Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Atlântico

Estalou crise no blogue da revista Atlântico, revista que muito estimo e com a qual colaboro sempre que posso. Tudo a propósito de um post do Tiago Mendes que, entre outras coisas, elenca um conjunto de adjectivos tendentes a caracterizar o André Azevedo Alves, igual autor do blogue, igual colaborador da revista e ainda membro do conselho editorial da mesma.

São muitos os adjectivos, que qualificam não as ideias do André, mas o próprio André: ultra-conservador, neo-liberal de extrema-direita, obcecado com o patrulhamento da extrema-esquerda, apostado em acções “valorosas” ao serviço da causa de Escriba, intolerante, constante elogiador de apologias de racistas e fascistas, homofóbico, reaccionário, dono de um furor patrulhador contra tudo o que possa pôr em causa a tradição milenar da santa madre igreja e contra quem defende tolerância para com a diferença, autor de atitudes simplesmemente asquerosas, nojentas, execráveis, mesmo de puxar o vómito.

São tantos os adjectivos que uma pessoa até se esquece, ao certo, de quais poderiam ser os argumentos do Tiago. E, pior do que isso, são tantos e tão despropositados que uma pessoa até se esquece de poder concordar com o Tiago na crítica ao texto, citado pelo André, do Francisco José Viegas.

Num país habituado a meias tintas, a atitude do Tiago teria o mérito da frontalidade e da bravura de dizer basta a alguém que manifestamente o repugna. Mas não é disso que se trata porque, tanto quanto se sabe, o Tiago disse que a convivência estava comprometida, no que claramente se acredita, mas mantém-se no blogue, como se nada fosse, partilhando espaço com um membro do conselho editorial da revista que, pelo que se lê nas suas palavras, não se recomenda nem para verme. Nada que surpreenda, já que o Tiago colabora no blogue e na revista, como se nada fosse, mesmo depois de ter acusado o seu Director de ter uma carreira política, o que fica sempre bem para uma revista que se pretende independente.

Estamos por isso longe, muito longe, de uma atitude de dizer basta a algo que, bem ou mal, nos repugna e com quem partilhamos espaço. Pelo menos para mim. Se eu sentisse, face ao André ou face a qualquer outro membro do conselho editorial da revista onde colaboro aquilo que veio descrito no post do Tiago, podem bem ter a certeza que não tardava um segundo até abandonar a revista. E dizia o que tinha a dizer. Dizia e fazia. Não me limitava a dizer.

Mas vamos ao que mais impressiona em toda esta história. E que são os adjectivos utilizados para descrever o André. E vou ser muito claro e directo nesta questão. Eu discordo muito, muitas vezes, de forma vigorosa até, daquilo que, relativamente a certas questões, o André escreve. Na maioria das vezes, inclusivamente, essas questões são aquelas que têm provocado reacções do Tiago. Estou, por isso, particularmente à vontade para escrever o que vou escrever.

O André Azevedo Alves é das pessoas de escrita mais determinada que conheço. E tem uma linha firme, perceptível, que lhe orienta o pensamento e que lhe confere uma coerência inegável. Muitas vezes discordo da coerência por ele apresentada e considero que, perante uma ideia ele deveria continuar com outra em vez de chegar à conclusão a que chega. Mas isso não significa que não seja coerente, caso em que a coerência seria qualquer coisa como o pensamento único.

Mas essa firmeza e determinação não o transformam naquele ser abjecto e intolerante que o Tiago descreveu. E sei isso por experiência própria. Tive, como muitos se recordarão, a oportunidade de dar a cara pelo “sim” no referendo sobre a IVG. Penso que poucos assuntos tocam tão fundo no André como o “não” à despenalização da IVG nos termos que foram referendados. E penso mesmo nenhum assunto lhe terá provocado maior determinação na escrita, vigor na argumentação e, em determinados casos, intransigência na discussão. E quem disto fala, fala também, por exemplo, dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, assunto relativamente ao qual eu o André não concordamos. Mas a verdade é que partilhamos um blogue e, como poderá ver-se, nunca nenhum de nós deixou de escrever o que quer que fosse sobre as ideias do outro.

Partilhando eu o espaço d’O Insurgente com o André, nem por um segundo, um sequer, fui condicionado ou patrulhado nas minhas opiniões. Antes pelo contrário, tive oportunidade de escrever vários posts sobre tais assuntos, com inteira liberdade, todos eles merecendo resposta ou contra-argumentação do André. Resposta forte e vigorosa, como se espera. Mas nunca em termos que permitam justificar os adjectivos escritos pelo Tiago. Mais que não fosse, e esse não foi o motivo determinante seguramente, porque partilhávamos um mesmo espaço, assente no pluralismo e não na controleira unanimidade. Espaço esse que só é possível quando, com regras simples e de bom senso que não precisam de estar escritas, são as ideias, mesmo que idiotas, que merecem a nossa reacção, e não as pessoas.

Cada um sabe de si. O André sabe dele. O Tiago sabe dele. Mas da revista, desculpem lá, sabemos um bocadinho todos aqueles que nela colaboram e por ela se esforçam. Aqueles que dão o litro por aquilo, sem receber um tostão. Aqueles que gastam o fim-de-semana a projectar e criar. Aqueles que saem do trabalho e vão para casa escrever algo que possa interessar às pessoas e que possa ser diferente daquilo que elas encontram na direita do costume. E a revista não merece que aqueles que a ela se dedicam sejam enxovalhados nos termos em que o foram sem qualquer consequência. A revista não merece ver o seu pluralismo posto em causa precisamente em nome do pluralismo. A isso chama-se, vamos lá ver, patrulhamento.

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