quarta-feira, Outubro 31, 2007

15.000 empregos

José Sócrates deixou Luís Amado pendurado. Mais um, para juntar aos 15.000 que Sócrates já deixou pendurados.

Momento Intimista do Dia

Depois de ter saído do clube*, encostei-me a uma corrente de ar com vontade de regressar mais depressa. Deixei-me conduzir até que uma inoportuna esquina desviou o trajecto sem que a minha precaução desse de si. Acabei em queda, mãos no ar, joelhos em sentido, como se soubesse ballet. Uma queda pouco aparatosa que nem um olhar pediu de empréstimo. Não foi como nos filmes, onde uma queda pode despertar a bíblica caridade de alguém. Se alguém olhou, nem sorriu. Não foi aí que o acaso ditou o começo de uma história de amor.
*A foto que enfeita o post foi uma das fotos que o D. tirou naquele fim de tarde.

terça-feira, Outubro 30, 2007

Esquizofrenia bloguística

Tão independente que sou, que não gosto de dar satisfações. Mas qualquer coisa muda quando, às 8 da manhã, aqui deixo escrito que hoje, por andar de um lado para o outro em trabalho, não há post que por aqui apareça que não ao fim da tarde. Bom dia (e para os menos afortunados, bom trabalho).

segunda-feira, Outubro 29, 2007

A ler

Na sequência de um artigo meu publicado na Atlântico, no qual demonstrei o meu total assentimento ao levantamento das barreiras estaduais à celebração de casamentos entre pessoas do mesmo sexo (a discussão seguiu depois, por exemplo aqui, aqui e aqui), não posso senão recomendar aleitura deste post do Vasco M. Barreto sobre os maus argumentos utilizados por quem tradicionalmente se opõe a tal possibilidade.

Perguntas do Dia

A memória, mesmo aquela que tentam chamar de colectiva, é algo de muito individual. Pode ser partilhada, vivida em conjunto e, como tudo o mais em nós, profundamente influenciada pelo que nos rodeia. Mas no radical da experiência, a memória é um segredo individual. São, por isso, de pasmar iniciativas como esta lei da memória histórica de Zapatero (sempre ele). Como se a memória pudesse ser comandada por lei. O que, pensando bem, é o sonho de qualquer ditador. É aqui, mais do que no facto de Espanha ter conseguido a proeza de realizar uma transição notável, que reside a maior preocupação.

Como pode um primeiro-ministro considerar que os parágrafos de uma lei recompõem a memória de milhões de pessoas? E como pode um primeiro-ministro considerar-se no direito de escolher o conteúdo dessa memória?

Momento Intimista do Dia

foto retirada daqui

A ideia de esquecer a tarde num velho clube do Chiado que merecia ser fotografado chegou tarde demais, quando já lá estávamos. A A. queria que o D. imobilizasse divisões e cantos esquecidos para mais tarde recordar, como no anúncio. Eu e o Z. fomos quase por acaso, porque se acabava o sumo e o yogurte e era só subir as escadas. Como um sótão, tingido de madeira e de pó, o clube nem sequer escondia os novelos de histórias a atrasar os passos.

De um lado para o outro, com paragens pelas bermas de um livro antigo ou de um azulejo desalinhado, perdi as horas e quase me perdi deles. O Z. nem permitia que os óculos lhe escondessem a certeza. Queria trabalhar ali. A A. nem deu pela nossa falta, que o D. precisava de indicações e, em bom rigor, só ela as tinha para oferecer.

Regressei à enorme sala para me encontrar com eles, antes de sair. Quase vazia, apenas uma mesa no centro a disfarçar o espaço e um sofá que dominei naquele momento, a sala respirava sem qualquer luz que não fosse a da rua e a do trânsito e a da voz das pessoas que passavam. Um Chiado imenso espreitava pela janela que entretanto entreabrimos, para resgatar um pouco da última luz. Luz que, em segundos, se fez em fio que desapareceu pelo corredor, como um fantasma que se assusta com a carne viva.

De repente, ficámos na penumbra, aproveitando os cambiantes que um enorme espaço esconde. O Z. à janela, de cigarro na mão, aproveitava as lentes para reflectir o amarelo do candeeiro colado ao clube. Era o único, talvez, que podia dizer-se iluminado. A A. dispensou tudo o mais, deixando-se ficar silhueta. Uma sombra agitada, que não desistira das fotografias e que, talvez por isso, se apagara para não perturbar o trabalho do D., que não desistia não, antes aproveitava a ausência de luz. Ninguém falava, talvez a máquina, através de um flash, talvez a A. de quando em vez. Talvez todos nós, cada um para si, como nas epifanias.

Quando a luz se acendeu, apenas para experimentar, já nada havia para ver. Comentei com o Z. que era bom saber que a luz não interferia com a visão, antes a prejudicava porque não permitia a busca e a selecção. Ele concordou, mais por pressa de ir à sua vida. E eu anotei a ideia. Quando for grande, escrevo um livro sobre isso.

Trabalha a escola, não o ranking (4)

Francisco Louça bem gostaria que não houvesse rankings nestas coisas em que o Estado se mete. Ele lá acha que as escolas privadas, sobretudo as que ostentam crucifixos, têm de ser avaliadas e fiscalizadas e sancionadas e, vai ver-se, proibidas. Mas as públicas é que não, onde é que isso já se viu. Disto se fez, e se faz, a muito lusa forma de encarar a Administração Pública. Por isso é que ela chegou onde chegou.

domingo, Outubro 28, 2007

Mickey Che

"Che Guevara. 'Marketing' revolucionario" no ElPaís:
Nada me gustaría más que los críticos llevaran razón y que el arte tuviera, tan sólo, unas mínimas propiedades subversivas. Y nada me gustaría más que los cubanos pudieran ver, tal cual, la exposición completa. Desde luego, éste es el tipo de proyecto con el que uno no hace muchos amigos. No está pensado para quedar bien con todos, sino exactamente para lo contrario. A los guevaristas ortodoxos seguramente no les gustará un Che Charles Manson, o gay, o fumado, o Homer Simpson. A los antiguevaristas les dará urticaria la parte dedicada al cartel revolucionario de los sesenta. Es lo que tiene acoger al icono, pero también a los iconoclastas.

'CHE! Revolución y mercado' se expone en el Palau de la Virreina de Barcelona .... desde el 25 de octubre hasta el 20 de enero.

sexta-feira, Outubro 26, 2007

Trabalha a escola, não o ranking (3)

Seguindo a proposta do Vasco no seu excelente Memória Inventada, e a convite do Tarzan do não menos excelente Caldeirada de Neutrões (dois blogues do Quadro de Honra aqui da casa, portanto), informo que o meu liceu (Escola Secundária Frei Heitor Pinto, na Covilhã cidade neve) está no posto 117 da classificação do DN.

Momento Intimista do Dia

Não sei como deixei escapar a notícia da morte de Deborah Kerr. Cada um lá terá a sua galeria de estrelas, e Deborah Kerr figurava num dos cinco degraus da minha. Tudo começou com aquele beijo enrolado a Lancaster, quando ainda nem sequer conseguia pronunciar o nome (comecei por “quer” e evoluí para “car”) e foi seguindo ao ritmo dos filmes antigos que ia descobrindo nos clubes de vídeo de bairro, até à confirmação final em The End of the Affair, passagem ao cinema de um dos meus livros favoritos.

Tantas vezes preterida em favor de actrizes com um estilo mais expansivo de representação, foi uma das mais injustiçadas actrizes do seu tempo, sem um único Óscar que não o de carreira - ela que foi nomeada tantas e tantas vezes. Só eu, pelas minhas contas, dei-lhe 3 Óscares.

RE: Diferenças de projecto ambiental à direita

Carlos,

Assim de repente:

São precipitadas, para dizer o mínimo. Tratando-se de dinheiro dos contribuintes, esperava-se algum maior cuidado na execução de investimentos ou na imposição de impostos ou benefícios assentes em teorias ainda em demonstração. Imaginar, por exemplo, que daqui a 10 anos se demonstra que o alegado aquecimento global, a existir, deveria ser combatido de uma forma cientificamente diversa é algo que deveria perturbar quem toma decisões com poucas certezas.

Gostava, por exemplo, de saber (e isto nem sequer é critério dominante, é apenas curiosidade) qual o número de cientistas que validam a visão do IPCC e qual o número dos que consideram como mais influentes as causas naturais do aquecimento.

São descuidadas, para dizer o mínimo. Tratando-se de uma absoluta cedência a uma corrente científica, promove todo um mercado climático. Repara que até o dióxido de carbono já se comercializa, tudo em nome de algo que ainda não é dado como seguro e que o Estado claramente potencia.

São injustas, para dizer o mínimo. Porque são de um proteccionismo encapotado. Taxar mais o que não vem de países do Protocolo é agravar a sua situação, tentando impor-lhes um Protocolo dispendioso e que muitos países poderão não conseguir comportar. Num estudo de William Nordhaus (Requiem for Kyoto: An Economic Analysis of the Kyoto Protocol), ele chegou ao valor de 7/1 para o rácio custo-benefício da aplicação do Protocolo…

Trabalha a escola, não o ranking

Tanto sururu por causa de um ranking de escolas não augura nada de bom. Sobretudo porque grande parte do sururu parte manifestamente de um erro de leitura do ranking e, pior do que isso, tem demonstrado uma incapacidade de agir em consequência com os resultados.

Tão preocupados que estão com os mirarios desta vida a ocupar os primeiros ligares, esquecem-se do que verdadeiramente interessa para os pais de um criança que viva, por exemplo, em Silvares, concelho do Fundão e de quais as potencialidades que este ranking lhes oferece.

O que esses pais poderão eventualmente querer saber é qual das escolas, na sua zona, na sua área de influência, pode desempenhar um melhor serviço educativo. E se existir uma escolha melhor, transferir o seu filho para tal escola. Podem fazê-lo? Claro que não. Que o Estado não deixa.

Não podendo transferir, os pais poderão querer intervir, melhorar, contribuir, intervir nos programas, propor métodos alternativos de ensino. Podem fazê-lo? Claro que não. Que o Estado não deixa.

O que resta aos pais? Mudar de localidade. É a isto que o Estado os obriga. E em vez de com isto se preocuparem os detractores do ranking, parecem mais interessados em discutir as tendências homoeróticas de escolas unisexo ou as virtualidades da mistura de géneros no espaço escolar.

quinta-feira, Outubro 25, 2007

Não faças aos outros...

Engraçada esta complacência para com Luisa Mesquita, agora que se adivinham sanções disciplinares pelo PCP. Nas entrevistas, nas reportagens, nos comentários, tudo muito solidário, tudo muito combalido, tudo muito compungido. Tudo, aliás, o que Luisa Mesquita não demonstrou aquando das purgas que a antecederam. É por isso que tarda – e tarda muito – a pergunta a la Baptista Bastos: onde é que você estava quando dezenas de militantes foram saneados?

Trabalha a escola, não o ranking

As virtualidades dos rankings não desaparecem apenas porque não gostamos dos resultados. Antes pelo contrário, é exactamente por conhecermos o ranking que podemos trabalhar para os alterar.

quarta-feira, Outubro 24, 2007

Momento Intimista do Dia (actualização)

As abstracções são nómadas. Delas, sabemos que podem estar noutro lugar que não no lugar onde as deixámos pela última vez. E mesmo quando ali as encontramos, quando sossegamos de um alarme que nos fez despertar, nunca sabemos se elas ali estão em sossego vigilante ou se acabaram de chegar, regressadas de um outro lugar. É por isso que os possessivos e os barzoneiros (é a vigésima nona) delas desconfiam. Uns, porque não suportam a infidelidade e sucumbem ao ciúme; outros, porque dispensam a empreitada de lhes acompanhar o trajecto e identificar o poiso.

Momento Intimista do Dia

Neste momento, um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, está uma rapariga, não muito mais nova do que eu, a preparar uma qualquer macumba ou vodoo. Não é pelo esquecimento Lourenço, que isso ela até deve agradecer. É pelos bons votos que lhe desejas. Essa do banho de ambrósia, ao estilo paternalista de quem até fica feliz se ela estiver feliz, é que a deve estar a matar. Não te admires se encontrares meia galinha à porta de casa, com três velas a enfeitar a asa sobrante.

Environmentalist Response to Global Warming Is a Threat (5)

Rajoy não está sozinho na forma prudente como encara a histeria do aquecimento global. As suas declarações não estão muito distantes, por exemplo, das que Václav Haus já tinha tido oportunidade de fazer nas Nações Unidas e que aqui destaquei (ler, já agora, também estas aqui, destacadas pelo António).

Nem estão longe das questões levantadas por membros de outras comunidades que não a política, como estas levantadas por Michael Griffin, Administrador da NASA, ou das do Copenhagen Consensus, um grupo de 10 economistas, 4 dos quais (txananana!!) nobelizados ou de Freeman Dyson da Princeton University, para citar alguns exemplos.

E Rajoy não está sozinho precisamente porque não há verdades cientificas indiscutíveis, muito menos num caso como este, em que as verdades têm revelado fragilidades várias. É claro que saber, afinal, que as temperaturas que vinham sendo anunciadas como ilustrativas de um aquecimento preocupante estavam erradas, ou saber que o filme de Al Gore partia de 9 pressupostos carecidos de prova, ou ainda saber que o Polo Sul atinge proporções recorde não ajuda muito à univocidade no tema.

Mas são também as políticas de combate a este alegado problema que estão em causa. É por causa delas que Rajoy apela à calma. E ainda bem que há quem apele, porque o pior que poderia acontecer seria entrar huma histeria tal que qualquer solução servisse. E há soluções que manifestamente não servem, como nos tenta demonstrar William Nordhaus, Professor de Economia na Yale University:

Clearly, meeting these ambitious objectives would require sharp emissions reductions, but the timing induced by excessively early reductions makes the policies much more expensive than necessary. For example, the Gore and Stern proposals have net costs of $17 trillion to $22 trillion relative to no controls – they are more costly than nothing. The emissions target of the German proposal is close to that of the Stern Review analysis, and the cost penalty is likely to be similar.

Environmentalist Response to Global Warming Is a Threat (4)

Mariano Rajoy terá relativizado o problema das alterações climáticas, dizendo que há que estudá-lo, que há que estar atento, mas que não podemos transformá-lo num grande problema mundial.

Na sequência destas declarações, o Carlos Manuel Castro condenou Rajoy a uma quase irrelevância política, considerando que com estas declarações o senhor demonstrou que não tem a mínima noção dos tempos em que vivemos e de quais os riscos que se enfrentam.

Confesso que não partilho desta indignação do Carlos, que parece partir de dois pressupostos que considero estarem longe de provados. O primeiro, o de que o senhor Rajoy é uma espécie de solitária vozinha insignificante alheada de um problema de grandes contornos. O segundo, o de que o problema das alterações climáticas, tal qual ele vem sendo colocado pelo nobelizado IPCC, não merece reparos que o contradigam ou relativizem.

Bestial a besta

As declarações do Sr. Watson são, para os meus parcos conhecimentos, absurdas e não merecem grande crédito. Para mim, claro, para quem o Nobel não é um Olimpo e me é completamente indiferente o que diz o senhor ou deixa de dizer, porque apenas me interessam as declarações e não quem as produz.

Agora, para todos aqueles que são chegadinhos ao prestígio do Nobel, que adoram o Nobel e que de cada vez que um dos seus apaniguados leva para casa tão distinto prémio quase alcançam o êxtase, não deve ser fácil engolir, não. Como explicar, afinal, que um Nobel (uma espécie de Al Gore, portanto) é capaz de tais dislates?

Foi você que pediu um Tratado? (4)

Pois eis agora que Vital Moreira vem dizer que o verdadeiro e genuíno referendo europeu seria, então, perguntar ao tuga-que-não-percebe-nada-de-tratados-mas-já-percebe-de-programas-eleitorais, se Portugal deve ou não sair da UE. E assim se reduz o tuga à estupidez máxima.

Uma pergunta como essa, sobretudo no actual contexto, seria o mesmo que dizer que apenas os tecnocratas teriam possibilidade de gizar a modelação da construção europeia. Ao povo apenas caberia dizer, aceito e fico ou não aceito e vou embora.

E que tal, assim de vez em quando, deixar que sejam os europeus (aqueles tais que vivem nesta União e que são o centro das preocupações e trinta por uma linha) a decidir, nas grandes questões, como querem fazer evoluir a construção europeia?

Se para alguns pode ser essa a questão, sim ou não à UE, para muitos outros a questão é que tipo de UE queremos. E é esse poder de modelação diária da UE que Vital Moreira nos quer retirar, ao estilo tão comunista de que ou é como eles querem ou então não é.

terça-feira, Outubro 23, 2007

Foi você que pediu um Tratado? (3)

Vital Moreira acha que o tuga não vai conseguir perceber o Tratado, pelo que não vale a pena referendá-lo. Mas se o tuga médio (o mesmo que vota nas eleições que por cá se fazem) não vai conseguir perceber o Tratado, a questão não está no referendo ou não referendo. Está no próprio do Tratado.

Obynãoseiquê

Com excepção da piada que nos deu ver os gémeos polacos portarem-se como gente grande e darem-se ao respeito numa Europa habituada ao beija-mão, a dupla de irmãos nunca mereceu grande simpatia por estas bandas do aAdF. É por isso com expectativa que olho para a vitória da Platforma Obywatelska na Polónia, que propõe um ambicioso programa de reformas de liberalização do Estado, que deverá merecer atenção.

Aproveito assim para copiar o André Azevedo Alves, n’ O Insurgente e destacar alguns links recomendados referentes ao movimento liberal polaco:
Instytut Liberalno-Konserwatywny
Mises Institute Poland
Centre for Political Thought
Centre for Social and Economic Research
Gdansk Institute for Market Economics
The Polish-American Foundation for Economic Research and Education

Direita pela Esquerda

Durante anos, encavalitada no espaço público maioritário que lhe era oferecido, a esquerda dedicava parte do seu tempo a catalogar e a desqualificar a direita. São vícios que ainda hoje perduram e que conseguiram transformar qualquer discurso conservador em reaccionário, qualquer vocação liberal em desumano capitalismo ou qualquer tendência democrata-cristã em beatitude obsoleta.

A blogosfera veio trocar as voltas a esses catalogadores natos. Uma nova geração de gente descomplexada desbravou os caminhos da direita e ofereceu novas variantes e cambiantes ao espectro político nacional. De repente, sem que a esquerda estivesse preparada para o efeito, apareceu gente à direita que recusa terminantemente o lado canhoto da vida mas que ousou pensar, tocar ou sistematizar bandeiras apropriadas pela esquerda.

Não foi só no aborto ou nas uniões de facto, mas também no ambiente e na cultura, na economia e na fiscalidade, há todo um novo programa político a ocupar um espaço antes ocupado pelas esquerdas. É o espaço múltiplo das direitas.

E é isso que desnorteia a coisa. A existência de várias direitas, que convivem, debatem, se contradizem e discutem entre si e que, em conjunto, oferecem uma nova forma de pensar o país. É por isso mesmo que a esquerda, já em reacção ao desnorte, volta a insistir na catalogação da direita, em termos que o Daniel Oliveira, por exemplo, aqui faz no Arrastão.

Porque é preciso estancar este crescimento e este rejuvenescimento, porque é que preciso impedir uma batalha cultural com igualdade de armas, a esquerda procura acantonar a direita novamente num extremo, seleccionando uns quantos, muito poucochinhos, para figurarem na galeria da direita aceitável e tolerável. E de novo, por exemplo, a direita liberal, que funda o seu pensamento numa consistência doutrinária invulgar, não é liberal coisa nenhuma.

E assim se procura, de novo, reduzir ao mínimo a direita que merece partilhar o espaço público. Mas não funciona. Desta vez não funciona. Porque o espaço público é como as pombinhas da catrina: é de quem o apanhar.

segunda-feira, Outubro 22, 2007

Momento Intimista do Dia

Demasiado trabalho e muito pouco tempo impedem-me de postar, responder aos comentários que vão chegando ou até de ler o que outros escrevem. E tenho vontade de escrever, muita até. Sobretudo porque tive este fim-de-semana, nas Universidades da Juventude Popular, a oportunidade e prazer de debater com José Pacheco Pereira o papel das juventudes partidárias. Mas até isso terá de ficar para mais tarde.

domingo, Outubro 21, 2007

Ron Paul - update

Agora que existe o Portugal supports Ron Paul, deixou de haver a necessidade de utilizar o A Arte da Fuga para suprimir a necessidade de divulgar as ideas do candidato, que são muito as nossas.

Não obstante, fica aqui um muito pequeno 'Best of' das últimas semanas:


Ron Paul: A New Hope

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"What Does Freedom Really Mean?", um excelente texto de Ron Paul:
.... Americans have been conditioned to accept the word “democracy” as a synonym for freedom, and thus to believe that democracy is unquestionably good.

The problem is that democracy is not freedom. Democracy is simply majoritarianism, which is inherently incompatible with real freedom ....
Simply put, freedom is the absence of government coercion. Our Founding Fathers understood this, and created the least coercive government in the history of the world. The Constitution established a very limited, decentralized government to provide national defense and little else .... This reflected the founders’ belief that democratic government could be as tyrannical as any King.
The political left equates freedom with liberation from material wants, always via a large and benevolent government that exists to create equality on earth .... In other words, government claims on the lives and property of those who are expected to provide housing, medical care, food, etc. for others are coercive-- and thus incompatible with freedom. “Liberalism,” which once stood for civil, political, and economic liberties, has become a synonym for omnipotent coercive government.

The political right equates freedom with national greatness brought about through military strength. Like the left, modern conservatives favor an all-powerful central state-- but for militarism, corporatism, and faith-based welfarism .... “Conservatism,” which once meant respect for tradition and distrust of active government, has transformed into big-government utopian grandiosity.
.... We must reject the current meaningless designations of “liberals” and “conservatives,” in favor of an accurate term for both: statists.

No seguimento imediato:

Overview of America


[ Money, Banking and the Federal Reserve | America: Freedom to Fascism
Fiat empire | The Money Masters | Ron Paul vs. The Federal Reserve | The Liberty Dollar ]



Ron Paul on NBC Nightly News



Should people listen to Ron Paul?

sexta-feira, Outubro 19, 2007

Foi você que pediu um Tratado? (2)

Tanto foi o destilar de superioridade intelectual dos jornalistas especialistas em questões europeias face às questões levantadas por polacos, italianos e búlgaros, que hoje estamos em condições de saber se as suas pretensões foram, ou não satisfeitas. Quanto às nossas pretensões, ninguém sabe de nada. Provavelmente, a única era mesmo a de dar um nome ao Tratado, pretensão cuja relevância Maastricht poderá atestar.

Viola no saco (2)

Já aqui falei da Mercês, uma amiga que foi estudar cinema para a Índia, num tempo que os radicalismos da juventude ainda não passavam do InterRail. Também já aqui disse, metendo a viola no saco, que o estudo se materializou e que a Mercês aí está, a trabalhar e a conseguir mostrar o seu trabalho.

Pois eis que, depois de ver a sua curta-metragem (A Ilha da Boa Vida) em competição no IndieLisboa, soube agora que ela ganhou o prémio de melhor documentário experimental no Docupolis, em Barcelona.

Como que calando aqueles que, como eu, dedicam os seus tempos livres a escrever sobre as vontades dos outros, em vez de cumprir as suas.


Ilha da Boa Vida, de Mercês Tomaz Gomes, doc., Portugal/Índia, 2006, 24’

Foi você que pediu um Tratado?

E temos Tratado de Lisboa. Ou deverei dizer, "têm Tratado de Lisboa"?

Sim, eles. Que ao que se sabe, o sentimento de pertença da coisa ainda não saiu dos corredores das instituições comunitárias. Mas lá está, quem somos nós para falar de coisas dessas, se temos uma Constituição a que ninguém liga propriamente pêva?

Descubra as diferenças

No Descubra as Diferenças, da Rádio Europa (90.4 FM), hoje às 19:00, o Nuno Ramos de Almeida e o Henrique Burnay vão estar em debate com a Antonieta Lopes da Costa e Henrique Raposo. No Jazza-me Muito, o blogue da Rádio Europa, podem encontrar os detalhes.

quinta-feira, Outubro 18, 2007

Com amigos destes...

Republicans Grow Skeptical On Free Trade no The Wall Street Journal:
By a nearly two-to-one margin, Republican voters believe free trade is bad for the U.S. economy, a shift in opinion that mirrors Democratic views and suggests trade deals could face high hurdles under a new president.
(...)
Six in 10 Republicans in the poll agreed with a statement that free trade has been bad for the U.S. and said they would agree with a Republican candidate who favored tougher regulations to limit foreign imports. That represents a challenge for Republican candidates who generally echo Mr. Bush's calls for continued trade expansion, and reflects a substantial shift in sentiment from eight years ago.

Decadência

O Mickael Carreira adicionou-me no hi5.

Interesse nacional? Naaahhh!

Uma pessoa lê jornais e nem acredita no que se escreve sobre as pretensões que alguns países consideram essenciais para a assinatura do tal tratado que não é bem uma constituição e vamos lá depressa antes que o povo que não nos elegeu para isto repare que é isto que estamos a fazer.

É certo que estamos numa União e coiso e tal e temos de ser uns para os outros. Mas lá porque a nossa tradição tem sido a desbaratar todo e qualquer interesse nacional, em nome do quadro de honra de melhor aluno, não me parece que tenhamos o direito de exigir aos outros que se resignem à simples condição de mais um sem voto na matéria.

Mas essa não é, pelos vistos, a opinião da imprensa que se dedica a estas questões. Pois que os polacos e italianos são uns danados vejam lá. Que se querem dar ao respeito e atrasam o processo deste belo tratado. E então não é que os polacos, esses mafarricos, o que querem é surgir ao povo polaco ostentando uma vitória das pretensões do país?

O rei vai nu

O Vasco M. Barreto pergunta, e muito bem, de onde virá a fama de grande entrevistadora de Ana Sousa Dias. Não sei esclarecer, que a coisa nunca funcionou muito bem comigo. Perdia-me sempre nas repetições que a Ana soltava no final de cada frase do entrevistado. Se o senhor dizia, a propósito de uma treta qualquer, que costumava velejar, logo a Ana Sousa Dias (ou o reflexo dela, a bem dizer) repetia "velejar". Pois ele lia Agustina e antes mesmo de o pobre homem poder dizer o livro em causa já ela repetia, com ar de assentimento, "Agustina".

A Ana Sousa Dias está agora na rádio. A coisa não é melhor, devo confessar, e pelos vistos não sou o único. Devem ser botões a mais.

quarta-feira, Outubro 17, 2007

Círculo vicioso (3)

O Pedro Mexia volta à carga, e a meu ver bem, reforçando que, no discurso político-partidário (esta restrição é minha), “ninguém avançou foi com um argumento sólido que sustente a necessidade de uma nova Constituição, para além de generalidades acerca de a actual estar «esgotada»”.

E de facto, uma leitura das declarações que sobre essa revisão ou substituição têm sido feitas dá razão ao Pedro Mexia. Concretamente, de alínea em alínea, ninguém parece saber muito bem o que quer efectivamente rever ou substituir. Que é socialista e tal e mais não sei o quê. Mas na hora H, naquela hora de colocar uma assinatura que desencadeie a mudança, a coisa acaba por correr mais ou menos como manda a CRP. Estado e mais Estado.

Quase sempre, no final das contas, quem tanto quer rever a CRP mais não quer do que agravar o principal defeito da CRP e que não é, vão desculpar-me, o ser socialista. O grande defeito da CRP é querer ser alguma coisa de programática, seja esse programa socialista ou não. Esse é o erro de base e é nesse erro que me parece estarem ainda encerrados todos aqueles que verberam contra a CRP.

Uma Constituição deveria ser, como qualquer lei aliás, de forte carácter universal e abstracto. Só assim se alcança uma CRP útil, no sentido em que estrutura politicamente o país e não compromete as práticas governativas que resultem das eleições. Em vez de obstáculo ou fomento, a CRP deve limitar-se a ser um suporte. Nada mais do que isso.

É por isso com algum receio que vejo este afã revisionista da CRP. Não que ela não merecesse ser revogada. Mas porque me parece que ninguém está propriamente disposto a abdicar de uma Lei fundamental parcial, programática, ambígua e produto de transacções e negociações com orientações muitas vezes distintas e contraditórias.

Momento Intimista do Dia

Perco tempo, perco o dia, a desafiar o movimento. Em suspenso, pelo máximo de tempo possível, a querer saber se a terra se move, de facto, ou se caio precisamente no mesmo lugar. E caio. Descubro que não avanço, se saltar. Que não chego, se saltar. Que não parto, se saltar. E por isso salto, enganando os sentidos que me pedem para andar.

Um blogue é mais que um blogue

Hoje, pelas 19.30, na FNAC do Colombo, vai ocorrer o lançamento do livro Quarta República, que consiste numa compilação de textos dos diversos autores do blogue com o mesmo nome. A apresentação será de Manuela Ferreira Leite e o livro teve prefácio do Francisco José Viegas.

terça-feira, Outubro 16, 2007

Círculo vicioso (2)

É natural que se diga, com o PS no governo, que não precisamos de uma nova Constituição, já que ninguém leva propriamente a sério as patacoadas socializantes que lá vêm. E têm razão, uma vez que o PSD e o CDS não têm por hábito invocar a Lei Fundamental para obstaculizar as reformas do governo socialista.

Mas já com o PS na oposição a coisa pia de fininho. Nessa altura, e basta lembrar o Código do Trabalho, tudo é inconstitucional, tudo tem de ser vetado, tudo tem de ser fiscalizado, criando-se um clima de verdadeira intoxicação da comunicação social e da opinião pública que tende, mesmo, a acreditar que estão a ser ultrapassados os limites do tolerável num Estado de Direito.

Mas isso não significa que a reforma da Constituição, ou a sua substituição, seja algo de dispensável no estado a que isto chegou. Antes pelo contrário.

Acontece que ou há um compromisso sério do PS em deixar de irresponsavelmente invocar a Constituição ou a coisa só lá vai com a dita reforma... a qual só é possível com os votos do PS.

Círculo vicioso (1)

De quando em vez surge esta ideia de reformar ou até substituir a nossa Constituição, tarefa que me parece desejável mas impossível.

É evidentemente ridículo, em sintonia com aquilo que o Pedro Mexia escreve, que se queira mexer nesta Constituição se, por detrás, não existe qualquer propósito de reformar profundamente o Estado que temos. Isso seria como mudar a forma do bolo de chocolate sem lhe tocar nos ingredientes, à espera de o transformar num bolo de claras. Ora, o discurso de Menezes não trouxe ingredientes necessários para mudar de Constituição razão porque essa intenção não passa de mais um fogacho, condenando a substituição da Lei Fundamental à condição de pescadinha de rabo na boca.

Paradoxo do dia

Curioso país este, em que os preços são decretados assim, como quem não quer a coisa, indexados a qualquer outra coisa que não o custo da produção do bem em causa. Depois, os mesmos que apoiam estes preços decretados, sempre baixos, sempre em conta, são os primeiros a criticar os efeitos perversos do sistema, culpando, claro está, o neoliberalismo em que o mesmo assenta. O neoliberalismo dos preços decretados pelo Estado*, claro está...###
* De acordo com o Tribunal de Contas, se bem se recordam, há reguladores muito pouco independentes do governo.

segunda-feira, Outubro 15, 2007

It bleeps. It skronks. It krrraaaanks.


Autechre Gantz Graf

Regresso ao passado

Via Complexidade e Contradição, chego ao Gattopardo. Não ao de Lampedusa, no que não seria com toda a certeza viagem perdida, mas sim ao novo blogue de Pedro Lomba e Pedro Mexia. Aos dois, e ao João Pereira Coutinho, deve muito este blogue.

PSD (4)

Qualquer pessoa que se lembre de falar do excessivo peso do Estado é, desde logo, chamada de liberal. Não supreende, que o liberalismo é coisa pouco estudada por aqui. Mas convenhamos que tanta generalização já aborrece. Mais que não seja porque esse critério colocaria o liberalismo como pedra de toque de PS, PSD e CDS, já que todos eles, mesmo os mais socialistas dos socialistas (e estão nos três, estão nos três) concordam em reduzir o papel do Estado.

Não é pois o discurso de Menezes que importa na hora de dizer, como parece fazer São José Almeida no Público, que o PSD se apresenta com "um visível cunho liberal". São as concretas propostas políticas (não tanto as emblemáticas e para inglês ver mas sim as quotidianas) que poderão dar-nos um sinal concreto sobre o propalado cunho liberal do PSD de Menezes.

Há, por exemplo, que esperar pelo dia em que uma fábrica feche e leve centenas de pessoas para o desemprego, para ver o que resta do discurso de Menezes quanto à legislação laboral. Assim como importa esperar pela colocação dos professores no próximo ano para saber ao certo o que pensa o PSD do sector público de educação.

É no embate diário com a espuma dos problemas que o liberalismo partidário português sempre se revlou inexistente. Há que esperar pelo dia-a-dia e não pelos discursos. É preciso tempo.

PSD (3)

Pedro Passos Coelho, Aguiar Branco ou Manuel Ferreira Leite (não sei se apenas pelo cargo que ocupava) lá foram ao Congresso do PSD dizer o que pensam do actual estado do partido e de qual o rumo que o mesmo deve tomar. Não se esperava que fossem duros nem catastróficos mas, apenas, que se dispusessem a demonstrar reticências e a enunciar alertas. Disso se faz o crescimento e a evolução de um partido. Os ausentes do costume, que tanto criticam os que esperam o poder, enredam-se no paradoxo de esperar que o partido lhes caia do céu.

PSD (2)

Luís Filipe Menezes surgiu ao país com uma motivação pouco comum após tantas horas de trabalho e negociações. Visivelmente feliz (e a felicidade é um valor em política que muitos tendem a desprezar nas suas análises) e revigorado, discursou durante tempo demais com uma análise política de largo espectro. Tão largo que conseguiu propor medidas distantes e incoerentes que não se podem encontrar num mesmo programa. É natural que assim seja, para quem ainda procura um sentido para a sua liderança, o que também quer dizer alguma coisa.

PSD (1)

Luís Filipe Menezes merece o que qualquer líder partidário recém eleito merece. Tempo para encontrar o seu registo, para se aclimatar à nova condição e para tomar pulso aos novos equilíbrios internos que gerou. Costuma chamar-se de estado de graça, mas não sou muito dado a essa expressão. Acho que não é humanamente justo avaliar Luís Filipe Menezes com uma bitola gasta e usada para líderes partidários no activo.

sexta-feira, Outubro 12, 2007

War on Global Warming explicado às crianças


Marlo Lewis Testifies in the Senate on Global Warming

Peace through superior scientific suppression

"Gore's Noble Challenge" por Patrick J. Michaels:
The fact is that Al has ducked, feinted, dived away from, or fluffed each and every opportunity for a reasoned debate with any global warming scientist not of his choice, a choice he no longer enjoys ....

Here's the rub: if any opposition were so easy to vanquish, Gore would relish the opportunity. Obviously there's a substantive and cogent argument he can't kill.
For example, the United Nations' Intergovernmental Panel on Climate Change (of which I am a member, while Gore is not) predicts a mean sea-level rise of about 13 inches by 2100. Gore's book and movie contain an undated montage showing Florida sliding beneath the waves, something that could only happen with 13 feet or more.

How on earth does one accomplish such a disconnect from scientific reality?

Aurora


APOD - imagem original

Sometimes, after your eyes adapt to the dark, a spectacular sky appears. In this case, a picturesque lake lies in front of you, beautiful green aurora flap high above you, brilliant stars shine far in the distance, and, for a brief moment, a bright meteor streaks by. This digitally fused breathtaking panorama was captured late last month across one of the Chena Lakes in North Pole, Alaska, USA, and includes the Pleiades open cluster of stars on the image right. The shot is unusual not only for the many wonders it has captured simultaneously, but because lakes this far north tend to freeze and become non-reflecting before a sky this dark can be photographed.

Cracking Go

"Cracking GO" de Feng-Hsiung Hsu:
In 1957, Herbert A. Simon, a pioneer in artificial intelligence and later a Nobel Laureate in economics, predicted that in 10 years a computer would surpass humans in what was then regarded as the premier battleground of wits: the game of chess. Though the project took four times as long as he expected, in 1997 my colleagues and I at IBM fielded a computer called Deep Blue that defeated Garry Kasparov, the highest-rated chess player ever.

You might have thought that we had finally put the question to rest—but no .... These critics pointed to weiqi, an ancient Chinese board game, better known in the West by the Japanese name of Go, whose combinatorial complexity was many orders of magnitude greater than that of chess. Noting that the best Go programs could not even handle the typical novice, they predicted that none would ever trouble the very best players.
Ten years later, the best Go programs still can't beat good human players. Nevertheless, I believe that a world-champion-level Go machine can be built within 10 years, based on the same method of intensive analysis—brute force, basically—that Deep Blue employed for chess.

Discurso de aceitação

and then you meet me and your whole world changes
because everything I say is everything you've ever wanted to hear
so you drop your defenses, and you drop all your fears
and you're so busy feeling good
that you never question why things are going so well
You want to know why?

###

RTP

Thomas Jefferson
To compel a man to subsidize with his taxes the propagation of ideas which he disbelieves and abhors is sinful and tyrannical.

Paz

Depois de Arafat, o Prémio Nobel da Paz quer significar qualquer coisa que não me interessa.

quinta-feira, Outubro 11, 2007

Momento Intimista do Dia


Gosto da ideia de segredo. Não enquanto penhor da hipocrisia, uma espécie de bifrontismo que nos permite aparentar o que não guardamos. Mas, isso sim, como garante de uma certa sanidade, quase como um reduto onde nos permitimos testar e conhecer sem a pressão de quem nos espreita. Um segredo é um testemunho de individualismo, uma reserva que nos permitimos construir e que eventualmente tenderá a cair em desuso com as novas tecnologias.

Mas quando o segredo não passa de um temor, quando mais não é do que um pecado que, em vez de nos libertar, nos aprisiona, como pode o corpo humano aguentá-lo? Teremos alguma capacidade que nos garanta a manutenção da aparência e nos ofereça a persistência da ocultação?

Tudo isto porque, através do Conversas de Canto, cheguei a este vídeo com que escandalosamente me locupletei (um curso de direito também serve para aprender palavras destas), e através deste à Post-Secret Community, que vale bem a visita. O pretexto é simples. Publicar um segredo.

Seja para nos libertar do pecado, seja para deixarmos alguém entrar na reserva construída ou seja até por um qualquer voyeurismo, cada um fará do segredo o que quiser. A mim, pôs-me a divagar, conforme se constata.

A culpa dos ausentes (5)

Anunciam-se já várias ausências no próximo Congresso do PSD. Que é preciso falar para fora e que as directas já ofereceram o debate interno e mais não sei o quê. Entretanto, claro, do conforto de uma poltrona saem declarações que pouco têm de contributo para o “falar para fora”. Sinceramente, isso cheira-me a cobardia. Medo de enfrentar um Congresso eventualmente adverso para se dizer o que poucos compreenderão. Como se os partidos não se fossem mudando precisamente por dentro e pela imposição da tolerância interna ao debate. Como se as ausências não fossem, afinal de contas, uma parte importante do problema.

Por exemplo, reentrar no Largo do Caldas depois do Prós & Contras em que defendi o voto “sim” no referendo à IVG não foi, devo confessar, coisa fácil. Tratando-se, ainda para mais, de uma matéria que desperta sentimentos demasiadamente poderosos, nem sequer poderia não esperar o que, em alguns casos veio a acontecer, como a intolerância, o insulto ou a incompreensão. Fui chamado de abortadeiro num Conselho Nacional do partido, em que a senhora Presidente do mesmo me recusou o direito de responder ao estúpido insulto. Foi-me dito, num Conselho Nacional da JP, que tinha deliberadamente prejudicado o partido. Tudo isto tive que ouvir e a tudo isto tive que (tentar) responder. ###

Se a ida ao programa não me trouxe engulhos de maior, tendo a minha vida profissional e social continuado como se quase nada se tivesse passado, já a vida política não poderia, compreensivelmente, ficar na mesma.

Sabia exactamente o que me esperava, embora estivesse certo (e com razão) de que muitos estariam empenhados em fazer aceitar uma voz aparentemente única e dissonante (depois, claro, são aquelas mensagens sms a dizer que muito bem e que sim e que também eles votaram “sim”, mas adiante).

Prevendo tudo o que poderia acontecer, desconfiando daquela solidão que vim a sentir, nem por um segundo me passou pela cabeça ficar por casa a escrever no blogue ou a mandar artigos para os jornais. Como militante e dirigente daquele partido, tinha a obrigação de, nos fóruns internos, dar a cara pelas minhas opções num referendo, mesmo sabendo que me iriam ser assacadas responsabilidades pela derrota do CDS no acto referendário. Nem em sonhos me imaginaria refugiado atrás de um computador a espingardar contra a indigência mental de alguns. Enfrentei-a, como seria de esperar, no local exacto.

Quem somos?

Causou estranheza, mesmo entre blogues que coleccionam fotografias e posts de Rudy, Obama ou Maccain, o facto de um grupo de portugueses (que castiços que eles são) se ter juntado num blogue de apoio a Ron Paul.

Causou-me estranheza, essa estranheza causada pelo blogue, sobretudo no seio de uma blogosfera particularmente atenta e militante em questões de política internacional. Tão atenta e militante que sistematicamente publicita os seus candidatos favoritos com vídeos, citações, artigos e links para as campanhas dos diversos candidatos. Ele até há recensões e manifestações de fascínio.

Ora, porquê então uma estranheza face a um blogue de apoio a Ron Paul? Não sei. Sei apenas que, ineditamente, sentimos necessidade de explicar, devagarinho e com paciência. O texto está no blogue, limito-me a citar algumas partes.

Seria difícil que todos aqui estivessem pelas mesmas razões. Uns valorizarão mais a política monetária proposta por Ron Paul, outros estão mais próximos do carisma de quem não é mediático mas conquista a Internet. Para uns é importante que os EUA saiam do Iraque, para outros que continue a mostrar-se que é possível ser um país próspero sem Serviço Nacional de Saúde público e pseudo-grátis.

O que sem dúvida unirá os apoiantes de Ron Paul por todo o mundo - e em Portugal - é a verdadeira força motriz da sua candidatura: liberdade. Ron Paul é o único pré-candidato às presidenciais americanas que intransigentemente defende a liberdade do indivíduo face às garras dos governos e seus burocratas. E isso, para nós, basta.

Basta para querer que os EUA tenham um presidente assim e que com isso o Mundo volte a ter um exemplo de liberdade nos EUA - que aliás, foram o primeiro país do mundo a reconhecer o direito natural dos seus cidadãos a serem livres.

Basta para querer que algumas das ideias de Paul saltem o Atlântico e acordem a velha Europa da suposta inevitabilidade da socialista "social-democracia".

Basta para sonhar que também em Portugal se possa confiar nas vantagens das decisões individuais face à omnipotência do governo, que rouba nos impostos, para gastar não se sabe bem onde.

Por estas e por outras razões estamos aqui. Em bom rigor, o que nos une nem sequer é Ron Paul. É a liberdade.

quarta-feira, Outubro 10, 2007

O distraído

(imagem retirada daqui)
Havia o Hugo, na minha escola primária, que punha os restantes putos em sentido e lhes ordenava as traquinices. Salta para ali, entorna isto, atira aquilo, bate naquela, parte aqueloutro. No fim, quando apanhado o pobre escravo pelo professor, o Hugo que a tudo assistia com sorriso matreiro limitava-se a encolher os ombros e a dizer que se tinha distraído e que já não o tinha podido impedir e que enfim, ia tentar ter mão nos amigos da próxima vez.
Pode parecer história da treta, muito a propósito deste nosso primeiro-ministro que nunca sabe de nenhum desmando do seu governo, mas é mesmo verdade. Chamava-se Hugo e entrou para a primeira classe estava eu na quarta.
Começa já a cansar esta atitude do primeiro-ministro que nunca viu, nunca ouviu nem nunca falou. Sempre distraído, ele. A polícia já não se limita a identificar manifestantes que protestam nas barbas do primeiro-ministro, com fotografias e tudo, como já previamente vai ter com os manifestantes numa de intimidação. Se o primeiro-ministro não gosta, e é bom que não goste, deste absurdo excesso de zelo, é bom que o diga a alto e bom som. E melhor ainda é que publicamente defina regras de actuação.
Mas lá que é estranho é. São sempre casos com o primeiro-ministro. Até agora não se ouviu nenhuma história de intimidação de manifestantes contra, sei lá, o ministro Mário Lino ou a ministra Isabel Pires de Lima.

A ler

Quem quer tramar esta administração da RTP? por Paulo Pinto Mascarenhas no blogue da Revista Atlântico:

É sabido ainda que o actual Governo, desde que tomou posse, pretendia colocar novos nomes, mais próximos do “socialismo moderno” de José Sócrates, na administração da RTP. Já se ouviu falar, por exemplo, de Luís Nazaré.

Por isso, perante as notícias da “suspensão de funções” de José Rodrigues dos Santos, por razões que se conseguem compreender depois das afirmações que fez à Pública”, pergunto eu: quem quer tramar a actual administração da RTP? E porquê?

Não há volta a dar

Sendo o Estado detentor do capital da RTP, responsabilizando-se em consequência pelos seus resultados, é de toda a justiça (além de estar de acordo com as melhores regras de gestão) que este possa influir directa ou indirectamente nos destinos da empresa, inclusivamente substituindo jornalistas ou dando relevo a determinadas figuras.

A questão da independência da RTP não pode, por isso, ser vista senão do ponto de vista da sua titularidade. Se queremos uma RTP livre do Estado, não há outro remédio que não seja retirar o Estado de dentro dela. Não há volta a dar.

Paradoxo do dia

A RTP, que andou anos até reconhecer publicamente as pressões sofridas no tempo da outra senhora, que esperou pelos alvores da revolução para afirmar que os jornalistas que lá trabalhavam (e muitos lá continuavam) tinham sido pressionados (e aceite essa pressão), vem agora queixar-se da inoportunidade das declarações de José Rodrigues dos Santos.

terça-feira, Outubro 09, 2007

Supreme knowledge (2)

Diz o Bruno Gonçalves, no Blogue da Revista Atlântico, a propósito do anúncio da abertura de mais vagas nas faculdades de medicina:Compete ao Estado garantir que o Sistema Nacional de Saúde não tenha nem um excesso, nem um défice de recursos humanos, tendo em conta o actual modelo do sistema. A ser verdade a existência um problema no número de médicos, a prioridade seria a de disponibilizar os meios para a formação pós-universitária de licenciados nos hospitais.

Assim de repente, não vejo por que carga de água deva ter o Estado que se preocupar com a inexistência de vagas nos hospitais para os médicos licenciados. Admito, isso sim, que o Estado anualmente informe as vagas que vai abrindo, de forma a que cada um possa saber o que fazer e quando fazer. Já me parece excessivo que deva ser o Estado a impedir jovens de cursar medicina com a desculpa de que não há vagas no Sistema Nacional de Saúde quando estes jovens podem não só seguir para investigação como igualmente podem seguir a sua carreira no estrangeiro ou podem apenas estar interessados em ter uma formação complementar a uma formação anterior. Que eu saiba, é isso que anualmente se passa com os professores que se candidatam ao ensino público.

Quem é, afinal, este Estado que se sente no direito de planear a vida de todos estes jovens? O facto de monopolizar SNS e ensino universitário de medicina dá nisto. Qualquer dia, ainda havemos de ouvir os médicos dizer que o curso de medicina tem de fechar porque não há mais vagas e o SNS está lotado…

Momento Intimista do Dia


N’O Acossado, o Francisco Valente escreve sobre um dos grandes filmes da minha vida. Grande filme não no sentido de lista de melhores filmes, que evito tanto quanto posso, mas mais no sentido de filme que vi no privilegiado momento em que “filme e eu” nos encontramos a meio caminho. Não sei se me percebem, mas acredito mesmo que há um tempo certo para ver um filme. Ou ler um livro. Quantas obras-primas não estão por aí esquecidas porque o editor, ou o próprio escritor, ainda não a leu no momento certo.

É raro, embora não propriamente impossível, encontrar momentos desses. Tem que ver com tudo. Connosco, com os outros, com o tempo, com a chuva, com o quente cá dentro, com as mãos, com o jantar que se segue ou com o fim que antecedeu. Tenho a certeza que se tivesse visto O Apartamento num outro dia, já sem aquela pessoa ao meu lado a derreter com o calor da Cinemateca improvisada no Palácio Foz, ainda desdenhoso e rancoroso, nunca me lembraria de escrever o que ora alinho a propósito de um post alheio.

Há demasiados motivos para se ver O Apartamento (que devia ser obrigatório para todos os que só conseguem ver Shirley Maclaine como uma lunática espírita, sem sequer imaginar do verdadeiro deslumbramento que ela consegue provocar quando devolve o baralho de cartas a Jack Lemon). Eu terei os meus, que são bem acolhidos pelo título deste post mas que não encontram qualquer espaço neste blogue. Mas o Francisco aponta alguns, bem certeiros.

Supreme knowledge

O Estado acha-se na suprema capacidade de saber descortinar quantos médicos precisamos em Portugal. Vai daí, assume coercivamente o papel de anualmente mandar não sei quantas centenas de pessoas para outras carreiras - ou até para o estrangeiro - numa interferência intolerável na vida das pessoas.

Não se trata, aqui, de fazer anunciar, todos os anos, quantos alunos conseguiram obter emprego após terminados os seus cursos, para que os jovens possam estar informados sobre o eventual desemprego que podem encontrar se forem para medicina. Nada disso. Os jovens não são tidos nem achados. O Estado acha que não há espaço para mais médicos (mesmo que ente esses jovens possa estar um futuro brilhante médico) e não abre mais vagas e está o assunto encerrado. Ou então, como agora acontece, acha com base não se sabe em quê, que precisamos de mais X vagas. Nem Y nem Z: X.

Não é, por isso, de espantar que quando o Governo decide abrir novas vagas, mais uma vez depreendendo que detém o perfeito e geométrico conhecimento das necessidades, se insurjam os agentes do sector, os mais beneficiados pelas restrições gritantemente injustas que o Estado tem imposto no acesso àquela carreira.

Talvez o Estado fizesse melhor se se preocupasse mais em reformar o sistema nacional de saúde, que nada tem de universal, do que em se imiscuir nas escolhas dos jovens alunos. Essa sim, seria uma excelente forma de combater os privilégios que o Governo tanto diz querer combater.

segunda-feira, Outubro 08, 2007

Momento Intimista do Dia

Na semana passada, indo eu a caminho do meu diário almoço (sou uma pessoa de hábitos no que toca a almoço e jantar) cruzei-me na rua com o Pedro Mexia.

Não se tratou propriamente de uma epifania, ainda que goste muito de o ler, desde os tempos da defunta senhora Coluna Infame, mas a verdade é que, vinte segundos depois de o ver, mais coisa menos coisa, dei em me questionar sobre qual deve ser a reacção de duas figuras públicas que pessoalmente não se conhecem, se o acaso as cruzar na rua, sem possibilidade de desviar o olhar.

Por exemplo, se a Bárbara Guimarães se cruza com a Clara Ferreira Alves nos corredores do Amoreiras, e admitindo que estas nunca se cruzaram anteriormente - e que ambas sabem da existência uma da outra... - que fazem elas? Cumprimentam-se como se se conhecessem, ou ignoram-se como se se desconhecessem?

Tudo isto, claro, porque quinze ou vinte segundos depois, no mesmo local, passou a Maria Elisa, que não se cruzou com o Pedro Mexia por uma vertigem de segundo, e me deixou nestas elaborações.

Adenda: Ouve lá, essa-senhora-de-cabelo-branco-muito-curto-que-também-devia-ser-do-Bloco devia ser a Diana Andringa, não (ó pa ela aqui)? Ainda estou à espera que ela faça um novo documentário, desta feita para dizer que a invasão da herdade em Silves pelo Gualter e amigos não existiu.

Questões de regime

Nunca percebi como pôde a monarquia sucumbir perante um golpe tão minoritário como o republicano. Presumo que, como nos diz o André Abrantes do Amaral, com o qual concordo, porque aos portugueses tanto se lhes dava como se lhes deu: A República foi um equívoco, não tenhamos dúvidas, mas um equívoco sem importância. Um equívoco irrisório, depois do qual se manteve tudo como até então, como até agora e como sempre será. A discussão monarquia/república, o desperdício que é a sua entrega, lembra-me o cheiro a bafio. Aos livros bafientos que perderam o seu valor, actualidade e mais-valia. Todos falam do vazio e para o vazio não há resposta. Só estupefacção. E um encolher de ombros.

Pergunta do Dia

Falam, insurgem-se, setas para baixo, setas para cima, que as eleições foram um desastre, não sei quê das elites, as quotas isto e aquilo, multibanco e cheque, manuela ajudou, manuela desajudou, barões fora, baronetes dentro. Tudo isto nos jornais e blogues e tv. Mas ao Congresso, o maior órgão do partido, o local da discussão olhos nos olhos com as bases, o fórum que aprova as estratégia, quantos vão? Quantos lá vão, dar a cara?

Gracias

(imagem retirada daqui)

Neste fim-de-semana rumei até Madrid para poder ir à exposição de Paula Rêgo no Museu Rainha D. Sofia. Não fui só eu, claro. Portugueses em Madrid é o que mais há, sobretudo com feriados colados ao Sábado. Na fila que antecedia a entrada no Museu só se havia falar português. Atrás de mim, uma mãe com duas filhas perorava sobre a estupidez dos espanhóis. Tudo ali era estúpido. A fila, o trânsito, a siesta, a comida. De tanta estupidez junta naquela cabeça não poderia jorrar senão a incompreensão sobre o sucesso espanhol.

Mas adiante. A exposição tinha, como de costume, um livro de visitas, que pude consultar enquanto alugava o audioguide que me ajudaria a enfrentar a obra da pintora. Também ali abundava o português, numa unanimidade que só Espanha consegue gerar: a indignação pela ausência de audioguides em português, já que se tratava de uma pintora portuguesa. Dezenas e dezenas de páginas com a mesma reclamação, num português às vezes com erros. Não perdi tempo e deixei também a minha assinatura no livro, agradecendo o facto de Espanha estar tão perto e assim me permitir ver um exposição que tarda em chegar a Portugal e ainda para mais com audioguides, coisa que não se vê em Portugal e onde temos de nos contentar com o título da obra em português e inglês.

quinta-feira, Outubro 04, 2007

Observatório

Excelente esta iniciativa da Juventude Popular de criar uma espécie de observatório do trabalho da Presidência Portuguesa do Conselho Europeu, onde podem ser encontrados os documentos com as conclusões e declarações das mais importantes Reuniões e Eventos da Presidência Portuguesa, bem como artigos de opinião de militantes e dirigentes da JP, sobre questões Europeias.

O desconhecimento nacional face ao que pela UE se vai fazendo, atenta a interferência que a mesma representa no nosso quotidiano, é algo que casa mal com a classe política que temos, que continua aliás a olhar para as negociações em Bruxelas como algo de esotérico e para burocratas. Fica, pois, aqui o link: http://jp-ue2007.blogspot.com/

Trilho do post que deveria estar aqui

Começo, suspendo, recomeço, quase termino, apago, undo, termino, reencaminho, esqueço, volto, altero, apago a alteração, apago tudo.

Cautela

Leio no Kontratempos que, segundo a Plateia - Associação de Profissionais de Artes Cénicas, o Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto considerou "todo o processo de concessão da exploração do Rivoli - Teatro Municipal a Filipe La Féria ilegal".

Essa afirmação não pode corresponder à verdade. Tratando-se, como se noticia no Público, de uma sentença no processo cautelar, o Tribunal não pode emitir juízos definitivos, julgando a causa e decretando a ilegalidade do processo de concessão da exploração. A não ser, e não é isso que transparece da notícia, que o Tribunal tenha convolado o processo cautelar em processo principal. Assim, quanto muito, o Tribunal poderá dizer, após uma apreciação meramente sumária, que existem indícios de ilegalidade e que esses indícios serão suficientemente fortes para o decretamento de uma providência cautelar.

Pode, por isso, acontecer que em sede de processo principal (já para não falar de recurso do decretamento, como no Túnel do Marquês) o Tribunal, após um juízo exaustivo, venha a considerar a inexistência de ilegalidades.

Não estou, com isto, a querer dizer que não houve ou que houve ilegalidades. Apenas quero deixar claro que a Plateia não teve cautela com o que disse.

quarta-feira, Outubro 03, 2007

Simcity Baixa Chiado (4)

Numa de revitalizar a Baixa, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu cortar ao trânsito o Terreiro do Paço aos Domingos. Vai daí, naturalmente, os habitantes da Baixa clamam pelo fim deste flagelo, que lhes entope as artérias de carros, de buzinões e de má disposição.

Para quem queria fazer da Baixa um lugar aprazível, não está nada mau. Pela net circula já uma petição a dar conta do caos instalado, assim como há já blogues e relatar o pesadelo.

Neste momento, por exemplo, quem quiser ir ver casas à Baixa ao fim-de-semana (única altura, meus caros, em que pessoas que trabalham conseguem ver casas) fica seguramente esclarecido sobre o crasso erro que cometerá se ali se decidir a viver. Em bom rigor, basta um passeio pela net para ficarmos cientes de que só doido aceita ir viver num local em que o Domingo, um dos dois dias de descanso do pessoal, é um verdadeiro inferno.

Esta decisão é, portanto, errada. Mas, mais do que isso, é sintomática de uma forma centralista de planear e pensar a cidade. Em vez de deixarem a cidade viver e revitalizar-se, preferem engenharias destas. E depois dá no que dá.

Natureza humana

Perante a espiral de psicoses que vem torneando a busca de Maddie, Gonçalo Amaral fez o que qualquer pessoa normal faria: arranjou uma excelente forma de ser demitido e de se pôr a andar dali para fora.

Being Alive


Stephen Sondheim é, desde que um dia ouvi o Send in the Clowns, um dos letristas (e, em determinados casos, compositores) que mais admiro. Vem esta proclamação a propósito do verdadeiro tributo que o Ricardo Gross lhe faz, elevando-o a património da humanidade e realçando a forma como Sondheim procede à exploração dos dramas centrais à existência humana: a capacidade para amar e ser amado; a necessidade da presença dos outros e uma consciência implacável de que nunca deixamos de estar sozinhos.

Não partilho com o Ricardo a devoção por Bernardette Peters, ainda que esta minha opinião se circunscreva ao que dela ouvi e não ao espectáculo que motivou o tributo do Ricardo. Mas já partilho, inteiramente, esta admiração pela forma como Sondheim evidencia uma muito esquecida (e até negada) alteridade do ser humano.

Escolher apenas uma das suas letras seria, não tivesse esta um significado muito especial, quase uma heresia. Mas se há alguma das suas letras que, em certos aspectos, me melhorou, é esta Being Alive, do Company, aqui cantada por Patti LuPone:

Someone to hold you too close
Someone to hurt you too deep
Someone to sit in your chair
And ruin your sleep
And make you aware of being alive

Someone to need you too much
Someone to know you too well
Someone to pull you up short
And put you through hell
And give you support for being alive-being alive
Make me alive, make me confused
Mock me with praise, let me be used
Vary my days, but alone is alone, not alive!

Somebody hold me too close
Somebody force me to care
Somebody make me come through
I'll always be there
As frightened as you of being alive,
Being alive, being alive!

Someone you have to let in
Someone whose feelings you spare
Someone who, like it or not
Will want you to share a little, a lot of being alive
Make me alive, make me confused
Mock me with praise, let me be used
Vary my days, but alone is alone, not alive!

Somebody crowd me with love
Somebody force me to care
Somebody make me come through
I'll always be there
As frightened as you to help us survive,
Being alive, being alive, being alive, being alive

A culpa dos ausentes (4)

Menezes eleito, deu tudo uma de virgem ofendida, que o PSD não pode continuar assim, que isto tem de mudar, que as bases isto e as elites aquilo, que o país precisa do PSD e mais não sei o quê. Do conforto da bancada de onde nunca se levantam, sequer para militar, muitos esperam que alguém mude o partido para que eles se possam filiar com toda a dignidade e sem mácula. Desses também se fez a vitória de Menezes.

terça-feira, Outubro 02, 2007

Obscena #6

O novo número da OBSCENA (www.revistaobscena.com), já aí está, feito desta vez sob a égide das políticas culturais europeias, com uma entrevista ao Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso e tudo!

A culpa dos ausentes (3)

Ela é que sabe (Manuela Ferreira Leite e a debandada das elites), por Marta Rebelo, no 5 Dias:
Ao contrário do que profetizou Paula Teixeira da Cruz (...) as elites não debandariam em caso de vitória de Luís Filipe «Viva Portugaia» Menezes: as elites debandaram antes mesmo da temida vitória. Não foi só Manuela Ferreira Leite; não foram só os barrosistas, santanistas (parece que nem todos com LFM), a velha elite conservadora e polida. Ante as alternativas e o que o Partido Social-Democrata, com algum determinismo, passaria a ser, as elites debandaram logo no início. Manuela Ferreira Leite e qualquer militante com direito a cartão especial, com a devida referência no canto superior direito a «Militante de Elite», já estavam a milhas, na sexta-feira passada.

The road to...

Antes de chegar à liderança do Partido Consevador, Thatcher foi apelidada de tudo: lunática com umas ideias absurdas sobre o mercado livre, uma traidora incapaz de se solidarizar com políticas do seu próprio partido, uma desbocada que chegou ao ponto de ilustrar a semelhança dos dois maiores partidos através de discursos em tudo semelhantes dos seus dois líderes.

Não é fácil, num mundo carregado de tonalidades cinzentas, marcar a vida pelo preto ou pelo branco. É a sorte, sobretudo a sorte, que é determinante para que pessoas que não se prendem ao cinzentismo consigam alcançar lugares onde podem fazer a diferença. Uma vez lá chegados, é o estrelato. Até lá, enfim, é o costume.

segunda-feira, Outubro 01, 2007

Those were the days


No meio de arrumações, fui dar com os meus almanaques da Disney. Já me tinha esquecido do Biquinho, personagem criada no Brasil e que era, então, a minha personagem favorita. Vou retomar a leitura de alguns dos almanaques para confirmar as preferências da infância e, se possível, encontrar-lhes algum sinal de prenuncio.

Não há duas sem três


O Bloguítica voltou a terminar. Espero sinceramente que regresse.

O seu a seu dono

Luís Filipe Menezes não ganhou umas eleições montado em cima da comissão organizadora das ditas, nem sequer encavalitado nas inerências ou nos caciques que dominam congressistas. Quer se queira, quer não, Menezes ganhou eleições directas, com o universo mais alargado possível e com uma participação eleitoral satisfatória, ainda para mais com as regras existentes e que tinham já servido para eleger Marques Mendes.

Tratou-se, portanto, de um resultado que mais não faz do que ilustrar o tal partido mais português de Portugal. O resultado é o espelho dos seus militantes e, portanto, diz-nos muito sobre estes sobre o que pensam e o que procuram.

Ora, porque ninguém está proíbido de militar no PSD, cabe aos militantes do partido determinar os rumos a seguir e as estratégias a desenvolver. A eles, essencialmente, cabe dizer de sua justiça, hierarquizando as candidaturas, os valores e os princípios.

É pois engraçado que uns quantos nos tentem agora convencer da ilegitimidade das eleições ou, até, da conveniência de alterar este resultado o quanto antes. Faz lembrar aqueles euroeufóricos que querem negar ao povo o direito de votar contra uma constituição ou tratado europeu, com o argumento de que não estão bem informados, não sabem bem o que querem, não têm noção do que está em causa ou, como também já se ouviu, porque há coisas que não devem ser colocadas à sua disposição.

Nas bancas

Momento Intimista do Dia

Lido mal com pequenos espaços cheios de opções. Perco-me, quase sempre, por entre tudo o que há para ver e escolher, acabando por sair de mãos a abanar. De repente, esqueço-me do que me pode interessar, inclusivamente dos meus próprios gostos, e dou por mim sem saber que direcção tomar. Sou o típico convidado que anda a sonhar com a comida do casamento durante uma semana inteira e acaba por vir embora com um bago de uva a fazer de bolo alimentar, como se não houve trezentos queijos a olhar para mim. Sou, por isso, capaz de sair da Fnac sem um único saco, fazendo de conta que não há ali nada que me interesse ou possa fazer o dia.

Depois de anos de frustrações e escolhas adiadas, não tive outra opção que não desenhar uma técnica que me permitisse orientar em situações de desnorte como estas. Perante tanta escolha, procuro aquilo que sei não vir a gostar. Quase sempre, por ironia, ao lado do que não me agrada, está exactamente aquilo que procuro. Foi, por isso, sem supresa, que hoje, numa venda de livros antigos da Bertrand do Chiado, fui dar com o Que Futuro para Israel? de Shlomo Ben-Ami, que há tanto procurava, mesmo ao lado de um livro da Jackie Collins sobre sexo e estrelas e Hollywood.