Quinta-feira, Abril 05, 2007

Staasiland

"Stasi chief was an Orwell fan, bent reality to get room 101":
"I’d long been fascinated by George Orwell’s work, but I resisted reading 1984 until I finished the manuscript for Stasiland. After that, I devoured it, and I couldn’t believe Orwell’s prescience. When I went into Mielke’s office, I saw it had the number 101, which in 1984 is the number of the torture chamber. 1984 was banned in the G.D.R. but of course, Mielke and Honecker had access to banned material. The guide told me that Mielke wanted this number so much that even though his office was on the 2nd floor, he had the entire first floor renamed the Mezzanine so that he could call his room 101."

[ altamente recomendado, o filme "A Vida dos Outros" ]

13 comentários:

  1. Eu também acho que "A vida dos Outros" é um filme excepcional. Tenho é as maiores dúvidas que Ayn Rand fosse da mesma opinião. O filme é, além do mais,um hino à liberdade mas também ao altruísmo.

    Mas eu não sei compatibilizar a liberdade com o egoísmo.

    ResponderEliminar
  2. Isso porque o caro Rui não sabe qual é o sentido de "altruísmo" para Ayn Rand, e porque confunde individualismo com "egoísmo".

    ResponderEliminar
  3. Percebo a dificuldade dos admiradores de Ayn Rand em conciliar o pensamento "libertário" dela com o sentimento de altruísmo que é imanente a qualquer homem livre.

    Ayn Rand não fez do individualismo a base das suas opções e das suas propostas: elegeu o egoísmo como condição imprecindível para a realização plena dos objectivos do homem.

    Mas é bem verdade que os supostos problemas filosóficos são sempre (muitas vezes complexos)problemas de linguagem. No caso de Ayn Rand dificilmente "The Virtue of Selfishness" poderá ter outro sentido que o egoísmo puro e duro.

    ResponderEliminar
  4. Caro Rui, já leu o livro que refere?

    ResponderEliminar
  5. Caro António,

    Já.

    Faço algum esforço para compreender os outros. Neste momento ando a ler
    "Radicals for Capitalism" de Brian Doherty. Edição deste ano.

    ResponderEliminar
  6. No caso de Ayn Rand dificilmente "The Virtue of Selfishness" poderá ter outro sentido que o egoísmo puro e duro.

    *suspiro*

    ResponderEliminar
  7. Caro António,

    Interpreto o seu *suspiro* como uma de duas reacções:
    -ou porque não tem resposta;
    -ou porque não tem mais paciência;

    Porque não sou vaidoso,opto por considerar a segunda e pedir-lhe para ler o seguinte:

    -What do you mean by "selfishness"?
    Ayn Rand - I mean the pursuit of one´s rational self-interest. I mean that the central purpose of one´s life is to achieve one´s happiness, not to sacrifice oneself to others or others to oneself. "Selfishness" means to live by judgement of one´s mind and to live by one´s our productive effort, without forcing anything on others.

    Esta foi a resposta de AR a uma das perguntas que lhe colocaram em Março de 1969 no programa de rádio "Night Call" e é transcrita no livro "Answers - The Best of Ayn Rand Q&A ", editado por Robert Mayttew na Centennial Edition.

    Não tenho comigo "The virtue of Selfishness" mas consegui consultá-lo e a outros numa livraria perto daqui.

    Ora, meu caro António, o polícia da secreta do leste alemão que sacrifica, anonimamente, o seu lugar e corre o risco de vida, fá-lo movido por um sentimento altruísta.

    Pois para Ayn Rand o altruísmo é considerado imoral e o egoísmo uma norma essencial de conduta.

    Estarei a ler mal?

    ResponderEliminar
  8. Está a ler literalmente, sem fazer esforço para interpretar o que a autora quer dizer, independentemente do valor que as suas ideias podem ter.

    De resto, no Q&A há uma secção inteira sobre o tema, suficiente para explicar bem a coisa.

    Vou usar uma linguagem um pouco pascal, gozando um pouco do "culto", para ver se torno as coisas mais claras.

    Ayn Rand não disse: "dou-vos um mandamento novo, que sejais o mais egoístas quanto quiserdes" ou "ide e sede egoístas".

    Aliás, no Q&A há uma resposta bem mais famosa, em que diz que as pessoas interpretam "egoísmo" mal (ou de forma diferente dela), pois associam essa prática como "só quero saber de mim, e desejo mal aos outros" (uma interpretação que depreende que a "felicidade" é um jogo de soma-nula, mas deixo isto para outra altura).

    O que AR disse foi que só há moralidade quando o indivíduo serve os seus próprios princípios.

    Sejam eles absolutamente egoístas ("deixem-me em paz, não quero saber do mundo") - atitude recorrente nas personagens dos seus livros de ficção. Ou sejam esses princíp~ios os de ajudar o outro porque esses são os valores individuais em que se acredita (aqui AR range o dente, tal como os liberais rangem, sempre que alguém voluntariamente e sem prejudicar terceiros, adopta modelos socialistas).

    AR diz que é imoral qualquer filosofia política baseada no altruísmo. Qualquer ideologia que defenda que o indivíduo deve parte do seu trabalho a outrem, pelo simples facto de existir ("contrato social" diriam outros). Que é perverso defender que as pessoas devem viver para os outros, independentemente da sua própria vontade. Que qualquer doutrina baseada em escravidão total ou parcial é uma filosofia de morte.

    Ou seja, um indivíduo para poder realizar-se como Homem tem de poder viver segundo os seus valores. Tem de ser absolutamente livre de escolher ser independente (egoísta) ou comunitário (solidário), sem qualquer coacção directa ou ameaçada contra a sua propriedade ou integridade física.

    Ora, isto é individualismo, uma filosofia liberal, por muito que a base filosófica difira muito de outros ramos liberais.

    ResponderEliminar
  9. Caro António,

    Agradeço-lhe as explicações, mas não me convencem.

    V. diz: AR não diz: "só quero saber de mim, e desejo mal aos outros" (uma interpretação que depreende que a "felicidade" é um jogo de soma-nula)

    Ora egoísmo não tem que ver com o desejo do mal dos outros. O egoísta não deseja o mal dos outros. Para isso existem outros qualificativos. O egoísta simplesmente pensa em função de si próprio.

    Ora, voltando ao filme que motivou esta troca de ideias, o polícia, que protege a vida dos outros com sacrifício da sua própria, é tudo menos egoísta. AR não poderia dizer o contrário, e condená-lo por isso.

    Coisa bem diferente, e nada tem a ver com isto, seria o mandamento que obrigaria a solidariedade à força. Foi este mandamento que esteve subjacente à montagem das sociedades ditas socialistas que degeneraram em sociedades dominadas por uma clique de déspotas.

    Os libertários, contudo, e essa é, quanto a mim, a sua maior vulnerabilidade, pretendem opor à sua doutrina a doutrina da esquina adjacente. Mas o mundo não é a preto e branco. A esmagadora maioria das pessoas que pensam nestes assuntos não é libertária nem socialista.

    Era o caso do polícia de "A vida dos outros"

    ResponderEliminar
  10. Corrija pf.:

    AR não poderia dizer o contrário, e condená-lo-ia por isso.

    ResponderEliminar
  11. Caro Rui,

    A sua afirmação de "AR não poderia dizer o contrário, e condená-lo-ia por isso" não é minimamente fundamentada. Se ela para si é óbvia (e parece ser este o seu argumento), devia então rever a base daquilo que leva-o a pensá-la. Isto é, as definições dos termos usados.

    Egoísmo para Rand é "rational self-interest". Egoísmo irracional não conta. Lá porque eu gostava de ser dono do seu carro, isso não me daria o direito de confiscá-lo. Por quê? Por ser irracional. Obter algo à custa de outrém ilegitimamente não é egoísmo. Rand argumenta, pelo contrário, que é uma forma perversa de viver em função dos outros, na medida em que a felicidade só seria alcançada pela violação dos direitos alheios. Note que esta dependência perversa é o reverso da medalha do altruísmo...

    Em contraposição ao altruísmo, Rand apresenta a benevolência. Sempre voluntária e dentro dos interesses do sujeito. O que é isto? É complicado explicar sem entrar na teoria de valores objectivista. Basicamente a noção de sacrifício é a troca de algo que tem uma valor elevado para o sujeito por algo de menor valor. Se o valor da justiça é superior para o polícia relativamente a um potencial risco da sua própria vida contextualizada num regime colectivista, as suas acções não são um sacrifício na definição randiana. São uma escolha racional. (como não vi o filme em causa, não estou a par de todos os factos para poder elaborar mais)

    ResponderEliminar
  12. Caro Migas,

    Agradeço-lhe os comentários. O meu comentário inicial, como pode ver aqui mesmo ao lado, à recomendação de "altamente recomendado" foi apenas dizer que tinha as maiores dúvidas que Ayn Rand fosse da mesma opinião. E por quê? Porque o polícia arrisca a vida (anonimamente) para salvar a vida dos outros (daí o título do filme).

    É evidente que se esta atitude decorreu de uma maior ponderação de outro valor relativamente à vida do próprio (valor supremo, na concepção de AR) estaremos perante uma decisão de altruísmo máximo e nunca de qualquer espécie de egoísmo, a menos que se faça o contorcionismo total das ideias e se passe a ver o mundo às avessas.

    Uma atitude altruísta decorre sempre de uma decisão racional, de outra forma não teria significado enquanto valor.

    Mesmo o cão que se lança à água para salvar o dono fá-lo por instinto altruista. Na momento em que se lança à água não faz as contas de qual a vida que, para ele, vale mais.Estaremos neste caso perante uma situação de altruísmo instintivo que em menor grau subjaz a todas as decisões altruístas (racionais, portanto) do homem enquanto ser racional.

    Só um indivíduo egoísta sopesou com antecedência bastante o valor da sua vida (que é máximo)relativamente a qualquer outra, e nunca se lançará à água para salvar seja quem for.

    O polícia da secreta é mobilizado para uma atitude altruísta que decorre dum instinto de justiça que ultrapassa o valor que ele atribui a ele próprio. Mas não há outro conceito de altruísmo e o egoísmo é sempre precisamente o contrário.

    A dois conceitos elementares diferentes terão de corresponder duas designações diferentes, referia preliminarmente Wittgenstein. Não há outra forma de nos entendermos nem filosofias
    para além das construções linguísticas.

    O que há são jogos de palavras.

    ResponderEliminar
  13. Caro Rui,

    Não creio que adiante muito continuar a discussão na medida em que é improvável que qualquer um de nós mude de opinião. Apenas posso dizer que a sua caracterização da posição que Rand tomaria perante o exemplo do polícia alemão está errada tendo em conta a teoria ética randiana.

    No entanto sugiro-lhe a leitura do capítulo "The Ethics of Emergencies" no livro que referiu ("The Virtue of Selfishness"). Neste capítulo Rand elabora sobre situações de excepção (onde julgo cair a situação do filme em causa).

    Adicionalmente, sugiro-lhe também a leitura deste post que escrevi sobre o altruísmo, que julgo ser uma razoável caracterização da posição randiana sobre o tema.

    ResponderEliminar