quarta-feira, junho 20, 2007

Vantagens comparativas, janelas quebradas

É exasperante ouvir, vez e vez seguida, que "nenhuma capital europeia tem um aeroporto no seu centro", e Lisboa tem-no, logo é preciso mandar o aeroporto da Portela bem para longe.

A grande proximidade do aeroporto de Lisboa ao seu centro é uma vantagem relativamente a outros destinos. Ao deslocá-lo para longe, a cidade não fica mais igual ao padrão europeu, fica pior — e mais indistinta. Ao fazerem a sua lista de preferências, os viajantes agora darão a Lisboa uma classificação inferior. O mau não pode ser bom. Tal como não pode ser bom todo o progresso que será criado "de raiz" na dita cidade aeroportuária, quando na verdade todo o investimento terá de ser desviado — arrastado — para longe do seu natural enquadramento.

Os europeus não têm, a poucos quilómetros da cidade, praias como as da linha de Cascais e da linha da Caparica. Há que as desactivar, investindo noutros acessos ao mar, mais longe? Com que vantagens? E é verdade que a maior parte das capitais europeias não tem rio e mar. Podia ser boa ideia recuar Lisboa para o interior da Estremadura. Se poucas cidades europeias têm tanta insolação, que confere a Lisboa a sua famosa luminosidade e clima ameno, talvez fosse melhor obrigar as pessoas a trabalhar às escuras, para simular climas menos mediterrâneos. E, se por inspiração divina fossemos o povo mais esforçado do mundo, bem podíamos trabalhar com uma só mão.

19 comentários:

  1. Muito bem visto. Brilhante!

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  2. Acho q é o 1º post q escreves com o qual concordoj. Bjs

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  3. Não entro na discussão se o aeroporto deve ser na Ota, em Alcochete ou ficar na Portela.

    Mas fico perplexo com os argumentos que são avançados por vezes para defender esta ou aquela dama. E fico perplexo, como muita gente, aliás,porque são bizarros: o deserto, o terrorismo,o terem sido já gastos não sei quantos milhões para estudar a Ota, etc.

    Tão bizarros que têm o condão de chamar a atenção dos contribuintes para a forma aérea como a questão do aeroporto tem sido tratada ao longo de décadas.

    Tão aérea, que só agora descobriram que Alcochete, afinal, existe, ainda que fique para a as bandas do deserto.

    Quanto aos defensores da Portela+1, os argumentos que utilizam esbarram com as restrições avançadas pelos técnicos, geralmente por razões de conflitualidade de utilização do espaço aéreo comum. Se os engenheiros que assim argumentam têm ou não razão, compete a quem tenha capacidade suficiente rebatê-los. Eu não tenho. Mas acredito que em Portugal essa competência exista. Se não existir, encomende-se fora.

    Aliás, já em Novembro de 2005, escrevi nas minhas palavras cruzadas a forma simples de descalçar esta BOTA.(http://aliastu.blogspot.com/2005_11_01_archive.html)

    Leio agora este seu "post", que já lhe mereceu dois óscares, e parece-me que os seus argumentos enfileiram bem na galeria dos argumentos bizarros que atrás referi.

    Porque, caro António Amaral, acredito que a sua propensão radical de vez em quando cede à sua fulgurante inteligência e saem-lhe os tiros pela culatra.

    Que é que tem a ver um aeroporto com uma praia? Para os efeitos que estamos a falar, nada. V. pode argumentar (tal como o faz o João Soares) que ter um aeroporto ao pé da porta dá muito jeito e que os turistas adoram os voos rasantes sobre Lisboa. É um must e um frisson. Tudo bem. A cada qual a sua opinião, a liberdade de pensar é uma coisa preciosa.

    Daí a colocar no mesmo plano anedótico a deslocação de um aeroporto e a deslocação de uma praia, só por non sense. Que só debilita outros argumentos válidos, se eles existirem.

    Tal como a teoria do deserto, aliás.

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  4. Os critérios ambientais e de segurança não são relevantes para um aeroporto? Então a Portela está dentro da cidade e a aproximação e descolagem é sempre feita sobre pessoas e habitações. Mesmo que todos os aeroportos do mundo fossem dentro das cidades, ao ter de se construir um novo devemos fazê-lo suficientemente longe de cidades por questões ambientais e de segurança, em defesa da qualidade de vida.
    2- A proibição ou resistência à entrada de demasiados veículos nas cidades é ou não correcta? Os carros provocam poluição sonora e química por isso se defende a utilização de transportes públicos nas cidades. Então os aviões não fazem poluição sonora (que ideia estúpida) nem poluição química? O que é bmau para os carros é bom para os aviões?

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  5. ao ter de se construir um novo devemos fazê-lo suficientemente longe de cidades por questões ambientais e de segurança, em defesa da qualidade de vida.

    Critérios importantes a ter em consideração. Não implicam que assim tenha de ser necessariamente.

    Mas repare que não estou a defender a construção de um novo aeroporto dentro de Lisboa, pelo que a sua argumentação não se aplica.

    A proibição ou resistência à entrada de demasiados veículos nas cidades é ou não correcta?

    Tem custos gravíssimos. Entre eles, o de desertificar as cidades.

    Afastar os carros das cidades está ao nível (não à escala, concordo) de afastar os aviões da cidade.

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  6. zirpelino,

    se fosse assim tão mau viver ao pé de um aeroporto, não se teria feito mais construção na zona dos corredores aéreos nem nas imediações do aeroporto. Quem lá comprou casa já sabia da passagem dos aviões e pesou isso na decisão de compra. E concerteza que muitas até terão visto grandes vantagens em comprar a sua casa ou escritório perto do aeroporto.

    Proibir as pessoas de viver ao pé do aeroporto (seja por que "boas" razões sejam) parece-me tão mau como obrigá-las a viver perto (seja porque razões).

    Porque não podem ser os cidadãos a decidir que nível de ruído ou poluição estão dispostos a suportar?

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  7. Cada um terá a sua opinião! Eu tenho que por questões ambientais, de segurança e capacidade o aeroporto deve sair da cidade! Embora aceite como válidos os argumentos que são defendidos no 2º parágrafo!
    Do 3ª parágrafo para a frente só me apetece dizer, como o outro, um bocadinho mais de seriedade por favor! Na mesma lógica que utilizou tb posso argumentar que se é assim tão bom façamos outros aeroporto dentro da cidade, o que não é sério!
    Cpmts, Nuno

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  8. Caro Nuno,

    O argumento não se aplica a fazer-se aeroportos dentro ou fora da cidade; aplica-se a destruir um, seja lá onde ele estiver, e a construir outro - ainda por cima notoriamente onde não é tão benéfico como o anterior.

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  9. Até subscrevo o post (pelo menos em parte, não evidentemente o subtexto contra todo o tipo de intervenção estatal).
    Mas o que me intrigou foi ver no título do post a expressão "janelas quebradas". Por um mommento, fiquei com a impressão de que se tratava de uma aproximação ideológica ao republicano socialista e autocrata Rudy Giuliani (ou tão-só o elogio da sua Nova Iorque).

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  10. Caro Luís,

    A "janela quebrada" é uma parábola de Bastiat. Resumidamente, conta-se a história de uma vidraça partida, que dá emprego ao vidraceiro, e ao carpinteiro, e ao padeiro, e ao alfaiate, e ao tecelão, e ao agricultor, etc, e fica toda a gente contente porque se "criou emprego". É o que é visto.

    O que não é visto é que todo esse investimento foi desviado de outro lado. E que a sociedade como um todo ficou mais pobre na quantidade de uma vidraça.

    A mesma lógica aplica-se ao querer "partir-se" o aeroporto da Portela para criar prosperidade a construir o aeroporto algures, onde por necessidade terão de ser criados, de raiz, todos os meios necessários.

    Haverá uma perda clara, e grandes redistribuições de riqueza.

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  11. A Portela é o aeroporto que temos. É bom, é mau? É irrelevante. Não chega? Temos mais três em território continental e mais uns que podem passar a ser.
    O que ainda não percebi é porque é que os mil turistas que vão ter que descer no Porto ou em Faro são mais importantes que os milhões que não têm saúde e educação e segurança. Expliquem-me que não entendo.

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  12. Caro AA
    Não é tão benéfico na sua opinião!
    É mais benéfico nas opiniões de outros, na minha por exemplo!
    Como nenhum de nós é especialista em aeroportos deixemos os estudos decidirem!
    Cpmts

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  13. De novo: nenhum investimento é absolutamente benéfico, e nenhum especialista ou corpo de especialistas tem competência, capacidade ou informação para encontrar uma solução "benéfica", majorando benefícios e minorando prejuízos de forma "óptima". Isso não é possível. O planeamento central não funciona para criar riqueza.

    Dito isto, alguns verão as suas janelas (carteiras) partidas, e outros receberão muito trabalho aparentemente vindo do nada. Isso não legitima partir janelas ou como são partidas.

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  14. Caro António Amaral,

    A sua intenção de parafrasear Bastiat, desculpe que lhe diga, ficou a meio do caminho. Porque a intenção de Bastiat tinha, apesar do non sense, uma analogia possível: o sol como concorrente dos fabricantes de velas.

    No caso do aeroporto, a praia não tem nada a ver com o assunto. Onde está praia V. poderia recorrer a outra coisa qualquer. O Bairro de Alfama, ou a Mouraria, por exemplo.

    E V. concordará que os exemplos que dei, ad absurdum, sendo mais absurdos que os seus, servem perfeitamente.

    O que eu lhe quis dizer, mas pelos vistos expliquei-me mal, foi que a solução Portela+1 ou tem justificação plausível (tecnica e politicamente)ou não se justifica com hipérboles destas.

    Porque, no fim de contas, o Mário Lino e o Almeida Santos, entre outros, poderiam dizer exactamente o mesmo que V.: quiseram apenas reduzir a questão ao absurdo.

    E aí as pessoas pensam que só assim procede quem tem falta de argumentos consistentes.

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  15. O que eu lhe quis dizer, mas pelos vistos expliquei-me mal, foi que a solução Portela+1 ou tem justificação plausível (tecnica e politicamente)ou não se justifica com hipérboles destas.

    O que fiz foi desmontar um pensamento falacioso em defesa de uma causa. Pelo facto de o ter feito, não refutei a causa, nem foi essa a minha intenção.

    O caro Rui está a atribuir-me uma intenção que não é minha. Mas pelo facto de o fazer, não deixa de ter razão.

    De resto, recomendo a leitura dos essays, onde este tipo de pensamento lógico é bastante bem explicado.

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. A "janela quebrada" é uma parábola de Bastiat.

    Obrigado pela elucidação, António ;)
    Mas eu estava-me a referir a outra coisa:
    http://www.taniamenai.com/folio2/2003/05/rudolph_giulian.html

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  18. Luís,

    Eu não queria ensinar a missa ao padre - quer dizer, quem partilha um blogue com o fásssista do Luís Silva deve deitar Bastiat pelas orelhas :)

    Mas é menos sensível dizer o óbvio a quem sabe, do que fazer o mesmo a quem não...

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