segunda-feira, agosto 25, 2008

Da falácia à desonestidade intelectual ao insulto pessoal

Bem podia escrever “o que fui dizer”. A triste verdade é que qualquer pessoa que tenha por hábito ser vocal sobre as suas convicçoes liberais acaba sempre por ser tratado ao nivel de violador de cachorrinhos.

Por acaso, pouco tempo depois surgiu este excelente artigo, sobre um assunto completamente diferente:

"A Primer on Logic" por Mark R. Crovelli
.... I am one of the most dastardly scoundrels in the world simply because I think that drunk driving ought to be legalized.

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The Argumentum ad Misericordiam Fallacy
"I sincerely hope that no one you know or love is killed by a drunk driver.... You might then change your mind about whether prevention is better than punishment."

The reason why these sorts of arguments are instances of the argumentum ad misericordiam fallacy, and are thus improper, is that they appeal to emotions that have absolutely nothing to do with the argument under discussion .... it is totally irrelevant whether or not I might change my mind if someone I know is killed by a drunk driver, or whether human life is irreplaceable. Either my arguments are sound, or they’re not – and appeals to irrelevant emotional responses cannot help us determine whether my argument is sound.

The The Ad Hominem Fallacy
"Your opinion matches every other drunk I've known, in that you think that you are able to handle yourself behind the wheel."
.... my personal character has absolutely nothing to do with my arguments. I might be a drunk, coke-head, hippie, serial killer, but these character traits have nothing to do with my arguments that drunk-driving laws have the exact opposite effect from what most people believe. Again, the arguments are either sound or they’re not – regardless of whether I am a "drunk." ....

The Circular Argument Fallacy
"We have laws in this country governing driving. Like stop signs. If you break the law by driving through a stop sign, you get a ticket. The same is, and ought to be, true of drunk drivers. They break the law, and should be punished for it."

.... If you want to demonstrate that drunk driving ought to be illegal, then you have to provide an argument to that effect. You cannot simply assume that ought to be illegal throughout your entire argument, because you will be committing a serious logical fallacy. Similarly, you cannot argue that "because it’s the law, that means it’s wrong," because you need to prove to us anti-prohibitionists that it ought to be the law in the first place!

Quod Nimis Probat, Nihil Probat (What Proves Too Much, Proves Nothing)
"Am I to understand that you support WAITING until someone DIES to object to another’s irresponsibility? I find that simplistic, foolish, and unacceptable. The reason I do is that the life lost is irreplaceable!"

The problem with this sort of argument is that it proves far, far too much (in addition to making an irrelevant appeal to emotion). For, this argument could be extended to all aspects of human life, and virtually everything people do would be punished by ruthless laws – regardless of whether people actually hurt anyone .... if the argument were taken to its logical conclusion, every single human action would be punished by draconian laws and jack-booted policemen, since people can, and do, negligently kill other people in virtually every situation where men encounter one another on this planet. ....

19 comentários:

  1. AA,

    bem vindo de volta! É para durar?

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  2. Obrigado Tarzan :)
    Bem as coisas ainda estao complicadas, mas vou ver se consigo fazer algum dumping :)
    Abraço
    Antonio

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  3. António, em Direito Penal chama-se a casos como este "crime de perigo".

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  4. the argument were taken to its logical conclusion... :)

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  5. Declaração de (des)interesses: não atropelei ninguém, nem conheço ninguém que tenha sido atropelado, por estar alcoolizado. Conheço alguém que atropelou outro alguém por (sendo o próprio) estar "ganzado".

    Se entendo a lógica do argumento apresentado, um condutor que passasse um sinal de STOP só seria multado se provocasse um acidente.
    Isso parecer-me-ia bastante mais razoável do que permitir a condução sob o efeito do álcool. Aqui a expressão "sob o efeito" é a chave.

    Conheço várias pessoas que, já incapazes de andar a direito (observado por mim ou assumido pelos próprios), seguem ainda assim para casa, conduzindo o seu carro ou a sua mota. Parece haver uma espécie de suspension of disbelief por parte do condutor.

    Nesse sentido, eu argumentaria que uma pessoa que está claramente e visivelmente incapaz de andar, e que é mandada parar pela polícia por estar a conduzir em zigue-zague, pode e deve ser impedida de continuar.

    Já agora, e se entendo o raciocínio proposto, um condutor alcoolizado poderia prosseguir a sua condução, independentemente de causar vários acidentes ao longo do percurso?

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  6. um condutor alcoolizado poderia prosseguir a sua condução, independentemente de causar vários acidentes ao longo do percurso?

    Caro Aves Raras, podia explicar como chega a essa interpretação?

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  7. Posso pelo menos tentar... :-)

    Se bem percebo, e agradeço que confirme, o conceito proposto é que estar alcoolizado não devia ser suficiente para impedir alguém de conduzir.

    Agora repare que ter um acidente, hoje em dia, também não é! Eu posso causar um acidente porque sou distraído, estou ao telefone, não vi um Stop, ou porque sou nabo. A polícia, se for chamada a intervir, poderá multar-me porque passei o Stop ou porque ia ao telefone, mas irá deixar-me continuar a conduzir!

    Posso, no limite, bater 3 vezes com o carro na mesma viagem, e em todas elas a polícia me deixará continuar a conduzir.

    A minha questão é: Na abordagem proposta, quem está acima do limite de álcool no sangue pode conduzir livremente. E o nosso código não diz que quem teve um acidente deve ser inibido de conduzir. Estou a apenas a somar os dois aspectos.

    Mas estamos a abrir a caixa de Pandora:
    Se eu provocar um acidente, e O OUTRO condutor estiver alcoolizado, quem é que vai ficar inibido de conduzir? Se eu não me der como culpado, é a polícia quem vai atribuir a culpa? É que isso é do fôro dos tribunais, não do fôro da polícia de trânsito...

    Não quero ser intelectualmente desonesto e muito menos insultuoso; parece-me no entanto que estão a propor trocar a liberdade de continuar a conduzir após um acidente pela liberdade de conduzir alcoolizado. Ora eu só bebo o que quero, e quando quero, mas acidentes são isso mesmo - acidentais. Assim sendo, prefiro não trocar uma "liberdade maior" por uma "liberdade menor", diria mesmo que por uma "libertinagem".

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  8. OK Aves Raras, da minha parte desculpas pela resposta seca. É que temos por aqui demasiadas provocações sem pés nem cabeça, e obrigado, este não é o caso.

    O principio é que o simples facto de uma pessoa ter alcool no sangue não é suficiente para ser impedida de conduzir.

    Coisa diferente é a incapacidade de conduzir ser evidente - quando a pessoa nao está em condições, por condução perigosa, ou no seguimento de um acidente provocado - por exemplo.

    Quanto à resolução de acidentes, devem ser utilizadas as regras de trânsito, que regra geral são muito pouco ambíguas.

    No que toca à definição de acidente como algo acidental (ou seja, sem culpa de ninguém), já tenho as minhas reticências.

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  9. Boa noite, AA,
    O que eu digo é que prefiro um limite objectivo estabelecido pela lei, que corresponde a uma medição concreta, do que uma avaliação arbitrária de um polícia de trânsito, que no fundo é o que está a propor.
    E que tal ter limites de velocidade diferentes de carro para carro? Ou ter limites diferentes em função da capacidade do condutor?
    Na teoria seria mais justo, mas na prática acho totalmente inviável.

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  10. Caros Aves Raras,

    Para um único tipo de veículo, esse seria um exercício fútil, pois a segurança depende de muitos outros factores.

    Seja como for, fica por discutir o ponto filosófico principal - a suposta legitimidade do Estado para agir ex-ante.

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  11. Concordo que há de facto muitos factores para além de eventuais excessos velocidade; já tenho escrito sobre isso no meu cantinho.

    Não sei se percebo exactamente qual é o seu protesto; se com a lei, se com a aplicação da lei. Em qualquer dos casos, o que existe não me parece mal.

    Em relação à lei, como já referi prefiro uma métrica objectiva (o "balão") do que uma apreciação subjectiva do polícia que me mandar parar. Quem não bebe (quando conduz) não tem razão para recear o "balão". Já se o valor de 0.5 é adequado ou não, isso não faço ideia.

    Se a sua objecção é ao próprio facto de a polícia mandar parar para soprar no balão, devo dizer que também não me choca. Não me parece que seja ofensivo ou particularmente intromissivo.

    Como digo, acho que o que está, está bem: posso exercer livremente a minha liberdade de beber; posso exercer livremente a minha liberdade de conduzir; fico limitado na minha liberdade de conduzir se tiver bebido de forma substancial.

    As actuações ex-ante do Estado existem, nomeadamente em matéria fiscal (rendimentos presumidos, retenção na fonte, etc), e eu de facto não concordo de todo com elas. Só não penso que seja aqui o caso.

    Considerando que a infracção é a própria condução sob o efeito do álcool, quando uma brigada me confisca o carro por esse motivo está de facto a actuar ex-post. O que eu perceberia como actuação ex-ante seria o estado fiscalizar-me à saída de um restaurante, antes de entrar para o carro, e tirar-me as chaves do carro por eu estar alcoolizado.

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  12. The Circular Argument Fallacy

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  13. Acrescente a Non sequitur falacy, no texto por si citado. Pergunto-lhe se a polícia pode obrigar o velhinho a pôr os óculos para conduzir, depois de ele causar acidentes!

    "[...], chooses to hunt and crucify only drunk drivers, rather than negligent drivers generally. These mothers don’t care about people who are killed through other types of negligent driving? Why don’t they hunt down Grandpa like a wild beast when he kills someone after forgetting to put on his glasses?[...]
    2) drunk driving is not any different than any other negligent action behind the wheel (like driving while tired, angry, senile, or without one’s glasses), and thus ought to only be punished when that negligent behavior harms another person [...]."

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  14. O que quer que lhe diga? Responde às perguntas que me coloca melhore do que eu... quando vai a pormenores de implementação inevitavelmente cai nesses exageros "o que tem o cu a ver com as calças"...

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  15. Vai-me desculpar - ou não - mas não compreendo a sua resposta. Talvez o problema esteja na minha questão.

    O que digo é o seguinte:

    1. O autor diz que o álcool tem muito menos influência nos acidentes do que aquilo que se diz e se pensa. Este é um argumento avassalador a favor da legalização.

    2. Depois, o autor diz que a condução sob o efeito do álcool deve ser permitida, porque outras formas de comportamento negligente também o são.
    Este argumento parece-me ilógico, ou no mínimo de vistas curtas. Conta-se (não faço ideia se é verdade) que Otelo Saraiva de Carvalho, na altura do 25/Abril de 74, visitou a Suécia e ficou muito impressionado com o que viu, tendo afirmado: "Eh pá, isto é espectacular. Vocês conseguiram acabar com os ricos".
    Ao que o interlocutor sueco retorquiu: "Não, nós acabámos foi com os pobres!"

    Duas considerações finais: A implementação não é um pormenor. Sobre isso, (re)leia a visita do Príncipezinho (Saint-Exupéry) ao planeta do Rei. Insisto que não quero que esteja na mão de um GNR decidir se eu estou enfrascado ou não. Sem ofensa, confio mais no balão.

    "o que tem o cu a ver com as calças"
    É sabido que ambos roçam. Desde que inventaram o fio dental, roçam ainda mais. Está tudo relacionado.

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  16. O que o autor diz é que se a proibição da condução "sob o efeito" do álcool se justifica pelo nível de perigosidade, então por coerência, outros factores deveriam ser igualmente reprimidos, o que levaria à imposição de um regime perfeitamente disparatado e inaceitável. Por exemplo, ninguém propõe cassar uma carta porque fulano está a conduzir cansado. É uma redução ao absurdo.

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  17. Penso que estamos de acordo, ao contrário do que parece.

    Beber só deve ser factor inibidor da condução se for ultrapassado um determinado limite.

    No seu caso, que acredita no Estado e nos seus agentes (*), o limite é imposto de forma subjectiva - "[...] quando a pessoa nao está em condições, por condução perigosa, ou no seguimento de um acidente provocado [...]"

    No meu caso, que sou muito mais cínico ou muito mais desconfiado, prefiro que o limite seja objectivo e mensurável.

    (*) Afinal, acabei por cair numa "provocação sem pés nem cabeça". Não resisti... :-)

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  18. Eu preferia que não colocasse palavras na minha boca. Há aqui uma diferença fundamental. Eu sou contra a condução perigosa, o AvesRaras é contra a condução com um determinado nível de álcool no sangue. Se não nos entendemos que são coisas diferentes, é melhor deixarmos de tentar.

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  19. O que eu sou mesmo é contra os danos provocados pelos acidentes, sejam eles devidos ao álcool, cansaço, estado do piso, etc. Penso que a sua preocupação será no mesmo sentido (mas não quero por palavras na sua boca).

    Infelizmente, não temos a capacidade divina de acabar com eles por decreto; resta-nos agir sobre as condições que os potenciam. Ao fazer isso, estamos a limitar liberdades, o que é uma chatice.

    Admitindo que o álcool seja um factor com forte correlação com os acidentes, faz sentido que seja controlado. O que eu digo e mantenho é que é preferível ter um limite objectivo e mensurável do que depender do livre arbitrio de um polícia que vai avaliar as nossas capacidades de forma perfeitamente subjectiva.

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