domingo, abril 07, 2013

Desconstituição (3)

No seguimento de Desconstituição (2), A Constituição faz birra perante a realidade por Henrique Raposo:
A realidade é inconstitucional. É este o ar do tempo em Portugal: a realidade é inconstitucional, a crise é inconstitucional, a bancarrota é inconstitucional, mas o peso brutal das pensões e demais "direitos adquiridos" é constitucionalíssimo. Confesso que fico fascinado perante este processo mental: decreta-se que o efeito (a crise, a bancarrota, a necessidade de cortes) é inconstitucional ao mesmo tempo que se consagra a intocabilidade da causa (os tais "direitos adquiridos" de partes da população) .. Resultado final do miminho? Como é impossível tocar estruturalmente na despesa, o regime lança mais impostos sobre a sociedade que produz e que está lá fora, fora do espaço dos "direitos adquiridos".

E esta absurda injustiça é feita, repare-se na perversão, em nome da Constituição. Das duas, uma: ou a interpretação em voga da Constituição está errada, ou temos uma Constituição inconstitucional que não merece respeito.
O tribunal constitucional leva-me de volta à adolescência por Maria João Marques:
O país cansa-me .. e eu estou mesmo cansada de sustentar um estado que negligencia aquilo que devia privilegiar (a justiça, que é uma anedota de mau gosto, só para dar o exemplo mais flagrante) e esbanja os meus recursos para satisfazer as mais variadas clientelas a que se teima em dar protecção constitucional .. E além de cansada começo mesmo a ficar envergonhada. Sempre me ensinaram a ser de boas contas e embaraça-me partilhar o país com gente que insiste em ser sustentada por outra parte da população – a que vive do sector privado – a quem explora indecorosamente e pretende até aumentar o grau de exploração, mesmo quando a exploração já se traduz numa taxa de desemprego de quase 20%, em falências a molho e em perdas de rendimento das famílias que em tantos casos já constringem as despesas mais essenciais.

Sem comentários:

Enviar um comentário