sábado, novembro 09, 2013

do progressismo estatista "liberal"

O que Ulrich aqui diz foi bem recebido pelos portugueses em Angola. E, aparentemente, imediatamente vilipendiado pelos progressistas de serviço.

Ouve-se frequentemente que as "elites" portuguesas têm espírito miserabilista por não se comportarem com "dignidade". Para já, endereçando o "begging the question", é patético classificar de "elite" muitos dos protagonistas envolvidos em influenciar ou conduzir a política económica internacional do estado português.

Para já, quem está envolvido na política dificilmente pode ser classificado com "elite". Dificilmente se encontra ocupação menos edificante do que ser político, burocrata, "estadista" -- ou intelectual engajado com assuntos de Estado e com os seus chafurdentos meandros. É uma concepção peculiar de "elite" - não aqueles que por mérito de vida são reconhecidos pela sua autoridade natural, mas aqueles associados com as pequeninas politiquices do poder político.

O "mercado" das verdadeiras elites portuguesas não é o "rectângulo". É um todo um mundo bem diferente de Portugal. Hoje em dia, sobretudo com a crise instalada, e não obstante o imenso talento enraizado no país, quem é verdadeira elite tem oportunidades por todo o mundo, e muita verdadeira elite agarrou-as com ambas as mãos. Aqueles que ainda em Portugal são verdadeira elite identificam-se mais com a garra dos portugueses que se fizeram à vida, do que com aqueles cuja ambição é ter olho em terra de cegos.

Os portugueses em Angola olham para Portugal com saudades de casa, alguns com saudades da pátria (seja lá o que isso é), e com um profundo desprezo pelo Estado Português. A vaga de emigração potenciada pela crise social-democrata doméstica deu origem a uma gente que mantém "ideologicamente" posições políticas espalhadas por todo o espectro. Mas que na prática, são liberais.

Esta é gente que aprendeu como se ganha a bandeira. Não esperam ganhar do Estado Português subsídios, "educação", reforma, "saúde", "igualdade de oportunidades", e tal. Embora vão a casa, paguem impostos de consumo, enviem remessas importantes para a economia nacional. São portugueses, e têm passaporte da República Portuguesa, mas vivem em estado de Anarquia relativamente ao Estado Português.

O que esperam sim, do Estado Português, é que esta instituição de políticos e burocratas, que se arroga representá-los, não lhes lixe a vida. Em Angola foram bem recebidos, respeitam uma cultura política diferente daquela de onde vieram, e exigem não serem envergonhados. Porque, para mal dos nossos pecados, persiste na cabeça das pessoas a ideia colectivista que a gentalha política tem legitimidade de representação sobre gerações passadas, presentes e futuras.

É admirável [sarcasmo] que os defensores da diplomacia, e do suposto "Estado de Direito" português, sejam os primeiros a emitir vociferadamente sentenças sumárias sobre o que acontece em países estrangeiros. A estes senhores da boa educação entre os Estados escapa claramente que embora as opiniões sejam livres, é um preceito de bom tom não atirar pedras para a casa do vizinho. Não se meter onde não se é chamado não cabe na cabeça de socialistas.

Os progressistas da democracia liberal, seja lá o que isso é, parecem entender que o Estado é uma entidade moral, que tem de ter auto-estima, e posições declamadamente "muito sérias" - mesmo que não passe de uma organização de faz-de-conta, que exerce muito poder indevido, povoada por gente que apenas "age" governamentalmente. E eleições, e outros rituais tribais que racionalizam o aparato. Apesar do Estado não ser uma pessoa, é "Pessoa de Bem".

Apesar de um sistema jurídico e de Justiça com resultados terceiro-mundista, é "Estado de Direito" -- porque a teoria diz que sim. E raciocinam como se a dita "instituição" fosse "moral", apesar do seu comportamento parasítico estrutural sobre a sociedadee sobre a economia, e apesar de ser directamente responsável pela supressão do desenvolvimento moral e esconómico de várias gerações. Ou que devesse ser moral, apesar de estruturalmente basear-se em tudo o que não é.

Que outros Estados padeçam de outras patologias estatistas, é um truísmo. Mas para passar julgamento moral sobre a vida dos outros há que não ter "double standards" relativamente à sua própria vida.

Sob o pretexto de "não ceder a relativismos", estes wilsonianos "liberais" defendem que Estado português atropele a dignidade de indivíduos "seus" cidadãos que vivem no estrangeiro. Em vez de defenderem que o Estado português se dê ao respeito, reservando opiniões fortes para dentro de quatro paredes, defendem que é legítimo partir para o insulto, "porque é apenas verdade". Suave. E defendem que é um imperativo moral evangelizar outros povos sobre as maravilhas da democracia "liberal". É um fardo do homem branco, mas tem de ser.

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