Não consigo sinceramente compreender qual a
questão aka drama da presença de Vasco Rato no
Sim no Referendo, alegadamente repleto de gente de esquerda.
Em primeiro lugar, porque a despenalização do abortamento não é uma questão de esquerda. Infelizmente, pela cegueira dos líderes e políticos da direita, o assunto foi transformado em bandeira de esquerda.
Nesta, como em tantas outras matérias, a direita política escusou-se sempre a encontrar uma resposta para o drama associado ao abortamento. Tanto assim é que durante anos nenhuma proposta sobre o assunto foi apresentada que não viesse com marca da esquerda.
Não adianta, por isso, tentar lançar a confusão, dizendo que são a favor da despenalização e não da liberalização, quando durante anos, e sem referendo à porta, nunca se viu uma única proposta nesse sentido. ###
Se a despenalização do abortamento está hoje sujeita a uma apropriação da esquerda, tal deveu-se a uma deserção quase generalizada por parte da direita.
Ora, isso não basta para tornar tal despenalização numa questão de esquerda.
O facto de os líderes partidários e de os deputados da direita se terem abstido de mexer uma palha para alterar essa situação não obsta a que quem goste de pensar pela sua própria cabeça tome posição e afirme, sem tibiezas, o que pensa.
E a despenalização do abortamento não é, de forma alguma, uma questão de esquerda, independentemente do que sobre esse assunto pensam o Dr. João Teixeira Lopes ou a Dr.ª Odete Santos.
São por isso de saudar todos os blogues que, passando ao largo dessas apropriações, se preocupam em oferecer uma resposta abrangente e diversificada a um problema.
E se há vantagem de se pertencer a um quadrante ou a um partido ela é, precisamente, a de não ter que estar constantemente a afastar-se do que pensam os outros que, à esquerda ou à direita, os acompanham nesses blogues. Pode alguém confundir as motivações do Vasco Rato com as do Daniel Oliveira? Não me parece, como igualmente não me parece que o Prof. César das Neves possa ser confundido, neste campo, com o Paulo Pinto Mascarenhas.
Em segundo lugar, a presença do Vasco Rato no
Sim no Referendo, assim como a da Helena Matos e do Carlos A. Amorim, só contribui para contrariar um fosso sem fim que vem sendo criado à volta da direita portuguesa, sempre tão resguardada, e que sistematicamente a impede de reflectir a diversidade de opiniões dos que não se identificam com o socialismo, transvestido ou não, que grassa em Portugal.