"Stasi chief was an Orwell fan, bent reality to get room 101":
[ altamente recomendado, o filme "A Vida dos Outros" ]
"A Arte da Fuga" ("Die Kunst der Fuge", BWV 1080) é uma obra-prima de Johann Sebastian Bach:
um único tema musical persegue-se, a si mesmo e as múltiplas variações, num diálogo musical intenso desenvolvido a diversas vozes, rico de simetrias, inversões, ritmos e tempos diferentes.
Fugas para aartedafuga@gmail.com
Eu também acho que "A vida dos Outros" é um filme excepcional. Tenho é as maiores dúvidas que Ayn Rand fosse da mesma opinião. O filme é, além do mais,um hino à liberdade mas também ao altruísmo.
ResponderEliminarMas eu não sei compatibilizar a liberdade com o egoísmo.
Isso porque o caro Rui não sabe qual é o sentido de "altruísmo" para Ayn Rand, e porque confunde individualismo com "egoísmo".
ResponderEliminarPercebo a dificuldade dos admiradores de Ayn Rand em conciliar o pensamento "libertário" dela com o sentimento de altruísmo que é imanente a qualquer homem livre.
ResponderEliminarAyn Rand não fez do individualismo a base das suas opções e das suas propostas: elegeu o egoísmo como condição imprecindível para a realização plena dos objectivos do homem.
Mas é bem verdade que os supostos problemas filosóficos são sempre (muitas vezes complexos)problemas de linguagem. No caso de Ayn Rand dificilmente "The Virtue of Selfishness" poderá ter outro sentido que o egoísmo puro e duro.
Caro Rui, já leu o livro que refere?
ResponderEliminarCaro António,
ResponderEliminarJá.
Faço algum esforço para compreender os outros. Neste momento ando a ler
"Radicals for Capitalism" de Brian Doherty. Edição deste ano.
No caso de Ayn Rand dificilmente "The Virtue of Selfishness" poderá ter outro sentido que o egoísmo puro e duro.
ResponderEliminar*suspiro*
Caro António,
ResponderEliminarInterpreto o seu *suspiro* como uma de duas reacções:
-ou porque não tem resposta;
-ou porque não tem mais paciência;
Porque não sou vaidoso,opto por considerar a segunda e pedir-lhe para ler o seguinte:
-What do you mean by "selfishness"?
Ayn Rand - I mean the pursuit of one´s rational self-interest. I mean that the central purpose of one´s life is to achieve one´s happiness, not to sacrifice oneself to others or others to oneself. "Selfishness" means to live by judgement of one´s mind and to live by one´s our productive effort, without forcing anything on others.
Esta foi a resposta de AR a uma das perguntas que lhe colocaram em Março de 1969 no programa de rádio "Night Call" e é transcrita no livro "Answers - The Best of Ayn Rand Q&A ", editado por Robert Mayttew na Centennial Edition.
Não tenho comigo "The virtue of Selfishness" mas consegui consultá-lo e a outros numa livraria perto daqui.
Ora, meu caro António, o polícia da secreta do leste alemão que sacrifica, anonimamente, o seu lugar e corre o risco de vida, fá-lo movido por um sentimento altruísta.
Pois para Ayn Rand o altruísmo é considerado imoral e o egoísmo uma norma essencial de conduta.
Estarei a ler mal?
Está a ler literalmente, sem fazer esforço para interpretar o que a autora quer dizer, independentemente do valor que as suas ideias podem ter.
ResponderEliminarDe resto, no Q&A há uma secção inteira sobre o tema, suficiente para explicar bem a coisa.
Vou usar uma linguagem um pouco pascal, gozando um pouco do "culto", para ver se torno as coisas mais claras.
Ayn Rand não disse: "dou-vos um mandamento novo, que sejais o mais egoístas quanto quiserdes" ou "ide e sede egoístas".
Aliás, no Q&A há uma resposta bem mais famosa, em que diz que as pessoas interpretam "egoísmo" mal (ou de forma diferente dela), pois associam essa prática como "só quero saber de mim, e desejo mal aos outros" (uma interpretação que depreende que a "felicidade" é um jogo de soma-nula, mas deixo isto para outra altura).
O que AR disse foi que só há moralidade quando o indivíduo serve os seus próprios princípios.
Sejam eles absolutamente egoístas ("deixem-me em paz, não quero saber do mundo") - atitude recorrente nas personagens dos seus livros de ficção. Ou sejam esses princíp~ios os de ajudar o outro porque esses são os valores individuais em que se acredita (aqui AR range o dente, tal como os liberais rangem, sempre que alguém voluntariamente e sem prejudicar terceiros, adopta modelos socialistas).
AR diz que é imoral qualquer filosofia política baseada no altruísmo. Qualquer ideologia que defenda que o indivíduo deve parte do seu trabalho a outrem, pelo simples facto de existir ("contrato social" diriam outros). Que é perverso defender que as pessoas devem viver para os outros, independentemente da sua própria vontade. Que qualquer doutrina baseada em escravidão total ou parcial é uma filosofia de morte.
Ou seja, um indivíduo para poder realizar-se como Homem tem de poder viver segundo os seus valores. Tem de ser absolutamente livre de escolher ser independente (egoísta) ou comunitário (solidário), sem qualquer coacção directa ou ameaçada contra a sua propriedade ou integridade física.
Ora, isto é individualismo, uma filosofia liberal, por muito que a base filosófica difira muito de outros ramos liberais.
Caro António,
ResponderEliminarAgradeço-lhe as explicações, mas não me convencem.
V. diz: AR não diz: "só quero saber de mim, e desejo mal aos outros" (uma interpretação que depreende que a "felicidade" é um jogo de soma-nula)
Ora egoísmo não tem que ver com o desejo do mal dos outros. O egoísta não deseja o mal dos outros. Para isso existem outros qualificativos. O egoísta simplesmente pensa em função de si próprio.
Ora, voltando ao filme que motivou esta troca de ideias, o polícia, que protege a vida dos outros com sacrifício da sua própria, é tudo menos egoísta. AR não poderia dizer o contrário, e condená-lo por isso.
Coisa bem diferente, e nada tem a ver com isto, seria o mandamento que obrigaria a solidariedade à força. Foi este mandamento que esteve subjacente à montagem das sociedades ditas socialistas que degeneraram em sociedades dominadas por uma clique de déspotas.
Os libertários, contudo, e essa é, quanto a mim, a sua maior vulnerabilidade, pretendem opor à sua doutrina a doutrina da esquina adjacente. Mas o mundo não é a preto e branco. A esmagadora maioria das pessoas que pensam nestes assuntos não é libertária nem socialista.
Era o caso do polícia de "A vida dos outros"
Corrija pf.:
ResponderEliminarAR não poderia dizer o contrário, e condená-lo-ia por isso.
Caro Rui,
ResponderEliminarA sua afirmação de "AR não poderia dizer o contrário, e condená-lo-ia por isso" não é minimamente fundamentada. Se ela para si é óbvia (e parece ser este o seu argumento), devia então rever a base daquilo que leva-o a pensá-la. Isto é, as definições dos termos usados.
Egoísmo para Rand é "rational self-interest". Egoísmo irracional não conta. Lá porque eu gostava de ser dono do seu carro, isso não me daria o direito de confiscá-lo. Por quê? Por ser irracional. Obter algo à custa de outrém ilegitimamente não é egoísmo. Rand argumenta, pelo contrário, que é uma forma perversa de viver em função dos outros, na medida em que a felicidade só seria alcançada pela violação dos direitos alheios. Note que esta dependência perversa é o reverso da medalha do altruísmo...
Em contraposição ao altruísmo, Rand apresenta a benevolência. Sempre voluntária e dentro dos interesses do sujeito. O que é isto? É complicado explicar sem entrar na teoria de valores objectivista. Basicamente a noção de sacrifício é a troca de algo que tem uma valor elevado para o sujeito por algo de menor valor. Se o valor da justiça é superior para o polícia relativamente a um potencial risco da sua própria vida contextualizada num regime colectivista, as suas acções não são um sacrifício na definição randiana. São uma escolha racional. (como não vi o filme em causa, não estou a par de todos os factos para poder elaborar mais)
Caro Migas,
ResponderEliminarAgradeço-lhe os comentários. O meu comentário inicial, como pode ver aqui mesmo ao lado, à recomendação de "altamente recomendado" foi apenas dizer que tinha as maiores dúvidas que Ayn Rand fosse da mesma opinião. E por quê? Porque o polícia arrisca a vida (anonimamente) para salvar a vida dos outros (daí o título do filme).
É evidente que se esta atitude decorreu de uma maior ponderação de outro valor relativamente à vida do próprio (valor supremo, na concepção de AR) estaremos perante uma decisão de altruísmo máximo e nunca de qualquer espécie de egoísmo, a menos que se faça o contorcionismo total das ideias e se passe a ver o mundo às avessas.
Uma atitude altruísta decorre sempre de uma decisão racional, de outra forma não teria significado enquanto valor.
Mesmo o cão que se lança à água para salvar o dono fá-lo por instinto altruista. Na momento em que se lança à água não faz as contas de qual a vida que, para ele, vale mais.Estaremos neste caso perante uma situação de altruísmo instintivo que em menor grau subjaz a todas as decisões altruístas (racionais, portanto) do homem enquanto ser racional.
Só um indivíduo egoísta sopesou com antecedência bastante o valor da sua vida (que é máximo)relativamente a qualquer outra, e nunca se lançará à água para salvar seja quem for.
O polícia da secreta é mobilizado para uma atitude altruísta que decorre dum instinto de justiça que ultrapassa o valor que ele atribui a ele próprio. Mas não há outro conceito de altruísmo e o egoísmo é sempre precisamente o contrário.
A dois conceitos elementares diferentes terão de corresponder duas designações diferentes, referia preliminarmente Wittgenstein. Não há outra forma de nos entendermos nem filosofias
para além das construções linguísticas.
O que há são jogos de palavras.
Caro Rui,
ResponderEliminarNão creio que adiante muito continuar a discussão na medida em que é improvável que qualquer um de nós mude de opinião. Apenas posso dizer que a sua caracterização da posição que Rand tomaria perante o exemplo do polícia alemão está errada tendo em conta a teoria ética randiana.
No entanto sugiro-lhe a leitura do capítulo "The Ethics of Emergencies" no livro que referiu ("The Virtue of Selfishness"). Neste capítulo Rand elabora sobre situações de excepção (onde julgo cair a situação do filme em causa).
Adicionalmente, sugiro-lhe também a leitura deste post que escrevi sobre o altruísmo, que julgo ser uma razoável caracterização da posição randiana sobre o tema.