Há muita coisa desconcertante na reacção das pessoas à crise. Para começar, claro, ainda estarem em fase de 'denial' para o facto da crise ser consequência de tantas décadas de socialismo light - não da má gestão da coisa pública, mas da própria ideia que é possível ter tudo desde que haja vontade política. É bem prova da resistência das ideias à crua realidade... da realidade.
E das muitas coisas pequenas (tanto em importância como em dignidade), está uma aversão visceral aos "modelos de excel" do Governo. Como se fosse possível governar seja o que for de Finanças públicas sem modelos matemáticos, necessariamente elaborados, necessariamente altamente falíveis.
Claro que a aversão é às medidas do Governo -- mas é elucidativa
-- primeiro da falta de cultura política dos portugueses em geral (e media, etc) (se não gostam das políticas, digam-no objectivamente sem rodriguinhos)
-- segundo da falta de cultura económica/financeira da população (como se alguém tivesse fé cega em modelos matemáticos)
-- e (digo eu) de falta de cultura de disciplina de pensamento e de acção. Como se coisas sérias não exigissem pelo menos o esforço de sistematização - de tal forma que esse esforço seja o primeiro alvo para axincalhamento.
Não é que as pessoas não façam contas, e têm de as fazer na sua vida doméstica; mas é como se não "atingissem" que para unidades mais complexas (empresas, Estado), as contas são muito mais complicadas - e têm de ser feitas, com obsessivo rigor matemático - mesmo algo desligadas da realidade. E quando não são feitas, temos famílias sobre-endividadas, casos como o BPN, gestões socráticas. Mau pensamento gera maus resultados.
Não, não estou a defender o Ministro Gaspar, ou o Governo, ou políticas de "austeridade". Se é preciso alguma coisa, é mais informação - mais dados em bruto, e mais visibilidade sobre os modelos conceptuais e matemáticos que uns e outros utilizam. "Ninguém" sabe da receita do Estado, dos cortes da despesa... e das contas da oposição. É tudo intenções, e gráficos patetas para abanar no Prós e Prós. E se há modelos que são privados (por exemplo aqueles que alguns empresários usaram para opor-se à TSU) e ninguém diz que tenham de ser mostrados, também não há cultura de think-tanks que produzam e processem informação. É toda uma sociedade com aversão a dados e pensamentos auditáveis.
E lá está, muito se pode criticar aos "tecnocratas". Discuta-se a sua alegada falta de "sensibilidade social" seja lá o que isso seja -- por exemplo eu defino tal "falta" como meter políticos e burocratas a gerir a vida das pessoas, e a "orientar" a Economia, e a mergulhar o país na bancarrota fiscal e moral. Mas discuta-se. E discuta-se informação numérica. A maior parte da malta não consegue, tragicamente para o país. Pelo menos que não alinhe com o grupo que prefere atirar bosta para cima do que não gosta.
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