quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Too much ado about nothing

E eis que Menezes relança a discussão sobre a RTP sem que, mais uma vez, como sempre, toque no que é verdadeiramente essencial. Discutir como deve ser financiada a RTP, se com ou publicidade ou não, bem como discutir como resolver a sua situação financeira, se com ou sem indemnizações compensatórias, não passa de uma mera discussão de gestão. Os vários partidos podem até querer fazer crer que estão a discutir reformas profundas no sector audiovisual ou até que estão a transformar o nosso panorama televisivo. Mas a verdade é que todos estão de acordo no essencial: o Estado deve ter pelo menos um canal de televisão e deve impor, apesar disso, obrigações aos operadores privados.

O que é engraçado é que o facto de andarem todos, há anos sem fim, à procura de uma solução para o elefante branco que é a RTP ainda não os fez perceber, sequer ao de leve, que o problema que ali está não tem qualquer solução satisfatória que não seja, precisamente, a saída do Estado. Até lá, podem todos andar a discutir mais milhão ou menos milhão que a coisa continuará como dantes.

(Des)ordenamento

Zoning and the Subprime Mortgage Crisis por Ilya Somin no The Volokh Conspiracy:

Randal O'Toole has an interesting post rounding up evidence showing that zoning and other government land-use restrictions have played a major role in causing the subprime mortgage crisis. Zoning helped cause the crisis in two ways: by artificially inflating the price of real estate, and by increasing the likelihood of a "boom-bust" cycle in real estate prices.

As Harvard economist Edward Glaeser and UPenn economist Edward Gyourko showed in this 2002 paper, restrictive zoning greatly increases housing prices by artificially reducing the amount of land on which new housing can be built and also by reducing the amount of housing that can be built even in those areas where residential construction is permitted. Glaeser and Gyourko show that zoning restrictions account for a high percentage of the total cost of housing in some of the nation's most expensive real estate markets, such as California and the major East Coast cities. O'Toole's post cites more recent research that supports this conclusion (including his own). Higher housing prices helped cause the subprime mortgage crisis by forcing homebuyers to borrow more money in order to purchase homes of a given size and location. If prices had been lower, so too would homeowner indebtedness. Fewer buyers would be on the verge of default as a result of a market downturn; their debt burden would likely be much smaller relative to their income.

Nonopticon

Vale a pena ler este artigo de Siva Vaidhyanathan, "Naked in the 'Nonopticon'", acerca da nossa privacidade e sobre o big brother state:

When we complain about infringements of privacy, what we really demand is some measure of control over our reputation in the world. Who should have the power to collect, cross-reference, publicize, or share information about us, regardless of what that information might be? If I choose to declare my romantic status or sexual orientation on Facebook, then at least it's my choice, not Facebook's. (...)

What we have at work in America today is the opposite of a Panopticon: what has been called a "Nonopticon" (for lack of a better word). The Nonopticon describes a state of being watched without knowing it, or at least the extent of it. The most pervasive surveillance does not reveal itself or remains completely clandestine (barring leaks to The New York Times). We don't know all the ways we are being recorded or profiled. We are not supposed to understand that we are the product of marketers as much as we are the market. And we are not supposed to consider the extent to which the state tracks our behavior and considers us all suspects in crimes yet to be imagined, let alone committed.

E já lá vão três anos


O Insugente está de volta. Viva a Liberdade. Parabéns.

quarta-feira, Fevereiro 27, 2008

Contras sem Prós

Vi com alguma atenção o Prós & Contras em que Maria de Lourdes Rodrigues enfrentou, com a tenacidade e a capacidade necessárias, toda a restante plateia que, para gáudio geral, se dedicou a ridicularizar e a achincalhar as políticas do governo. Mas não vi, infelizmente, essa tenacidade e capacidade ao serviço de políticas de reforma efectiva do sistema de ensino, as quais levariam, se debatidas no mesmo programa, ao mesmo achincalhar a que assistimos na Segunda-feira. A cada dia que passa é cada vez mais evidente que Maria de Lourdes Rodrigues se prepara apenas para reformar o acessório sem tocar no essencial. E não é disso que precisamos. Por muito que toda uma classe se esmere em perder a razão.

Relevante irrelevância

A entrevista de Luis Filipe Menezes a Ana Lourenço foi pouco mais do que a confirmação da absoluta irrelevância política do líder do PSD. Digo isto medindo claramente as palavras: Luís Filipe Menezes é total, completa e absolutamente irrelevante para o futuro deste país.

Não se trata aqui de apontar erros de estratégia, que todos os políticos atravessam, ou de diagnosticar crises de legitimidade, que todos os políticos enfrentam, ou sequer de indentificar lapsos embaraçosos, que igualmente acontecem aos melhores. Não é nada disso. É muito mais do que isso: Menezes não faz sequer ideia dos problemas e dos desafios do momento e não tem sequer uma sombra de ideia sobre como os enfrentar.

Menezes é de um vazio que constrange. Sobretudo quando vem do único partido que historicamente tem hipóteses de fazer frente a José Sócrates. E é por Menezes, à conta de Menezes e por obra e graça de Menezes que Sócrates lá fica, que os jornalistas o não perturbam e que o povo desculpa a evidente labreguice de casas enfeitadas de azulejos tenebrosos.

terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Okupação

Enquanto Castro sucede a Castro, O Insurgente (Okupado) está online, com propósitos muito claros e revolucionários. Vale a pena passar por lá. E por lá cantar os amanhãs.

Black & White

Não sei quem é Cadi Fernandes, jornalista do Diário de Notícias. Não sei sequer se é pago(a) rotular e catalogar, ao jeito de quem percebe imenso de política, pessoas e partidos. Nem sequer estou muito interessado em saber de onde lhe vem o entusiasmo, nem sequer contido, com que fala de uma tal de bomba lançada por Mário Vargas Llosa ao dizer que não apoia o Partido Popular em Espanha.

Sei apenas, e disso quer saber, para não acabar burro, que aquilo que Cadi Fernandes aqui escreve no Diário de Notícias, certamente por engano não colocada na página de opinião tal é o enlevo e a motivação e a satisfação e a catalogação e a arrumação, revela alguma ignorância e, até, vá lá, alguma limitação na compreensão dos fenómenos políticos. Limito-me a citar o Pedro Marques Lopes que sobre o assunto já escreveu:

Cadi não hesita: Llosa é de esquerda. As posições do escritor sobre o papel do Estado na educação, cultura, saúde, segurança social, as liberdades individuais, o papel do indivíduo, os impostos, a segurança, questões das migrações, para só ditar algumas, não interessam nada. O que conta são os casamentos dos homossexuais e as adopções. O facto do autor peruano dizer que, segundo a sua opinião, são medidas que aumentam a liberdade e os direitos humanos faz Cadi reforçar a sua ideia: Liberdade e direitos humanos, logo esquerda. Sim senhor, estou esclarecido.

segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Sucessões que sucedem

Que Castro sucede a Castro não é coisa de pasmar. Como não será de pasmar o que vai suceder a Castro. É só esperar.

Momento Intimista do Dia

Nada tenho contra a escolha da Academia, sobretudo porque as minhas esperanças eram reduzidas, mas confesso que estou a ficar farto de ver a Laura Linney ser preterida na corrida. Espero não ter que vê-la esperar o mesmo tempo que perdi à espera que o Scorcese finalmente fosse buscar aquilo que lhe era devido.

O resto da noite passou-se bem. Adivinhei, quase sempre ao calhas, 12 dos eleitos, apesar de ter piorado o meu score do ano passado que, sabe-se lá porquê, me deixou crente nos poderes divinatórios. E sim, eu sou dos maluquinhos que perde tempo a ver os Oscares.

Guardiães do Templo

A propósito da Ala Liberal, ou sempre que se fala em liberalismo no CDS, ouvem-se acusações de de desvirtuamento do partido, como se nunca ninguém, desde a sua fundação, ou mesmo nela, tivesse inscrito o liberalismo como linha orientadora do CDS com a mesma dignidade da democracia cristã.

Não me refiro a todos aqueles que discordam do liberalismo ou que lhe apontam reservas e que, com toda a legitimidade (embora pouco acerto) procuram reduzir-lhe a influência nas políticas definidas pelo partido. Refiro-me, isso sim e não é pouco, a todos quantos se sentem no direito e no dever de rotular e classificar aqueles que se inspiram no liberalismo como promotores de uma ruptura histórica no CDS.

Quando a Ala Liberal procura precisamente reforçar essas linhas, convocando-as para uma actualização que é urgente, apenas procura respeitar esse legado que não pode ser negado, traduzindo-o numa alternativa de futuro para o CDS. Alternativa que passa, não pode deixar de ser, pela convivência dessas duas grandes famílias políticas. Trata-se, por isso, de traduzir um futuro que não pretende nem romper nem negar o passado, mas tão só mobilizar os democata-cristãos e liberais de Portugal.

Nada tenho contra aqueles que apenas conhecem a história do CDS de ouvir dizer ou de ouvir ler. Seria no entanto conveniente que antes de fazerem as vezes de guardiães do templo se dedicassem a estudar um pouco mais a coisa. É que, vai na volta, quem tanto se apressa a negar o evidente é quem mais se afasta do respeito pela matriz fundadora do partido.

Autoridade do Estado

Há quem se queixe do autoritarismo do Governo, deste e de outros, que a história não é nova, como se aquilo que o motivasse (se ele existe) fosse algo que pudesse ser combatido com as armas do sistema. Mas a verdade é que o autoritarismo (se ele existe) encontra as melhores condições de exercício num país funcionalizado ao interesse público definido pelo Estado.

Se tudo, absolutamente tudo, diz respeito ao Estado, a quem compete autorizar, licenciar, permitir, ordenar, conceder e outorgar, como pode pensar-se que o autoritarismo é coisa que se resolva com melhores intenções ou, em última instância, com melhores governantes.

Não faço ideia se José Sócrates tem ou não, como dizem ter, tiques de autoridade. Presumo que tenha, como presumo que grande parte dos políticos que sente estar ciente do que é o interesse público o tenham. Mas já não tenho dúvidas de que grande parte dos dirigentes que, efectivamente, todos os dias mexem com a nossa vida, o têm em abundância e o multiplicam diariamente, de cada vez que têm de autorizar, licenciar, permitir, ordenar, conceder e outorgar.

A única forma de combater este autoritarismo, vindo ele se José Sócrates ou vindo, como até me parece mais natural, das várias cadeias de poder da Administração Pública, é precisamente limitar a autoridade do Estado ao que é essencial e reduzir a sua intervenção ao que efectivamente se mostra necessário. Sem esta redução, sem esta mitigação, pode até José Sócrates ser o mais prudente e amistoso primeiro-ministro que sempre haverá quem, em seu nome ou mesmo levianamente, tratará de puxar os seus galões de autoridade.

Sem estarem concreta e correctamente definidas as funções do Estado, não há regras nem normas que impeçam o autoritarismo. Só monstros domesticados podem ser facilmente combatidos. E o Estado que temos, tentacular como só ele, está longe de estar domesticado.

sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

Momento Intimista do Dia


Uma pessoa gosta de tanta coisa, guarda tantos gostos, que acaba por lhes perder a conta. Não falo evidentemente daqueles gostos supremos, que nos comandam os passos e se insinuam mesmo antes de lhes tomarmos, precisamente, o gosto. Falo de todos os outros que fomos coleccionando e colando à memória e que, naturalmente, vão ficando para trás ao ritmo do tempo que passa, ainda que permanentemente afixados nos corredores de nós.

Por isso mesmo, são gostos que reaparecem sem mas nem porquê, convocados por impulsos externos que imediatamente os actualizam na nossa memória. Vem isto a propósito do Simon & Garfunkel que o Francisco Valente d'O Acossado se lembrou de recordar. De uma assentada recupero uma boa parte da minha adolescência na província, passada a desbravar a discoteca da minha mãe, de onde constava, precisamente, o registo do concerto de Simon & Garfunkel no Central Park.

Foi o que bastou para lembrar outros tempos, outras pessoas e até, como se imagina, outras vontades. Nunca percebi, a sério que não, se era muito piroso gostar de Simon & Garfunkel. Mas gosto. Demais até. E se é certo que o trabalho me chama, a verdade é que nada me impede de o fazer ao som do America.

quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Dasex do Dariz

Amanhã volto à Rádio Europa, para o programa Descubra as Diferenças, com o Paulo Pinto Mascarenhas, a Antonieta Lopes da Costa e o André Abrantes Amaral. Os temas propostos são os seguintes:

- A entrevista. Na SIC, o primeiro-ministro esteve igual a si próprio: tudo corre pelo melhor e a crise é uma coisa bem longínqua; criaram-se 97 mil empregos "líquidos"; Portugal é o país das maravilhas. Estamos perante o primeiro acto da campanha eleitoral ou José Sócrates acredita mesmo neste cenário idílico? E onde está a oposição?

- PSD. A liderança é cada vez mais bicéfala entre os sociais-democratas, sendo que cada uma das cabeças fala para seu lado. Luís Filipe Menezes e Santana Lopes discordam no que diz respeito à nova lei eleitoral, e o confronto já é traçado nas capas dos jornais. Até onde pode ir esta vontade de autodestruição?

- Independência do Kosovo: Farão bem os EUA e os chamados "grandes da Europa" em defender a independência do mais novo país do mundo? Será de bom senso afrontar, neste momento, a Sérvia – e a Rússia? Por outro lado, se os timorenses tiveram o direito à independência, porque não o teriam também os kosovares? Portugal afirmou manifestar-se sobre o processo independentista na altura que considerasse apropriada. Uma posição politicamente correcta?

- Cheias na Grande Lisboa: O espectáculo de uma capital europeia que sucumbe a uma noite de intensas chuvadas parece ter demonstrado, uma vez mais, que Portugal não está preparado para enfrentar situações difíceis – e muito menos grandes catástrofes. O ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território diz que a culpa é das autarquias. Será?

E ainda:

- E depois do adeus: a demissão de Fidel Castro abre portas à democracia cubana?

- CML: O Tribunal de Contas chumbou o empréstimo de 360 milhões de euros pedido por António Costa e José Sá Fernandes, criticando o plano de saneamento financeiro "insuficiente" e "mal sustentado". E agora?

Francisco Lucas Pires (1944-1998)


Quem por aqui me lê e, sobretudo, quem no CDS alguma me ouviu, sabe que Francisco Lucas Pires é, sem sombra de dúvida, o meu Presidente do CDS. Quando em tempos, a propósito de um relatório de mestrado de ciência política, me propus escrever sobre a história do CDS, pude confirmar a sensação que já trazia de há muito: a de que se tratava de uma personalidade com invulgar grandeza intelectual, envergadura doutrinal e coragem política.

A ele se deve, permitam-me que, contrariando até os meus hábitos aqui no blogue, me centre essencialmente no CDS, um dos mais ambiciosos programas políticos para Portugal: Objectivo 92 - No Caminho da Sociedade Aberta.

Aí, pela primeira vez em termos claros e precisos, se defende um regresso à pureza do princípio da subsidiariedade, na ordem política, económica, educativa e social e se estabelecem como principais principais metas do país a liberdade da economia, a autoridade do Estado e a mobilidade da sociedade, sendo o Homem considerado como alguém que aspira a uma maior liberdade de alternativas.

A ele se deve, precisamente, num discurso datado de 1979, num Congresso da Juventude Centrista, a evocação do liberalismo como terreno natural do CDS, numa tentativa de superação do paradigma democrata cristão. Não foi uma ideia fácil, como aliás se notou pelas reservas que levantou, nesse tempo, nos sectores mais tradicionais e conservadores do partido, que nunca o viram com bons olhos (os costumeiros guardiães dos valores). O seu discurso, então como hoje, arrojado e com uma vitalidade sem igual num partido tradicionalmente tão cinzento, mereceu grande acolhimento na JC, que o nomeou Presidente Honorário.

Tudo isto a a propósito deste blogue, lançado por ocasião dos 10 anos da sua morte, pelos filhos de Francisco Lucas Pires. Não só mas também porque é uma forme de o homenagear, vale a pena passar por lá.

quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Sarjeta (2)

Diz-se por aí que os jornalistas não podem, atenta a real falta de alternativas ao PS, escancarar em demasia as fragilidades de José Sócrates e do seu governo, sob pena de desgastarmos um governo sem que haja ainda quem tenha capacidade para lhe suceder.

Esta tese é sintomática do país que temos, que prefere insistir na mediocridade e há muito esqueceu a excelência. Se é certo que as alternativas tardam em chegar, não menos certo é que estas só poderão aparecer quando o governo puder ser, de facto, sindicado como foram os governos anteriores. Enquanto andarmos nesta apologia da mediocridade, tudo seguirá como dantes, tal qual o Quartel de Abrantes.

Por outro lado, salvo o devido respeito pelos jornalistas, se há coisa que não lhes cabe, no âmbito do jornalismo e das entrevistas na esfera da política, é sentirem-se Deus, a eles cabendo escolher o momento certo para os portugueses se aperceberem do estado a que chegou o Estado. Evidentemente que existe, deve existir, da sua parte, um sentido de oportunidade jornalístico. Mas não é disso que estamos a falar, ou é?

Contas bem feitas

Aquando da sua nomeação para o Tribunal de Contas, fui dos que se recusou a encarar Guilherme d'Oliveira Martins como um comissário político do PS num órgão de suprema importância. Não nego que, por parte de quem o nomeou, houvesse tal tentação. Mas olhando para o seu perfil e, até, para a postura da sua carreira governativa (falo da postura, não propriamente da ideias que defendeu ou das propostas que ostentou), pareceu-me logo que a intenção do Governo em ter um comissário no Tribunal de Contas ia esbarrar na seriedade de Guilherme d'Oliveira Martins.

E a verdade é que os factos aí estão. Desde o Relatório de auditoria aos Gabinetes Ministeriais até, por exemplo, ao chumbo do empréstimo chorado por António Costa, o Tribunal de Contas tem desempenhado o seu papel sem estar enredado em lealdades partidárias. Seria bom que pudesse dizer-se o mesmo de Constâncio, por exemplo.

Males que vêm por bem

Agora que Tribunal de Contas chumbou a proposta de empréstimo aprovada, a muito custo e sob muitas pressões, é tempo de vermos, como muitos o já referiram, se António Costa é ou não um bom Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Como qualquer dona de casa que tem apenas de gerir o que tem, António Costa terá de largar os amanhãs que prometiam cantar com o dinheiro jorrando do empréstimo para, verdadeiramente, governar. E isso faz-se elencando prioridades e hierarquizando problemas. É nesse momento, nessa hora de escolher, com o pouco que se tem, o que deve ser feito, que se vê a fibra e a capacidade de um político.

É por isso hora de saber se os concursos de ideias e as mudanças de logótipos e outras coisas que tais se vão manter na agenda da Câmara ou se, pelo contrário, são os lisboetas que vêm em primeiro lugar.

Por outro lado, é tempo de cada gestão autárquica deixar de pensar que pode fazer o que quer o que lhe apetece e que há sempre dinheiro pronto a entrar para cobrir os excessos. E isto vale para todos os partidos, sem excepção, que nos últimos 20 anos têm governado a Câmara. Só este clima de responsabilização permitirá qualificar a governação da cidade. A ver vamos se isto está para ficar.

Mudo

Estranhamente, ou talvez não, O Insurgente está fora do ar, não sei se por acaso se por vontade alheira de silenciar os liberais ventos que por lá sopravam. Aguardemos pois. A mim ninguém cala. E o povo é sereno.

terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Momento Intimista do Dia

Já uma vez aqui disse que Stephen Sondheim é um dos letristas e compositores que mais admiro. Vai daí que tive de ir ver o Sweeney Todd do Tim Burton, certo e confiante de que a coisa não ia desiludir-me. E, até certo ponto, isso foi verdade. A composição cénica de Burton não desmereceu, antes pelo contrário, a história e a partitura, atribuindo-lhe até uma adicional e gratificante morbidez onde o musical se perdia em algo parecido com humor negro que, não faltando no filme, foi devidamente contextualizado.

A desilusão veio apenas de uma actriz que, sinceramente, nunca pensei ver desiludir-me, a quase sempre excelente Elena Bonham Carter, que acompanho desde, se a memória não me falha, o Room with a View. Não que ela vá mal ou de, de alguma forma, interrompa o filme. Apenas acho que lhe faltou a subtil malvadez, não perdida no humor, que tanto Angela Lansbury como Patti LuPone tão bem souberam encarnar no musical. De tal forma que a sua decisão quanto ao destino a dar ao miúdo surge quase descontextualizada.

Ainda não consegui arranjar tempo para escrever sobre o Into the Wild, do Sean Penn, de que tanto gostei. Talvez porque este senhor se tenha antecipado e me tirou a pica inicial. Esperemos por um ataque de vontade.

Já vai tarde

Com um atraso de décadas, e muitas vidas perdidas depois, Fidel comunica enfim que no aspiraré ni aceptaré- repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe. Ainda sabe a pouco. Mas não tardará a saber a alguma coisa que seja mais parecida com a liberdade de escolher como viver.

Se os tempos fosse outros, dir-se-ía que estava a empalidecer a última esperança de alguma da nossa esquerda. Mas os ventos da América Latina não nos permitem essa conclusão. Há sempre novos amanhãs a cantar a música que levou à morte de tantos ontens.

Sarjeta

De uma coisa temos a certeza. É que terminada a entrevista a José Sócrates, o Ministro Santos Silva desligou o televisor com o sabor a triunfo de quem acabou com o jornalismo de sarjeta.

segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Interesse nacional? Naaahhh! (2)

Quem ouve falar, com tanto vigor e calor, da separação entre Estado e a Igreja até pode ficar a pensar, assim de repente, que é apenas da Igreja, instituição que todos conhecem e que à vista de todos está, que o Estado tem de separar-se.

Como se o único problema do Estado fosse, afinal de contas, um excessivo peso da Igreja na reivindicação dos seus interesses e não, de forma bem mais geral, um excessivo peso de vários interesses privados que fazem do “interesse público” uma anedota.

E a verdade é que, de cada vez que se indignam com tal peso da Igreja, os tão socialistas mais não fazem do que reconhecer a falência do modelo estadual que temos. Se o Estado é incapaz de proteger o interesse geral em nome das pretensões da Igreja, para que queremos nós o Estado?

A não ser, claro está, que o problema central esteja não na permeabilidade do Estado e, isso sim, na identidade daqueles que o influenciam, tudo se resolvendo se, com triângulos e compassos à mistura, alterarmos a composição de forças dos que verdadeiramente influenciam as políticas públicas. E isto para que, com notável passividade, se continue a achar normal que, como em tempos confessou o pai do SNS, as grandes reformas sejam discutidas em organizações secretas antes de chegarem ao Conselho de Ministros.

Tenho para mim, como tantas vezes já aqui disse, que o problema está na inevitável (e até natural) permeabilidade do Estado. Problema que só se resolve diminuindo o Estado. Ponto final.

sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Meio tempo

Parece-me cedo demais para fazer balanços sobre os efeitos da (má) regulamentação resultante da revisão do Código Penal sobre a IVG. Mas nada obsta a que esses balanços se façam, ainda que lhes conteste a utilidade. De um lado e do outro, continuam bons e péssimos argumentos. Os bons argumentos, de um lado e do outro, mantêm actualidade e, quer-me parecer, vão mantê-la durante muito tempo. Os péssimos argumentos, frequentemente os primeiros e mais sonoros, de ambos os lados, continuam a ser absolutamente irrelevantes para a análise dos efeitos da lei, ainda que seja a esses que, de um lado e do outro, as pessoas mais gostem de se agarrar.

quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

E ainda é capaz de as anunciar mais uma vez

Imerso na falta de medidas, o Governo vem anunciando medidas recicladas, já anunciadas anteriormente, tentando fazer passar a ideia de que é algo novo de que se trata. Nem de propósito, José Sócrates ontem anunciou no Parlamento a construção de mais 75 creches, como se fosse coisa nova acabadinha de aprovar. Esqueceu-se, claro está, de que essas 75 creches mais não são do que a conclusão do Plano Nacional de Emprego 2005-2008, há muito anunciado...

Memória curta

Pois que a ASAE apreendeu carne estragada e não sei quê. Tudo muito contente a dizer “estão a ver, estão a ver, a ASAE só está a tratar do que é bom para nós” como se, de facto, esta apreensão não resultasse do aparente redireccionamento da ASAE para o essencial depois de escancarada a sua sanha contra o acessório.

Em vez de se sentirem ludibriados por todos aqueles que denunciaram, e denunciam, os evidentes excessos da ASAE, os agora ufanos amantes da ASAE deveriam era agradecer-lhes pelo facto de a ASAE parecer, apenas parecer, disposta a centrar-se na fiscalização do que importa: a comercialização de produtos cujo estado contraria a informação prestada ao consumidor.

Pois que foram as intensas e extensas críticas que lhe foram dirigidas que permitiram concluir pela necessidade de controlar quem controla. Esquecer isto é deixar que tudo volte ao descontrolo inicial.

Preocupante lista

Retirada do Blasfémias:

quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Momento Intimista do Dia


Umas das melhores cenas que vi nos últimos tempos, retirada do Free Zone, com uma extraordinária Natalie Portman, muito cá de casa, a chorar convulsivamente ao som da Chava Alberstein a cantar Chad Gadia. Esta canção, que faz mesmo parte da banda sonora do filme, assenta no Hagadah, o livro que os judeus anualmente lêem na Páscoa, antes de comer, e que conta a história do êxodo do Egipto, termina precisamente com a letra desta canção. A primeira parte da canção, cujo título traduzido à letra significa “um cordeiro”, corresponde à tradução para hebraico moderno do original aramaico do livro.

O resto da letra foi já adicionado pela cantora, dando-lhe uma conotação política, e assumindo-a como um protesto quanto à política externa de Israel. A história do cordeiro apela, precisamente, para o círculo vicioso do conflito no Médio Oriente (quem começou primeiro, quem por cá estava antes, quem atacou em primeiro lugar…). A canção, que data do final dos anos 80, chegou mesmo a ser temporariamente proibida pelo governo de Yitzhak Shamir.###

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Kana avinu gdi bishney zuzim,
Kach mesaperet hahagadah

Uva hechatul vetaraf et hagdi,
Gdi katan, gdi lavan
Uva hakelev venashach lechatul
Shetaraf et hagdi she'avinu hevi

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Ve'ey mi ze hofia makel gadol
Shechavat bakelev shenavach bekol
Hakelev shenashach et hechatul
Shetaraf et hagdi she'avinu hevi

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Ve'az partza ha'esh vesarfa et hamakel
Shechavat bakelev hamishtolel
Shenashach lechatul shetaraf et hagdi
She'avinu hevi

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Uva'u hamayim vekibu et ha'esh
Shesarfa et hamakel shechavat bakelev
Shenashach lechatul
Shetaraf et hagdi she'avinu hevi

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Uva hashor veshata et hamayim
Shekibu et ha'esh shesarfa et hamakel
Shechavat bakelev shenashach et hechatul
Shetaraf et hagdi she'avinu hevi

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Uva hashochet veshachat et hashor
Sheshata et hamayim shekibu et ha'esh
Shesarfa et hamakel shechavat bakelev
Shenashach lechatul shetaraf et hagdi
She'avinu hevi

Uva MAL'ACH HAMAVET veharag et hashochet
Sheshachat et hashor sheshata et hamayim
Shekibu et ha'esh shesarfa et hamakel
Shechavat bakelev shenashach lechatul
Shetaraf et hagdi she'avinu hevi

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Uma pit'om at shara 'Chad Gadia'?
Aviv od lo hegia uPessach lo ba

Uma hishtana lach, ma hishtana?
Ani hishtaneti li hashana

Shebechol haleylot, bechol haleylot
Sha'alti rak arba kushiyot
Halayla haza yesh li od she'ela
Ad matay yimashech ma'agal ha'eima?

Halayla haze yesh li od she'ela
Ad matay yimashech ma'agal ha'eima?
Rodef venirdaf, make umuke
Matay yigamer hateiruf haze?

Uma hishtana lach, ma hishtana?
Ani hishtaneti li hashana

Hayiti pa'am keves ugdi shalev
Hayom ani namer uze'ev toref
Hayiti kvar yona vehayiti tzvi
Hayom eini yoda'at mi ani...

Dezabin abba bitrey zuzey
Chad gadia, chad gadia

Kana avinu gdi bishney zuzim
Shuv matchilim mehatchala...

A ler...

Será que ouvi bem o PGR dizer, a propósito do "Apito Dourado", que a mera existência do processo, seja qual for o resultado, é já "positiva" e já "teve resultados"? Isto é completamente absurdo sob todos os pontos de vista e péssimo para o ambiente que já se vive em Portugal. Primeiro, porque podemos passar a ter processos desencadeados com intenção exemplar, funcionando para culpabilizar alguém junto da opinião pública, mesmo sem decisão judicial de culpa, apenas porque o Ministério Público tem uma agenda punitiva contra A ou contra B. Depois, porque é absurdo pensar que, se processos sobre processos chegam a tribunal e ficam pelo caminho, ou porque as pessoas foram injustamente acusadas, ou porque a instrução foi deficiente e negligente; que isso possa contribuir para qualquer outra coisa que não seja o aumento da sensação de impunidade e de ineficácia da justiça. O que parece é que o PGR não tem confiança na solidez da instrução do "Apito Dourado" ou não acredita na justiça...
Pacheco Pereira no Abrupto

segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

E cresce, cresce, cresce...

Cameron wants a home nurse for every mum in new 'family-friendly' plan no Daily Mail:


Mothers could be offered the help of a daily maternity nurse in the first week after birth under a radical plan being considered by David Cameron. The Tory leader will today try to dispel fears that he is stalling in the polls by unveiling an ambitious manifesto for improving the lives of children.

He told the Daily Mail that he was determined to help middle-class parents struggling to cope with the pressure of "ferrying" youngsters about because streets are not safe.

O futuro do passado

Fala-se muito por aí de uma chamada ala esquerda do PS. Ou ala socialista. Ou consciência ideológica. E que está cheia de vigor. E quem tem a maioria na mão. E que mete medo. E que é a verdadeira força da oposição a José Sócrates. Não sei onde é que vão buscar todos estes epítetos, ainda que venham todos devidamente embrulhados no já banal embevecimento jornalístico por tudo quanto mexa pelas bandas da esquerda vencida da vida.

Se esta ala esquerda fosse um sinal de futuro, se fosse mesmo uma alternativa, se tivesse mesmo um programa, se conseguisse oferecer mais do que poesia ao país, não era Manuel Alegre mais uns quantos deputados ou dirigentes do PS, quase todos, curiosamente, esquecidos na oferta de cargos, que estava na liderança. Seria, isso sim, uma nova geração de políticos, que não existe nem se vê por aquelas bandas, a afirmar um novo programa e a actualizar a esquerda ou o socialismo. Teríamos novos nomes apresentando novas soluções assentes em trabalho desenvolvido e estudado e ponderado.

Mas não é nada disso que temos. O que há é Manuel Alegre a dizer que o país não está bem. E que há pobreza nas ruas. Ora muito obrigado. Isso toda a gente sabe. É que não deixa de ser curiosa esta absoluta falta de exigência para com este movimento liderado por Manuel Alegre. De todos quantos se arrogam apresentar alternativas ao governo, Manuel Alegre é o único que não tem de apresentar estudos, nem números, nem programas, nem ideias, nem soluções.

Se este é o futuro do PS, é bom que se encomendem as exéquias. Se é disto que tem medo José Sócrates, tragam a coleira, que o animal feroz já foi domesticado.

quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

Ideia peregrina*

E eis senão quando, já tardava é certo, chegou, não só mas também através de Vital Moreira, a peregrina ideia de que o jornalismo de investigação se deve abster de analisar o passado pessoal e profissional dos políticos antes de o serem. Mas para além de peregrina, a ideia é desonesta, oportunista, parcial e autoritária.

Desonesta porque as notícias vindas a público têm que ver com a vida profissional e não pessoal (acaso estivessemos a falar de vida pessoal a questão colocar-se-ia, embora de forma diferente) e porque impede que o perfil técnico e profissional de um político, neste caso José Sócrates, seja visto pelos portugueses tal como ele é e foi, reduzindo a percepção do eleitorado à imagem que dele projectam as agências de comunicação a que, enquanto político, tem acesso.

Oportunista porque parece esquecer as constantes reportagens que nos oferecem fotografias do inter rail de Sócrates, da vida boémia de Sócrates, da professora primária de Sócrates, dos concertos de Sócrates, dos namoricos de Sócrates e do primeiro carro de Sócrates.

Parcial porque parece esquecer que alguns políticos em Portugal são actual e constantemente confrontados com opiniões emitidas no seu passado prévio à política. E não, Paulo Portas não é o único exemplo disso.

Autoritária porque oferece um critério jornalístico que escapa à auto-regulação da profissão. Coisa que, como já se sabe, costuma provir de regimes pouco dados à liberdade de expressão.
*editado

As aparências (não) iludem

Desde sempre que, neste pequeno país de brandos costumes, a aparência conta mais do que a essência o que equivale a dizer, claro está, que não conta o que se diz nem o que se faz mas quem o diz ou quem o faz.

É ponto assente que alguns podem dizer o que lhes vai na real gana, que sempre o respaldo elitista lhes salva a face. Podem até fazer acusações sem provas, denegrir pessoas, difamar instituições ou pregar mentiras que sempre haverá quem lhes elogie a atenção cívica, a preocupação social ou frontalidade livre.

Mas outros há, que não vêm das mesmas casas de chá, que não frequentaram os mesmos liceus e, imagine-se, que não conhecem as mesmas pessoas. E esses tais, alienados das teias com que se enfeita o regime, são crucificados de cada vez que abrem a boca para dizer o mesmo, ou até muito menos, que aqueles que tudo podem.

Como acontece, por exemplo, com o actual Bastonário da Ordem dos Advogados, pessoa de quem, aliás, tanto discordo, que tem levado reprimendas de uns quantos que muito pior, pela frente e pelas costas, andaram a dizer e a fazer. Quem mais tem criticado o actual Bastonário, e ele merece bastantes críticas, é precisamente quem menos autoridade teria para as fazer se vivessemos num país de essências e não de aparências.

Pergunta do Dia

Vale a pena ser socialista? de André Abrantes Amaral n'O Insurgente:
Quando o Estado fecha unidades de saúde no interior do país, deixando à sua sorte quem mais precisa, apenas para permitir à classe média (que tem a maioria dos votos), o acesso gratuito aos hospitais públicos, é caso para perguntar se ainda vale a pena o socialismo.

2 anos a cortar fitas

Muitos parabéns, pois!

Os do menage têm outra casa...

quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

Momento Intimista do Dia

Espingardar contra a ASAE é, agora, desporto nacional, com tantos ou mais praticantes que a imperial+tremoço. Nada contra, já que o pratico diariamente, com parcimónia, dedicação e afinco. Seria no entanto conveniente que alguns dos mais acérrimos praticantes do dito desporto deixassem, aliás em coerência com o desporto de que se afirmam praticantes, de ameaçar com a ASAE de cada vez que pretendem chantagear um fornecedor de serviços. Entrar num restaurante a dizer mal da ASAE e sair de lá a ameaçar telefonar à dita cuja porque o bife veio mal passado é coisa, no meu quadro mental, que não liga muito bem.

Eleitorado revelado

Os notáveis resultados de Ron Paul são um sinal de esperança para todos aqueles que acreditam num discurso que aponte as virtualidades da redução do Estado, não por motivos de falência económica, embora também, em consequência, por eles, mas sobretudo por motivos que têm que ver com o gozo e fruição das liberdades individuais.

O discurso de Ron Paul, com o qual, aliás, nem sempre concordo, oferece uma mudança de paradigma. Verdadeiramente, se alguém apresenta uma reforma estrutural e um plano de mudança é ele. Os restantes limitam-se a gerir o que existe e a propôr mudanças sem sair, precisamente, do que já existe ou foi tentado.

A vitória de Ron Paul está, essencialmente, no caminho que abriu. Nas pistas que introduziu. No eleitorado que revelou ao Mundo. O tal lunático e lélé da cuca que não passava de um candidato marginal revelou-se, afinal, um dos principais candidatos, inclusivamente um dos homens que mais atenção mediática logrou , conseguindo arregimentar muitos mais votos do que alguma vez alguém imaginaria.

A revelação deste eleitorado foi uma surpresa para todos. Até para os próprios votantes de Paul que, como muitos afirmam, nem sequer imaginavam identificar-se com o ideário liberal, pela simples razão de que nunca tinham escutado ninguém a expô-lo, de forma coerente e sistematizada.

É esta revelação que está por fazer na Europa, haja pessoas com coragem suficiente para arcar com o epíteto de lélé da cuca.

A ler

A quem lhes fez as orelhas, pelo Helder n'O Insurgente:
Se o Manuel Carvalho soubesse o que é estar dois anos à espera de um reconhecimento de dívida, mais três à espera do inicio de um processo de execução e outros cinco até perceber que não tem maneira de receber coisa nenhuma; se tivesse um empregado que lhe desaparece durante um ano e ao fim de esse tempo lhe mete um processo no Tribunal de Trabalho e a sentença obriga à reintegração mais ao pagamento sei lá de quanto; se ao fim de um primeiro contrato de seis meses ao não renová-lo a um imbecil ainda lhe tivesse que pagar o equivalente a três ou quatro salários; se soubesse que pode estar doze (doze!) anos à espera de um alvará; se soubesse o que é o Pagamento por Conta, o PEC, o Imposto Autónomo, a Derrama, o Imposto de Selo, o IVA, o ISP, a TSU e as toneladas de taxas e taxinhas que os empresários anacrónicos e analfabetos pagam e mesmo assim contratam esses seres raros e absolutamente extraordinários que são as pessoas que procuram trabalho (não emprego); se tivesse a mínima ideia do que é a Logística, a Tesouraria, um Balanço, uma Conta Corrente, Juros, Factoring, prazos, dívidas, etc se soubesse o que é nunca saber que alteração vai fazer o Estado ao Sistema Fiscal, feito por canalhas para canalhas, no ano seguinte; se soubesse que o empresariado anacrónico e analfabeto não se esgota nas empresas do PSI-20 e, muito especialmente, nas controladas pelos Estado; se a caixa onde põe o chapéu tivesse um cérebro lá dentro, talvez tivesse dois dedos de vergonha e olhasse para cima quando diz tais alarvidades.

segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

Momento Intimista do Dia

Tenho temperatura de morto, o que é bom quando preciso de me fazer de morto, ou seja nunca. Estou sempre gelado, pés e mãos congelados e mais não sei o quê do coração quente. E qualquer temperatura de 37º me deixa febril, corpo magoado, vontade de me transformar num qualquer vegetal. Aliás, todos sabemos como um homem se vem abaixo com febre, não vale a pena descrever a imagem deprimente de um homem com gripe. E sim, já sei, não vale a pena dizer que se um homem tivesse que passar pelas dores de parto morreria e trinta por uma linha e somos uns fracos. Adiante.

Passei o fim-de-semana em decadente estado vegetativo, chá de limão (sempre limão) a ferver, torradas soterradas de manteiga, manta castanha a fazer "pandân" com o sofá laranja e ar de peixe morto. Tudo teria sido para esquecer não fosse eu ter o melhor amigo das gripes, aquele instrumento que veio revolucionar a arte de pastelar em casa: o DVD. E eis que uma gripe, ainda não curada, pode ser um excelente pretexto para ser feliz.

O favor de nos governar

Não deixa de ser sintomático que algumas almas, enlevadas pelo poder que ostentam, se deixem convencer que mais não fazem do que um favor ao estarem a comandar os destinos da nação. Desde Salazar que a moda pegou. Tom cinzento, cara macilenta e expressão de pesar enfeitam a pose de quem sacrifica a sua felicidade para fazer aos portugueses o favor de os governar, esquecendo-se da suposta natureza da função governativa e da relação de eleição que deve estabelecer-se entre eleitos e eleitores.

As reacções de José Sócrates às notícias publicadas a respeito dos projectos por si alegadamente assinados nos anos 80 são fruto desse espírito salazarento de quem acha que as funções governativas o elevam acima de qualquer crítica. Chegará o dia em que, como no caso da sua licenciatura, José Sócrates dirá, com ar encolhido, que as dúvidas dos jornais são, afinal legítimas, como que pedindo desculpas pela sobranceria utilizada.

domingo, Fevereiro 03, 2008

the most popular fallacy of our times

Uma mensagem de Bastiat aos socialistas dos nossos tempos — de esquerda, de direita e "liberais":
It is not considered sufficient that the law should be just; it must be philanthropic. Nor is it sufficient that the law should guarantee to every citizen the free and inoffensive use of his faculties for physical, intellectual, and moral self-improvement. Instead, it is demanded that the law should directly extend welfare, education, and morality throughout the nation.

This is the seductive lure of socialism.

Frédéric Bastiat, The Law

sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

O erro de Sócrates

A partir do momento em que José Sócrates assumiu a autoria dos projectos realizados nos anos 80 enquanto engenheiro técnico relatados pelo Público, a questão desloca-se ligeira, mas perigosamente, para um plano diferente. Não estamos já no terreno pantanoso de alguém permitir a outrem cometer uma brutal ilegalidade mas sim no de saber se o primeiro-ministro fala ou não verdade.

José Sócrates deveria ter resistido a esta tentação. A investigação passa agora a ter como objectivo confrontar o primeiro-ministro com afirmações que fez nessa qualidade. E tudo o que José Sócrates não precisa é de investigações ao seu passado como engenheiro técnico.

Que ele tenha aposto a sua assinatura, há décadas, como é prática comum (o que aliás diz muito sobre essa coisa de “nem pensar ter privados a licenciar projectos que isso ia ser uma corrupção desbragada”) em projectos alheios, é coisa que o tuga ainda se apressa a perdoar, como perdoou a fanfarronice de se fazer passar por engenheiro. Foi há décadas, o homem nem sonhava vir a ser primeiro-ministro, era ingénuo, o país não dava oportunidades…

Mas neste momento a coisa já se deslocou para afirmações do primeiro-ministro que, hoje, agora, assume com todas as letras que foi ele que o fez os projectos em causa. E isso é o que vamos ver.

Regicídio (2)

As versões alternativas da História são insindicáveis. Ainda que eventualmente assentes em factos ou acomodadas em teorias sustentadas, elas vivem no domínio da fé.

E ainda que não tenha muitas dúvidas, de fé, de que a História de Portugal poderia ter sido diferente, para melhor, se a monarquia tivesse persistido, a verdade é que a nossa História do Século XX é tão portuguesa, tão típica de nós, tão galo de Barcelos estampado em cada um dos anos, que não consigo aderir à tentadora ideia de que nos roubaram em 1910 um país, um futuro, um destino.

Regicídio (1)

O assassinato de um Chefe de Estado não é coisa para atirar para debaixo do tapete, como se fosse um pormenor da história ou, até, coisa insusceptível de provocar num povo a comoção ou o desalento.

Mais do que isso, um facto histórico, seja ele qual for, e por maioria de razão o assassinato de um Chefe de Estado, não pode ser sujeito a visões unidimensionais, a versões oficiais, a decretos interpretativos. Como se Portugal tivesse nascido em 1908 ou 1910. Como se para estarmos hoje aqui não tivessem quatro dinastias que ter reinado.

Deixem por isso que sejam os portugueses a decidir o quê e quem devem evocar e celebrar. Confiram-lhes a liberdade de pugnar pelo regime que preferem, pela a forma de estado que mais gostam, ou pelo sistema de governo que acalentam.

E deixem o Estado fora disto. Uns e outros. Que o Estado é de todos, logo é dos republicanos como eu e dos monárquicos como muitos que existem. Uns e outros devem poder celebrar e evocar sem terem que meter fanfarras estaduais e dinheiros públicos.

Dasex do Dariz

Pois que volto ao Descubra as Diferenças, da Rádio Europa (90.4), com a Antonieta Lopes da Costa, o Paulo Pinto Mascarenhas e o André Abrantes Amaral. O guião dos temas e mais pormenores está no Jazza-me Muito.
O programa pode ser ouvido hoje, às 19:00. Mas vai ser repetido no Domingo, dia 3 Fevereiro, às 11:00 e às 19:00. Como sempre, a emissão também está disponível online em www.radioeuropa.fm ou através da powerbox da TV Cabo.