quinta-feira, agosto 31, 2006

Atlântico (2) [AMN]*



O Francisco Mendes da Silva lança-me, através das suas dúvidas, alguns desafios sobre o artigo que publiquei na Atlântico e onde defendi o fim da proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Defendi essa opinião em dois prismas. No prisma catalático, que defendo. E no prisma do Estado que temos e com as formatações políticas que temos. Não me quedei pelo primeiro prisma porque me propus alargar o âmbito da discussão à direita e não circunscrevê-lo ao que penso. Procurei dar pistas no sentido da abertura ideológica mais do que marcar uma única concepção alegadamente bacteriologicamente pura.

O desafio maior que o Francisco me lançou, se bem o entendi, foi o de enquadrar a questão da poligamia no âmbito do que escrevi no artigo. Vamos então a isso. Falarei agora do meu modelo, da minha opinião. Espero amanhã ter tempo de analisar a questão do ponto de vista do actual modelo estadual.
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Tenho para mim que o casamento é uma convenção ou um contrato entre indivíduos que decidem viver em conjunto e que são livres de definir os exactos termos dessa convivência conjunta. Bem sei que esta é uma noção neutra, muito neutra, convenientemente neutra. Mas se o defino assim, é porque entendo que, enquanto contrato, o casamento não pode ver o seu conteúdo formatado, nem pelo Estado, nem pela sociedade.

No modelo de Estado em que vivemos, o casamento é, acima de tudo, um estatuto conferido pelo Estado, para os mais diversos efeitos, sobretudo patrimoniais e fiscais. Ao casamento corresponde, por isso, uma aceitação estadual, uma espécie de selo social sem a qual ninguém pode almejar benefícios fiscais e patrimoniais. É por isso que quem se quiser casar, ou casa pelo Estado ou não há qualquer benção eclesiástica que lhe valha na hora do preenchimento do IRS.

Encara-se actualmente o casamento como uma instituição pública, como uma espécie de reconhecimento estadual de uma determinada realidade. Mais do que um compromisso afectivo, mais do que um contrato íntimo, o casamento é ou funciona como um estatuto social. É por isso natural que quem entenda que a homossexualidade ou a poligamia são um pecado, um desvio, uma doença, não possa concordar com uma espécie de reconhecimento social dessas realidades.

Neste estado de coisas, o que defendo no artigo, em termos ideais, é que se ponha termo ao monopólio da titularidade e gestão dos interesses gerais, libertando-se o casamento desta marca de reconhecimento estadual. Isso implicaria, evidentemente, o fim do casamento como estatuto público e o fim dos incentivos e apoios ao casamento, até porque grande parte dos fundamentos que justificam estes últimos já pouco sentido fazem, como igualmente tentei demonstrar.

Libertando-se o casamento de toda esta encenação estadual, todos os indivíduos seriam livres de compor os termos dos seus próprios contratos, podendo pessoas do mesmo sexo celebrar um contrato de "casamento". As aspas servem para demonstrar como deixaria de haver um contrato de casamento. Uma forma. Um modelo.

E assim, quer a união poligâmica quer a união homo e heterossexual deixariam de ser conceitos para se quedarem nos factos. E os factos, sem benefícios estaduais ou subsídios, aí estão para nos demonstrar a existência de todas essas uniões, com as quais o Estado não tem nada que ver. Mas pergunta-se: será normal, aceitável, saúdavel reconhecer casamentos polígamos? E eu respondo: qual reconhecimento?

No momento em que o Estado deixar de ter o monopólio de santo casamenteiro, deixa de haver essa marca de aceitação ou normalização social. E não se julgue que o Estado actualmente não reconhece alguns efeitos de uniões poligâmicas. O fim dos filhos ilegítimos e o instituto de reconhecimento da paternidade têm também essa função. Não haverá limites à conformação dos contratos? Evidentemente. O primeiro passa por exigir que quem se case o faça e o possa fazer em liberdade. E que em liberdade possa fazer cessar o contrato. E não podemos esquecer os limites emergentes da ordem criminal, a qual não deixa de dever ser escrutinada.

* gralhas gentilmente indicadas pela Alaíde, já recrutada para corrigir a minha bela tese, a dar entrada no dia 15 de Setembro...

Atlântico

Já nas as bancas, a não perder, revista Atlântico de Setembro.

O A Arte da Fuga destaca em proveito próprio o artigo de opinião "Casamentos entre pessoas do mesmo sexo: uma questão de liberdade" do Adolfo Mesquita Nunes.

A proibição do casamento apenas porque se tratam de pessoas do mesmo sexo e não por se tratarem de pessoas que não possam cumprir os deveres do contrato assenta, então, numa concepção moral ou social que desqualifica a relação homossexual. Ou seja, o que motiva a proibição do casamento homossexual é um impedimento social e moral e não, como seria de esperar, um impedimento baseado nos risco para a vida ou para a liberdade dos noivos. Trata-se, por isso, de uma imposição filiada em legítimas convicções de um conjunto de indivíduos. Acontece que, apesar de legítimas, essas convicções não podem, numa concepção liberal, assumir força de lei e regular coercivamente a vida de todos os indivíduos.

Associação Portuguesa de Defesa do quê??

O estudo da DECO aos Centros de Inspecção Técnica de Veículos é um mau serviço ao consumidor.

Que a DECO se entretivesse a inspeccionar oficinas de automóveis, procurando saber quais são as que desempenham com rigor a tarefa de preparar os carros para a inspecção periódica (ou simplesmente deixar o carro em condições), seria um serviço útil e interessante, e uma demonstração do que a sociedade civil pode fazer para complementar o mercado privado.


Mas lembrou-se de inspeccionar os Centros de Inspecção Técnica de Veículos. Um "serviço" que muito provavelmente só tem clientela por causa da legislação que obriga às inspecções periódicas obrigatórias. Aqui não há consumidores, há vítimas. Neste "serviço", os centros que registam maior satisfação do consumidor (eventualmente traduzida em menor número de reclamações, e muito provavelmente maior fidelidade ao serviço) são aqueles menos rigorosos e mais tolerantes. É evidente onde está o interesse dos consumidores.

O estudo da DECO exorta a que provação dos cidadãos às mãos do Estado seja mais rigorosa. A DECO funcionou contra o interesse dos consumidores.

[ opinião interessante é a de Vital Moreira, que também se esquece dos consumidores. ]

"scientific consensus"

"Sea Change in Global Warming?" de Patrick J. Michaels:
Within weeks, a paper is going to appear in the refereed journal Geophysical Research Letters, by John Lyman of the National Oceanic and Atmospheric Administration, showing that, globally, the top 2500 feet of the ocean lost a tremendous amount of heat between from 2003 through 2005—about 20% of all the heat gained in the last half-century.

Needless to say, this has climate scientists scratching their heads. No computer model predicts such behavior.

(aqui PDF do Policy Analisys do Cato Institute - e podcast )

Monstro piquininho e quiridinho

Em "The american way" escreve Daniel Oliveira:
O estado de Nova Orleães, um ano depois da tragédia, mostra-nos para onde nos leva o Estado mínimo num país do Primeiro Mundo.

Como explicar ao Daniel Oliveira que Nova Orleães só pareceu um terceiro mundo porque de facto estava entregue a um modelo de Estado terceiromundista, ou seja, máximo, poderoso, burocrático, ineficiente?

Quem construiu diques subdimensionados e mascarou os riscos de urbanização de uma zona sujeita a grandes riscos de catástrofe há muito anunciada? Quem não os reforçou como planeado, entretendo-se em joguinhos de tragedy of the anticommons, utilizando uma dotação orçamental imensa para pork barrel (e alegadamente para financiar uma guerra no Iraque)? Quem coordenou as tarefas de socorro, excluindo grande parte da iniciativa civil? Quem impõe à cidade e aos arredores um sistema de socialismo de guerra, que até hoje impede uma recuperação económica sustentada? E quem está a reconstruir os diques? Um estado mínimo?

Leituras recomendadas:
- "Catastrophe in Big Easy Demonstrates Big Government's Failure" de David Boaz;
- "Katrina and the Never-Ending Scandal of State Management" do Mises.org
- " O arrastão não existe" no Lóbi do Chá

dans le caractère populaire roumain

(clicar para ouvir)
link
George Enescu, Sonata No. 3 em Lá menor Op. 25 (por Yehudi Menuhin)

[ corrigido de acordo com reparo oportuno do importanzadeleparole! ]

quarta-feira, agosto 30, 2006

Guelb er Richat


Guelb er Richat, Mauritânia
( imagem de satélite sobre perspectiva topográfica - aqui kmz um pouco a NW )

Sobriedade (2)

"Legalize drunk driving" de Lew Rockwell.
But there's a more fundamental point. What precisely is being criminalized? Not bad driving. Not destruction of property. Not the taking of human life or reckless endangerment. The crime is having the wrong substance in your blood. Yet it is possible, in fact, to have this substance in your blood, even while driving, and not commit anything like what has been traditionally called a crime.
Now, the immediate response goes this way: drunk driving has to be illegal because the probability of causing an accident rises dramatically when you drink. The answer is just as simple: government in a free society should not deal in probabilities. The law should deal in actions and actions alone, and only insofar as they damage person or property. Probabilities are something for insurance companies to assess on a competitive and voluntary basis.
This is a gross attack on liberty that implies that the government has and should have total control over us, extending even to the testing of intimate biological facts. But somehow we put up with it because we have conceded the first assumption that government ought to punish us for the content of our blood and not just our actions.

Turboengenheiros

O Público noticiava ontem:
IMMOPI dá tolerância zero aos "turboengenheiros"

Lei dos Alvarás - Legislação entrou em vigor há três anos, mas vinha sendo prorrogada. Final deste ano é prazo limite.


O prazo dado às empresas de construção civil para adaptarem o seu quadro de pessoal à lei dos alvarás vai extinguir-se no final de 2006, uma vez que o regulador (o IMOPPI) não tenciona conceder mais prorrogações às companhias para procederem a essa adaptação.

A história começa quando o Estado entendeu ser sua função fomentar o aumento da qualidade da construção em Portugal, e não arranjou melhor forma de o fazer do que por decreto.
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O Estado proibiu as empresas de realizarem trabalhos de especialidade a menos que estivessem dotadas do respectivo alvará, documento passado pelo Instituto das Obras Públicas, Particulares e de Imobiliário (IMOPPI), em função de vários critérios administrativos, entre os quais empregar determinado número de técnicos habilitados — engenheiros.

A brilhante ideia criou um mercado de assinaturas. As empresas passaram a pagar a "turbo"-engenheiros para darem o seu nome para o quadro. As empresas ficaram contentes, o Estado ficou contente (especialmente a recém-criada burocracia), os engenheiros ficaram contentes, a respectiva Ordem não bugiu, o consumidor foi roubado e a qualidade de construção em Portugal passou a melhorar mais devagar, fruto de mais um intervencionismo estatal.

O Estado propõe-se acabar agora com o regabofe que ele próprio criou, levando a absurda lei às últimas consequências. Entre elas, a de aumentar o peso da regulação e burocracia para impedir que engenheiros "acumulem" funções (legais e ilegais), o que certamente fará aumentar o custo do seu trabalho, diminuir a competitividade das empresas, reduzir o mercado e a concorrência, e consequentemente a necessidade de fornecimento de serviços com economia e qualidade.

Abolir a legislação é a única solução. Uma "qualidade" administrativa, que nunca viu a luz do dia, não desaparecerá. As empresas ver-se-ão livres de encargos artificiais. Os turboengenheiros ficarão aliviados de um rendimento imerecido. Se quiserem manter o seu nível de vida, terão de criar valor no mercado. Se quiserem salário, terão de fornecer qualidade.

Citação de arremesso

Rulers do not like to admit that their power is restricted by any laws other than those of physics and biology. They never ascribe their failures and frustrations to the violation of economic law.

Ludwig von Mises, Human Action

terça-feira, agosto 29, 2006

♪ Caso Mateus

A pedido do Fernando Albino,

(clicar para ouvir)
link
Johann Sebastian Bach: St Matthew Passion BWV 244
Recit and Aria, ‘Mache dich, mein Herze, rein’
Dietrich Fischer-Dieskau, Munich Bach Orchestra, Karl Richter

Um blogue é mais que um blogue

O blog O Melhor Anjo, do Tiago Bartolomeu Costa, vai para 3 anos de existência, a comemorar no dia 8 de Setembro. Para o efeito, e tendo em conta a especial atenção dada à crítica e reflexão sobre artes performativas, O Melhor Anjo propõe um autêntico programa das festas dedicado, precisamente, ao papel da crítica. ###

Dia 08 Setembro
18h00 – Debate. O Olhar Crítico. Culturgest.
21h00 – 23h30 Performance. Peeping Me, de Paulo Guerreiro. Espaço Negócio (ZDB) – repete dia 09.
00h00 – Festa de Aniversário. Casa Conveniente.

Mais informações sobre toda a programação no próprio blogue.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Estes estatistas são malucos

"Obélix e Companhia": depois da festa de anos de Obélix, César dá ouvidos por um chico-esperto, Prepostreous, que propõe integrar os intrépitos gauleses no Império Romano... através do capitalismo.

Com o ouro do Império, Prepostreous propõe a Obélix comprar-lhe toda a sua produção de menires — passada, presente e futura.

Em Roma, os menires são impingidos aos cidadãos como algo desejável (apesar de não terem qualquer utilidade); na Gália, Obélix expande a produção, empregando mais gente. Rapidamente os outros aldeões abandonam os seus ofícios e começam a produzir menires, em feroz concorrência. O dinheiro público abunda, a riqueza é ostentada, e os amigos desentendem-se.

Entretanto, outras nações começam a produzir as suas versões de menires. Os cofres de Roma ficam vazios, e César ordena o fim do empreendimento. No fim, os gauleses vêem-se com serstécios (moeda romana) completamente desvalorizados, e regressam à sua antiga vida.

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Embora crítico do espírito do capitalismo, este livro acaba por apresentar vários conceitos económicos interessantes, centrados no "investimento público". A intenção declarada era fomentar a discórdia entre os gauleses, distribuindo riqueza de forma desigual; mas todo o "investimento público", é arbitrariamente distribuído e acaba por ter esse efeito.

Correntemente, o "investimento público" é justificado por representar um "incentivo à indústria local". Se a indústria local está desincentivada pelo mercado, só é possível corrigir essa "falha" valorizando administrativamente a produção acima do valor de mercado. Em consequência, o capital de produções mais úteis e naturais é redirigido para actividades menos eficientes.

Por acção do Estado, o dinheiro muda de mãos, passando do contribuinte para produtores seleccionados. Mas quando antigamente a produção era útil, agora é inútil. Há mais pessoas a trabalhar, mas menos disponíveis para empreender a supressão das necessidades do mercado: para criar riqueza.

Quando há dinheiro injectado artificialmente na Economia através do "investimento público", o poder de compra de alguns grupos tende a aumentar artificialmente, o que faz aumentar o preço de alguns bens, efeito que se transmite a toda a estrutura económica. O dinheiro passa a comprar menos — tem-se inflação.

O dinheiro público também compra menos; e menos riqueza é produzida, menos produto é taxado, e menores são as receitas "públicas". Todo o país fica continuamente mais pobre, virtude da irresponsabilidade, inconsequência e improvidência do "investimento" estatal.

E quando cessa o "investimento público", dá-se a ressaca. O dinheiro que as pessoas detêm agora compra menos; capital está empatado em actividades que ninguém procura; antes havia falta de incentivo, agora é necessário "salvar indústrias".

A isto chama-se intervencionismo selvagem, e acontece todos os dias sem que as lições sejam aprendidas. E um dia o céu cai-nos sobre a cabeça.

Manifesto da Direita em Portugal

Via O Insurgente, o "Manifesto da Direita em Portugal", de Jorge Ferreira [ que está de parabéns — pelo documento divulgado, que contém bons princípios, e porque faz anos hoje, como me diz o Público. ]

Uma razão para não gostar de Governos ou Tribunais mundiais

Somos todos statesons

De acordo com o Jornal de Notícias ("Nomes invulgares motivam 30 a 40 pedidos por ano"), neste admirável mundo novo que é o nosso país, é uma "via sacra" registar uma criança com um nome que não agrade aos nossos burocratas e homens de saber.

É a imaginação humana é o que dá o colorido à sociedade; é da imaginação das pessoas que nasce a criatividade, a inovação e o progresso; a imaginação é um pilar da sociedade — suprimida, veríamos o nosso mundo estagnar e decompor-se. O direito à imaginação individual deveria ser salvaguardado contra qualquer abuso de poder.

Por muitos nomes feios que pululem por aí [por exemplo: "Adolfo"], é um direito dos pais chamarem aos filhos o que entenderem. E é uma agressão que o Estado tenha a última palavra quanto à identificação do indivíduo.

Hoje fresquinho!

Na revista Dia D do jornal Público,

- "O valor do insucesso" de André Abrantes Amaral:
Fala-se muito de liberalismo, tanto nas colunas de opinião desta revista, como na blogosfera, o que é agradável para um país demasiado estatizado. Sucede que o Estado liberal não nasce de um clique, antes necessita de uma sociedade liberal. O medo faz parte da vida. Tal qual o fracasso e o erro também. Friedrich Hayek terá sido dos poucos a valorizar o que chamou de 'unmerited failure'. Aquele falhanço imerecido de quem trabalhou no duro, arriscou o que tinha, se esforçou, perdeu e terá de começar de novo, com um novo vigor, numa outra empreitada.

[...] Porque apenas quando se supera o difícil se encontra o melhor. Ou se preferirem, o verdadeiro sucesso.

- "As rendas dos pensionistas" de Nuno Garoupa:
Vejamos as coisas como elas são. Não existe nenhuma razão de eficiência económica e ainda menos de justiça social que justifique o regime excepcional de acumulação de pensões que existiu e existe em Portugal, mesmo depois das pequenas concessões que a classe política foi obrigada a fazer.

Regis Iussu Cantio Et Reliqua Canonica Arte Resoluta

(clicar para ouvir)
http://www.stanford.edu/class/symbsys11s/music/Musical%20Offering/Bach_Musical_Offering_10.mp3
Johann Sebastian Bach, Das Musikalische Opfer, Canon a 4

Sobriedade

Noticia o PortugalDiário ("Conduzia bêbado e foi absolvido"):
O Tribunal da Relação de Évora absolveu, em Maio deste ano, um homem que tinha sido condenado na primeira instância como único responsável por uma acidente de viação de que resultaram feridos.
«Pelo facto de um condutor sinistrado ser possuidor de uma taxa de alcoolemia superior à máxima legalmente admissível, não permite concluir que o acidente encontra a sua causa em tal estado», escreveram os juízes.

Não conhecendo os pormenores do caso, parece ser uma decisão supreendentemente lúcida do Tribunal da Relação de Évora.
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É verdade que houve acidente, e que o indivíduo conduzia bêbado. Mas (a não ser em casos muito particulares), não há nexo de casualidade automático. Considerar o contrário é um acto arbitrário a que a Justiça não se pode permitir. Sobretudo porque tal informação nada acrescenta à função da Justiça: apurar as responsabilidades das consequências do acidente e imputá-las correctamente.

Este julgamento vai no sentido contrário à teoria populista que o álcool provoca acidentes de viação; ou que são provocados pela condução a falar ao telemovel, por excesso de velocidade, por falta de inspecção do carro, ... ou que as armas matam pessoas, ou que as drogas aumentam a criminalidade, ou que a marginalidade se deve a condições socioeconomicas relativamente baixas, ou que o terrorismo é provocado pela globalização.

As características descritivas de um acontecimento, por muito estatisticamente relevantes que sejam, não devem ser confundidas com as suas causas. Se não forem eventos da Natureza, todos os prejuízos patrimoniais são provocados por pessoas.

São as pessoas que têm de ser responsabilizadas, de acordo com a gravidade das agressões causadas à vida e propriedade de terceiros — ou seja, bem responsabilizadas! — não as ferramentas que utilizam, a sua condição física, o seu estado de alma, ou outros factos circunstanciais...

domingo, agosto 27, 2006

glittering toy

Os impostos directos e o poder local (3)

Há pois que aplicar o princípio de subsidiariedade — o princípio pelo qual os assuntos devem ser tratados pela autoridade de nível mais baixo.

[ Lateralmente ao assunto deste post, há que ter em mente que a autoridade nuclear, aquela de superior (ou única) legitimidade ética e moral, é o indivíduo. O que pode ser feito pelo indivíduo não deve ser feito "para o seu bem" por qualquer outro poder que lhe usurpe essa liberdade. ]

No que diz respeito à administração pública, este princípio conduz à proposta de "Os impostos directos e o poder local [1]": toda a gestão de serviços estatais cuja gestão não exija uma direcção centralizada deve ser alienada pela administração central para instâncias de poder político-administrativo de nível inferior.

Na prática, este modelo implicaria que cada unidade territorial, aos diversos níveis, passasse a ser auto-suficiente, a não ser em assuntos que dissessem respeito a esferas superiores.
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É sintomático da confusão do actual modelo que as críticas a este modelo partam sempre dos defensores das regiões "mais desfavorecidas". São as regiões "mais desfavorecidas" aquelas que detêm menos poder político, e aquelas que com a sua defesa do actual modelo de centralização acabam por perpetuar o seu próprio "desfavorecimento". Algo que os caudilhos locais muito bem sabem.

É precisamente por acabar com favorecimentos, repor justiça na utilização estatal de dinheiros privados, e obrigar à responsabilização de burocratas e políticos que este modelo é moralmente superior.

Não faz qualquer sentido que regiões desertificadas, deprimidas, com carência de investimento privado e aplicações estatais, sejam tributadas com uma carga fiscal nacionalmente uniforme, grandemente ponderada pelo nível de serviços públicos dos grandes centros urbanos.

É possível corrigir administrativamente esta contabilidade, com "investimento público" e "transferências" (algo profundamente arbitrário); mas não são as populações e as empresas que beneficiam directamente, mas sim as administrações locais, e o poder político local.

É possível que a administração central fixasse impostos diferentes para cada unidade local, de acordo com as suas "necessidades"; é possível que existissem administrações políticas intermédias; mas são soluções que insistem no atroz estalinismo top-down de que padece o sistema.

Tem de ser a administração política de cada unidade territorial a fixar os respectivos impostos, e a responsabilizar-se pela sua aplicação perante os eleitores, permitindo-lhes um máximo poder de escrutínio e sanção.

Regiões com carência de investimento têm menores custos; só teriam de fixar impostos locais mais baixos que as regiões concorrentes. As que vivem acima das suas possibilidades (declaradamente, nenhumas) seriam obrigadas a promover soluções de políticas públicas que fossem economicamente mais eficientes.

Nenhum outro instrumento como a concorrência fiscal é tão justo, por incorrer no mínimo de injustiça e arbitrariedade administrativa. E nenhum tem tamanho potencial de acabar com as condições de "interioridade" que infelizmente ainda caracterizam grande parte do país.

Espelho


Jan van Eyck, Retrato Arnolfini (detalhe)

Os impostos directos e o poder local (2)

Na continuação de "Os impostos directos e o poder local", importa desenvolver a questão da "solidariedade territorial".

Este conceito foi fundido com o de "justiça social" para reforçar a suposta obrigação moral do Estado de equilíbrar as condições socioeconómicas que existem entre terras e regiões do mesmo país. Assim convenientemente formulada, é uma tarefa de alta responsabilidade e exigência técnica, que exige extenso planeamento, coordenação e acompanhamento, pelo que os decisores da Administração Central decidiram que devia ser desenvolvida pela Administração Central.
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O território é administrado de cima para baixo: a administração fiscal determina a sua necessidade de dinheiro privado, que depois absorve, e parte e reparte pelas administrações locais. Por vezes, de acordo com a legislação, por vezes de formas indignas de um Estado de Direito.

Este é um esquema de lavagem de dinheiro. O contribuinte não sabe o destino da sua participação fiscal: quanto do seu dinheiro é absorvido pela administração pública; quanto, onde e como é aplicado.

Pela agregação de contribuintes por critérios territoriais, conclui-se que determinadas regiões "contribuem" mais do que outras para as políticas de "solidariedade territorial" - ou recebem menos do que "deviam". No mercado pelo poder político, esta constatação tem elevado valor populista e é sempre boa justificação para actividades de logrolling e pork barrel spending.

As soluções e propostas tradicionais para o complexo sistema criado passam por mais ou melhor "justiça", "solidariedade", "eficiência", "transparência", "enquadramentos legais", "seriedade", "isenção partidária", "coesão nacional"... mais Estado, mais colectivismo, maior estalinismo fiscal e administrativo.

(continua)

Festival Madeira Live

A 4 e a 5 de Agosto, realizou-se o festival Madeira Life, na localidade madeirense de S. Vicente.

Vídeos do Youtube de alguns participantes.

JamiroquaiNew Order DJ Set
(Peter Hook)
Jeff Mills
Live at Toledo
[ 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 ]
[ EXIT 2006 |
HK DJ Tour ]
Exhibitionist Mix
( 1 | 2 | 3 )

sexta-feira, agosto 25, 2006

Não nos fartamos de estar na cama com elas

No seguimento de "Ainda estamos na cama com elas", deixo claro que considero o casamento, entre homem e mulher, uma instituição superior; das formas de convivência, a mais natural e proveitosa em termos materiais e emocionais, e a que melhor futuro garante para a descendência, algo que está hardwired na natureza humana; e considero que os seus adeptos não devem temer a "concorrência" de outros modos de vida.

Lemmings (2)

Ainda a propósito do texto " Educação e Liberdade de Escolha" do LA, queria esclarecer que considero que minha analogia do sistema educativo com o jogo Lemmings foi um pouco deselegante — porque não foi bonito que a um artigo muito bem escrito, que fala de um assunto sério, e com proposições e propostas com que concordo por inteiro, tenha eu contraposto com cultura pop. Especialmente porque a imagem ficou pela metade.

Porquê lemmings? Onde está o fascínio pelo abismo do sistema educativo português?

Existe um tão grande descontentamento com o Ensino porque as formações profissionais parecem não ter relação com as realidades do mercado de emprego. Logo surgem as vozes exigindo que "alguém" faça alguma coisa para "racionalizar" o sistema. Está a acontecer uma falha de Governo, não uma falha de mercado, porque o Ensino não é um mercado concorrencial em Portugal. Como diz o LA, é preciso menos Estado e mais liberdade de escolha, concorrência, e responsabilidade individual.
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O ensino superior estatal pesa cada vez mais no bolso dos contribuintes, mas é "gratuito", por vontade administrativa.

Na prática, o acesso a graus de formação académica é cada vez menos custoso para os consumidores do ensino estatal. Como não há qualquer correlação entre o custo da formação e o que os alunos pagam de propinas, e como também não há relação entre o custo do ensino e as perspectivas de retorno futuro, existe uma majoração da desinformação e proliferação de decisões desligadas da realidade do mercado de emprego. Ao ponto de imperar a noção romântica que as pessoas têm o direito aos meios para seguirem a sua "verdadeira" vocação profissional. Para este efeito, o Estado disponibiliza a gama mais extravagante de cursos, e planeia e controla estalinisticamente quase toda a oferta educativa.

Por outro lado, as profissões "liberais", tradicionalmente mais prestigiadas por tradição sócio-económica * beneficiam de uma grande protecção corporativa.

Os vários mecanismos utilizados — numerus clausus e múltiplas limitações ao acesso ao exercício das profissões — acabam por encarecer o produto do seu trabalho. Os níveis de remuneração e regalias não descem, o que aconteceria quando o mercado de emprego estivesse saciado. Cria-se escassez artificial de trabalho especializado. Ou seja, não é produzida mais riqueza no país porque o status quo não quer nem deixa. Nestas condições, estas profissões são um "prémio" desproporcionalmente mais apetecível para quem pretende uma formação "superior".

Os alunos universitários, ou futuros alunos universitários, protegidos pelo Estado de sinais legítimos de mercado, formam-se doutores e engenheiros ao metro— fatalmente, comportam-se como os lemmings do mito popular, correndo todos para o abismo do desemprego e da não-realização profissional.

* ( é um sinal de ruralismo, digo eu. Essas profissões deviam ser prestigiadas por representarem a capacidade de empreendedorismo do indivíduo. É devido maior reconhecimento a inúmeras profissões que não exigem formação superior )

Honk if Pluto is still a planet


Pluto vote 'hijacked' in revolt (BBC News)

quinta-feira, agosto 24, 2006

Uma televisão um planeamento um Estado

Seria óptimo que no momento em que ligássemos a televisão, os canais começassem a competir para passar os programa mais adequados ao nosso gosto e disposição, poupando-nos grande parte do trabalho de prospecção (zapping) e o sentimento a hundred channels and nothing on. É um cenário irrealista, porque os "momentos zeros" dos telespectadores não coincidem, e com a tecnologia disponível ainda não é possível personalizar programações em tempo real.
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Mas é possível que as direcções de programas ajustem continuamente os conteúdo, de forma a melhor competir com o que a concorrência está a transmitir, e maximizar o efeito e retorno esperado. É o que acontece quando ligamos a televisão à espera de ver determinado programa... e está a passar outro. Por muito que isto motive um legítimo ranger de dentes da nossa parte, a estação fê-lo na esperança, consciência e conhecimento que o mercado fica melhor servido. A contraprogramação uma espécie de democracia just in time de conteúdos.

E há canais que aproveitam a oportunidade de negócio, e cumprem escrupulosamente o pré-estabelecido, fazendo da pontualidade ponto de honra. O telespectador mais depressa se lembra de ter sido alienado do que agradado por mudanças de programação. A auto-regulação, por interesse próprio, tal com as práticas de cumprimento da programação, aparece nas mais diversas formas.

Eis que surgem a autoproclamada Associação de Telespectadores (ATV) e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), dando apoio a uma intenção do Governo de "disciplinar" o sector, impor uma "ética de antena", obrigar os canais "a cumprir escrupulosamente a grelha", antecipadamente publicada com 48 horas de antecedência ("um prazo mínimo aceitável").

É uma agressão à liberdade editorial e criativa de um sector que devia ser um mercado livre. E é uma medida motivada por um modelo obsoleto, que considera que a comunicação social de ser certinha, disciplinada, respeitadora, sisuda e sobretudo muito ajuizada [ a RTP refere-se ao caso incêndios / Eduardo Cintra Torres como um exemplo de auto-regulação — é gravíssimo, dadas as acusações de dirigismo governamental ]. Para obrigar as televisões a procurar agradar aos telespectadores, existe a concorrência, não o Estado. E para haver concorrência há que haver menos monopólio regulador do Estado.

♪ Fireworks

(clicar para ouvir)
link
George Frideric Handel, Music for the Royal Fireworks, Ouverture

quarta-feira, agosto 23, 2006

To each according to his abilities

Do comunicado "das enfermeiras e dos enfermeiros para a população", hoje publicado pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses em jornais de referência:
[...] Os Enfermeiros e Enfermeiras que cuidam de si são técnicos superiores! O não reconhecimento deste aumento de competências, teórico e prático por parte do Ministério da Saúde só pode ser entendido como discriminatório e de desvalorização do trabalho daqueles que mais perto estão de si e da sua família. [...]

Este é um caso em que a mão esquerda (Ministério da Saúde) não sabe o que faz a mão direita (Ministério da Educação). Toda e qualquer actividade profissional deveria ser remunerada proporcionalmente aos correspondentes anos de formação. Em nome do progresso e do bem-estar da sociedade, as formações deveriam ser progressivamente mais longas e exigentes. E os Ministérios deveriam empenhar-se num planeamento científico rigoroso das necessidades do país, abandonado economicismos anti-sociais.

Funcho

O Estado-Pilhador de Túmulos

Vital Moreira, no Causa Nossa, sobre o imposto sucessório: "Assim desapareceu, desamparadamente, um dos mais justos impostos, em termos sociais."

Entenda o leitor: para VM, é injusto que uma pessoa trabalhe uma vida inteira para proporcionar uma vida melhor aos seus, e que possa legar tudo o que conseguiu a quem ama, quando deixa de existir.

O que é justo é que o Estado vá lá sacar parte da herança à família órfã — limpar os ossos assim por dizer. Há que alimentar a "nossa" outra família, a dos burocratas que tanto zelam pela "nossa" vida. Não se esqueça o cidadão que acima de conceitos como solidariedade familiar há sempre a solidariedade para com o Estado. E que o esforço dos antepassados é uma afronta para com o princípio da igualdade social.

♪ Misolidio

(clicar para ouvir)
link
Ottorino Respighi, Concerto in modo misolidio, Moderato

Não venham pôr-nos regras

O músico João Gil avança com uma petição que visa a proibição imediata da comercialização dos terrenos ardidos, por um período nunca inferior a trinta anos, justificando a acção como uma medida de cidadania.

Por cidadania, os signatários não entendem o uso ético da liberdade individual, mas sim a reclamação do poder absoluto do Estado para limitar arbitrariamente os direitos dos outros. Exigem que sejam utilizados meios totalitários para extirpar um "mal" que identificam, tudo sob a capa de uma petição popular. Só lhes falta os capuzes.
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É um absurdo que o direito à propriedade seja limitados por lei, quando não prejudique ou ameace a vida ou propriedade vizinhos. É direito dos proprietários de terrenos florestais fazerem o que entendem dos seus terrenos, incluindo arborizar, desarborizar, construir ou deixar de construir, pegar fogo às árvores ou abraçá-las todos os dias.

A proposta visa proibir que os terrenos florestais ardidos tenham utilizações económicas que não sejam as florestais, por um período superior a uma geração. Uma tal lei seria contrária à utilização eficiente dos terrenos, desvalorizá-los-ia ainda mais, e empobreceria todo o país, já rural quanto baste.

Paralelamente, os centros urbanos continuam a ser destruídos pela Lei do Arrendamento, e as populações concentram-se em periferias suburbanas, caras e com fraco nível de vida, porque não se podem virar para outro sítio. As florestas continuam abandonadas porque o seu uso alternativo é proibido por lei. A insanidade da política do território não conhece limites.

terça-feira, agosto 22, 2006

Smylex


"BAA bans all passengers' cosmetics"

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A ler, sobre a insanidade que vai pelos aeroportos mundiais: "The Six Faces of the Terrorist; The One Face of Bureaucracy" de Lew Rockwell:
How much more of this will the American people take? Already a stroll through the airport feels like a step into a dystopian movie. We are searched, snapped at, and ordered around. People glumly walk from place to place as the loudspeaker blares: "Report all suspicious persons to the authorities!"

The answer is that people will put up with much more and much worse. As much as people loath the invasions of privacy and the inconvenience, and as much as people roll their eyes in amazement and frustration, so long as people grant that there are such things as suspicious behaviors and real threats — and that the government is the right party to deal with them — these humiliations will continue.
Frankly, the TSA doesn't care a flip about the passengers in their role as payers who have to be served. That's why they treat you like chopped liver, and that's why they have no real interest in distinguishing good guys from bad guys. Their every incentive is to treat us all like we are the children of Mohammed Atta al-Sayed.

Ainda estamos na cama com elas

No A Destreza das Dúvidas, Luís Aguiar-Conraria refere ("Na cama com elas II"), a propósito da polémica sobre o reconhecimento estatal dos casamentos ("Na cama com elas"):
De qualquer forma, penso que a grande maioria das pessoas não está preparada para acabar com esta tão antiga instituição que é o casamento. De momento, as opções políticas não são entre haver ou não haver casamentos reconhecidos pelo Estado, mas sim entre estender o reconhecimento a uniões do mesmo sexo.

Estou de acordo: o Estado monopolizou o pilar social que é o casamento, e é um assunto sensível, factos que não impedem uma reflexão normativa.
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Eu entendo que os direitos e garantias se aplicam a indivíduos — logo, por extensão, às associações que entendam estabelecer. Um "casal" não tem direitos especiais pela sua natureza intrínseca, seja qual for a sua definição. Os "direitos" legais, reclamados nesta discussão, são discriminações legais. Se os cidadãos não devem ser privilegiados por lei, tão pouco devem ser "os casais".

O casamento civil, actualmente interpretado exclusivamente como uma união entre duas pessoas de sexo diferente, é uma discriminação arbitrária que carece de justificação. Argumentar com possibilidades (a possibilidade fisiológica de geração de descendência) é absurdo. Quanto à admissibilidade de tutela de menores, o Estado já reconhece, e bem, a possibilidade de cidadãos poderem exercer essa liberdade fora do estado civil "casado"— esse é um problema distinto.

O reconhecimento legal deve ser alargado a outras formas de união "conjugal", não interessando o sexo fisiológico ou a orientação sexual dos parceiros [também não interessa entrar agora em análises combinatórias]. Devia ser tão simples (e digno) como a assinatura de um contrato. As pessoas assumem determinadas responsabilidades uma com a outra; o património e "direitos sociais" são transmitidos conforme acordado; em caso de disputa, o Estado compromete-se a arbitrar as divergências segundo o "contrato", ou os códigos gerais.

Pelo mesmo modelo, deviam ser reconhecidas todas as uniões de indivíduos em regime de "economia comum" [desde que não-criminosas, como já referi], mesmo que sejam de natureza "não-conjugal". Irmãos que vivam juntos. Ou amigos. Ou colegas, sócios, camaradas, irmãos de fé, o que se quiser. Reduzindo ao absurdo, porque não poderá um indivíduo declarar que quando morrer, a sua "viúva" é o Benfica ou o Bloco de Esquerda, por exemplo?

Obviamente que já não falamos de casamento, ou "kazamentos", mas do fim do casamento civil como o conhecemos. Esta medida teria o condão de fortalecer laços sociais que têm sido desprezados pelo centralismo estatal, mas que deveriam ser considerados em pé de igualdade.

O Estado detém o poder de condicionar a organização "familiar" da sociedade porque as pessoas trocaram a sua liberdade, e a dos outros, por benefícios ao casamento civil. O indivíduo é fiscalmente sequestrado e legalmente expoliado uma vida inteira, e em troca o Estado-Providência promete-lhe "direitos sociais". Mas o indivíduo não detém a titularidade desses direitos, para poder partilhá-los e transmiti-los a quem entender, seja um cônjuge ou outra pessoa ou entidade qualquer à sua escolha: pertencem ao Estado!

Se as pessoas tivessem liberdade para usar os seus impostos para fazer valer o seu modelo de vida, em vida, na doença e na morte, em vez de o deixarem ao critério do Estado, esta imensa perversão não aconteceria. Em nome dos valores conservadores, deixou-se o socialismo dominar os pormenores mais íntimos da vida dos indivíduos.

[a propósito, peço desculpas ao LA-C pela resposta tardia a este assunto, e 'esquecimento' do segundo aniversário do ADdD (parabéns!) — foram as férias... ]

Um filme muito objectivista


The Fountainhead de King Vidor com Gary Cooper,
baseado no livro homónimo de Ayn Rand, adaptado para cinema pela própria
(clicar para ouvir)
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Paridade por baixo

Durante as minhas férias, vim a saber que o Presidente da República tinha promulogado a Lei da Paridade, sobre a qual já muito se escreveu neste blogue. Mínimo uma mulher para cada dois homens ("paridade"?). Oficialmente, a última mulher a entrar para uma lista eleitoral partidária "valerá" mais ou menos a mesma coisa ("paridade"?) que o último homem da mesma lista. Anteriormente à lei, essa última mulher muito provavelmente nem teria lugar na lista; agora, o último homem teve de ser despromovido para dar lugar às colegas recém-chegadas, enquanto viu outros colegas ficarem excluídos. Ao nível da capacidade política partidária (critério perfeitamente pantanoso, bem sei), a nova legislação retira liberdade aos partidos, promovendo valores menores em deterimento dos anteriormente considerados mais válidos. Em nome da igualdade, empobrece-se o país político. Como em qualquer medida socialista, espera-se o oposto das medidas propostas: um maior desencanto das mulheres face à vida política representativa.

Elizabeth Schwarzkopf (1915-3 Agosto 2006)


(clicar para ouvir)
link
Richard Strauss, Vier letzte Lieder, Im Abendrot

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Wir sind durch Not und Freude
Gegangen Hand in Hand,
Vom Wandern ruhn wir beide
Nun überm stillen Land.

Rings sich die Täler neigen,
Es dunkelt schon die Luft,
Zwei Lerchen nur noch steigen
Nachträumend in den Duft.

Tritt her, und laß sie schwirren,
Bald ist es Schlafenszeit,
Daß wir uns nicht verirren
In dieser Einsamkeit.

O weiter stiller Friede!
So tief im Abendrot
Wie sind wir wandermüde -
Ist das etwa der Tod?
We've gone through joy and crisis
Together, hand in hand,
And now we rest from wandering
Above the silent land.

The valleys slope around us,
The air is growing dark,
And dreamily, into the haze,
There still ascends two larks.

Come here, and let them flutter,
The time for sleep is soon.
We would not want to lose our way
In this great solitude.

O vast and silent peace!
So deep in twilight ruddiness,
We are so wander-weary –
Could this perchance be death?

segunda-feira, agosto 21, 2006

Livros que viram a areia dourada este ano



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Notas pessoais:

- Ayn Rand, We the Living (1936): livro hiper-romântico e cru (para não lhe chamar "realista", a autora não gostaria). É impossível desenvolver empatia com qualquer das três personagens principais, algo inevitável face à perversidão moral subhumana do regime que as oprime. Titânico, entre Zola e Solzhenitsine.

- Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1953): surpreendentemente inócuo, face às referências da literatura distópica (Nós, Brave New World, Anthem, Nineteen Eighty-Four, ...). Prosa poética poderosa.

- José Manuel Moreira, Ética, Democracia e Estado (2002): como bem diz o Helder, um livro que merece várias leituras. Consecutivas, necessariamente alternadas por períodos de observação e reflexão. Lúcido, inclemente, grave, idealista. E indispensável;

- John Kay, Everlasting Lightbulbs (2004): colecção de artigos sobre economia, publicados entre 1996 e 2003, na linha de Freakonomics e outros afins. Na era dos blogues, e dos super-portais de colunas de opinião, alguns textos soam um pouco "lentos", apesar do óbvio brilhantismo do autor como cronista económico.

Filme um pouco objectivista



The Naked Jungle ("Marabunta") de Byron Haskin
com Charlton Heston e Eleanor Parker

A lista que falta

Outra opinião a não perder na revista Dia D do Público de hoje: "Qual é a lista que falta?" do José Pedro Costa e Silva:
Nenhum contribuinte precisa de saber que é que não pagou os seus impostos. Precisamos, isso sim, de ter um sistema fiscal que seja capaz de, em articulação com o poder judicial, fazer cumprir a lei. A razão é simples: Portugal não é um café, que resolve as suas dívidas com um papel colado na montra.

Por outro lado, o contribuinte cumpridor deve ter outra preocupação, quando confrontado com esta política de listas. [...] É notável como Portugal, ao contrário dos seus parceiros europeus, quase não tem casos judiciais que envolvam governantes e a gestão de dinheiros públicos. Ou são os governantes que são muito sérios ou os contribuintes muito tolos.

[...] em matérias de listas, mais importante do que saber quem não paga é saber onde se gasta. Essa é a lista que está por sair.

Lemmings

O artigo de hoje do Luís Silva, na revista Dia D do jornal Público, fala de Lemmings. Para quem não viveu os 90s, Lemmings era o nome de um jogo que começou com os computadores Commodore Amiga, e teve várias reedições para outras plataformas.

O jogador tinha de encaminhar uma série de homenzinhos através de um cenário de plataformas, obstáculos e armadilhas, até uma "saída" onde se contabilizavam os sobreviventes. Os lemmings apareciam a uma cadência rápida, tendiam a ir para onde não se queria, e tinham prazer em morrer de formas estúpidas, pelo que a dificuldade do jogo era fazer o grupo chegar ao fim em segurança e com o mínimo de perdas.

Quando o jogador ficava farto dos seus insucessos a gerir tão caótico sistema, podia sempre explodir os homenzinhos, ou assistir à sua marcha para uma qualquer morte certa... e recomeçar o "nível".

O LS escreve sobre o Ensino Superior em Portugal:

Por esta altura do ano, são muitos os pais que vêem os seus filhos chegarem à última parte do seu percurso académico: a entrada no ensino superior. [...] Para trás ficaram doze anos de escola. Ao longo desses anos, estes jovens serviram de cobaias às experiências decorrentes dos programas políticos da maioria do momento [...] Por tal mecanismo não funcionar, são milhares os jovens que prosseguem a sua formação em áreas de que o mercado não necessita. Acabam por engrossar as fileiras dos "doutores" desempregados, sem que contas sejam feitas aos gastos com tão ineficaz percurso académico.

Leitura altamente recomendada, porque não é tarde para reclamar um direito que não devia nunca ter sido cedido ao Estado com a facilidade e naturalidade com que o é: o direito de decidir e escolher que percurso formativo têm os seus filhos — que o Estado trata como lemmings.

♪ regresso das fugas

(clicar para ouvir)
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Bach, Fuga BWV 548 (para órgão),
transcrita para piano por Franz Liszt,
interpretada por Artur Pizarro

créditos: acciaioli.

De regresso!

De regresso a Lisboa, ao trabalho, e às lides blogosféricas. Durante as minhas duas semanas de férias, muito me apeteceu escrever. A última tentação foi ouvir de um destacado líder político "o desenvolvimento faz-se com défice".

De momento, estou com muito trabalho em mãos, mas logo que tiver tempo vou começar por dedicar algum tempo aos excelentes posts que o AMN produziu na minha ausência.

Paisagem


Pieter Brueghel, Landscape with the Fall of Icarus

sexta-feira, agosto 18, 2006

Countdown

A chantagem da ETA continua. É o quinto comunicado em cinco meses.

Aniversário

Um grande beijinho de parabéns à Margarida pelo tri-aniversário do seu (nosso) Eclético.

E agora para algo completamente inédito

Concordo inteiramente com o que o Daniel Oliveira, no Arrastão, escreve sobre a nota de redacção do Público ao texto de Isabel do Carmo sobre a grafia de H(h)olocausto.
Se a questão é apenas a grafia do jornal, um reparo pessoal à articulista parecia mais sensato e educado. Se a questão, como me parece, não é a grafia do jornal, estamos perante um caso muito mais grave. Substituímos a censura pelo comentario, em simultâneo, a textos de opinião dos quais se diverge, usando como subterfúgio pormenores técnicos. E, quando falamos de assuntos tão chocantes e sensíveis como o Holocausto e de insinuações tão graves como as do negacionismo, um assunto que parece minúsculo ganha maiúscula importância.»
Estou longe de concordar com os textos da Isabel do Carmo sobre este e outros assuntos da esfera política. E escrevo Holocausto com maíuscula. E penso até que Isabel do Carmo não quis negar a existência do Holocausto. Mas mesmo que o quisesse, mesmo que o seu gesto não fosse, como penso ter sido, uma relativização comparativa com a política de Israel na Palestina e no Líbano, não deveria o Público ter insistido no esclarecimento, respeitando a liberdade de expressão da autora. Ou então, por achar ofensivo o seu conteúdo, deveria o Público ter banido legitimamente o artigo. Ainda para mais, sabendo o Público quem é Isabel do Carmo e qual o seu passado, ao aceitar publicar um artigo seu, sabia bem quais os eventuais e alegados desvios à sua linha editorial.

A boneca oportuna



The mirror has two faces

A realidade varia consoante os repórteres. Quer nas imagens, quer nas palavras. Guerin, da BBC, e Thomson, do Channel 4, estão, no mesmo dia, no mesmo local, a fazer uma reportagem. O que mostram e o que dizem são coisas diferentes. Na BBC, os sinais são alarmantes, "I haven’t seen a single building that isn't damaged in some way. Many have been flattened, many have been singed. This town has really been wiped out." No Channel 4, as coisas são um pouco diferentes, "As you can see, the centre of the town destroyed on a really wholesale scale, more so than since the last civilians left here, though it has to be said that on the outskirts, the suburbs - pretty much untouched by the Israeli attack and invasion." O resto pode ser lido aqui.

Cessar-fogo virtual (3)

Hezbollah recusa ser desarmado pelo exército no DN:

"Enquanto aplicarem o princípio de não desarmar o Hezbollah, não haverá problemas com o exército libanês, nem com a força internacional", disse o ministro da Energia e dirigente do Hezbollah, Mohammad Fneich, ao jornal Al-Balad. (...) O grupo liderado pelo xeque Hassan Nasrallah pretende manter o seu arsenal intacto, escondendo as armas que, alegadamente recebe do Irão, através da Síria.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Gota d´água

No Arrastão, o Daniel Oliveira está muito chocado com o facto de o ataque ao Líbano ter sido alegadamente decidido e planeado antes do rapto dos dois soldados israelitas.

É preciso esclarecer que o ataque não foi ao Líbano. Foi ao Hezbollah, organização terrorista a que o governo libanês deu e dá guarida numa subserviência que retira ao Líbano as capacidades autónomas de um verdadeiro Estado.

Essa organização terrorista (repita comigo Dr.ª Isabel do Carmo, te-rro-ris-ta) tem como objectivo a destruição de Israel. A morte de todos os judeus. A aniquilação de um estado, o fim de um povo, o eclipsar de uma religião.

Israel nunca, absolutamente nunca, escondeu as suas motivações nesta guerra. O rapto dos dois soldados foi a gota de água, como várias vezes o frisaram. Se estávamos perto da gota de água, queria o Daniel Oliveira o quê? Que Israel esperasse, como bom português, a gota de água para ir começar a preparar as comissões que iriam planear os primeiros preparativos de um ataque à organização terrorista (repita comigo Dr.ª Isabel do Carmo, te-rro-ris-ta) que os atemoriza?

Pode o Mundo chumbar à cadeira de História?

Isenção

A Reuters, esse farol de isenção, tem como seu correspondente em Havana, nem mais nem menos do que um ex-correspondente do People’s Daily World, jornal do Communist Party USA, Marc Frank. Este correspondente é particularmente adepto de Cuba, tendo acusado já os Estados Unidos de praticarem o terror com Cuba... Por exemplo, num dos seus textos no Financial Times, de 13 de Agosto, ficámos a saber que os cubanos estão calmos e doaram sangue para a saúde de Fidel Castro.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Rejuvenescimento

Minor Details

De acordo com a BBC, Fidel Castro é, se ainda estiver vivo, o líder político que há mais tempo se encontra no poder. Fidel está no poder desde 1959, o que é suficiente para ser um verdadeiro dinossauro. Mas será suficiente para ignorar que Isabel II é Chefe de Estado desde... 1952?

Cessar-fogo virtual (2)

É evidente que o Hezbollah saiu vitorioso com o cessar-fogo virtual que foi assinado. Note-se que ele sai vitorioso na secretaria e não no plano de guerra. A troco de promessas que todos sabem, porque a história se repete, que não vai cumprir, o Hezbollah conseguiu tempo. Tempo para buscar mais armas, tempo para recrutar mais gente, tempo para se organizar. Se o Hezbollah sai vencedor, tal deve-se ao Ocidente. Algo que de nada nos vai valer, por muito que o medo nos leve a pensar o contrário.

Cessar-fogo virtual

Qual é o valor de um cessar-fogo virtual? Consciência tranquila para uns quantos, talvez. Mas será suficiente? De que vale assinar um papel que todos sabem nada resolver?

terça-feira, agosto 15, 2006

Nem #&%# nem sai de cima

O Presidente da República tem de decidir-se de vez. Ou quer ser, como lhe compete, uma parte activa no processo de participação portuguesa numa eventual força internacional no Líbano e toma a liderança, acerta o passo e assume claramente essa posição, mesmo que vá contra o espírito do eleitorado; ou prefere manter-se na sombra, e tem de deixar o Governo liderar o processo, abstendo-se de vir a terreiro com sibilinas movimentações.
O que não se espera de um Presidente da República é que, tendo receio de vir dizer o que pensa, venha alimentar o clima de águas turvas, rogando Sol na eira e chuva no nabal* e funcionando como um espartilho à política externa portuguesa.
Curiosamente, esta não é a imagem da presidência de Cavaco Silva. Pelo contrário. Cavaco Silva tem sido um Presidente ciente do seu papel e das suas obrigações. Esperemos que não quebre essa presidência à primeira questão melindrosa, o que faria dele, afinal, um igual aos outros.
* corrigido após pertinente comentário do CC.

Cessar Fogo

Retirado directamente do blogue do autor: The Dry Bones Blog
Such Lovely Lads é um artigo da Time onde se procura responder à eeguinte questão: Why do so many young British Muslims turn to violence against the land where they were raised?


In a survey for Britain's Channel 4 this year, no less than 22% of Muslims agreed with the proposition that the subway bombings were justified because of "British support for the war on terror." Those under 24 were twice as likely to excuse the attacks as those over 45. A recent Pew study found that 15% of British Muslims identify themselves with fundamentalists. (...) In the Channel 4 poll, 35% said they preferred to have Muslim neighbors, and 28% thought British society does not treat women with respect. Of those ages 18 to 24, 1 in 3 said they would like to live under Shari'a law.

Em vez de procurar as razões para este ódio à civilização ocidental, o artigo prefere misturar os preocupantes sinais de ódio no relativismo cultural. No fundo, o ódio não é uma causa, é apenas um consequência. Daí que, sem supresas, o artigo da Time termine e conclua referindo-se à política externa de Tony Blair, deixando no ar uma espécie de aviso. Como se Tony Blair devesse adaptar-se ao ódio e não o ódio ceder a Tony Blair.
And then there is the foreign policy of Tony Blair's government and its support for the Bush Administration in Afghanistan, Iraq and the Middle East. That too shows up in polls and interviews as an explanation for growing disaffection. "One minute the British government is not letting you take iPods on a plane in case you detonate a bomb," says Beena Faridi, of Britain's Islamic Human Rights Commission. "But at the same time they're letting America fly bombs to and from Prestwick Airport [in Scotland] so that the Israelis can collectively punish Lebanon for the kidnap of these two soldiers. It seems that the government has a double standard in its value of life, and that's just going to fuel the isolation of the Muslim community." Says Faridi: "Everything is building up." Britain hasn't yet figured out how to calm it down.

Manipulações

Um fotojornalista que falseia as suas fotos pode ser o que quiser, mas jornalista é que ele não é de certeza.

segunda-feira, agosto 14, 2006

A guerra começa em tempo de paz

A guerra começa em tempo de paz. Sempre. É preciso que não nos esqueçamos disso. A guerra não começa no dia de um atentado ou de uma ofensiva. Não é quando a bomba explode que somos atacados. Tudo começa muito antes, quando se preparam as ofensivas e os atentados. Quando se manipulam informações e se treinam gerações. Quando todo o tempo é aproveitado para preparar, desenhar e armar. Quando os cabecilhas ensinam, postulam e pregam. Quando os jovens se arregimentam e quando aprendem a odiar.

Pretender que qualquer acto bélico, ou qualquer tentativa falhada de acto bélico, marca o início de uma guerra, só aí se legitimando uma reacção parece-me uma ingenuidade. Se seguirmos por aí, acordaremos tarde demais, sem diálogos ou concessões. Seremos vítimas de nós próprios.

Pode a miséria justificar uma revolta legítima? Basta olhar para a miséria dos países verdadeiramente miseráveis para perceber que a revolta aí se vira contra os seus carrascos. Não é a miséria que move os atentados ao Ocidente. É o ódio à nossa civilização. À nossa liberdade. É isso que motiva, tudo o resto serve de pretexto. Cair nos pretextos, aceitar legitimações, parece-me uma ingenuidade. Se seguirmos por aí, acordaremos tarde demais. Quando a legitimidade que oferecemos acabar por nos vitimar.

Londres (2)

Esta americana diz que a situação no Iraque e no Líbano provocou a tentativa de atentado em Londres. E o 11 de Setembro minha senhora? Também foi culpa da situação do Iraque e do Líbano?

Ponto de Ordem

Há uma enorme diferença entre tempo de Paz e tempo dado aos terroristas para se armarem até aos dentes.

RE: Estado e Cultura (3)

Alaíde,

Concordo contigo quando dizes que a cultura muda quem somos. Nem todo o objecto cultural o faz, nem toda a expressão artística o alcança. Mas essa capacidade fabulosa de um objecto artístico é partilhada por um conjunto de outras realidades, a que amplamente podemos chamar de cultura. Falei da gastronomia, não falei dos caracóis e das moelas. Falei das lendas e tradições que a envolvem. Dos costumes e dos hábitos que fazem gerações e se transmitem para as seguintes. Falo de religião e de fé, sentimento de pertença único para quem as vive e que as molda como pessoas. Falo do desporto e de qualquer outra actividade que implique a superação de nós mesmos. Tudo isso nos muda, a uns mais do que outros. ###

E mesmo na cultura, há coisas que te mudam a ti ou que fazem crescer como pessoa e como ser humano e que a mim me deixam indiferente. É aqui que a cultura é um acto profundamente pessoal. É evidente que para a percepção cultural, seja ela qual for, o Homem convoca conhecimentos anteriores, as tais referências estéticas culturais, sociais. E quando não o faz é porque está num acto de criação genial ou autodidacta. Mas isso é outra história. Eu não nego a importância do conjunto nas nossas percepções culturais. Não nego a presença do outro. Qualquer leitura de textos mais intimistas meus (há prái às dezenas) confirma que não concebo a minha vida sem gente, sem o outro.

Acontece que me parece que tu confundes o estabelecimento de referências culturais em comum com a presença do Estado. Quando dizes que em caso de cataclismo salvarias o Da Vinci, tal deve-se à tua percepção cultural sobre a história da arte. Mas precisas do Estado para isso? A sociedade precisa que o Estado lhe diga a relevância de Da Vinci? Só o Estado dá espaço e voz a quem vai sedimentando essa relevância?

Quando o Estado sai da cultura, não desaparecem as referências culturais. As associações de escritores, os professores de arte, os críticos, os especialistas, toda a constelação de referências culturais mantém-se. Continuarão a haver prémios ou até passarão a haver mais. Sinceramente, não acredito no seu desaparecimento após a saída do Estado da sua posição de prestador cultural. Considero que a sociedade sempre encontrou as suas referências e deu espaço a quem considera saber mais e melhor. Como é que num mercado completamente privatizado existem jornais credíveis e sérios, com colunistas com algo para dizer e especialistas com algo para ensinar? Porque isso faz parte da espontânea organização social.

Se o Estado se ausentar Alaíde, tu não te ausentas. Tu e todos os que frequentem e procuram uma oferta cultural diversificada. Essa massa humana essencial não precisa do Estado para ser, formar ou seguir referências culturais. É esta a minha opinião.

Daí que aceito quando dizes, em teoria, que a função do Estado deve ser supletiva, algo que não existe actualmente. As declarações do Paulo Branco nos últimos dias a dizer que sem o Estado não há cinema são paradigmáticas. Mas se concordamos na supletividade, estamos a concordar num conceito, não no seu conteúdo. Não basta querer uma intervenção supletiva para que esta o seja. E por muito que o Estado pense que é supletivo, a verdade é que não é, em minha opinião.

sábado, agosto 12, 2006

Manipulações

Neste vídeo poderá ver algumas das manipulações jornalísticas relativas à cobertura do conflito entre Israel e o Hezbollah. Desde fotos manipuladas a encenações silenciadas. Não há muitas palavras para descrever esta cobertura.

sexta-feira, agosto 11, 2006

A ler

As palavras de Brigitte Gabriel, libanesa cristã.
I was raised in Lebanon, where I was taught that the Jews were evil, Israel was the devil, and the only time we will have peace in the Middle East is when we kill all the Jews and drive them into the sea.
When the Moslems and Palestinians declared Jihad on the Christians in 1975, they started massacring the Christians, city after city. I ended up living in a bomb shelter underground from age 10 to 17, without electricity, eating grass to live, and crawling under sniper bullets to a spring to get water.
It was Israel who came to help the Christians in Lebanon. My mother was wounded by a Moslem's shell, and was taken into an Israeli hospital for treatment. When we entered the emergency room, I was shocked at what I saw. There were hundreds of people wounded, Moslems, Palestinians, Christians, Lebanese, and Israeli soldiers lying on the floor. The doctors treated everyone according to their injury. They treated my mother before they treated the Israeli soldier lying next to her. They didn't see religion, they didn't see political affiliation, they saw people in need and they helped.
For the first time in my life I experienced a human quality that I know my culture would not have shown to their enemy. I experienced the values of the Israelis, who were able to love their enemy in their most trying moments. I spent 22 days at that hospital. Those days changed my life and the way I believe information, the way I listen to the radio or to television. I realized I was sold a fabricated lie by my government, about the Jews and Israel, that was so far from reality. I knew for fact that, if I was a Jew standing in an Arab hospital, I would be lynched and thrown over to the grounds, as shouts of joy of Allah Akbar, God is great, would echo through the hospital and the surrounding streets.

Londres

Partida, largada, fugida! Começa o tempo para os do costume virem com as teorias do arrastão.

RE: Estado e Cultura (2)

Resumes muito do que eu penso sobre cultura numa frase e que ando há vários posts a tentar escrever : «um objecto artístico em si não tem “valor artístico” esse é dado por aqueles que usufruem [de forma directa ou indirecta] desse objecto». Então, se assim é, retiro várias conclusões:
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a) Shakespeare nunca será absolutamente melhor ou pior do que a Rowling. Para ti será melhor, para mim será pior, para o nosso vizinho é hoje melhor e para o ano pior;
b) Logo, a única forma de determinar o valor artístico de um objecto é deixar que sejam as pessoas, cada um delas, a definir o que pensam dele;
c) Para isso, temos de abdicar das políticas que tentam convencer as pessoas de que Shakespeare é melhor que Rowling;

Ora, um Estado que chame a si a tarefa de garantir a produção cultural, e atenta a escassez de recursos, viola estas três conclusões. Porque o Estado vai utilizar recursos retirados do bolso das pessoas, para apoiar uma lista de produtos ou objectos culturais, necessariamente escalonados e valorados. E a pergunta que coloco é? Não são as pessoas determinar o valor artístico dos objectos? Deixemos as pessoas escolher o que querem ver ou ouvir.

Depois, quanto à diferença entre o direito de acesso à cultura do acesso ao desporto ou à habitação, reportas-te à tua noção de cultura que não vou agora discutir, porque ela se aproxima do que eu penso. Acontece que eu retiro as consequências da abrangência desse conceito e tu, segundo o meu ponto de vista, não tiras.

Quando dizes que cultura é o que te faz sentir mais próxima do teu amigo Michiel que vive em Telavive e que estejas a uma distância imensurável de alguém que viva em Miranda do Douro, por mais auto-estradas que se construam estás precisamente a reforçar o individualismo subjacente à fruição cultural. Tu podes estar mais próxima de Tel Aviv (se o Estado soubesse... ;)) mas o teu vizinho do lado pode estar mais perto de Miranda do Douro. Quem está certo? Nenhum. Tem o Estado o direito de escalonar, na sua função de agente cultural, as tuas referências e as do teu vizinho? Não.

Mas estás mais perto de Israel do que de uma cidade perdida em Trás-os-Montes, porquê? Tal deve-se a um conjunto de factores que têm que ver com a tua natureza. Mas todas as naturezas são diferentes. Há pessoas para quem as referências culturais assentam no desporto. É isso que as realiza e que as transcende. É isso que determina as suas relações de proximidade. Elas valem mais ou menos que as tuas com o Michiel? Há quem encare a gastronomia de forma sacral. Uma arte, um mundo de referências profundas e que transcendem a sua existência. Para quem uma excelente refeição, com amigos, é o melhor programa do mundo. E assim constróem as suas relações de proximidade. Valem essas relações mais ou menos que as tuas com o Michiel?

quinta-feira, agosto 10, 2006

Momento Intimista do Dia


Now I can feel the sunshine
And all its creatures' rising sounds
Just like mono to stereo, twist of scenario
I will see all the things I couldn't see

(clicar para ouvir)

Yuppie Flu, I Feel Lucky

Sobre Cuba...

... ler O Vale a Pena Lutar. Ler para crer.

RE: Estado e Cultura

A Alaíde comentou igualmente o meu artigo na Revista Dia D no seu 19 meses depois. Ela levanta algumas questões que eu já tratei aqui nas respostas ao Tiago e ao Miguel, pelo que, por uma questão de economia do meu espaço e do vosso tempo, me limito a remeter para o que lá fui dizendo.

Um dos pontos levantados pela Alaíde é o de que o valor de uma obra cultural não pode ser aferido apenas pelo mercado. Mesmo que Shakespeare venda menos exemplares que J.R. Rowling esta será sempre inferior aquele. ###

Tenho alguma dificuldade em escalonar qualidades de forma tão assertiva. Uma pessoa atenta aos fenómenos culturais evita essas catalogações. O que hoje é desprezado pode vir a revelar-se uma obra prima décadas ou séculos depois. Por isso mesmo rejeito que o Estado possa condicionar a oferta cultural ao que ele considera, num dado momento, de melhor qualidade. Onde é que o mercado funciona? O mercado aponta para o que as pessoas querem e pretendem. São as suas escolhas e não as escolhas dos funcionários do Estado. E repito, o mercado não dá uma resposta. Os editores de Shakespeare não se iludem com as vendas da Rowling e desistem de o publicar, porque já aprenderam a segmentar o mercado e a direccionar o seu produto para aqueles que o procuram.

Diz a Alaíde que eu não referi ou não demonstrei o papel essencial que as elites têm na evolução da sociedade. O meu artigo não era sobre as elites. O meu artigo procurou demonstrar que as elites, sejam elas quais forem, gostem elas do que gostarem, são também elas parte do mercado. São, até, um segmento de mercado muito procurado. É uma ilusão pensar que um sistema cultural não assente no Estado as vai ignorar, como se elas não existissem. Como referi, quando o Público quis aumentar vendas, decidiu juntar um CD ao jornal. De um ponto de vista dos que desconfiam do mercado, seria certo e sabido que o Público iria ao top de vendas para escolher os artistas a incluir nesses CDs. Mas a verdade é que o Público fez uma excelente biografia do fado e uma completa colecção de música clássica.

Diz a Alaíde que o meu direito de acesso à cultura é diferente do meu direito ao desporto e à habitação. Mas não diz porquê. E esse seria um debate muito interessante.

Milhões de Escolhas (3)

A sua ideia de que o mercado somos todos nós é tão verdadeira como a ideia que afirma que o Estado somos todos nós.

Será mesmo assim Miguel? Num mercado com ampla liberdade de escolha não és tu que decides o que compras e onde despendes o teu dinheiro? Não és tu que escolhes a que espectáculos vais e que livros compras? Quanto ao Estado, és tu que determinas onde vão ser gastos os orçamentos da cultura? Bem sei que elegemos os governantes, mas de que forma podemos sindicar algumas das escolhas que os serviços estaduais fazem por nós? Num mercado livre, as escolhas são individuais. No Estado, as escolhas são feitas por funcionários públicos, supostamente investidos de imparcialidade. ###

Quando se reclama um recuo do Estado procura-se um avanço da liberdade dos indivíduos. No caso concreto da cultura, como está expresso no meu artigo, procura-se impedir que seja o Estado a garantir a produção cultural, de forma a proporcionar uma maior liberdade aos indivíduos que usufruem da produção cultural.


O mercado não é - como você parece entender – um somatório de indivíduos ou das
suas escolhas. O mercado é uma forma de organização (como o Estado) que expressa
sempre determinadas relações económicas entre os homens, e que estão sujeitas a regras definidas pela lei. Por isso é que depois se pode falar de mercados monopolistas, olipolistas, de concorrência imperfeita, etc, pois tanto a forma como os mercados estão organizados como as relações entre os agentes de mercado variam. Mas foi você próprio que no seu artigo definiu o mercado como um sistema. Teve um lapso de linguagem?

Mas Miguel, onde é que, num sistema livre, o mercado deixa de corresponder à vontade das pessoas? As leis de que falas, da concorrência, são, na sua génese, destinadas a impedir comportamentos ilegais no sentido de organizações se apoderarem das regras do mercado em proveito próprio. Isso não é um mercado livre. Um monopólio que surge naturalmente é uma coisa. Um monopólio baseado em comportamentos ilícitos e predatórios, é outra. É um mercado manietado. Mas é isso mesmo que o Estado faz na cultura, criando uma situação de verdadeira posição dominante. Quando o Estado distribui os seus subsídios, no contexto da sua função de garantia de prestação cultural, o Estado determina logo quem sobrevive ou quem não sobrevive. Mas ao Estado já as leis da concorrência se parecem não aplicar....

Eu não disse que as pessoas não eram consumidores. Se as relações que as pessoas estabelecem entre si são relações de compra e venda, elas são necessariamente consumidores, produtores, etc. Mas o que eu disse é que elas não se reduzem a ser consumidores, pois as relações entre as pessoas não são unicamente mercantis. Por isso as pessoas são também cidadãos, seres éticos, seres sociais, seres culturais, ou numa palavra seres humanos. Como eu disse no outro comentário, antes de se ser um consumidor que faz escolhas entre diversos produtos, é-se alguém com uma identidade que espelha outras escolhas que nada têm que ver com o mercado, mas são antes existenciais. Ser-se humano é ter-se uma vida e não ser-se um mero consumidor.


Concordo inteiramente com o que dizes. Nem eu procurei dizer o oposto.

Esta sua concepção economicista do que são os homens transforma-os em seres que vivem para consumir, porque qualquer objectivo, qualquer desejo, qualquer ideal, seria (ou procuraria ser) sempre satisfeito pelo consumismo.

Miguel, sinceramente, eu posso estar a expressar-me mal. Mas nós não estávamos a falar da produção e acesso culturais? Não estou a discutir a transcendência do ser humano. Não estou a discutir toda a envolvência da natureza humana. Onde é que eu disse que todo o desejo é satisfeito pelo consumismo? Vou eu negar que a Madre Teresa seria feliz apenas por viver num quadro de despojo? Não. Estamos a falar de cultura. Estamos a falar de algo para o qual o Estado canaliza verbas para que nós possamos ter acesso, mediante o pagamento dos nossos impostos e dos bilhetes comprados, a uma produção cultural. Vejo aqui dinheiro por todos os lados.
Poderás dizer que a cultura tem um objectivo mais amplo que não pode ser satisfeito apenas pelo seu consumo. Que há um enriquecimento humano que não consegue ser contabilizado. Tudo isso é verdade. Mas há ou não há custos com a produção cultural? Há ou não que pagar os meios e os ordenados e as instalações e tudo o mais?

As consequências disto são várias, e na nossa sociedade de consumo elas estão cada vez mais à vista: o vazio de ser é «aliviado» com o ter, pois é-se o que se tem ou consome; vive-se o imediato e o efémero; os homens vêem os seus semelhantes como meros objectos (de consumo) para a sua satisfação pessoal; e o próprio acto de produzir e criar deixa de ter valor, pois o seu fim é, em última instância, o consumo. Ora, o que estas consequências revelam é a desumanização dos homens. A distinção entre indivíduo e consumidor, que você considera que não é necessário fazer, torna-se de facto irrelevante porque num mundo mercantil não há indivíduos (ou homens): há apenas objectos consumistas que só têm um interesse: satisfazer prazeres.

Continuo sem perceber onde é que estas afirmações sobre o ser e o ter tocam no que tenho vindo a escrever. Mas quando dizes que o “próprio acto de produzir e criar deixa de ter valor, pois o seu fim é, em última instância, o consumo” queres dizer precisamente o quê? Que a minha concepção de cultura parece querer imputar um custo a esse consumo? Sinceramente, não percebo muito bem. Espero por uma eventual resposta para poder responder.

Assim, num mundo povoado por consumidores, nem se pode dizer que o critério que
determina o que é bom ou mau são as escolhas daqueles (como você disse). O critério seria, antes, o prazer que advém dessas escolhas, que no seu entender devem estar todas equiparadas. Pode, assim, concluir-se que o liberalismo é uma corrente hedonista e relativista. Como eu comecei por dizer num dos meus primeiros comentários, o liberalismo e o pós-modernismo estão muito próximos em termos ideológicos. E estão tanto mais próximos quanto mais a cultura for reduzida ou equiparada ao mercado.

Mais uma vez posso estar a expressar-me mal. Mas pensei que tivesse deixado claro que o que motiva o acesso a determinados bens varia de pessoa para pessoa. Pode ser por prazer, vaidade, opulência, necessidade.... O que eu entendo importante discutir é que, num sistema que assenta no Estado, há motivações e escolhas que vão ser valorizadas sobre outras. Será isso justo?

quarta-feira, agosto 09, 2006

Milhões de Escolhas (2)

Continuo a conversa com o Miguel. Diz ele o seguinte:

Recordo-lhe que no seu artigo, no jornal «Público», o que você afirmou foi que o único sistema que conhecia que podia determinar o que é bom e mau era o mercado – os tais milhões de escolhas individuais (em conjunto, entenda-se). Agora, você começa por dizer que, afinal, o mercado já não determina o que é bom ou mau, mas que é cada indivíduo que o determina ao fazer as suas escolhas e ao tomar as suas decisões. São duas coisas diferentes, porque enquanto no primeiro caso o bom e mau são definidos pelas relações estabelecidas entre consumidores e produtores, no segundo caso são anteriores a essa relação.

Eu disse no artigo e repeti no meu post que cabe ao mercado decidir o que é bom e o que é mau. Mas o mercado não é um ente. O mercado somos todos nós. Todas as nossas escolhas compõem o mercado. Cabe a cada um de nós decidir, na nossa esfera, o que achamos bom ou mau. Dos milhões de escolhas que fazemos ou de que damos conta, os fornecedores ou prestadores fazem a sua leitura.
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O que frisei no post e que já tinha deixado claro no artigo é que existe uma paleta diversificada de necessidades que o mercado exige. Se no post dei o exemplo dos directores do 24 Horas e do Jornal de Negócios que, olhando para um mesmo mercado, dele fazem leituras diferentes, no artigo referi que as elites eram também elas um mercado a ser satisfeito. Disse, no artigo, que “nem todos os produtos se querem associar ao popular e vulgar. Alguns jornais não preferem fazer-se acompanhar de CDs de música clássica em vez dos últimos êxitos dos Anjos, por exemplo?”.

Não existe, nesta minha óptica, um bom e um mau. Isso é, quanto a mim, o defeito das políticas culturais assentes no Estado, que procuram valorizar algo que consideram bom. Ora, como digo no artigo, ninguém pode unilateralmente determinar o que é bom mau. Cabe às pessoas, nas suas milhões de escolhas, que constituem o mercado, pedir o que querem e rejeitar o que não lhes interessa.
O que daqui decorre é que qualquer discurso acerca dos valores estéticos, éticos e dos bens culturais não se pode reduzir à lógica do mercado, na medida em que um indivíduo não se reduz à categoria de consumidor. O que se pode dizer, portanto, é que você já está, à partida, a abdicar do princípio económico que defendeu anteriormente, evitando sacrificar os seus princípios morais e valores. E fá-lo na exacta medida em que não se vê apenas como um mero consumidor, mas como alguém com uma identidade (ainda que você continue a servir-se do conceito de consumidor para expôr os seus argumentos). Mas se você tem uma identidade é porque a construiu, mas também porque a herdou por socialização. É que tal como não há consumidores fora do mercado, também não há indivíduos fora de uma sociedade. Ora, a sua redução dos indivíduos a consumidores e produtores mais não é do que uma consequência da redução da sociedade ao mercado, e da cultura a produtos comerciais.
A partir do momento em que eu pago para aceder a um bem cultural, eu sou um consumidor. Percebo que não seja essa a tua (pode ser?) posição. Mas não consigo fugir desta realidade. Se eu pago por um bem, se pago para ir a um espectáculo, se pago por um livro ou se pago para visitar um museu, sou um consumidor. E faço as minhas escolhas, nomeadamente porque o meu orçamento não me permite ir ver tudo. Volto ao Museu da Arte Antiga e do Azulejo e não volto ao Museu da Arte Popular, por exemplo. Leio Graham Greene e dispenso Luís Sepúlveda. Vou ver a Mónica Calle mas dispenso a Lúcia Sigalho. São escolhas.
E Miguel, sinceramente, eu não vejo necessidade de operar essa distinção entre indivíduo e consumidor. Bem sei que os produtos culturais despertam em nós realidades que não se quedam por um prazer economicista. Mas um fanático de futebol dirá o mesmo das suas idas ao estádio. Ou um apreciador de charutos. Cada pessoa, cada indivíduo, em todas as suas escolhas, convoca a sua identidade para as fazer. E merece que essas escolhas, na medida em que o realizam, sejam respeitadas e equiparadas a outras escolhas de alegada maior qualidade.
É por isso que a oferta cultural é uma oferta comercial. Se não é comercial, não sei que outra classificação lhe possa atribuir. É preciso, de certa forma, não dar um sentido pejorativo à palavra e frisar que não quero com isto desvalorizar a relevância que atribuo à formação cultural (e onde começa e acaba o que deve ser considerado como oferta cultural?). Não se trata disso. A comida é algo de essencial para a minha sobrevivência e considero o mercado da comida como comércio. A cultura é o fornecimento de um serviço que pode ou não ser adquirido. Os motivos para essa aquisição são variados. Pode ser por prazer cultural, vaidade, aparência, necessidade, opulência, seja o que for.
Não percebo, portanto, por que é que aqueles que se situam na sua área ideológica ficam tão espantados quando se diz que a cultura é de esquerda. É de esquerda, no mínimo, por exclusão de partes, pois para a direita a cultura é comércio. E é porque é comércio que você considera que o Estado deve estar alheado dela, pois, para si, o mercado (isto é, a sociedade de mercado) deve funcionar sem qualquer intervenção estatal. O Estado minimo liberal é o outro lado da moeda do mercado máximo liberal.
Eu não considero que a cultura seja de esquerda ou de direita. E não condiciono, de forma alguma, a programação cultural a que assisto com base em pressupostos ideológicos.
Recentrando a questão. Por exemplo, o facto de me deslumbrar e inquietar com a Agustina significa que a compra dos seus livros não seja um acto de comércio? O facto de me sentir feliz, absolutamente feliz, quando oiço as Aventuras do Ligeti, significa que a compra desse CD não seja um acto de comércio? A questão que pode colocar-se, e que procurarei analisar no artigo, é a de saber se sem o Estado é possível alcançar uma oferta cultural diversificada. Mas isso fica para outros posts e para a continuação desta conversa.