Dívida pública para totós de Miguel Botelho Moniz n'
O Insurgente:
Um pouco por toda a imprensa e comunicação social, sempre que o estado português coloca dívida pública nos mercados, através de leilões, é costume ouvir referências ao facto de que a procura ultrapassou “várias vezes” a oferta.
O facto da “procura” (definida como o somatório das licitações) ter sido superior à oferta, não significa que houvesse interessados em comprar títulos à conseguida taxa T. Todas as licitações não satisfeitas eram ofertas com preço mais baixo pelos títulos oferecidos. Os potenciais compradores apenas estariam interessados em adquirir títulos com yields superiores ... ao valor de yield mais alto de entre todas as licitações satisfeitas.
Por outras palavras, pelo processo competitivo do leilão, os potenciais compradores são levados a oferecer o preço mais alto (valor de
yield mais baixo) que admitem suportar para o
risco dos títulos de dívida em questão.
O mercado — a procura — não pode oferecer mais. Para que a procura igualasse à oferta, teria de ser a oferta — o Estado — a adaptar-se. Vendendo
mais dívida, e a preços mais baixos, ou seja, valores de
yield mais altos.
Ora, é politicamente incomportável apresentar valores de
yield altos, porque o
yield denota o risco da dívida. Por vezes, até acontece que os Governos decidem vender
menos dívida do que originalmente se propunham, só aos preços mais altos, obtendo
yields menores. Os Governos no fundo esperam que os mercados acreditem que o risco da dívida não é preocupante, e chutam o problema para a frente, o que obviamente só agrava o problema.
Seja vendida toda a dívida colocada a leilão, ou não, começa sempre a propaganda governamental. Os
fazedores de opinião tentam virar o bico ao prego: se houve muita procura insatisfeita — o que quer dizer que a larga maioria dos investidores nem sonha pagar mais do o preço pedido pelo Governo — isso só "prova" que a dívida é extremamente popular. É o mundo de fantasia da política.