
Durante anos angustiei-me com a capacidade de me movimentar entre pólos opostos, embora não tão opostos que se atraíssem irremediavelmente. Não que essa capacidade não oferecesse, afinal de contas, uma latitude que se agradece, mas simplesmente porque me impediu – e tem impedido - de sentir pertença a um grupo, a uma geração ou sequer a um movimento.
Foi tudo sempre tão antagónico nos meus gostos e nos meus humores que, não só por mim, mas pelos outros, me afastei de rótulos e catálogos, mesmo quando a adolescência deles precisa com desespero. Situação que dura até hoje e que se espalha até, como alguns perceberão, às minhas convicções e posições políticas.
Era demasiado menino para os amigos com quem partilhava gostos literários ou cinéfilos, uma espécie de queque afectado, tolerado com a complacência de quem se sente iluminado e superior. Com eles não conseguia uma qualquer identificação política, que tinha de procurar noutros lugares, onde se devoravam os livros de Ciência Política de Freitas do Amaral e se olhava com desconfiança para a especial relação com o catolicismo do Graham Greene, que eu trazia debaixo do braço e que não me custava a entender ou a aceitar.
Politicamente, nos meus primeiros tempos de Juventude Centrista, era o comunista de serviço (vá lá, que liberalismo entrou já no léxico), que não alinhava no conservadorismo beato que então ali dominava, sem que pudesse alguma vez encontrar conforto num socialismo, mesmo que católico, demasiado colectivista para tanto individualismo guardado em mim.
A minha relação com a literatura, e também com o cinema, encontra alguma explicação nesta minha eterna peregrinação. Cedo compreendi, ou pelo menos criei essa convicção, de que a minha identificação com alguém, a minha colagem a um outro, só poderia ser encontrada fora da realidade, em personagens ou situações localizadas num outro plano. Talvez por isso, por exemplo, goste tanto de Agustina, daquelas pessoas que ela inventa e que manifestamente não existem nem podem existir. Alguma delas, alguma vez, serei eu. E nesse dia terminará a solidão.
Tudo isto para responder à pergunta do
Pedro Correia, do
Corta-Fitas, que me pede
dez obras literárias que não mudaram a minha vida: nenhum dos livros que li me mudou a vida. Nunca neles encontrei um sentimento de pertença, que não desisti de encontrar. Fui marcado por muitos, alguns deles apenas entenderei mais tarde, mas mudar mudar, daquela mudança que teimo em encontrar, nenhum. Não me entendam mal, que os livros fazem de mim uma pessoa diferente, tantas vezes apontando um caminho ou uma ironia. Mas isso não passa de evolução. Se evoluí com os livros? Muito. Demais até. Mas mudar? Isso nunca.
Bem sei que tenho de passar isto a mais gente, mas a corrente vai longa e perdi a conta a quem já respondeu. Desafio, portanto, a quem nos lê, que nos deixe nos comentários, o que lhe aprouver escrever sobre este assunto. Sobretudo os sortudos que podem hoje dizer que a sua vida, pelo menos por uma vez, mudou.