Terça-feira, Setembro 04, 2007

Momento Intimista do Dia

Até onde vamos, sem saber, para nos esconder das falhas ou dos pesadelos, para nos afastar do que não queremos saber ou ser, para nos apagar da nossa marca ou história?

Assusta-me pensar que o meu corpo ou a minha alma (seja lá o que isso for) estejam dotados de uma qualquer autonomia que lhes permita fazer escolhas sem a minha autorização. Ou melhor, sem o meu conhecimento. Se apago algo de mim, se quero esquecer o que fiz, se quero esconder os meus actos, gosto de saber que tais atitudes são produto da minha vontade e não de uma qualquer programação mental que, sem avisar, trata do assunto.

Vem isto a propósito do Mysterious Skin, de Greg Araki, que vi recentemente. A pretexto de uma notável composição da pedofilia (uma abordagem seca, rigorosa, sem juízos morais, capaz de oferecer a cada um a sua própria visão), o filme ofereceu-me uma história que, impressivamente, serve de suporte ou ilustração a estes receios que há muito me acompanham. Acho que nunca consegui verbalizá-los muito bem e, de certa forma, na minha tortuosa mente, acabavam sempre por ficar associados à velhice (e ao meu temor da dita) como já aqui tinha tentado fazer:
Um dia, num meio dia qualquer, vou saber que me esqueci de algo. Primeiro, de um lugar sem importância. Depois, de uma hora, de uma vontade e até de uma fotografia, que fica para sempre num bolso sem valor. Até chegar aos nomes e às palavras que escolhi para me lembrar de quem gosto. Sei que não vou somar tantas falhas, esquecendo-me eventualmente de todas elas, uma e outra vez. Porque sim, que ainda há coisas que escondemos de nós próprios. Para me descansar, passarei em revista os rios e os reis de Portugal, sem esquecer regentes e afluentes. Mas até esses falharão, sempre com razão. O calor, a indisposição, o cansaço, o tempo, os nervos. Escondo de mim próprio e sei que outros farão o mesmo, para que eu não saiba não saber. Quando forem falhas demais, quando as palavras forem demais, já não sei nem estou. Já trocarei o tempo e o lugar, suspenso numa teia com outras presas surpresas que só temem o novelo que lhes enrola o corpo e desconhecem a ameaça da aranha.

2 comentários:

  1. Na verdade não é a morte que mata mais, é o medo da morte - e convém dizer que não fazemos a mínima ideia do que é realmente a morte. O que apenas sabemos é a maneira como se tratam e, enfim, como tratamos nos tempos que correm os mais velhos. De acordo com preceitos capitalistas, se não dão rendimento então não prestam. E talvez seja mais por isso que por outra coisa que há tanto medo - da velhice, da morte, de deixar de ter consciência no que quer que seja. Mas é claro que isso não é nada assim. A morte só nos vence se nós deixarmos que ela nos vença. Ou, melhor dizendo, o medo. Se o nosso espírito (seja lá o que isso for) for sempre jovem, não há medo ou morte que resistam. Agostinho da Silva não morreu gagá. Nem Mário Cesariny. E nem Baptista Bastos se mostra assim, nem sequer o Luiz Pacheco, mesmo estando internado numa horrível casa de velhos. A velhice, a juventude, são tudo coisas inventadas pela cabeça que pensa. A verdade, essa, é sempre outra.

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  2. "Assusta-me pensar que o meu corpo ou a minha alma (seja lá o que isso for) estejam dotados de uma qualquer autonomia que lhes permita fazer escolhas sem a minha autorização. Ou melhor, sem o meu conhecimento."

    De facto a maior parte do que se passa na mente é desconhecido do próprio. António Damásio prova-o de forma inequívoca. O simples estado do humor altera o que somo "autorizados" a pensar...

    Nesse aspecto, Freud foi um visionário e nós temos que sair do nosso pedestal, tal como fizemos com Copérnico e Darwin.

    O nosso almoço?

    João Leitão

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