domingo, março 03, 2013

Que se lixe a lucidez

Que se lixe a lucidez por Alberto Gonçalves:
Não pretendo insinuar que os milhares de participantes nas manifestações de ontem partilham esta curiosa interpretação da democracia. Sucede que, ao participarem na folia, acabam por legitimar as alucinações dos respectivos mentores. E as alucinações são diversas.
Na verdade, dificilmente se pode dizer que pensem de todo. O "raciocínio", desculpem o exagero, é o seguinte: na ausência da troika, a austeridade termina e Portugal, na prática sem dinheiro para mandar cantar Stevie Wonder, fica teoricamente abonado e, enquanto diminui os impostos, volta a apostar no "investimento público", na "modernidade" e no "progresso social". Dito de outra maneira, recuse-se o crédito, diminua-se a receita e aumente-se a despesa, tese que para um leigo faz tanto sentido quanto doar uma prótese dentária a um cadáver decapitado ..

Ou se calhar não querem. Se quisessem, antes da troika teriam mandado lixar os sujeitos que tornaram a troika inevitável. Se quisessem, antes da austeridade marchariam contra o Estado cuja preservação obriga à austeridade. Se quisessem, antes de berrar lugares--comuns, reflectiriam no absurdo dos mesmos. O Governo é péssimo? Com certeza, porque assalta os cidadãos a fim de garantir o statu quo de que os cidadãos, pelo menos os que desfilam em protesto, não abdicam. Que, com os seus defeitos, interesses e ilusões, a troika insista em patrocinar semelhante manicómio não é um cataclismo: é um milagre. E, a prazo, provavelmente uma inutilidade.

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