Simcity Baixa Chiado

O Plano Baixa-Chiado não passa, afinal, como aqui no A Arte da Fuga já vinhamos dizendo (1, 2 e 3), de uma espécie de Simcity privativo da Câmara que estiver em funções. Passa-se com este plano e com esta vereação, como se poderia passar com qualquer outro plano e qualquer outra vereação deste nosso Portugal Social: a tentação de olhar para as cidades como um jogo em que a vontade soberana da autarquia vale tudo.
E o tudo inclui, por exemplo e neste caso, travar a proliferação das lojas chinesas, porque se continuam naquele território, nunca mais vai ser possível deitar mão ao pequeno comércio (Maria José Nogueira Pinto ao Expresso). E porquê? Porque a vontade soberana da autarquia parece entender, com base em nada, que as lojas chinesas estão a dar cabo do comércio da cidade (Maria José Nogueira Pinto ao Expresso).
O ideal seria mesmo, continuando esta senda de Simcity, encafuar as lojas chinesas numa «Chinatown» que, claro, a vontade soberana da autarquia até já sabe onde pode ser: ali na selecta zona entre o Martim Moniz e os Anjos. Não sendo assim, a autarquia pode decidir mas é proibir a abertura de novos estabelecimentos chineses na Baixa-Chiado. Pois que a Câmara é que dá a licença, pode dizer que a quota de lojas chinesas neste espaço está esgotada (Maria José Nogueira Pinto ao Expresso). E assim, num assomo de estatismo intolerável, temos quotas de nacionalidades na atribuição de licenças. Para quando, agora já, uma quota para ucranianos ou moldavos, mulheres e homens, jovens e menos novos, tudo em nome da higiénica diversidade equilibrada?
Não se sabe de que é que estão a dar cabo as lojas chinesas. E não se percebe o porquê de estar apenas a dar cabo da Baixa Chiado. Talvez, penso eu de que, o que as lojas chinesas estão a fazer é, precisamente o oposto: despertar os comerciantes locais para a necessidade de adaptarem os seus horários aos da população, em vez de se fazerem valer de regulamentos e leis para manter fechados todos os estabelecimentos com eles concorrentes.
Por isso, o pior que poderia fazer-se era, precisamente, fechar as únicas lojas que actualmente conseguem servir o seu cliente a qualquer hora de qualquer dia para proteger aquelas que verdadeiramente nas tintas se estão para os clientes.
tema por AMN em 10:31











5 Comentários:
Boa análise
Também sou, acima de tudo, um adepto sem restrições da concorrência. Mas no caso das lojas chinesas, que até nem me incomodam (ignoramo-nos mutuamente), dá-se o facto de serem suportadas pelo estado chinês, e não pelo mercado, o que desvirtua a sua suposta boa contribuição para o mercado. Enfim, não acho que a questão seja assim tão simples.
Mas Lourenço, se vamos por aí, tudo fecha.
Porque os Estados, todos eles, Ou a UE, praticam políticas proteccionistas dos seus produtos. Veja-se a PAC, por exemplo. Porque não proibir fruta espanhola, porque a sua agricultura é subsidiada mais do que a nossa, por exemplo?
E já agora, que rendas pagam os comerciantes da Baixa? Com a bela lei de arrendamento que temos, gostava de saber se não é, afinal de contas, o Estado português a suportá-las...
muito bem Adolfo.
Entretanto, o outro já veio queixar-se que lhe roubaram as ideias?
O meu contraponto é verdadeiramente idêntico.
Sinceramente não vou à baixa. Adorava, mas não vou. É um pouco como África: tenho medo e calor.
A Baixa -- não confundir com o Chiado, bem mais elegante, embora ainda pouco sofisticado [e foi daí que veio a foto] -- resume-se a lojas decadentes, ruas estreitas e sujas, com carros e sem espaço para pessoas -- e também sem espaço para parar os carros.
Estou-me nas tintas para a ideia de tirar as lojas chinesas da Baixa. Se não fosse pelos acordos da OMC e a Constituição Portuguesa, bem como as boas relações diplomáticas com a China, era e é, sobretudo, porque as restantes não são muito piores.
Tem de agir-se na Baixa.
Mas essa acção não se resume -- nem pode incluir -- a retirada de lojas chinesas da Baixa. Sobretudo para as colocar numa duvidosa 'Chinatown', que seria ainda pior, arriscando-nos a ter um ghetto povoado ou pelo menos dominado por máfias asiáticas sinistras e perigosas, se não para quem lá fosse, para quem lá vivesse ou trabalhasse.
O que é preciso na Baixa -- como de resto no resto de Lisboa e no resto do país -- é limpeza e qualidade.
Limpar ruas e paredes, pintá-las, ter espaço para carros e pessoas, ter transportes públicos decentes, ter segurança nas ruas, e ter lojas limpas, com boa apresentação, produtos de qualidade, atendimento profissional.
Fim às lojas sujas, mal-cheirosas, mal amanhadas, com tudo amontoado, empregados antipáticos e ignorantes e que muitas vezes nem falam português e muito raramente inglês, fim aos preçários feitos à mão em papel de rascunho com canetas de feltro, colocados na rua mesmo para se tropeçar ou ser atropelado ao usar a estrada, fim às montras de mau gosto, à falta de ar condicionado, aos produtos de plástico ranhoso ou que não interessam para nada, às lojas sem multibanco ou que não aceitam cheques, ou que têm sempre tudo esgotado, ou que fecham aos fins de semana ou nas férias, ou à tarde, ou ao almoço, fim às lojas que não fazem embrulhos de presente ou os fazem mal, e aos empregados que nos atendem como se fosse uma deferência ou favor da parte deles...
Parece que só se consegue algo de jeito indo à Carolina Herrera, à Zegna ou à Vuitton na Avenida da Liberdade [e mesmo assim...].
É isto que é preciso mudar, e isto abrange tanto lojas chinesas, como portuguesas, como indianas. Todas. Em Lisboa e fora dela. E nem vamos falar de cafés, bares ou restaurantes... para não perder a sede ou o apetite.
Não pode ser.
Se conseguirmos isto, podemos considerar-nos civilizados. Para já, vou aos saldos de Londres. É que nem sai mais caro...
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