material to others.

Alguns bens protegidos por direitos de autor incluem um suporte físico que permite a reprodução de uma experiência um número infinito de vezes (um livro, um CD, uma pintura, uma estátua..). Quando o suporte físico é cedido, cessa a possibilidade de reprodução da experiência por quem o detinha anteriormente.

O detentor dos direitos de autor está protegido pelas leis de copyright, que proibem a reprodução de exemplares para revenda. Mas sendo o exemplar o mesmo, a sua transacção sucessiva não paga direitos de autor, porque estes consideram-se saldados com a primeira aquisição (é a doutrina da primeira venda).

Não cabe ao criador ser parte interessada no que acontece ao exemplar. A não ser por disposição contratual, e dentro das limitações legais, o proprietário dos tais suportes físicos tem direito a fazer deles o que quiser, incluindo destruí-los ou vendê-los por lucro.

Bem-vindos à Quinta Dimensão:
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A directiva qualifica o direito de sequência como um direito de fruição que permite ao autor de uma obra de arte plástica ou gráfica original beneficiar de uma participação económica sobre o preço de cada transacção da obra e nas suas sucessivas alienações, após a sua inicial alienação pelo autor, livre de impostos.

("Proposta de Lei n.º 45/X", Gabinete do Direito de Autor)

Esta proposta de lei supletiva determina que seja paga uma taxa sobre o valor global de cada transacção de uma determinada classe de bens protegidos por direitos de autor— mesmo que seja feita com prejuízo!

É mais um exemplo de uma proposta de lei elaborada com profundo preconceito anticapitalista. Estabece que o artista detenha uma "quota mínima" sobre cada objecto de arte, tornando-se para sempre um parasita do seu valor comercial. Quem detém a "quota maioritária" não pode desfazer-se dela sem ceder sempre parte da receita ao "accionista minoritário"; e o novo maioritário tem de aceitar iguais condições, até que deixe de existir objecto de arte.

Esta lei homenageia a convicção grotesca que em cada transacção comercial há uma parta fraca que é invariavelmente explorada (neste caso, o artista— mesmo que já não seja um dos intermediários). E impõe ao mercado um imposto que cede ao grupo de interesse para a qual foi elaborada. Afectará relativamente pouco quem lida com riscos reduzidos e grandes margens de lucro (o establishment cultural), mas penalizará fortemente a criação cultural emergente, onde o risco é maior e os lucros são reduzidos.

sábado, março 25, 2006

Preto no branco

Sustenta-se que ter liberdade de fazer algo equivale a ter poder sobre os meios necessários para o fazer, e que assegurar o direito a algo equivale a propiciar o fim estipulado. Defende-se que assegurar as liberdades e os direitos equivale a garantir esses meios e esse fins.

Por muito que se abuse das palavras, em nenhum caso um direito a um estado final e uma liberdade de acção implicam uma garantia.

Por exemplo, qualquer indivíduo tem direito a tornar-se milionário, e ninguém tem direito de o impedir de forma desleal. O indivíduo tem a liberdade de gerir a sua vida de forma a tornar-se milionário, desde que não atropele direitos de terceiros.

Dizer que o indivíduo tem o direito e a liberdade de ser milionário não equivalente a dizer que alguém garante que o indivíduo venha a ser milionário.

"Bom o suficiente"

O socialismo consiste em tratar as "dores de crescimento" da sociedade com medicação em doses crescentes.

sexta-feira, março 24, 2006

Auto-paródia (3)

Eu sempre tive Villepin em muito boa consideração. Sarkozy demonstra ser um biltre oportunista.

Auto-paródia (2)

Que saudades de um Governo de centro-direita para poder cascar com "desinteresse".

Auto-paródia

À excepção de Hayek, seus legítimos antecessores e sucessores, da blogosfera do lado "certo" da "barricada", e de alguns académicos e cronistas de estima, é tudo socialista!

[ a propósito de "Ainda Schumpeter e a Escola Austríaca" ]

O iliberal caso dos "direitos de autor" sobre a propriedade (2)

O direito dos arquitectos a darem a sua anuência a transformações de um edifício não existe, a não ser quando contratualizado (argumentado aqui).

Mas ao manifestarem-se contra alterações ("este não é o meu projecto!"), os arquitectos demonstram que tais inovações não consistiam da concepção original da edificação.

Se recusam o reconhecimento da autoria conceptual dos efeitos produzidos, perdem direitos de propriedade intelectual que a eles podiam estar associados— uma cópia de uma obra de arte publicamente renegada pelo seu autor deve ser considerada caída no domínio público e isenta de copyright...

Apple iTunes: que monopólio? (2)

Quase a propósito da interessante discussão motivada pelo post "Apple iTunes: que monopólio?", a newsletter semanal do Cato Institute apresenta o estudo "Circumventing Competition: The Perverse Consequences of the Digital Millennium Copyright Act", de Timothy B. Lee (PDF completo aqui), que acaba por corroborar grande parte dos argumentos do João Luís Pinto (Small Brother, Crítica Portuguesa), assim como alguns meus.

Tentando resumir a discussão, e pecando intencionalmente por simplificação, o JLP argumenta que as tecnologias de Digital Rights Management (DRM) agridem direitos do consumidor, e que mecanismos legais como o Digital Millenium Copyright Act (DMCA) serviram para companhias como a Apple e outras líderes de mercado manterem e expandirem a sua posição dominante, em condições de concorrência legal, mas desleal.

Eu argumentei que tecnologias de DRM são um direito comercial das empresas. Que muito abusivas que pareçam as cláusulas, são aceites pelos consumidores, que não deixam de ter alternativas no mercado. E que concordava que instrumentos legais como o DMCA são aberrações porque sufocam a concorrência.

Mas persisto em dizer que não se corrige uma distorção flagrantemente favorável aos detentores de copyright com uma medida política voluntariosa que agride o mercado como um todo. Bastava não aplicar em França pacotes legislativos como a DMCA, obrigando a Apple a manter-se à frente da concorrência para justificar o seu domínio.

Ficam extractos do artigo [fazendo uso do princípio de fair use] que penso que compatibilizam as nossas posições:
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Digital rights management (DRM) technologies [...] control access to digital media to discourage copyright infringement. [...] To be effective, a DRM scheme must prevent unauthorized devices from “interoperating” with it. Because unauthorized devices are not bound to enforce the rules of the DRM system, the designer of a DRM system cannot afford to allow them access to protected content.
the DMCA gives DRM technologies the force of law. [...] The DMCA is anti-competitive. It gives copyright holders—and the technology companies that distribute their content—the legal power to create closed technology platforms and exclude competitors from interoperating with them. [...] The DMCA threatens to undermine that competitive spirit by giving industry incumbents a powerful legal weapon against new entrants. [...] The DMCA errs because it focuses on a technological means— circumvention— rather than a criminal end— piracy. People who circumvent DRM schemes to pirate content should be punished, but people should be free to circumvent copy protection for purposes that are otherwise lawful.
Apple should be free to offer whatever contractual arrangement consumers will accept, including agreements to abide by DRM systems that most consumers would find oppressive. Consumers circumventing the DRM features in iTunes may be violating their contractual obligations. However, that does not justify using copyright law to prohibit third parties from producing circumvention tools for iTunes music. Those third parties are not parties to the Terms of Service and are not bound by its terms.

More to the point, Congress ought not to enact specially crafted copyright legislation to assist particular industries in enforcing the terms of their contracts. If a contract’s terms are arbitrary, unreasonable, and impossible to enforce—as the terms of Apple’s DRM scheme arguably are—then the company ought to bear the legal and public relations costs that come with monitoring and suing its own customers.

quinta-feira, março 23, 2006

Oh my God, they killed Chef!

Na continuação da notícia Chef de saída,

"«South Park» mata «Chef» para vingar-se de Isaac Hayes" (Diário Digital)

[ vídeo YouTube ]

[ o Rodrigo Moita de Deus lembrou-se primeiro do título perfeito para esta notícia! You bastard! ]

Expropriação

A proliferação de direitos sociais seria um pouco mais inofensiva se o Estado se encarregasse, ele próprio, de assegurar a sua efectivação, respondendo ele próprio pela atitude de elevar determinadas realidades a direitos fundamentais. No entanto, existem casos diversos em que o Estado optou, de forma coerciva e atentatória, por transferir para determinado tipo de particulares a responsabilidade de assegurar direitos sociais sobre os quais estes não se pronunciaram, lavando o Estado as mãos das suas alegadas superiores tarefas.

Veja-se o caso do direito à habitação, que é hoje, no âmbito do arrendamento, assegurado quase exclusivamente pelos senhorios. Aquilo que o Estado fez, ao longo dos congelamentos das rendas e das reformas minimalistas que foi e vai fazendo no arrendamento, foi uma autêntica expropriação de propriedade, obrigando senhorios a suportar rendas irrisórias, obrigando-os a um sem número de deveres e impedindo-os de gerir o seu património. Sob a veste da concretização do direito à habitação, o Estado preferiu que fossem os particulares a arcar, sem compensação, com a quase totalidade dos custos inerentes à efectivação desse direito. Com a agravante que o senhorio Estado, nas suas casas de habitação social, tem mais possibilidades de gestão patrimonial do que qualquer outro senhorio, contando além dos mais com os impostos de todos nós.

Não se pense que o novo regime de arrendamento vem modificar grande coisa. O contrato de arrendamento continua a ser encarado como um contrato entre um forte e um fraco. O problema é que o alegado forte demora 6 anos a conseguir despejar um fraco que não paga rendas. O problema é que o alegado forte vê comprometida a sua liberdade negocial e a sua capacidade de gestão patrimonial. Entre tantas outras situações de injustiça. Ao mesmo tempo, o fraco justo paga pelo pecador. Há cada vez menos proprietários a querer arriscar arrendamentos, por exemplo.
Seria importante que, no âmbito do novo regime de arrendamento, o Estado metesse na sua cabeça, que o direito à Habitação, a ter sido concretizado, tem e deve ser prosseguida em primeira linha, pelo Estado, com o dinheiro possui e que é de todos nós. Tenciono voltar ao tema, em breve.

quarta-feira, março 22, 2006

Bom demais para ser verdade

"Obras: Governo vai lançar «licenciamento na hora»" (Diário Económico)
O Governo vai lançar o projecto «licença na hora» para permitir que a realização de obras mais pequenas dispensem a autorização dos municípios, anunciou quarta-feira o ministro da Administração Interna, António Costa.

Leituras recomendadas

"Um País De Aguadeiros" do Bruno Alves no Desesperada Esperança;

"É o capitalismo, sim, estúpido" do McGuffin no Contra a Corrente.

Esquerda-caviar no seu melhor

Chomsky is rich precisely because he has been such an enormously successful capitalist. - National Post, dica: Elise

Big Mac

Podia ler-se no Diário Económico de ontem, o seguinte:
Mesmo sem dar conta, os consumidores portugueses de restaurantes McDonald’s acabam por consumir mais produtos nacionais do que imaginam. Em Portugal, a maior cadeia de “comida rápida do mundo” trabalha com 13 empresas que fornecem produtos fabricados em Portugal. (...) De acordo com Isabel Brito, gestora do departamento de comunicação daMcDonald’s Portugal, a estratégia alia as “vantagens competitivas”, nomeadamente em relação ao preço a que os produtos são trasaccionados, ao interesse nacional.

Esta notícia revela como as empresas multinacionais, símbolos máximos da globalização, do lucro, da exploração do homem pelo homem, vocacionadas para a destruição das empresas concorrentes nacionais, afinal, podem ter interesse em apostar em empresas e produtos nacionais, contribuindo para o desenvolvimento da economia portuguesa.

Sem precisarem de qualquer movimento proteccionista a pugnar ou obrigar ao consumo de produtos nacionais, as empresas nacionais, se competitivas e donas de uma estratégia eficaz, revelam-se capazes de estabelecer alianças com os gigantes do mercado e alcançar resultados significativos, para si e, em consequência, para a economia nacional. Ao mesmo tempo, as multinacionais, como se vê, estão é interessadas em preços competitivos e empresas com dinâmica comercial, pouco lhes importando a nacionalidade.

Apple iTunes: que monopólio?

Yesterday's vote by the French National Assembly to require companies to open up their digital music businesses to competitors is a thinly disguised attack on Apple's hugely successful iPod/iTunes franchise. It is a bad piece of legislation and should not be approved by the French Senate. If consumers want open standards, companies offering these standards will ultimately prevail in the market. To the extent that Apple's high market share raises monopoly issues, these should be dealt with by competition authorities, not national parliaments.

"Taking a bite at Apple" (Financial Times)

Confundir a impressionante quota de mercado da Apple no sector da música digital com um monopólio é um erro crasso. O mercado é extremamente aberto, permitindo a entrada de qualquer agente com custos mínimo— e o que não falta são vendedores de música digital e leitores "MP3", todos com possibilidade de fazerem mais e melhor.

A Apple chegou onde chegou por mérito próprio e respeitando as regras da concorrência— não depender de imposições legais para prevalecer. Conseguiu revolucionar a forma como comercializamos música pelo Santo Graal das tecnologias da informação: o killer app, aquela aplicação que é tão boa que justifica a adesão popular maciça a um novo mundo.

O seu software, é verdade, só grava num formato exclusivo. Mas este formato, em vez de ser protegido por patentes e depender da força policial para garantir que não passa noutros dispositivos, utiliza meios tecnológicos para o fazer— o Fairplay DRM— motivo de irritação para muitos utilizadores iTunes, mas parte integrante do serviço.

Apesar das protecções do software iTunes, o mercado tem validado a opção comercial da Apple. A empresa de Cupertino sabe de experiência que neste mercado insistir na opção comercial errada pode ser fatal, e portanto terá todos os incentivos para continuar a fornecer um serviço melhor que a concorrência. Ao definir o que é "bom o suficiente", os políticos prestam um mau serviço aos consumidores.

What if

Presente da Elise:

(clicar para aumentar)

E se tivéssemos de passar um cheque ao Governo?
O Tio Sam custa tanto quanto a minha hipoteca mas vale a pena!

Teríamos muito mais interesse na política, não teríamos?
Bolas! Como é que eles descobriram que estávamos a gastar o dinheiro deles?

[ sobre este tema, posts antigos: Areia para os olhos | Areia para os olhos (2) ]

Pontos de Fuga

Se hoje é quarta-feira, que conclusão poderemos tirar? Para além de concluirmos que amanhã será quinta-feira, concluimos também que já está n'O Insurgente a minha coluna semanal. Os Pontos de Fuga desta semana procuram desmistificar um pouco a ideia de que os liberais são senhores sem coração, interessados apenas nos cifrões. Vão , leiam todo o blogue e não voltem, se ainda acharem que eu não tenho coração.

terça-feira, março 21, 2006

Smells like Big Hominid

O A Arte da Fuga anda nas bocas do mundo por todas as boas razões:

"The blog is a feast for the senses."


(BigHominid's Hairy Chasms [caution: addictive] Thanks Kevin!)

Separação de poderes?

Do Nuno Garoupa no Reforma da Justiça:

- "Artigo Publicado no Dia D"
- "Artigo Publicado no Dia D (II)"
O modelo continental criou este mito da separação do poder judicial dos poderes legislativo e executivo. Para além de essa separação não ter evitado as ditaduras, o totalitarismo, etc., este modelo está ciclicamente em ruptura. Nos últimos 50 anos funcionalizou-se o poder judicial. Por outro lado, usando o principio da separação de poderes, limitou-se a intromissão do poder judicial no poder legislativo e executivo. Ao contrário de outros países, em Portugal nem sequer temos a tradição da Assembleia da República nomear magistrados para proceder a inquéritos a políticos (onde estão os famosos independent prosecutors, independent porque especialmente nomeado para conduzir um determinado inquérito parlamentar). Quanto a mim, se quem controla o orçamento da justiça é o Governo e não o poder judicial, como se pode falar de efectiva separação de poderes?

Desagrado

Pela actuação de uma Autoridade da Concorrência que interfere com a vida económica do país com base num modelo de mercado nacional, descrevendo-o repetititivamente como carente de intervencionismo e regulação do Estado— quando hoje em dia a concorrência é global—, uma retórica de deseducação económica que dá azo a que notícias como esta não sejam devidamente ridicularizadas: o maior operador mundial de telemóveis manifesta-se à "autoridade competente" de um mínimo país europeu contra uma eventual fusão de dois concorrentes de dimensão nacional.

Parabéns!


Johann Sebastian Bach, 21 de Março 1685 - 28 Julho 1750
(clicar para ouvir)
do concerto para dois violinos em Ré Maior, Vivace

[ bem lembrado pela Miss Pearls! ]

Porque não espremê-los?

Não conheço, não sei quem são, não lhes devo nada. Descobri os Pontos Negros há pouco, muito pouco tempo, e logo entraram para a (extensa) lista de vícios diários, na categoria blogues, sub-categoria blogues com muita, mesmo muita piada. Desculpem o atraso.

Contestando o paradigma da exclusividade estatal da prestação dos "direitos sociais" (2)

Uma mina de ouro

[ texto publicado ontem na revista Dia D do Público ]

Em declarações recentes, o Ministro da Saúde Correia de Campos ensaiou em público a mensagem que eventualmente parte dos custos do Serviço Nacional de Saúde terá de ser suportada pelos utentes directos. Perante o clamor político, corrigiu-se e condicionou o debate à actualização das taxas moderadoras, uma medida que havia sido anunciada onze meses antes. Estes avisos enquadram-se na preparação da opinião pública para as medidas difíceis que o Governo terá que empreender para reformular uma administração pública sobredimensionada e um sistema social estatal em colapso, numa altura em que o estado é deficitário e o país atravessa uma situação de iminente recessão económica.
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Não é de esperar que o Governo, de matriz social-democrata, enverede por medidas liberais. É certo que manterá o estado como garante dos serviços actualmente tidos como direitos sociais (Saúde, Segurança Social e Educação). Estes terão de ser prestados por menores custos e maior adequação às necessidades dos utentes— um mecanismo estranho à administração pública, mas natural ao mercado concorrencial.

O mercado privado de serviços sociais existe, e tem provado ser mais eficiente que o estado em muitas funções. Pode argumentar-se que a racionalização do estado deverá passar pela contratualização destas funções aos privados, conservando o estado o seu financiamento. Mas este raciocínio insiste no mesmo vício de pensamento que conduziu à construção de um sistema estatal insustentável e desfasado das necessidades das pessoas.

Se o sistema social constitucional é destinado às pessoas, devem ser "financiadas" as pessoas, e não as instituições arbitradas pela administração pública. Esta comparticipação, pessoa a pessoa, deve ser igual caso recorra a serviços públicos ou privados. Contudo, quem queira aceder a serviços privados não pode deduzir nos seus impostos um valor equivalente ao que teria custado um serviço análogo prestado pelo estado. Na prática, o sistema estatal dificulta às pessoas, nomeadamente as de menores posses, uma liberdade económica importante—a de escolher os serviços sociais a que têm direito por princípio constitucional.

Que o estado abandone o princípio de titularidade do sistema social para se dedicar progressivamente ao financiamento da escolha dos cidadãos é um modelo intermédio entre o socialista e o liberal. Admite que os custos do sistema social continuem a ser suportados pelos contribuintes, de acordo com os princípios de redistribuição de rendimentos que estejam em vigor. Até admite que as comparticipações inviduais sejam discriminadas por critérios sociais. Mas devolve às pessoas uma liberdade negada por décadas a fio de modelos únicos estatais.

Esta reforma possibilitaria libertar os serviços públicos de funções que os privados desempenham melhor, tornando a administração pública menos agressiva ao bolso dos contribuintes. Permitiria o desenvolvimento de um mercado concorrencial de serviços— de saúde, de pensões e aposentações, de ensino—, adequado a todas as bolsas e estilos de vida. Geraria riqueza e empregos. E o estado continuaria a garantir os direitos sociais previstos na Constituição. Por todas estas razões, é uma mina de ouro política à espera de ser explorada.

Renacionalização

Antes de ler o texto, convém relembrar que os CTT - Correios de Portugal S.A é uma sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos, que surgiu quando a empresa pública CTT perdeu os serviços de telecomunicações para a então recém-criada Portugal Telecom.

Os CTT - Correios de Portugal estão interessados em explorar oportunidades de negócio que surjam no sector das telecomunicações na sequência da oferta pública de aquisição (OPA) lançada pela Sonaecom e têm sido estimulados para participar activamente como actores no processo, disse ontem ao PÚBLICO Luís Nazaré, presidente da instituição.

É, por agora, desconhecida a posição do Governo sobre esta matéria, mas o ministro das Obras Públicas e Comunicações, Mário Lino, manifestou já a sua concordância com a estratégia de Luís Nazaré para o sector, e admitiu que a escolha do seu nome para a liderança dos Correios teve em conta também a sua experiência nas telecomunicações. Luís Nazaré foi presidente da Anacom e marcou presença no conselho consultivo da Portugal Telecom (PT), de onde transitou para os CTT.

"CTT "estimulados" a intervir nas telecomunicações após a OPA" (Público)

A esperança dos que não protestam

Em França, os jovens que protestam imaginam-se a perder os seus empregos nos primeiros meses de vida laboral, e só essa hipótese conseguem vislumbrar. Lá saberão porquê. Mas outros tantos jovens, talvez até mais, imaginam as possibilidades laborais que esta nova lei (insuficiente) pode permitir. É que esses outros tantos jovens, talvez até mais, estão cansados de ouvir das empresas o discurso (verdadeiro) do “gostava imenso de o contratar, parece ser um excelente profissional, mas infelizmente já tenho aqui um rapaz, que não tem metade das suas capacidades, mas que não posso despedir”. Nas esperanças dos jovens que não protestam, está a convicção de que esta lei flexibiliza o sistema laboral, permitindo a uma empresa contratar os mais capazes e incentivando-a apostar nos mais jovens. Os jovens que não protestam, percebem que a flexibilização laboral incentiva à produtividade e assegura mais emprego, porque sabem que uma lei que impeça os justos despedimentos está, na prática, a impedir novas contratações.

Leitura (e revisão) obrigatória

Tratar o Cancro com Aspirina, pelo jcd, no Blasfémias.

É natural ver sindicatos e estudantes lado a lado nesta luta. Os sindicatos, porque representam o que de mais conservador há na sociedade, vivem para proteger a mediocridade de muitos dos seus pagadores de quotas e estão-se nas tintas para os desempregados. Os estudantes, porque ainda não fazem ideia de como funciona um mercado de trabalho. Não deixa de ser curioso observar que a liderança deste movimento nasce na faculdade de Sociologia. E depois, há os políticos de esquerda, que se juntam à festa e que ganham pelos dois lados. Ganham os votos dos manifestantes, e a simpatia dos desempregados que acreditam que estão a ser defendidos por quem lhes lixa a vida.

Vendetta


"People should not be afraid of their governments,
governments should be afraid of their people.
"

Suspiro pela partidocracia (2)

Não é isso que se entende por "Governo-Sombra".

segunda-feira, março 20, 2006

Gnawing at the roots


(Nidhogg roendo as raízes de Yggdrasil)
(clicar para ouvir)
Richard Wagner, Gotterdammerung, motivo da Árvore do Mundo

(música retirada do site: "The Ring of the Nibelung"— ou muito me engano, por sua vez retirada deste excelente e lendário disco)

Contestando o paradigma da exclusividade estatal da prestação dos "direitos sociais"

"Uma mina de ouro", texto da minha autoria, hoje na revista Dia D da edição impressa do Público, nas bancas por tempo limitado.

O mais tardar amanhã conto poder explicar como é que este texto articula com a última "pequena fuga", publicada sexta-feira n'O Insurgente.

Desde já, fica o meu agradecimento e um abraço ao João Cândido da Silva, director da revista Dia D, pela oportunidade e pela confiança— assim como os parabéns pela interessante iniciativa, que já contou no último número com um artigo do Nuno Garoupa, e continuará todas as segundas-feiras com artigos de outros colaboradores, alguns dos quais bem conhecidos da blogosfera.

Ah castiços!

Um tipo ganha as eleições presidenciais contra os pesos pesados da esquerda consensual e não consensual desta nação. Ganha como único candidato que não se assume de esquerda. Ganha ineditamente à primeira volta.
Que deveriam, em tese, dizer os democratas depois de uma eleição destas? Que o povo decidiu sólida e inequivocamente por uma postura, uma forma de pensar o país e o cargo e uma especial dimensão política no exercício das funções presidenciais. Deveriam, em tese, aceitar pacificamente as escolhas feitas pelo novo Presidente para o Conselho de Estado, como consequências naturais da vontade do eleitorado. Mas não. Não aceitam. Continuam e persistem na ideia que há certos lugares que devem ser habitados pela consensualidade da esquerda. Que há determinado tipo de funções que deve estar vedada à direita. Mesmo contra a vontade do eleitorado. Mesmo contra as evidências do sistema democrático. Há direitos que valem mais do que o voto. São os direitos inerentes à casta. São uns castiços, no fundo.

Divinizações à parte

Numa conversa, ontem à noite, acusaram-me de divinizar o mercado de forma semelhante à divinização do Estado pelos socialistas e comunistas, com a agravante de o mercado sempre parecer uma estrutura mais desumana do que um Estado Social. Nada mais errado. O mercado é um espaço de liberdade, sem coacções, onde se cruzam e para onde confluem milhares de vontades e informações numa interacção entre vendedores e compradores. Esse espaço, composto única e exclusivamente por acções humanas é conatural à existência humana e deriva directamente da nossa identidade. O mercado não é um decreto, uma imposição, uma entidade super-poderosa acima de todos e tudo comandado. O mercado existe sempre, mesmo nos estados mais socialistas e totalitários. Com imensas dificuldades eventualmente, mas sempre o mercado nasce nas falhas do Estado. E nasce porque é absolutamente humano, faz parte da nossa natureza.

domingo, março 19, 2006

Abertura de espírito (2)

Num regime de liberdade de escolha das escolas, a par do financiamento público do Ensino (um sistema de vouchers/"cheque-ensino"), como sairiam beneficiadas as pessoas, particularmente os não-“ricos” (aqueles que não podem dar-se ao luxo de pagar para não mandar os filhos para o Ensino Público)?

Para além dos exemplos óbvios de ganho de eficiência que se traduziriam em escolas mais adequadas às necessidades das pessoas, ficam alguns exemplos extremos:
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1. No interior do país, os custos crescentes da mão-de-obra e de estrutura do Ministério obrigaram o Estado a fechar numerosas escolas públicas. Os pais não têm outra escolha senão enviar os filhos para escolas nas redondezas. Ou as famílias podem mudar-se elas próprias para mais perto das escolas.

As pessoas poderão resignar-se à sua sorte, sempre. Mas provavelmente escolas privadas mais eficientes teriam todo o interesse em instalar-se localmente. Ou com o poder de aplicação do seu dinheiro-ensino, as pessoas poderão organizar-se para formar escolas comunitárias com os meios que conseguirem colectivamente angariar. As instalações físicas poderão não ser as melhores e os professores poderão ser recrutados da população local, mas as comunidades poderão investir na educação dos seus, fortalecendo a coesão social tão importante para a sua identidade.

2. Nas escolas dos subúrbios mais complicados, os problemas de indisciplina e insegurança são mais que muitos. Não raras vezes, para estas escolas são enviados professores estagiários, ensopados em teorias sociais mas sem preparação efectiva para lidar com a realidade, que pedem transferência logo que a sorte ou a sua antiguidade o permite. Os pais não têm grandes escolhas, e os alunos estão condenados a uma formação em condições deficientes.

Onde haja liberdade de escolha, os pais têm uma palavra a recomendar à gestão das escolas, como qualquer cliente. Podem escolher escolas onde a disciplina é intransigente, e qualquer aluno pode ser sumariamente mandado embora se demonstrar comportamentos indesejáveis (utilização de drogas, atitudes violentas, indisciplina), ou escolas onde não há esse tipo de restrições. Podem escolher entre os programas rígidos e os experimentais; entre as escolas onde as crianças são tratadas como turbo-alunos e aquelas onde são apaparicadas como reis. Entre aquelas que reaproveitam livros e materiais escolares e outras onde o desperdício é a norma, porque o luxo é o que está a dar. Nem todas estas opções estarão disponíveis, e haverá muitos compromissos, mas as pessoas poderão escolher as melhores escolas, sabendo muito bem quanto é que esse investimento custa, contextualizado na sua vida familiar.

3. A situação é semelhante nos guetos raciais ou racionais, que são sujeitos a um Ensino que prega o esquizofrénico discurso do multiculturalismo, mas funciona com programas únicos, desenhados por tecnocratas ministeriais em função de uma sociedade imaginária. À semelhança do anterior exemplo, os professores regra geral não têm nada que ver com a comunidade para onde quem vão leccionar. São putos brancos inexperientes e assustados— e aqui meia frase basta.

Com uma autonomia que não é possível no Estado politicamente correcto, professores locais poderiam ser contratados, e os programas poderiam ser reajustados da formação de doutores-e-engenheiros para a preparação dos alunos para profissões intermédias e técnicas empresariais que transformassem o tecido económico e social local. Ou não: os programas poderiam ser ambiciosos e orientados inteligentemente para preparar jovens adultos dispostos a escaparem do estigma das suas origens. Sem paternalismos.

O pior do ensino estatista é matar a capacidade de conseguir pensar para além do estatismo.

Throat singing


(clicar para ouvir)
click here to listen to the music

"The Throat Singers of Tuva" (Scientific American)

Chove sempre aos fins-de-semana

Pede-se àqueles que acreditam que as "alterações climáticas" se devem aos esgares idiotas do presidente Bush que arranjem uma teoria para explicar porque é que chove sempre aos fins-de-semana. E, sendo consequentes, proponham a cessação imediata de toda a actividade humana nos dias úteis— ou pelo menos a sua rigorosa regulação por entidades competentes.

Uma boa definição

Do António Torres no Faccioso:
A política não deve ocupar-se de garantir felicidade.
Deve preocupar-se em que cada um possa limar as arestas à sua infelicidade.

Omnis ars naturae imitio est


"Toda a arte é uma imitação da vida" - Seneca


[ reprodução da figura que acompanha o texto "Encontrem a Deus, mas noutro trabalho qualquer" do Aspirina B — já comentado n'O Insurgente. Discordo profundamente do texto, mas o meu fascínio por sistemas fractais falou mais alto ]

Analogia (2)

A explicação sobre alguns princípios matemáticos do cálculo estrutural serviu para ilustrar que em grande parte dos sistemas físicos minimamente complexos há mais de uma solução para cada problema, porque regra geral há mais variáveis a controlar do que condições "primárias" a respeitar.

Só uma solução corresponderá à óptima, muito poucas corresponderão a uma situação que não sendo óptima, é boa o suficiente. Para este fim, é necessário conhecer com mais pormenor como é que as variáveis reagem às soluções, porque uma solução "equilibrada" pode ser completamente inaceitável para determinadas variáveis, com reflexos graves para todo o sistema.

Ou seja, conseguir "um" resultado exige apenas que se use de expediência na simplificação do grau de complexidade do sistema: arbitrando valores para determinadas variáveis, eliminando relações entre elas (por agrupamento estatístico, por exemplo), ou ignorando-as.

Adulterando o sistema é sempre possível provar que a solução é "óptima". Mas se a realidade não for observada pela mesma lente distorcida ("o edifício está de pé! qual é o problema de umas rachas?"), fica à vista a incompetência do engenheiro. E o problema não é, nunca foi do sistema. Ou seja, é muito fácil ser-se eficaz, mas complicado ser-se globalmente eficiente.

(continua)

sábado, março 18, 2006

Fuga


Wassily Kandinsky, Fugue

Deixa-me rir... (2)

O partido que tem maioria no Parlamento obriga os restantes a cumprir aquilo em que acredita: a igualdade pela força. A Lei da Paridade, que será aprovada quarta-feira, imporá que pelo menos um terço dos lugares de todas as listas eleitorais para a Assembleia da República sejam ocupados por mulheres. A quota será cumprida porque a lei tem de ser cumprida. A representatividade das mulheres no poder político aumentará.

Há vozes que clamam que o Estado obrigue a sociedade a seguir o exemplo dos seus parlamentares. Exemplos estrangeiros são referidos para sustentar que a administração de empresas deviam ser "paritárias". E porque não todos os níveis de gestão, todos os empregados? Não poderia ser a "paridade" um critério de certificação de "qualidade social" das empresas, parte da sua "responsabilidade social"?

Para que seja garantida a protecção legal contra quaisquer formas de discriminação tão (a)berrantemente inscrita na Constituição, o Estado deverá estender a "paridade" a todas as suas instâncias, do poder local às instituições de soberania. E depois formatar implacavelmente a sociedade, controlando-a, punindo transgressões, começando pelas mais importantes instituições sociais. Comece o Estado por impor a "paridade"... ao casamento!— na escolha do companheiro, há quem discrimine em função do sexo! Paridade já!

Has your dog or cat contracted a computer virus?

Up until now, everyone working on RFID technology has tacitly assumed that the mere act of scanning an RFID tag cannot modify back-end software, and certainly not in a malicious way. Unfortunately, they are wrong. In our research, we have discovered that if certain vulnerabilities exist in the RFID software, an RFID tag can be (intentionall) infected with a virus and this virus can infect the backend database used by the RFID software. From there it can be easily spread to other RFID tags. No one thought this possible until now.

(RFID Viruses and Worms)

O meu sistema de ensino (3)

Poderá a educação ser mercadoria? Esta pergunta do Renato Carmo no Fuga para a Vitória, no seguimento do debate que temos vindo a travar, pode ter diversas respostas consoante os sentidos que podem conferir-se à palavra mercadoria. Mas ensaio aqui algumas considerações.

Enquanto mecanismo certificador, o sistema de ensino dá sinais para a sociedade, atestando determinadas valências de uma pessoa para o exercício de um conjunto de funções. A sociedade sabe, a cada momento, que um licenciado em direito será melhor do que um licenciado em engenharia para lhe tratar de questões jurídicas e não hesitará em contratar um engenheiro se pretender trabalhos de construção civil. A sociedade também sabe, a cada momento, que há escolas e faculdades melhores do que outras, e não hesitará em contratar os licenciados das melhores faculdades se quiserem ter a certeza, ou a pretensão da certeza, de contratar um dos melhores profissionais.

A sociedade também conhece, a cada momento, as escolas que ministram o melhor ensino. É por isso que anualmente milhares de familias falsificam documentos ou prestam falsas declarações, por forma a colocarem os seus filhos numa escola diferente daquela que lhes está destinada. E a sociedade também sabe, que há escolas que formam melhor os seus alunos para a faculdade. E também sabe que há escolas com melhores professores de matemática do que outras, ou que são piores a história do que outras.

Ao mesmo tempo, um licenciado em gestão, na melhor universidade, sabe que terá melhores possibilidades de conseguir determinado tipo de empregos do que os seus colegas de piores universidades. Um aluno de um liceu que prepare convenientemente os seus alunos, sabe que terá melhores possibilidades de obter sucesso nos exames de admissão ao ensino superior, do que os seus colegas de liceus menos competentes nessa matéria.

Não sei se isto qualifica a educação como mercadoria. Nem me parece que isso seja propriamente determinante. O que sei, por exemplo, é que o ensino é um mecanismo de diferenciação social, profissional e cultural. Que confere vantagens e desvantagens aos educandos. Que tem reflexos evidentes no mercado de trabalho. Que custa dinheiro a manter. E que algumas escolas e faculdades custam mais dinheiro que outras se quiserem manter determinados níveis de qualidade.


Ignorar estas realidades na definição de um modelo de sistema de ensino é que me parece perigoso e contraproducente, mesmo que seja mais tentador dizer que a educação não é um par de sapatos, como diz o Renato. É que esse pensamento, que tem como pressuposto a impreparação da sociedade para a modelação das diversas actividades, esteve na base de todos os totalitarismos: também a comunicação social não deveria ser um par de sapatos e durante anos se insistiu na sua total estatização; também a economia não deveria ser tratada como um par de sapatos, e durante anos se persistiu no seu encarceramento estatal; também o voto dos cidadãos, algo tão importante, não poderia ser tratado como um par de sapatos, ao sabor das opiniões do momento, e durante anos se impôs o sufrágio limitado.

Mais uma MacRevolução

Hackers have managed to get Microsoft's Windows XP operating system running on an Apple Mac computer. (BBC)

Windows XP Intel Mac installation method confirmed (ZDNet UK)

Windows XP on an Intel Mac (OnMac.net)

Abertura de espírito

"A general State education is a mere contrivance for molding people to be exactly like one another" — John Stuart Mill, On Liberty

Grande parte das objecções a um sistema de Ensino em que as pessoas tenham liberdade de escolha prende-se com o facto de passar a haver "escolas de ricos e escolas de pobres", uma sentença categórica que deriva o seu poder persuasivo do princípio firmemente enraizado na "sociedade" que qualquer sistema "igualitário" é sempre absolutamente "melhor".
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No sistema de Ensino que dispomos, existem escolas privadas que só podem ser suportadas pelos "ricos". Do outro lado, temos um Ensino "gratuito" e universal. Neste, o máximo retorno que as pessoas podem retirar do sistema é o que corresponde à máxima formação, aquela que supostamente proporciona máxima remuneração salarial ao longo da vida— porque todas as formações custam aproximadamente o mesmo. Não só, mas também por isto, todo o sistema está orientado para formar doutores e engenheiros, algo que agrada aos planeadores do Ministério.

Mas a formação dos indivíduos não é integralmente paga pelo Estado: requer um esforço considerável das famílias, sobretudo quando a formação é mais longa, como é o caso de um curso superior. O sistema coloca em competição directa quem tem mais capacidades sócio-económicas com quem não tem alternativa. Ou seja, dentro do regime "igualitário" verifica-se a velha lei que o sistema tende a estar orientado para a maior classe demográfica e eleitoral— a classe dita "média", urbana—, excluindo as restantes de oportunidades que lhes poderiam trazer mais valor.

Uma solução é proibir escolas privadas e procurar que a sociedade seja o mais igual possível, por acção de um poder centralizado autoritário. A História demonstra que as meias-tintas conduzem um país à mediocridade (é o que está a acontecer com o sistema português), mas que é possível, à custa das liberdades políticas e económicas, o Estado providenciar a melhor educação do mundo. Pelo menos até os cidadãos estarem fartos de ditadura. Outra consiste em dar às pessoas liberdade de escolha.

pequena fuga

Uma dúvida sistemática que assalta todos os "liberais" com consciência é saber se o Liberalismo "resultaria". Até mesmo os que depositam a sua fé e estudos no funcionamento de uma sociedade liberal são confrontados regularmente com alguma angústia de não saber o que aconteceria se as suas visões fossem implementadas. Esta "fraqueza" decorre da tendência institiva de desejar o melhor para a sociedade, e pensar que a política deve ocupar-se de garantir felicidade. Mas o utilitarismo, tornado político, transforma-se em socialismo, uma ideologia que só sobrevive à custa da usurpação das liberdades individuais.

O liberalismo consiste precisamente em não determinar por doutrina o que é melhor para a sociedade, porque as pessoas sabem decidir o que é melhor para elas. Se o Estado assegurar a Justiça, a Ordem e a Soberania e se abstiver de usar de intervenção e coacção desnecessária, a sociedade tenderá a maximizar a felicidade comum— ou pelo menos terá todos os meios para isso.

Entre a visão e a aplicação ao mundo real vai uma grande distância. Certamente, não há concessões a fazer no que toca à concepção intelectual do ideal liberal. Mas porque o Liberalismo também é um modelo político, para que seja realidade é preciso conquistar os corações das pessoas. Há que usar de pragmatismo político. Insistir no "produto final" pode ser contraproducente porque exige uma mudança radical de mentalidades. O Liberalismo não deve ser implementado pela metade, diz-se, mas num regime democrático terá de ser sujeito ao gradual processo de concorrência com as ideias socialistas/estatistas.
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Prova-se facilmente que o Estado é ineficiente e atropela os direitos das pessoas. Contudo, continua a ser fácil imaginar como é que o Estado poderia resolver os problemas do país, com mais e mais poder; e continua difícil conceber como é que a sociedade deixada funcionar livremente poderia "tomar conta" das coisas. O medo do vazio e do desconhecido funciona contra a substituição de muitas funções estatais pelo mercado. É visível que o desaparecimento do Estado provocaria desequilíbrios imensos; o que não é visível é que esses mesmos desequilíbrios existem porque o Estado os mantinha artificialmente, e que a sua existência sufocava o aparecimento de alternativas privadas mais eficientes.

Imaginemos que o Estado declarava como "direito social" ter comida na mesa. Encarregava-se de produzir provisões para toda a população, gerindo a Agricultura nacional com extremada diligência e zelo. E apareciam uns malucos a defender o fim deste regime. "Acabar com a Alimentação Social? Nunca! Haverá fome para os pobres e fartura para os ricos!"— diriam muitos dos seus beneficiários.

Nós, que vivemos num mundo em que há liberdade de escolha que se traduz na existência dos mais variados restaurantes (das tascas e fast-foods aos de luxo), e em supermercados abastecidos com víveres vindos de toda a parte do mundo, nunca o aceitaríamos. Todos vimos a figura dos alemães de Leste quando passaram por cima do Muro, deslumbrados com a pujança do capitalismo alegadamente opressor. Hoje não têm saudades das senhas de racionamento.

Foi preciso uma revolução dramática para que a mudança de mentalidades tivesse acontecido na República Democrática Alemã, tão vasta que o país desapareceu. A RDA não era uma democracia, mas se fosse provavelmente ninguém aceitaria pacificamente a reforma "liberal". Haveria forma "gradual" do Estado garantir o tal "direito social" à comida? Podemos sugerir que o Estado financiasse o sistema em vez de o gerir. Daria dinheiro "público" às pessoas, para que tivessem possibilidade de comprar comida no mercado. Um "cheque-comida" se quisermos. Seria social e economicamente revolucionário, e pacífico.

O sistema de financiamento estatal não é um sistema liberal porque o Estado continua a redistribuir impostos. Mas é objectivamente melhor que um sistema de titularidade estatal, porque a liberdade das pessoas aumenta consideravelmente.

A esmagadora maioria das pessoas que vive em regimes onde este "direito social" não é garantido sabe que esta solução de compromisso é errada. O mercado livre funciona ainda melhor! É evidente que com esta atitude, seríamos todos classificados de "neoliberais". Mas a solução não deixa de estar errada por muito que nos "neo-classifiquem".

Não nos iludamos no conforto do "dever cumprido" de ter feito o suficiente, e com a candura com que propusemos acima o financiamento estatal do "direito social": lembremo-nos que foi uma cedência necessária para evitar "revoluções". Um sistema de financiamento dos "direitos sociais" até pode servir como bom regime de transição para um sistema liberal, mas no fim de contas estamos sempre melhor sem o Estado a dizer-nos o que é melhor para nós.

[ não tive tempo de preparar e publicar a 'pequena fuga' da semana passada— "Estado - Not in my back yard (2)"— que argumentava que as actividades de "Ordenamento do Território" e "Planeamento Regional e Urbano" são profundamente iliberais. Se a agenda política e blogosférica o permitir, este tema fica prometido para a próxima sexta-feira. ]

[ texto já publicado n'O Insurgente. ]