sábado, outubro 20, 2012

Rant Liberal do Dia

Outro passatempo intelectual nacional é a crença em receitas. Por causa de uma determinada situação, estabelecem-se uns determinados procedimentos. Depressa as razões são esquecidas, e os procedimentos são tidos como mandamentos do Jardim do Éden - quem os cumprir terá direito ao Paraíso na terra, quem os quebrar será condenado à Danação Eterna. Um pouco como as línhas contínuas no meio da rua, e os polícias que dizem "é como se fosse uma parede!". Mas basta de divagações...

Quando aderiu ao euro, o Estado Português teve de cumprir as regras de convergência de Maastricht, e comprometer-se ao Pacto de Estabilidade. Estas regras prescrevem (prescreviam? já nem sei como isto está) limites para o défice público, e para a dívida pública - e muito mais coisa. Independentemente da justeza dos valores, e das regras, a "razão de ser" destes procedimentos é serem avisos -- para quando as contas públicas estão a entrar em território perigoso.

O tuga, claro, borrifou-se. As regras, afinal, são para não serem cumpridas. E os Alemães e os Franceses -- que também incumpriram, e que até achávamos que eram "dos nossos" --, vêm agora todos finos mandar vir com o pessoal. Claro que não a questão não é o incumprimento de umas regras arbitrárias definidas por uns economistas sem rosto - é "o pessoal" deste lado ter levado o país à bancarrota.

Isto faz lembrar aqueles jovenzinhos que vêem os mais velhos beberem como gente grande. E esses mais velhos até dizem "vê lá não exageres, nada mais do que três copos", e continuam a beber pinga da rija. E o jovenzinho alinha, apanha uma carraspana, e no dia acorda todo roto -- e vai queixar-se que esteve calado quando os outros também bebiam demais, mais do que aconselhavam aos outros, e mais não sei o quê...

Esta atitude de cumprimento de receitas por parte de um povo avesso à disciplina intelectual (mas com um certo namoro sado-masoquista por figuras autoritárias) pode ser encontrada noutros exemplos, em que se sacrifica a possibilidade de "pensar fora da caixa", com soluções imaginativas _e_ sérias, em nome do respeitinho às tais "linhas contínuas". Um caso é a crença que o modelo social europeu tem de ser. E a Constituição tem de ser. E o euro tem de ser. E que o pagamento das dívidas tem de ser. E que o memorando da Troika tem de ser. E que este orçamento tem de ser.

E quando as abordagens imaginativas e sérias são postas de parte, só nos restam os funcionários, artistas, e os senadores do tem-de-ser.

Sem comentários:

Enviar um comentário