sábado, dezembro 22, 2012

Especialistas

Finalmente arranjei coragem para ler a edição da Revista Ingenium (da Ordem dos Engenheiros) dedicada aos "Recursos Naturais". O interesse era uma entrevista à Ministra Cristas, e uma variedade de outros artigos subordinados ao tema.

Comecemos pela parte caridosa da minha opinião - apesar de eu não ir à bola com a ministra, talvez por ser o membro mais socialista do Governo, dou o benefício da dúvida. Não é de esperar que um político, ainda por cima da área do Direito, consiga sair-se bem numa publicação sobre assuntos de engenharia. Necessariamente o melhor que pode fazer é não fazer má figura. Basta um pouco de preparação. Mas Cristas começa logo a falar de "sequestro de carbono", e "o caminho é a eficiência" e outras coisas em bullshitês político sem tradução operacional, tantas baboseiras voluntariosas que acabam por afogar os lugares-comuns que se impunham. Mas talvez tenha sido da condução da entrevista.

O que me choca mesmo é o resto. Para quem não lê estas coisas -- e não recomendo a ninguém --, os engenheiros queixam-se muito que deviam ser mais "ouvidos" na construção de um país melhor. E não se coíbem de explicar à nação, muito pacientemente, que Portugal possui um manancial infindo de "recursos naturais" (cada especialista foca-se nos "recursos naturais" da sua tutela, claro). Ele é rios, mares, florestas, minérios, bicharadas grandes e pequenas, exposições solares, ventos, fontes geotérmicas, etc. E não faltam benchmarks muito bem escolhidinhos de como as coisas se fazem "lá fora".

Ora, que todas essas maravilhas que befejaram o nosso Portugal seja "recurso natural", nem vou discutir. Acontece que os ditos especialistas não resistem a palestrar sobre o imenso potencial económico que os tais "recursos naturais" representam. Ora, nem vale a pena apontar que muito especialista não faz ideia do que é gerir uma empresa ou unidade de negócio dos sectores extractores ou transformadores. Na sua maioria, são teóricos, e quanto muito bons gestores dos seus orçamentos de investigação. Mas enquanto teóricos deviam ao menos respeitar o conhecimento de disciplinas que não são as suas, e das quais não percebem nada, o que se vê. Dito de outra maneira, irrita muito aos engenheiros quando o leigo "sabe" mais de engenharia que o profissional, mas na hora de discorrerem sobre Economia e Gestão, ora já não vêem problema.

Fiquemos pela Economia. Nenhum "recurso natural" é um "recurso económico" até ser explorado. Até que outros recursos escassos (começando por inteligência humana) sejam aplicados na criação de bens e serviços que as pessoas valorizem. "Potencial económico" não existe, "oportunidades à espera de serem concretizadas" não existem. Esta questão é importante. Mas esta não é uma questão técnica - é uma questão económica, e infelizmente, política. Algo que não existe não apresenta nenhuma forma objectiva de ser prioritizada. Sei que muito se fala na "arte" da engenharia, mas entrar por estes campos é _mistificar_ algo que a Engenharia não é.

Cada especialista fala da imensa oportunidade que não se pode perder -- e pior -- invariavelmente defende que a sua especialidade seja elevada a prioridade nacional. Se só houvesse vontade política, seríamos todos os mais ricos do mundo. Ora, querer-se que seja o Estado a liderar dinâmicas que se querem de descoberta empresarial, é uma imensa baboseira. A questão só é política porque infelizmente o Estado interfere com tudo o que se mexe - e não é por ser uma questão política que deve ser o Estado a promover alocação económica - e exploração económica - de "recursos naturais". Contudo, é raro ver-se um especialista a defender tal princípio liberal - toda e qualquer ajudinha de políticos e burocratas é bem vinda.

E é assim com esta mistura de tecnocratismo e de "cargo cult" que se fazem as opiniões técnicas e económicas que influenciam a "governação" do país.

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