terça-feira, dezembro 30, 2008

Primeira Página


No dia a seguir à intervenção presidencial que arrasou com a Assembleia da República e, implicitamente, com o Governo, o DN achou por bem apresentar a primeira página que se vê em imagem.

Consumo de cigarros baixou entre 10% e 15% é a grande manchete do dia, bem mais importante, já se imagina, do que o fim da cooperação estatégica entre Belém e São Bento.

A grande foto vai para o aniversário da Revolução Cubana, também ela muito mais importante do que a alteração política ocorrida ontem. Mas não só. Presume-se que o aniversário da coisa é mais importante, em termos internacionais, do que aquilo que está a passar-se em Gaza.

Estas escolhas editoriais dão bem conta do estado de coisas. Mas já agora, já que o destaque é mesmo o consumo de tabaco, que tal esclarecerem se Sócrates se decidiu a cumprir aquilo que prometeu aos portugueses?

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Saco Roto (2) (AA)

O Presidente da República Sampaio dissolveu a Assembleia por considerar que o Governo tinha perdido capacidade de governar. Não deixou os motivos registados para escrutínio futuro, nem se deu ao trabalho de os explicar. Assumiu que eram conhecidos de todos, e em bom 'sampaiês' o disse. Foi alvo de estupefacção — mas pouca consternação— que o Presidente da República tivesse assegurado o país que não tinha motivos de queixa da mesma A.R. que acabava de mandar para os livros de história.

Hoje o Presidente da República Cavaco Silva declarou desleal a acção da Assembleia da República e absurda a lei que se viu obrigado promulgar. Foi o discurso mais forte que se ouviu de Belém desde que Soares por lá passou. Noutras palavras, Cavaco considera acção da A.R. desonesta e grotesca. Nem uma palavra dirigiu ao Governo - de facto, o pouco que disse na essência iliba o Governo de críticas, no espírito da separação de poderes que invocou nesta inédita comunicação.

É incoerente a acção com as palavras. Em lógica, esperava-se ouvir "obviamente, dissolvo-a". Não ficou dado o mote, mas depreende-se o que se segue. Cavaco esperará da Assembleia da República o cumprimento das suas funções institucionais. Isto implica a avaliação do próximo Orçamento de Estado, sobre o qual o Presidente já opinou. Ora, uma maioria absoluta da A.R. é incapaz de executar uma fiscalização independente de um documento emanado do Governo. O mesmo se aplicará a todas as medidas que até agora eram assinadas de cruz pelos deputados da maioria. Dito de outra forma, por hoje só a oposição parlamentar foi dissolvida pelo Presidente da República.

Saco roto

As acusações pouco implícitas de Cavaco Silva não se destinaram apenas ao Governo, embora nele encontrem grande parte do seu eco, mas foram igualmente dirigidas aos deputados, que supostamente lá estão para pensar no interesse nacional e, já agora, pela sua cabeça. E são acusações graves, que aconselhavam um pouco mais do que um saco roto.

Na verdade, não é suposto, ou não deveria sê-lo, que tudo fique na mesma depois de o mais alto magistrado ter vindo falar em “precedente muito grave”, que “abala o equilíbrio de poderes e afecta o normal funcionamento das instituições da República” e que é “o superior interesse do Estado português” que está em causa. Note-se, para que se alcance a dimensão, que o Presidente considera que a “qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés”.

O Presidente da República acusou os deputados de permitirem que os “interesses partidários de ocasião se sobrepusessem aos superiores interesses nacionais”, e de terem preferido algo que “abala o equilíbrio de poderes e afecta o normal funcionamento das instituições da República” e que sujeita estas instituições à “contingência da legislação ordinária”.

Mas se é assim que Cavaco classifica o Governo e os deputados (e note-se que os vê amarrados a interesses partidários de ocasião que se sobrepõem aos superiores interesses nacionais), então seria bom que os destinatários destas críticas se sentissem e viessem dizer que são filhos de boa gente.

Para que não continuemos na mesma hipocrisia do costume, só posta de lado para falar do Santanismo. Para que os portugueses saibam ao certo que interesses andam a ser defendidos ali para os lados de São Bento.

Curiosidade do dia

É curioso que, perante a forma como interpretou a conformação legal do Estatuto dos Açores e, sobretudo, a sua confirmação pela Assembleia da República, Cavaco Silva tenha vindo dizer que fez tudo ao seu alcance para contornar esta absurda solução legislativa. Curioso porque não é verdade.

Paradoxo do dia

A intervenção de Jorge Sampaio aquando da dissolução da Assembleia da República foi bem mais branda do que aquela que hoje ouvimos a Cavaco Silva. E não se trata, sequer, de questões de linguagem, já que o actual Presidente não é propriamente conhecido por ter a língua destravada.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

A tradicional preguiça da direita

O actual sistema partidário não reflecte as tendências do eleitorado, de que deveria ser um espelho. E é isso que determina o processo de modificação partidária a que agora se assiste. A esquerda já o percebeu, logo ela que, apesar de tudo, vai dando conta de várias alternativas. A direita continua, como sempre, a achar que astas modificações são questões palacianas, logo ela que anda há anos a beber da mesma fonte que os socialistas europeus.

Arrefecimento Global

Global cooling is here, por Deroy Murdock:
"Global Warming is over, and Global Warming Theory has failed. There is no vidence that CO2 drives world temperatures or any consequent climate change," Imperial College London astrophysicist and long-range forecaster Piers Corbyn wrote British Members of Parliament on Oct. 28. "According to official data in every year since 1998, world temperatures have been colder than that year, yet CO2 has been rising rapidly." That evening, as the House of Commons debated legislation on so-called "global-warming," October snow fell in London for the first time since 1922.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Chumbo do Tribunal de Contas

O Tribunal de Contas confirmou hoje o chumbo ao empréstimo umas centenas de milhões de euros que a Câmara de Lisboa (CML) queria contrair junto da Caixa Geral de Depósitos. De acordo com o Tribunal de Contas, o "plano não permite concluir e garantir que o saneamento financeiro é realizado e mantido até ao termo da vigência da operação".

Mas de acordo com o jornalista da Lusa (ele mesmo, que não há qualquer citação a retirar-lhe a autoria), e que pelos vistos sabe muito mais do que o Tribunal de Contas, "era fundamental que a Câmara de Lisboa conseguisse ver aprovado este Plano de Saneamento Financeiro a fim de poder pagar as seus fornecedores e evitar que o município fique paralisado".

Temos pois que, de acordo com o jornalista da Lusa, sem este plano, é o caos. E que o mau da fita é o Tribunal de Contas, que não aprovou, ou o mandato anterior, que criou o problema. Que o plano de saneamento seja mau, incoerente ou ineficiente, é coisa que, pelos vistos, não interessa à Lusa.

Homem de valores

Há sempre quem venha em nome da família. A esses, peço sempre que comecem por tratar da família deles. Quando tiverem o seu trabalho terminado, estaremos em condições de saber se podem tratar da minha. Até lá, e é um lá que nunca se alcançará, cada um vive na sua.

O custo da irrelevância (2)

Não se compreende, sob o ponto de vista de um mandato nacional, que todos os deputados se proponham, mais uma vez, confirmar o desastrado Estatuto dos Açores. Todos os motivos que existem para o fazer, e eles existem, deviam ser de imediato descartados por não merecerem qualquer segundo de atenção. Mas é este o nosso parlamento. E depois vêm falar de afastamento dos cidadãos e mais trinta por uma linha.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Um partido a mais

É natural que Pedro Passos Coelho venha alertar o PSD para os perigos de deixar José Sócrates ocupar o espaço natural dos social-democratas, sobretudo num momento em que a esquerda, pelas mãos de Alegre, e com um sorriso atrapalhado do Bloco (que não sabe muito bem onde isto vai dar), vem empurrando Sócrates para o centro.

Mas a verdade é que o PSD, enquanto partido que quer manter-se social democrata, pouco mais pode fazer quanto a isso do que tentar fazer passar a ideia de que o PSD é, naquela área em que se move o PS, mais competente, mais audaz e mais reformista. É coisa pouca e que não cheira a verdadeira alternativa.

O PSD sofre neste momento as vicissitudes de ser, enquanto social democrata, um partido a mais no sistema partidário. Esta originalidade portuguesa, de ter dois partidos sociais democratas a ocupar 70% do eleitorado, não poderia, nem poderá, durar muito tempo.

E se é certo que qualquer um dos dois partidos poderia estar a sofrer este fenómeno de erosão, a verdade é que, desses dois, apenas o PSD o está a sofrer, e a olhos vistos. Veja-se que se José Sócrates vencer, com ou sem maioria absoluta, e se mantiver no poder durante a próxima legislatura, teremos que o PSD governou, de 1995 a 2013, apenas dois anos e meio. Ou seja, em 18 anos, apenas 2,5 poderão ser associados ao PSD.

Esta erosão do PSD é, por isso inevitável, ajudada pelo facto de, lá dentro, credíveis e não credíveis não saberem muito bem por onde deve ir o partido, e com quem. O que é natural, quando se tem o PS à perna, a ocupar o discurso que o PSD sente como seu.

Fenómeno semelhante, aliás, embora noutra escala, sofreu o CDS de Lucas Pires (e depois, de Adriano) com o PSD de Cavaco. Ao PSD do Bloco Central de Mota Pinto, seguiu-se um PSD reformista de Cavaco que ocupou todo o discurso do então CDS e que, em poucos anos, ficou reduzido a quase nada.

A ver se percebo

Manuela Ferreira Leite foi eleita em nome e por uma credibilidade que alegadamente abandonara o partido com Santana Lopes e com ela levara uma boa fatia do eleitorado tradicional do PSD.

E Manuela Ferreira Leite vem agora, supõe-se que igualmente em nome da credibilidade, que não é coisa para se ter num dia e deixar de ter noutro e voltar a ter noutro, apoiar o nome de Santana Lopes para a presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

Das duas uma: ou Ferreira Leite não é, nem nunca foi, credível, uma vez que, como há muito se sabe, os credíveis não podem, sequer por um segundo, apoiar Santana Lopes (e logo uma comissão política inteira e sem excepções) ou, afinal de contas, Santana Lopes não é, bem nunca foi, o desvairado que foi mitificado pelos credíveis (se os há) do PSD.

Em qualquer um dos casos, Pedro Santana Lopes não só ganhou uma legitimidade que há muito lhe era negada como igualmente pode deixar correr aquilo que, para muitos, é visto como uma evidência: afinal de contas, Santana Lopes foi retirado do PSD por recurso a falsos pretextos, tendo sido impedido, uma vez mais, de cumprir o seu projecto para Portugal.

terça-feira, dezembro 16, 2008

A queda de um mito

O PS vai ter que fazer alguma coisa a Manuel Alegre. Aliás, já se nota a mudança de postura dos socialistas, como pode ver-se pelas recentes intervenções de Augusto Santos Silva.

O problema dos socialistas é que, não querendo forçar a expulsão de Alegre, ver-se-ão obrigados a contar a verdade que há muito os socialistas conhecem: Alegre é um mito e os portugueses pouco ou nada lhe devem que não devam a milhares de outras pessoas.

Acontece que desfazer o mito de Alegre significa, igualmente, escancarar a velha tradição socialista de criar mitos assentes em coisa nenhuma. Tradição essa que, desde o começo da revolução, teve por objectivo fazer confundir o PS com a legitimidade democrática e, nessa confusão, gerar um sentimento de eterna dívida nos portugueses.

E é isso que explica que, como dizia a Maria Velho da Costa (e não a Agustina - pelo menos foi o que lhe ouvi numa deliciosa entrevista à TSF), o melhor de todos os poetas medianos tenha sido elevado a reserva da nação, em conjunto com tantos outros socialistas de quem pouco se sabe, com excepção de que foram combatentes pelo regime democrático. Aliás, é nessa sua condição de combatente que Manuel Alegre tantas vezes se apresenta. Ele convoca constantemente esse passado precisamente porque, no PS, é essa a tradição ensinada.

Vejamos pois como vai o PS desfazer o mito de Alegre sem chamar a atenção para o embuste criado, durante décadas, que fez do PS, e apenas do PS, a consciência e reserva política da nação.

Grécia: it’s not all about the economy, stupid*

Alguma esquerda nacional anda entusiasmadíssima com os distúrbios na Grécia, o que se compreende bem. Portugal nunca assistiu a nenhum Maio de 68 e, já se sabe, qualquer pretexto é bom para, em segredo, desejar que os distúrbios cá cheguem e, com sorte, uma nova ordem social seja criada.

Acontece que a realidade é o que é, não serve para ser moldada ao gosto dos recalcamentos de quem nunca queimou um autocarro ou atirou sapatos à cara de um presidente. Assim como o Maio de 68 não foi aquilo que muitos imaginam ter sido, também os distúrbios na Grécia estão mais relacionados com a forma como o país não logrou integrar-se plenamente no caldo ocidental da União Europeia e com a forma como se foi forjando um Estado clientelar sem legitimidade política de relevo.

Sobre este assunto, e para arrefecer a cabeça dos que já coleccionam granadas e se vêem a liderar a tomada do Terreiro do Paço, vale a pena ler o excelente texto de Brendan O’Neill, Greece: it’s not all about the economy, stupid:

More fundamentally, however, the riots have exposed a state with a longstanding and severe crisis of political legitimacy, which has parallels but also striking differences with the crises being suffered in capitals across Western Europe. This is not a revival of left politics in Europe (as evidenced by the fact that the now-unbanned Greek Communist Party this week denounced ‘the blind violence of the hooded people’) or merely a protest against ‘neoliberal’ bank bailouts: it is better seen as a spontaneous outburst of petit-bourgeois dissatisfaction and alienation, in a state where, for historical reasons, the language and confrontationalism of left-wing politics survives.

* também publicado aqui.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

PS

A conveniência da antecipação das eleições legislativas aumenta a cada dia que passa.

Ditaduras boas e ditaduras más

A propósito da situação na Grécia, Manuel Alegre reiterou a necessidade de se encontrar uma resposta de esquerda, sobretudo porque é nestas alturas que, segundo ele, surgem as ditaduras. Foi aliás em tempos como estes que, de acordo com Alegre, surgiram e triunfaram o nazismo e o fascismo. Mas na altura, disse Alegre, ainda havia respostas de esquerda, como a União Sovietica. Hoje, lamentou-se, há carência de respostas de esquerda.

Assim, sem mais nem menos.

Um questão de tempo

Tenho defendido a ideia de que o PSD e o CDS, tal qual os conhecemos, não vão durar mais do que uma década. É notório que o nosso sistema partidário, sobrelotado ao centro social democrata, caminha para um reacerto.

Até agora, as pressões para esse reacerto tinham vindo do interior do PSD, em que facções e sensibilidades se abeiram da incompatibilidade total e favorecem a separação de algumas águas. Mas as pressões vêm agora também da esquerda, pelas mãos de Manuel Alegre, que ao falar da criação de uma alternativa partidária de esquerda, encosta o PS ao centro.

PS e PSD estão de facto condenados pela sua semelhança. O Bloco Central, que sempre existiu de facto, está mais perto de ser uma realidade partidária. É apenas uma questão de tempo. E tudo pode começar por um governo de urgência e de salvação nacional.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Pedido do Dia

Alguém me envia cópia de Comunicado do Sindicato dos Jornalistas acerca da política editorial censória da Agência Lusa, admitida pelo seu Director na entrevista ao Expresso? Obrigado.

Perguntas do Dia

Há uma paralisação dos trabalhadores da recolha de lixo e limpeza urbana da Câmara de Lisboa, que parece ter tido uma adesão acima dos 90 por cento. Os motivos da greve, de acordo com o Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa, prendem-se com a alegada vontade de António Costa a privatizar o sector de recolha de lixo e higiene urbana em Lisboa. Só isto. Nada mais. Sem mas nem porquê.

Mas já agora, e que mal pergunte, o Sindicato tem algum dado que permita avaliar se a tal privatização vai prejudicar a recolha de lixo e a higiene urbana em Lisboa? Se vai aumentar ou diminuir a eficiência da coisa? Se vai prejudicar, e de que forma, e com que valores, as carreiras dos trabalhadores em questão?

Um questão de competência (2)

Em poucas horas, como se nada fosse, o Governador do Banco de Portugal muda relevantemente de opinião acerca do estado da nossa economia e sobre as suas perspectivas de futuro.

Sempre tão certeiro, quase ao cêntimo, para escancarar os alegados pecadilhos da economia nos tempos de Santana, Constâncio parece agora perdido em números que não domina e termos que receia.

O país está, afinal de contas, e como as sucessivas versões do Governo já o indiciam, em recessão técnica. E Constâncio, que de manhã havia asseverado o contrário, foi forçado a desmentir-se durante a tarde. É este o nosso Governador do Banco de Portugal. É este o nosso regulador.

Como é que um homem que nem sequer fareja uma recessão ou uma crise em tempos de governo socialista (como se sabe, noutros tempos, a coisa foi bem diferente) pode manter-se naquele lugar por mais tempo?

quarta-feira, dezembro 10, 2008

A primeira candidata

Não estou entre os que se identificam com o MEP. Corrijo, não estou entre aqueles que sentem necessidade de mais um movimento político assente no personalismo humanista, motivado pelo centrismo, onde PSD e CDS (e, em menor grau, o PS) se basearam para forjar os seus programas políticos.

Não estou entre aqueles que se identificam com a Laurinda Alves. Corrijo, não estou entre aqueles que se identificam com a escrita e com a intervenção da Laurinda Alves. Nem tem só que ver com o conteúdo, muitas vezes nem é isso, mas talvez com a abordagem da realidade e com as referências que emprega.

Mas uma e outra coisa não me impedem de ver como muito positiva quer a estratégia do MEP, ao convidar a Laurinda Alves para cabeça de lista para as eleições europeias, quer a bravura da Laurinda Alves, ao aceitar o desafio de cruzar a linha.

É que não é fácil querer fazer política em Portugal. E haver um partido que consegue trazer para a política pessoas como a Laurinda Alves só pode ser uma boa notícia. São presenças que qualificam a discussão e o debate político, que impõem (ou espera-se que imponham) novos registos e novas prioridades.

Não estou certo que o MEP possa fazer um caminho no actual sistema. Como tenho dito várias vezes, uma reorganização do eleitorado à direita (mesmo que se diga ou se goste de dizer centrista) só será possível após a transformação (por renovação, desagregação, implosão ou cisão) do PSD e, com ela, do CDS. Mas se houver um caminho, ele será seguramente por aqui.

Momento Intimista do Dia*

Há quem goste de se passear impunemente, sempre pronto a reclamar a cristã segunda oportunidade. E se é certo que não devemos desistir das pessoas, até por caridade, não menos certo é que esse trabalho de caridade se deve fazer com inteligência.

Não se salva um alcoólico com a gota de álcool. Não se salva um preguiçoso com a ausência de encargos. Não se salva um mentiroso com a complacência. Não se salva um intriguista com a credulidade. Não se salva um perito em vitimização com a ingenuidade.

Em qualquer um destes casos, a segunda oportunidade, e a terceira e a quarta e todas as que a nossa consciência ditar, deve insistir na salvação e não na impunidade. A segunda oportunidade reclama virtude, umas vezes dotada de punição outras de absolvição. Mas uma virtude inteligente, criativa. Que faça de nós um agente da salvação e não da perdição.

* já há uns bons meses que isto não aparecia...

Amanhã


copy/paste

síndrome de Lino (também conhecido como esquizofrenia) por Rui Castro no Nem Tanto ao Mar...

Notícia de hoje, às 15:14:
O governador do Banco de Portugal disse hoje que a economia portuguesa não se encontra em recessão técnica
Notícia de hoje, às 16:36:
No terceiro trimestre tivémos um crescimento negativo. É possível que no quarto trimestre [Portugal] também tenha um crescimento negativo", disse Constâncio aos jornalistas, à saída de um almoço da Câmara do Comércio e Indústria Luso-Espanhola. "Do ponto de vista técnico significa uma recessão" (...), acrescentou o governador do Banco de Portugal

.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Ai se isto fosse nos tempos do Santana (2)

Foi um sururu quando Morais Sarmento se lembrou de centralizar formalmente a política de comunicação do Governo. Uma simples medida de gestão foi transformada numa medida de censura e a classe revoltou-se como se estivesse em causa a liberdade de expressão, a liberdade de edição e a liberdade de empresa.

Hoje são poucas as vozes que se levantam contra as manobras várias de um Governo que não sabe governar sem uma comunicação social favorável. A entrevista de Luis Miguel Viana ao Expresso confirma um espírito censório, alimentado pelo Governo, que não se fica nem pelo rumor nem pela aparência, está dito e confirmado. Existe e actua e limita e restringe.

A coisa vai a tal ponto que uma estagnação associada a um mísero crescimento de 0,1% foi candidamente transformada em expansão económica. Estamos a falar de propaganda, estamos a falar de mentira, estamos a falar de embuste.

Estamos a falar da instrumentalização da Lusa. Sobre isto, o silêncio. Como se a liberdade de expressão só existisse para poder confortar uma oposição a governos não socialistas.

Ai se isto fosse nos tempos do Santana

Luis Miguel Viana, Director de Informação da Lusa, em entrevista ao Expresso, com destaques meus.

E como explica que não se use "estagnação" numa notícia sobre o crescimento económico português ser de 0,1%? Não é isto excesso de zelo?
Não! Neste a editora tomou a opção editorial que considerou mais objectiva. Gerou-se uma discussão normal nas redacções acerca disto. Foi uma discussão aberta e editorial. E a editora decidiu, no exercício das suas funções. Claro que ninguém discute que ambas as opções estariam correctas. Mas a editora considerou ser mais correcto falar em "crescimento 0,1%", por ser mais factual, mais objectivo.

Concorda?
Seriam as duas correctas. Mas acho que "cresce 0,1 %" é inatacável.

O lead prossegue dizendo que há uma expansão económica de 0,1%. Não é factual!
Poderia ter sido outro termo...

O custo da irrelevância

Uma consulta pelo que se faz na Assembleia da República durante uma legislatura permite logo concluir que a coisa não passa da irrelevância. Não é que não haja trabalho, que há. Não é não haja qualidade, que até se consegue encontrar aqui e ali, e de forma transversal. O que dali não sai é qualquer coisa que releve, e não só por culpa dos deputados e não só por culpa do sistema eleitoral.

A nossa arquitectura constitucional e a nossa tradição política desvalorizam o papel do parlamentar. O Parlamento legisla pouco, a Oposição tem poucos direitos, os deputados pouco ou nada fiscalizam.

É natural, por isso, que os próprios deputados sintam que tanto lhes faz estar como não estar. Assim como é natural que uns quantos se não deixem seduzir pela causa pública. Se querem deputados presentes, reforcem os poderes parlamentares. Até lá, a coisa fica como está, com ou sem multas ou sanções.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Dasex do dariz

No programa Descubra as Diferenças da Rádio Europa, com a moderação de Antonieta Lopes da Costa e André Abrantes Amaral, vou estar com o Bruno Alves a analisar alguns dos principais temas da actualidade:

O Congresso do PCP. O Partido Comunista Português mantém-se igual ao que era em 1989, tanto doutrinária como eleitoralmente. Contra tudo e contra todos, o PCP parece resistir, conseguindo mesmo projecções muito satisfatórias nas várias sondagens que vão sendo publicadas. Será esta longevidade resultado da mestria política dos líderes comunistas ou de um espírito português demasiado conservador?

Guerra Civil no PSD. Depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter dado a entender que o PSD, com Manuela Ferreira Leite, não terá um bom resultado eleitoral nas próximas legislativas, a Distrital de Braga criticou a actual direcção laranja e pediu a convocação de um congresso extraordinário para escolha de uma nova liderança. Será que o PSD dá a volta por cima em 2009, ou Sócrates tem o caminho facilitado para uma vitória folgada em Outubro?

Cimeira União Europeia-Rússia. Na cidade de Nice, a Rússia propôs um acordo de segurança entre as duas partes, aparentemente bem acolhido pelo presidente Sarkozy. Será este um sinal de amizade euro-russa, ou um presente envenenado do Kremlin?

Retirada das tropas norte-americanas do Iraque. Ainda antes da chegada de Barack Obama à Casa Branca, o parlamento iraquiano aprovou, por ampla maioria, a retirada das tropas americanas até 2011. O ainda presidente George W. Bush felicitou a decisão dos deputados iraquianos, enquanto Robert Gates se vai manter como secretário da defesa na administração Obama. A transição do poder prevê-se mais fácil e pacífica do que se esperava? Ou as surpresas ainda estão para vir?

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Estatuto dos Açores

Veremos agora se o que serviu para interromper as férias do país serve também para interromper alguma outra coisa mais ou se, afinal de contas, tudo não passou de um fait divers.

terça-feira, dezembro 02, 2008

O resistente

O aparecimento do Bloco de Esquerda ofereceu-nos a ilusão de uma esquerda folclórica e quase nos fez esquecer que a esquerda que gosta dos extremos aprecia o conservadorismo, a sobriedade e a estabilidade . É por isso que o PCP não desaparece, antes cresce. E é por isso que o Bloco cresce, não à custa do PCP, mas à custa do PS, que compensa essas perdas ao centro.

Daí que o capital de crescimento do Bloco seja bem menor do que aquilo que se apregoa. Capital esse que não crescerá enquanto o Bloco andar entretido no folclore, dando mostras de que apenas consegue ser parte dos problemas, nunca das soluções.

Ao contrário do PCP, que apareceu nas televisões, depois de semanas de manifestações bem conseguidas e orquestradas, com uma força - que não pode ser negada - assente na firmeza, na segurança e na solidez das suas convicções.

Em tempo de crise, essa força é o meu maior activo eleitoral. Os eleitores da esquerda que desconfia do centro tenderão a votar no partido que lhes oferece maiores possibilidades de resistir às investidas do bloco central e que mais tenacidade parece apresentar na defesa dos que menos têm e mais precisam.

O albergue

Um partido de poder só consegue sobreviver quando os seus dirigentes respeitam institucionalmente o partido, de tal sorte que respeitam os mandatos estatutariamente alcançados.

Não quer isto dizer que as várias tendências não procurem, de um lado e do outro, ganhar posição e condicionar a estratégia das várias direcções. Quer apenas dizer que essa caminhada se faz de uma forma que não coloca em causa a instituição partidária.

Acontece que, no PSD, as coisas já fugiram do controlo e há muito que o respeito institucional pelo partido se foi. E, curiosamente, foi em nome desse respeito que os mais institucionalistas iniciaram uma cruzada contra o seu próprio partido, então liderado por Santana Lopes. Foi o princípio do fim.

Em primeiro lugar, porque deu a entender que, no PSD, uma boa fatia de dirigentes considerava que uma outra boa fatia era indigna de liderar o partido, de tal forma que tudo se justificava para os impedir de exercer o poder e de, nesse exercício, denegrir o partido.

Em segundo lugar, porque ofereceu um pretexto para toda e qualquer oposição se sentir no direito de, em nome do PSD, do verdadeiro PSD, iniciar uma guerra contra a direcção vigente capaz de comprometer o próprio partido.

E em terceiro lugar, porque se perdeu o respeito mútuo. O capital de queixa de uns face a outros é hoje impossível de ignorar ou de esquecer.

Quanto tempo mais conseguirão manter-se unidos em nome do PSD?