terça-feira, junho 25, 2013

Amigos do alheio

Amigos do alheio por João César das Neves:
Uma das características mais bizarras do nosso tempo é a quantidade de pessoas que vive e dispõe do dinheiro dos outros. Aliás a comunicação social quase só trata disso. Do défice orçamental aos fundos da troika, das exigências de apoios e cortes, despesas e subsídios, esta crise é, no essencial, uma luta pelo dinheiro alheio.
É verdade que estas novas formas retiram muito do pejorativo da expressão tradicional "amigos do alheio". Hoje boa parte do gasto de dinheiro dos outros não constitui roubo. O funcionário público trabalha duro para receber o merecido ordenado, e o sector subsidiado tem razões para o ser. Apesar disso o facto de a verba vir de outrem traz sempre elementos perturbadores.
.. Numa escola pública, onde propinas e ordenados nada têm a ver com os valores do produto envolvido, pais e professores fazem exigências ao ministério que nunca se ouviriam em estabelecimentos cujas verbas disponíveis vêm do bolso dos alunos. Note-se a displicência com que ministros e autarcas se apropriam dos montantes orçamentados e fundos estruturais, que não lhes custam a ganhar. Um médico de um grande hospital, mesmo privado, receita exames e tratamentos que omitiria se ele ou o doente tivessem de pagar a conta. Em certos casos essa facilidade torna-se uma verdadeira toxidependência.

O aspecto mais curioso são as razões que levam pessoas honestas e bem intencionadas a despender com vigor o que não é seu. Elas nascem de duas perigosas armadilhas. A primeira é a convicção de que o dinheiro não faz falta aos donos. As pessoas fingem acreditar que as verbas públicas vêm de ricos, o que permite, sem peso na consciência, exigir mais apoios, subsídios, estradas e despesas. Isso apesar da evidência de, mesmo que os milionários pagassem o que devem, seriam largamente insuficientes para metade do PIB. O outro engano é achar que, se eu não o gastar, outro departamento o vai desperdiçar, o que equivale ao mesmo: o dinheiro não faz falta aos outros. Em qualquer caso, só pode ser patética uma época que tanto abusa do dinheiro alheio.

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